O Romance de um Homem Rico by Camilo Castelo Branco

BIBLIOTHECA ELYSIO

CAMILLO CASTELLO BRANCO

(Visconde de Corrêa Botelho)

O ROMANCE DE UM HOMEM RICO

TERCEIRA EDIÇÃO

COM UM PROLOGO DE

THOMAZ RIBEIRO

…. Connaitre la valeur de l’argent
et le sacrifier toujours, soit au devoir,
soit même à la délicatesse, c’est une
vertu réelle.

SENANCOURT (Rêveries).

PORTO

LIVRARIA ELYSIO

DE JOAQUIM ELYSIO GONÇALVES—EDITOR

282, Rua Formosa—R. Sta. Catharina, 198
1890

INDICE

PROLOGO DA TERCEIRA EDIÇÃO
PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO
INTRODUCÇÃO
CONCLUSÃO


PROLOGO DA TERCEIRA EDIÇÃO

«—Este foi o mais querido dos meus romances»

C. Castello Branco, Prefacio da
2a. edição do Romance d’um homem
rico.

Quando Camillo Castello Branco escrevia no seu livro dilecto esta sentença:—«O homem não acha em si os alivios da razão quando os vicios lh’a degeneram», estava julgando a sua propria alma no tribunal austero da consciencia.

Não vejam n’isto censura, os melindrosos por conta alheia.

O romancista, se não é um armador de encommendas, um preparador de effeitos, um pintador de scenarios, um arranjador de visualidades, se sente como escreve, ao menos quando escreve, encarnando-se nos seus personagens, reconhecendo em si as paixões que lhes reconheceu ou que lhes attribuiu, se com elles ama, odeia, chora ou blasphema, faz como o sabio, o martyr da medicina, que, para se convencer e para não falsear a sciencia que professa, muita vez se envenena ou se dilacera.

Camillo era aqui o pensador, o philosopho, o analysador frio do seu excepcional espirito, ora embaciado, a ponto de não vêr distinctamente o objectivo da sua cogitação, ora transparente e brilhante, a dar-lhe lucida a verdade, fôsse onde fôsse o esconderijo d’ella, fôsse qual fôsse a distancia em que demorasse.

Se o romancismo é mester, o escriptor é artifice; se é arte, se é acto impulsivo, o romancista é poeta.

Quando Camillo Castello Branco escrevia no seu romance mais querido:—«Não sei que haja ahi outros incentivos que me chamem aos olhos as lagrimas do coração. Quem me quizer vêr chorar e vibrar de não sei que vehemente e religioso enthusiasmo, conte-me cazos da natureza d’aquelles: faça-me acreditar na existencia d’umas almas que vão entender-se com Deus por um raio esplendoroso da graça divina», declarava-se não mesteiral mas poeta, e denunciava o genero da sua poesia.

E como quem diz:—o symptoma da sua doença.

Pois não têem sido apodados de—loucos—os poetas? Se loucura é a desconformidade de actos ou de sentimentos com as regras da fria, pautadas e articuladas no codigo do senso-commum, vamos, que não têem os poetas muito de que se molestem no conceito da grande maioria dos seus contemporaneos; e mesmo da dos vindouros, os que deixam de si algum rasto de fatua phosphorescencia na travessia longa ou curta da sua derrota.

Loucura lucida, mas loucura incontestavel; loucura impulsiva e incuravel, nem sempre sem perigo para a sociedade, que os applaude e os escarnece, conforme a altura em que lhe vai a digestão.

A loucura de Tasso denunciada em vida, a de Petrarca reconhecida agora, a de Camões sentida sempre, então e hoje, a de Chatterton que se mata, a de Dante que se vinga, a de Victor Hugo que se contorce e conspira, a de Homero que mendiga e canta, a de Jeremias que prophetisa e chora, loucuras foram; por mais que os poetas d’hoje queiram malsinar aquelles homens de ajuizados, na propria defeza, estulta, egoista e cobarde.

Produziram prodigios, mas o prodigio é producto abortivo ou monstruoso; não cabe nas leis da normalidade.

Alguns têem conseguido furtar ao theatro anatomico da critica os vestigios do corpo de delicto; é certo. Virgilio, por exemplo, e Horacio, que se constituiram rouxinóes de Mecenas e de Augustos, poetas cezareos,—os Metastasios do imperio, um, inventando genealogias realengas:

«Mecenas atavis œdite regibus»

outro, cantando apotheoses divinas:

«Deus nobis hœc otia fecit.»

Era o utilitarismo, já então moderando a loucura do genio e segredando lhe estrophes accommodaticias.

Desde sempre, e felizmente, andou o são juizo a enxertasse no genio. Raras vezes pegou a enxertia; é certo.

O genio não é só o demonio incubo dos poetas, e demonio recalcitrante ao exorcismo; torna-se n’elles mais patente, porque, sob aquella forma, estrondeia, sem perigo de morte, e luz, sem perigo de incendio; ao menos—apparente. O genio expõe o sabio de qualquer genero a todos os perigos;—Archimedes deixa-se matar para não interromper a resolução d’um problema; Galileu ouza affrontar as lettras sagradas e só consegue apagar a fogueira d’um auto de fé por um acto de fé, ou de prudencia; Giordano Bruno é queimado deante do Vaticano, exactamente onde hoje se lhe levantou um monumento; Pasteur escapou da fogueira porque já nasceu no bom tempo, mas inoculando em si o virus-rabico expôz-se a morrer da peior das mortes; Daniel Carrion inocula o sangue da verruga persiana para vêr se era violenta a doença, e morre da experiencia; Parkinson inocula o lupus, expondo-se,—heroe sem hymnos!—á morte, pela humanidade; outro aproxima-se d’uma cratéra para devassar os segredos da erupção vulcanica.

Quantos insensatos!

Se depois da loucura da sciencia quizer alguem percorrer a da religião,—S. Macario, S. Simeão Stylita, Santo Antonio, as allucinações dos extasis em que se vê Deus e os ceos, o genio das prophecias, a inspiração dos apostolos, a coragem alegre dos martyres, que exuberancias de loucura, que degenerescencias pathologicas, provadissimas, incontestaveis, não está patenteando a sciencia nos estudos da sua extensissima symptomatologia?

E os impulsos irresistiveis que a honra e a gloria inspiram!…

A gloria! a honra…, mas que são honra e gloria? São tambem uns sentimentos, umas aspirações, uns sonhos, umas loucuras, umas desconformidades com as regras da fria razão, pautadas e articuladas no codigo do senso-commum. Produzem as monstruosidades de Alexandre no Oriente, dos trezentos nas Thermopylas, dos Gracchos em Roma, de Antonio em Philippes, de Henrique IV, de Crillon, da virgem de Orleans, em França; de Bonaparte na Italia, do Infante-Sancto em Fez, de Saldanha no Porto e em Montevideu, de Bartholomeu Dias, de Vasco da Gama e de Colombo, nos descobrimentos dos mundos, de Albuquerques e Almeidas nas suas conquistas, de Xavier no apostolado.—Deus, familia e patria!—O que estes motes produziram de loucuras!

E o amor… e a caridade! Quantos perigos, quantas abnegações, quantos desvios da razão e do senso-commum não produziram e não produzem! d’esses que espantam o mundo e se julgou,—ingenua simplicidade!—que honravam e ennobreciam a especie humana?

Tudo o que foi épico e se chamou grande e bello e mereceu canticos e triumphos e apotheoses e historia e monumentos e centenarios e culto, atravez de seculos e millenios, tudo hoje é condemnado pela sentença fulminante d’este bom-senso burguêz, comesinho, utilitario, pratico, omnipotente e inexoravel. A transformação parece completa; Sancho depôz Quichote, conservou o jumento e vendeu o rocinante; o judeu desenterrou o bezerro d’ouro, não para o adorar mas para o negociar; o codigo depôz a historia; a pirataria depôz o codigo; as notas e as acções bancarias collaram-se nas folhas da epopêa.

Christo prégára a fraternidade, mandando levantar os humildes e abaixar os soberbos. Era justo e bom. Transtornaram-lhe a lição: esqueceram-se do pedestal para levantamento da humildade e decapitaram a grandeza, tomando-a só por soberba. Não foi um nivelamento,—foi um rebaixamento; inutil por improficuo. E será inefficaz em quanto a sciencia, que já cura a raiva, não conseguir curar as loucuras que geram as grandezas, e com ellas o desnivelamento successivo da humanidade, o crescimento e multiplicação das desegualdades sociaes.

Ahi estão ellas—nas sciencias, nas artes, nos descobrimentos de toda a especie; mais humanos, mais proficuos talvez que os antigos, mas careceram d’elles; que não póde haver continuação sem principio. Das pobres, poucas e ronceiras naus de Colombo, do Gama, de Magalhães e de Cortêz, nascêram os milhares de transportes que cortam hoje, em rapidez vertiginosa, os mares do Levante, o Atlantico, o Pacifico, e rasgam e quebram até os gêlos do norte e do sul; dos que descobriram os novos mundos nascêram os que os andam a estudar, a povoar, a inflorar, a aproveitar para a humanidade; dos que batêram contra os isthmos nascêram os abridores de canaes; as assoladoras naus, que até escandalizaram Herculano, porque vomitavam metralha contra os povos sequestrados ao convivio dos outros povos do mundo, andaram, com graves perigos, nas sondagens dos mares, por cima dos quaes hoje passa livremente o commercio, por baixo dos quaes hoje se assenta o telegrapho.

Porém onde me levaria este incidente a respeito de loucuras do genio se não tivesse necessidade de volver os olhos ao livro do meu querido Camillo? Muito longe, de certo, porque me diz a consciencia que tenho estado a fugir de collocar na classe dos loucos o nosso presado romancista e poeta. É tão grave a conjectura, mesmo que só por conjectura eu tenho de o metter n’esta companhia, que me vi forçado a provar-me que a companhia póde ser de gente desafortunada, mas é provadamente illustre.

Nunca a fria razão, nunca o senso-commum fizeram couza que não fosse fria e commum. Excellentes caixeiros e guarda-livros do commercio, excellentes fornecedores, ou chefes de administração militar; na guerra, excellentes officiaes da fazenda, na marinha, professores, sacerdotes (para conegos, não para missionarios), juizes, magnificos ecónomos e descobridores de pechinchas—o espirito conservador—os Wychnú da sociedade, os bagageiros da marcha. Importantissimo, imprescindivel serviço faz á humanidade esta gente de são juizo e razão fria, mas, por conselho d’ella, nem a mãe defenderia o filho contra a féra, nem o bombeiro voluntario defenderia o invalido contra as chammas, nem o barqueiro salva-vidas defenderia o naufrago contra as ondas. Temperatura egual e morna;—a selvageria tropical, primitiva, tendo Sancho na presidencia e o velho de Camões no conselho de estado.

O senso-commum até, por concessão transitoria,—sagaz bom-velho!—já creou, para illudir e desnortear poetas e romancistas, uma litteratura; em odio ás artes, uma arte; em odio ao genio, engenhos. Louvavel empenho na verdade. Vê doenças graves e pretende cural-as; vê enxamear a loucura, a mais grave das molestias, e com ella exgota a sua therapeutica. Benemerito desejo! Mau será se a cura fôr peior que a doença.

De muito dizer-se ao theorico:—sê pratico!—faz-se d’elle ás vezes um ladrão, ás vezes um assassino, ás vezes tudo isto, com prendas variadissimas.

De muito se accuzar o sentimentalismo de Lamartine e o romantismo de Chateaubriand, nasceram Baudelaire e Zola;—um grande poeta e um grande romancista… contrafeitos; e com elles—o satanismo e o naturalismo; porém—naturalismo—de meza de autopsia ou de laboratorio chimico.

—«Faz-me tristeza pensar,—escreveu Camillo n’um dos prefacios do seu Amor de perdição,—faz-me tristeza pensar eu que floreei n’esta futilidade da novella quando as dores da alma podiam ser descriptas sem grande desaire da grammatica e da decencia. Uzava-se então a rhetorica de preferencia ao calão. O escriptor antepunha a frequencia de Quintiliano á do Collette-encarnado. A gente imaginava que os alcouces não abriam gabinetes de leitura e artes correlativas. Ai! quem me dera ter antes desabrochado hoje, com os punhos arregaçados para espremer o pus de muitas escrofulas á face do leitor! N’aquelle tempo, inflorava-se a pustula; agora, a carne com vareja pendura-se na escápula e vende-se bem, porque muita gente não desgosta de se narcizar n’um espelho fiel………………………… Já não verei onde vai desaguar este enxurro que rola no bojo a Ideia Novissima. Como a honestidade é a alma da vida civil e o decoro é o nó dos liames que atam a sociedade, lembra-me se vergonha e sociedade ruirão ao mesmo tempo por effeito d’uma grande revolução rigolboche.»—

Á republica das lettras, tão illustrada e illustre, hystérica, porque é feminina, e devendo ser democrata, porque é republica, faltava o tom e o vocabulario ultra ou infra-humanos da sem-ceremonia. A grande dama era talvez um tanto preciosa e afidalgada; pois bem; para se mostrar accommodaticia, ao arrancar-se dos altos cothurnos, entendeu que o melhor era ficar sem meias, como na Grecia e na Judeia, e não lavar mais os pés; imitação de Sancto Antonio, segundo o testemunho de Maudsley.

Não se modificou—transfigurou-se; o que, longe de provar juizo prova só mais uma degenerescencia pathologica da mesma doença.

Para que tentar esta cura? Se não fôsse inutil seria prejudicial. Na Phedra pôz Platão na bôcca de Socrates:—«Os maiores bens são produzidos por um delirio inspirado pelos deuzes.»—O—Est Deus in nobis,—que traduz, senão a loucura do genio? De Christo escrevia S. João—«Elle é possesso do demonio e está fóra do senso-commum, para que o escutaes?»

Feliz culpa esta do desvario genial, quando póde, em bem, em honra ou em gloria da humanidade exaltar a phantazia, depurar os instinctos, aprimorar os sentimentos, impulsar o estudo, agitar, excitar e electrizar a atmosphera social, varrendo d’ella os miasmas putridos d’esse positivismo absorvente e suffocante que paira e pouza sobre os povos como as nevoas densas da palude.

Tremenda culpa, se, nascido no charco, attrahe, como os nenuphares, pela sua belleza, e, simulando em volta de si chans floridas e aromaticas, toma, enreda, enlaça e asphyxia a descuidada gente que se lhe aproxima.

Para alguma couza fez Deus as flores dos campos e as aves dos arvoredos.—A muzica, os perfumes, os matizes, a transparencia do ether, as alegrias e as saudades; tudo tão sem cotação nos mercados, sem applicação culinaria nem apropriação inventariavel! E comtudo, patrimonio de todos.

N’um livro adoravel de Octavio Feuillet, livro que se dignou traduzir para portuguez o nosso grande romancista, diz uma velha fidalga a uma rapariga nervosa que pretendia simular de positivista:—«De mim digo que nunca me vangloriei de ser pessoa muito romanesca, mas folgo de crêr que ainda ha na terra almas capazes de sentimentos generosos. Creio no desinteresse, creio até no heroismo, porque tenho conhecido heroes. Além d’isso apraz-me ouvir chilrear os passarinhos no meu caramanchão e tambem me apraz edificar a minha cathedral nas nuvens que passam. Tudo isto póde ser que seja ridiculissimo, minha formoza menina, mas ouzo lembrar-lhe que estas illuzões são os thezouros do pobre; que este senhor e eu não temos outros e que temos a singularidade de nos não lastimarmos.»—

Conheço bem os rizos com que me estão lendo os moços da escola novissima. Sei-os de cór, pois com as suas criticas me têem por vezes honrado. Nunca me offenderam, nunca me defendi e nunca tentei redarguir, que nunca lhes quiz mal.

Tinha pena de vêr grandes talentos só cultivarem nos seus jardins as flôres do mal; tinha pena! menos por elles, que andavam embandeirados em triumphos e illuminados em glorias, que pelo bem que podiam fazer e não faziam. Emquanto se afastavam de mim admirava-os eu; e se os não applaudia era por vêr o desdem com que tratavam assumptos que eu tinha a ingenuidade de julgar sagrados.

Camillo Castello Branco deixava o coração dictar os seus livros, e d’ahi o segredo da popularidade que adquiriam. Fazia chorar e rir, indignar ou amar. Cobria as suas lagrimas com um véo de scepticismo que o mostrava mais viril, e deixava em vacillação os espiritos fortes sobre a verdadeira essencia da sua indole de escriptor.

Scepticismo embryonario; dúvida da propria duvida.

Desesperança formal nunca eu lh’a conheci.

Quando vacillava respondia a si proprio, depois de ler o livro do padre Alvaro Teixeira:—«A poesia está aqui!… Aqui, devem vir os luctadores invenciveis da má fortuna ungir os braços para sahirem de novo á arena. Aqui restauram-se os alentos do espirito, extenuado por perdas do seu sangue, que é a fé, a fé perdida dos pusillanimes, que apoucam a obra de Deus a uma guerra brutal entre o forte e o fraco, entre a creatura manietada, desvalida e vil e a bêsta-féra em toda a pujança dos seus musculos de ouro, da sua impavidez e soberba.»

—Deus—era o astro que procurava na noite das tribulações; e se não era a sua crença mais intima e familiar, era o seu mais ardente desejo a mais constrictora ancia da sua alma.

Quem ha de valer aos que delinquiram se não houver uma justiça paternal,—a da caridade?—«A solidão sem Deus não serve para infelizes maus»—nos diz elle no seu livro de consolações—O romance d’um homem rico—onde pretendeu exaltar, acima de todas, a virtude da resignação:

—«Queria ensinal-o a ser paciente, quando fôr desgraçado… Paciencia é a arma, é o triumpho, é a porção divina do homem, é a bemaventurança. A padecer é que os olhos da alma se destoldam e encontram os de Deus.»

E quando, a sabôr do seu intimo sentimento lhe corria a penna inspirada, ergueu a cabeça e observando o mundo atravez da janella do seu gabinete de trabalho, que a phantasia lhe transportára para uma cella de Vairão, acudiu com estas palavras prudentes:

—«Temo que me chamem milagreiro e tomem este livro como additamento á «Flôr dos Sanctos» de Ribadeneira. Não quero semelhante nota.»—

E tambem lhe não cabia a nota de adverso ao naturalismo. Alto espirito como elle é, não podia desconhecer que a verdade da representação das couzas, a exacção, é suprema perfeição nas obras da arte:—«Rien n’est beau que le vrai».—Por isso elle nos diz:—… «Hei de ir indo assim, dispendendo-me pouco em imaginações de que me sinto alcançado, e pondo as melhores tintas e pinceis na copia da verdade.»—

Mas ha naturalismo e naturalismo, segundo a escolha do assumpto ou a indole do artista que o reproduz.

O chôro é real; o rizo, tambem; o affecto, a paixão violenta, existem, e dão de si a heroicidade ou o crime. Se a obra litteraria ou obra d’arte que se funda n’estes affectos, sentimentos ou mostras externas de sentir, é romantica, forçoso é confessar que o romantismo existe na natureza.

Não desconheçamos porém que tambem é real o monturo, a podridão, a devassidão, o antro, os crimes, a sordidez, a blasphemia, a praga.

Comprehendo que seja conveniencia da litteratura e das artes ir procurar revelações e inspirações por todos esses theatros em que a humanidade se exhibe, no intento de que o mal se emende e o bem se vigorise; (como isto cheira a velho!) procurar unicamente o mal, o hediondo, o repugnante, aggravar mesmo a sua hediondez para bem lhe fixar a caracterisação e dal-o por unico realismo, é falsificar a verdade, é calumniar o que é bello e grande, é derrancar o bom gosto e damnar os costumes. É envenenar as fontes! que se a litteratura não é educadora, não é nada e para nada serve.

Se a familia, o individuo, as tendencias, os costumes são só aquillo que nos dizem os chamados naturalistas, refugiem-se nas grutas, como os eremitas do passado, os que foram formados n’outra escola com outros princípios e outras aspirações.

E como devem ser infelizes, a serem sinceros, aquelles que taes impuridades espremem dos bicos das suas pennas!

Vêrem a cutis fina e transparente d’uma mulher formoza e em vez de sentirem desejo de a beijar cuspirem-lhe! Devassarem-lhe, não com enleio e prazer, as veias azues, por onde corre um sangue generoso, mas, com asco, a futura escrofula, os herpes, a lepra e, já antemostrando-se sôb aquella mal empregada transparencia, o verme roedor da sepultura!—chamar-lhe á maceração poetica, de namorada mas virginal insomnia,—signaes de cançada lubricidade! Desconhecer que ha virtudes, achar na flôr só veneno, achar na bondade só hypocrisia, na heroicidade e na abnegação calculos interesseiros e mais nada, no lar só o vicio e o crime, é um naturalismo pessimista e, como tal, falseado logo na origem e pouco agradecivel nas tendencias.

Estas questões são velhas e estão dirimidas. Já nem se discutem. A proposito chovem uma vez por outra umas chufas sobre os que não acceitaram a nova lei sem restricções nem condições, e de quando em quando Camillo escreve a Corja ou o Euzebio Macario e Zola escreve o Sonho. Passos dados para a concordia senão para a unificação das escolas, couza por ora difficil mas não impossivel, n’um proximo futuro.

Ha na Brazileira de Prazins uma ultima, talvez definitiva, feição litteraria de Camillo Castello Branco. Alli encontram-se primorosos quadros copiados exclusivamente do natural. O preparativo d’um assassinato encommendado e ajustado, o carregar da clavina, a sahida furtiva do assassino por noite escura e a reza da mulher e das filhas ante o crucifixo, até que elle volta do seu mallogrado intento, dando logar ao jubilo, em acção de graças, da mizeranda espoza, que julga ter obtido o milagre pela intercessão das suas lagrimas e das orações de suas filhas, são primores d’arte dos mais subidos quilates.

O mercado de bentinhos, rozarios, medidas de sanctos e livrinhos de orações, á porta do templo onde funccionam os missionarios, e a murmuração dos vendilhões e mercadores, alternando-se no sacrilego bazar; depois ainda, o processo monstruoso insistente e asphyxiante dos exorcismos applicados á pobre hystérica, sobre sêrem paineis de genuina e tremenda verdade, revelam um estudo minuciosissimo dos procedimentos inquisitoriaes e do abastardamento e falsificação dos textos sagrados, postos á disposição d’um fanatismo intransigente ou d’uma hypocrisia revoltante.

Alli, sim, póde estudar-se o verdadeiro, o possivel realismo, n’um romance de costumes. Ir além, só com filiação no nihilismo da arte.


Camillo Castello Branco, o visconde de Correia Botelho, vê que os seus duzentos volumes começam a disputar-se com recrescente anciedade e vão sendo a mais e mais, reproduzidos, já em edições luxuosas, já em edições populares. É certo que os contemporaneos do grande escriptor se acham empenhados na sua glorificação em vida. Acclamado em plebiscitos—primeiro escriptor portuguez da actualidade,—honrado pelos poderes publicos, á porfia, procurado por todos aquelles que os combates da imprensa traziam d’elle distanciados, a unanimidade congrega-se em tôrno d’elle, no unisono d’uma apotheose sem exemplo.

Portugal do seculo XIX resgata assim nobremente os crimes de passadas ingratidões.

Elle o reconhece agradecido, aguardando n’uma anciedade dolorosissima vêr-se restituido ao estudo e ao trabalho—sua religião e seu confôrto.

Teve de abandonar a lida, o heroico triumphador. Aguia que desafiava os deslumbramentos do sol achou-se de repente involta em trevas caliginosas, colheu as azas, amordaçou o grito, e sente se despenhar no insondável abysmo d’uma escuridão a cada instante mais densa.

Como elle espreita, procura, esquadrinha um raio, uma restea, um relampago, tenue que seja, de claridade onde vislumbre uma esperança!

Eu tenho assistido a essa lucta que mais parece uma agonia.

A medicina acode-lhe desvelada; ensaia os seus prodigiosos meios d’acção, mas pede-lhe paciencia! e o homem que escreveu este livro, que soube dar tantos conselhos e offerecer tantos exemplos de resignação, não póde resignar-se.

Como todas as cazas lhe dão trevas, foge de todas as cazas, de todas as terras, e até de todo o convivio,—porque ouvir, somente,—aquelles que o procuram, é ter multiplicados testemunhos da cegueira, que mais, dia a dia, vae julgando incuravel.

Sabe que a sua anciedade o prejudica, mas o irrequietismo da nevrose póde mais que a sua razão; e dilacera-se no ergastulo.

Alguma vez, de longe em longe, um raio de luz furtiva e ephemera dá-lhe fugidia esperança; e elle pensa então e falla nas Chronicas duas rainhas que trazia em laboração e tanto deseja concluir. A medicina promette-lhe, com intima fé, a regeneração dos seus olhos, e elle escuta, provoca a demonstração, comprehende-a, espera! Esperança fugidia como o relampago que lhe cruzára pela retina! A descrença volta inexoravel e com ella o inferno e os tratos do sempiterno horror.

Então a ancia do suicidio toma-o de novo e elle afaga o rewolver, como seu ultimo recurso.

Tristissimo.

Assim vive,—se é vida esta dilaceração angustiosa mil vezes peior que a morte,—o nosso grande romancista, á hora em que escrevo estas linhas. Muitas vezes suffoca-o a dor, e elle pede em jubilos que a morte lhe venha n’um spasmo. Os seus raros e curtos somnos trazem-lhe pezadellos afflictivos; por isso pede muita vez que o não deixem dormir. Acorda era gritos lancinantes, estendendo convulsivamente os braços a procurar mão valedora….

Meu pobre amigo!

Comtudo a sciencia lucta e espera e com a sciencia espera, solicita, a amizade. Só elle não quer, ou não póde acreditar, sequer, n’esta esperança.

Vive hoje em Bemfica, em paiz primaveral; n’uma caza cheia de confortos e de luz, do seu e meu amigo Barjona de Freitas. Alli o visitam os seus mais intimos, esperando a cada momento vislumbres da nova luz que lhe faça esquecer tão fundos e tão prolongados tormentos.

Quantas vezes tem elle repetido:

—«Que eu veja! pouquissimo embora! o absolutamente indispensavel para poder trabalhar, e encerrem-me, por toda a vida, no carcere onde escrevi O romance d’um homem rico!»

Carnaxide, 1 de julho de 1889.

Thomaz Ribeiro.

 

PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO

Este foi o mais querido dos meus romances; e, se o vaticinio, que aventuro sobre o meu futuro de escriptor, me sahe exacto, este romance prevalecerá a quantos a minha imaginação já desluzida, e como á força, der de si. Com tristeza sincera confesso que no que fui já mal me reconheço. As rugas da fronte empecem ao coar d’aquella flamma, que me aquentava a phantasia, e dentro me alumiava, como em lampada magica, lances da vida exterior, uns de riso, outros de lagrimas. E eu entrava em espirito e coração n’este interior mundo, e lá me sentia viver, soffrer e amar. A isto não ousaria eu chamar inspiração; mas, sem modestia de vaidade, podia chamar-lhe feliz capacidade para engenhar obras d’um dia, leituras de duas horas, recreio a ocios de quem os não sabia gastar melhor e mais aproveitados.

Como se foi amortiçando a luz da minha mocidade, e aquelle incansavel amor ao trabalho, languido a ponto de já agora deixar cahir a fronte esfriada e dorida sobre o papel em que escrevo? Acabou-se como tudo que principia, e mais depressa que o deperecer commum das faculdades inventivas. Esta é a sorte immerecida d’aquelles que não poderam ou não quizeram poupar o vigor do coração em vantagem do vigor da intelligencia. A mais ardente cabeça de homem empedrou debaixo da mão glacial da desfortuna.

Foi este romance escripto nas cadêas da Relação do Porto em 1861.

Quem dirá que tenho saudades d’aquelles dias negros e d’aquellas noites solitarias? Devo suppor que vim apparelhado para os maximos infortunios, quando o experimental-os levemente me incommoda, e o relembral-os me esperta uma quasi saudade! Penso que não é isto saudade da desgraça: deve antes ser pena de ver murcharem-se as chimeras que me infloravam de lá, este arido pragal, que vou trilhando agora.

Ao menos, lá e então, aviventavam-me uma grande dor e uma grande esperança: hoje, nem sequer as amarguras do fel nem a prelibação dos balsamos dôces.

Este silencio dóe mais que o estridor dos ferrolhos. Esta paz, em redor do meu espirito, é uma quietação de sepulturas.

Viveram no meu ergastulo da Relação do Porto, commigo, noite e dia, o padre Alvaro d’este romance, e Maria da Gloria e Leonor, e a santa de Vairão; e Thereza, e Marianna, e meu tio desterrado do outro livro chamado «Amor de perdição.» Viveram commigo aquelles ditosos pares que eu casei, e o publico hospedou alegremente, com o livro «Doze casamentos felizes.»

E eu tenho saudades d’elles, e das noites em que os via sentados em volta do meu leito. Cá fóra, á luz em cheio do sol, não os encontro.

Bellas, 19 de Maio de 1863.

CAMILLO CASTELLO BRANCO.

 

INTRODUCÇÃO

As tribulações dos santos são enigma:
uma cousa parecem, e outra são e significam:
parecem miserias da fortuna,
e são concelhos da Providencia Divina,
e signaes da felicidade eterna.

P. M. BERNARDES. (Silva de varios
dictames espirituaes.)

Na primavera de 1859, comprei, na estação de Santa Apolonia, um bilhete da via-ferrea, para a ponte da Assêca. Saudades do campo, ancias de sorver do seio da natureza um hausto de ar puro; e, acima d’isto, o meu dorido amor a quantos sitios guardavam para a minha memoria do coração vestigios da infancia, que tão depressa passara com as flores d’outra mais formosa primavera… A que vem isto?!… É a saudade, leitor! Se a sente, se a já sentiu, recorde-se, e perdôe-me.

Entrei n’uma das mais flacidas carruagens do comboi.

Vejam a egoista e brutal natureza do homem-corpo! Nem quando a alma padecia tanto, se dispensou a ignobil materia dos regalos das almofadas! A angustia lamentosa de Lamartine era sincera; creio: mas em que recamaras de asiatica opulencia se lamentava elle! Que requintes de luxo para o corpo, e anhelos de gloria para a felicidade do espirito lhe não infloravam ao poeta de Elvira a dupla existencia, quando elle escrevia:

Héritiers des douleurs, victimes de la vie,
Non, non, n’espérez pas que rage assouvie
Endorme le Malheur,
Jusqu’á ce que la Mort, ouvrant son aile immense
Engloutisse à jamais dans l’éternel silence
L’éternelle douleur!

E Petrarcha, tanto anno a chorar sonetos, aposentado no palacio d’um doge, rodeado de servos, e d’amigos, e de admiradores, n’aquella feiticeira Veneza, tudo a expensas da republica!

E todos os outros mestres de bardos melancolicos?

Que muito enganados andamos nós com os poetas lagrimantes!

Eu ia a scismar n’isto, quando me deu na vista um homem, companheiro de carruagem, o qual estava pendurando o chapéo no arame, e vestia a veneranda calva com seu barrete de troçal preto.

Cortejei-o, na hypothese de que elle me tivesse já cortejado, e eu não correspondesse, de abstrahido que ia a pensar no corpo e na alma, cousas disparatadas, que o leitor póde vêr mirificamente descriptas em S. Agostinho, e melhor ainda, em Xavier de Maistre; no primeiro, quando se confessa; no segundo, quando viaja á roda do seu quarto. O santo bispo chama ao corpo «bruto» e o conde francez chama-lhe «besta»—ao corpo entenda-se, e não ao bispo. Para mim tenho que o corpo é ambas as cousas, e muitas outras.

Se entro a desvariar, o leitor passa ao capitulo segundo, e isso é que eu não queria, porque os meus romances começam todos pelo principio, e este primeiro capitulo deve lêr-se.

Cortejei o padre. Parece-me que ainda não disse que era padre o meu companheiro. Dava-se logo a conhecer por tal n’aquelle apostolico semblante, se o não dissesse a volta e a sotaina, e o sapato de fivela de aço reluzente.

Correspondeu ao meu gesto com muita afabilidade, tirou-me da mão o chapéo para pendural-o, e offereceu-me rapé, depois de bater quatro vezes com os nós dos dedos na tampa da sonora caixa de tartaruga, marchetada de madre-pérola.

—Póde fumar á sua vontade, se fuma—disse-me elle.

Agradeci o agradavel consentimento, e offereci-lhe a minha charuteira, que elle não aceitou.

Recahi no meu lethargo. Agora era diversa a these: meditava n’esta palavra MORAL, e n’esta outra virtude, e lembrou-me Bruto. Todos sabem que Bruto, no ultimo instante de vida, dissera que a virtude era apenas uma palavra. Por isso é que eu ia conversando com o sanguento phantasma do heroico inimigo dos tyrannos.

—A moral!—dizia eu só commigo, depois que a imagem de Bruto se vaporou—a moral é que não é meramente uma palavra. Aqui vai quem poderia dizer-me o que é a moral. Este homem tem um rosto lucido e intelligente: como que estou vendo por elle uma boa alma.

Fitei os olhos suaves do sacerdote. Estava elle com os dedos inclavinhados e as mãos postas sobre o peito. Dava ares de profundo recolhimento, senão tristeza. Gostei de o vêr assim n’aquella postura, a mais artistica e significativa de paz, e conformidade vencedora dos maus e dos males da vida.

Comparei-me com elle. As minhas dores surdas, disfarçadas n’um sorriso convencional, e timorato do escarneo dos insultadores! O contentamento interior d’aquelle homem, revendo-lhe ao rosto, em suave tristeza, contrasenso se quizerem, mas expressão leal d’alma pura e sem temor! Aos olhos de um observador inexperiente, qual de nós dous seria o feliz?

Sahiu-se o padre do seu absorvimento, e disse-me:

—Serei indiscreto, perguntando-lhe onde tenciona ir?

—A Santarem.

—É um passeio aprazivel! O «valle» é um paraizo, povoado de saudades, que chamam sempre o espirito de quem lá teve uma hora de felicidade. Uma hora, digo, porque a felicidade d’este mundo, e só d’este mundo, não dura mais que uma hora.

—Ha quantos annos eu lá não fui!…—continuou o padre no tom magoado de entranhada saudade—E já agora é tarde… é o anoitecer da vida…

—Parece-me tão facil de satisfazer esse desejo!—interrompi eu.

—É facil, diz bem; mas é que ha saudades, que desabafam nas lagrimas; e outras, que se embebem d’ellas. A saudade do objecto, existente a distancia, converte-a em delicias a aproximação; porém, quando a saudade de um sitio é a dôr repercutida de vidas que lá viveram, e não podem reviver com a nossa, essa não tem allivio.

—Creio que tem—disse eu—é vêr e amar essas vidas em Deus, chamal-as em espirito ao lugar onde as amamos, e conversal-as na linguagem das lagrimas…

—E da oração…—disse o padre, e proseguiu, depois de breve silencio—Prouvera a Deus que todos os que soffrem de affeições perdidas tivessem o desafogo de buscal-as no céo…

E calou-se de súbito, cerrando as palpebras, e encruzando as mãos longas e ossudas sobre o peito.

Estavamos no «Poço do Bispo.» Pesava-me a idéa da separação, cuidando que o padre sahiria alli. É que já o estimava, captivo de sua linguagem e semblante. Eu sou assim com todos os homens, se me elles parecem intelligentes e desgraçados.

—Fica no «Poço do Bispo?»—perguntei.

—Não senhor; vou para os «Olivaes.»

—A passeio, ou é de lá?

—Vivo lá: tenho alli arrendada uma vivenda, umas ruinas pittorescas, em que me sinto bem. Estou alli como encasado n’aquellas paredes abaladas que parecem estar-me dizendo todos os dias: quando cahiremos nós comtigo?

Abriu um sorriso de extrema tristeza, e ajuntou:

—Se o senhor vier aos «Olivaes» alguma vez, e quizer hospedar-se na humilde casa, que lhe offereço, e sentar-se á mesa em que ha sempre o riso e vacca de frei Bartholomeu dos Martyres, pergunte pela quinta do Canavial, e procure o padre Alvaro Teixeira. Raras horas no anno estou fóra do meu quarto, ou dos arredores da casa. Encontra-me sempre, salvo se algum visinho lhe disser que o pobre presbytero passou a morar n’outra residencia onde as pessoas que me visitarem terão a caridade de pedir a Deus o descanço da minha alma.

Disse isto o padre sem o menor tregeito beatifico. N’aquellas palavras doridas sorria a consolação da esperança, e a jovialidade do justo que se não teme das contas finaes de sua alma com Deus, e da memoria, que de si deixou, com a justiça humana.

—Espero ir encontral-o com muita vida, senhor padre Alvaro Teixeira, e não será muito tarde. A sua povoação está ás portas de Lisboa; mas, ainda que muito longe fosse, eu iria passar uma hora com o homem communicativo e estimavel, para quem o coração me está fugindo com a palavra «amigo.»

—Agradeço-lh’a, e afago-a; respondeu, e estendendo-me a sua mão—Que o sentimento generoso sahe espontaneo do coração, sem consultar o raciocinio; ao passo que frequentemente as melhores qualidades do homem, que tratamos longo tempo, não vencem a descaridosa antipathia de um primeiro encontro.

—Como se chama?

Disse-lhe o meu nome. O padre repetiu-o tres vezes pausadamente, syllaba por syllaba, e depois exclamou de repente:

—Não me engano. É o mesmo. Eu conheço o seu nome ha onze annos. Entre os meus livros estão vinte paginas da sua infancia litteraria. Nem, talvez, já se lembre d’ellas! Pois não deve esquecel-as… Eu lhe cito o titulo: O CLERO E O SENHOR A. HERCULANO.

—É a verdade; são minhas. Classificou magistralmente a cousa: vinte paginas da minha infancia litteraria, felizmente esquecidas…

—Mas não as esqueça em si o homem de coração, que deve prevalecer ao homem d’estudo. Foi temeridade assentar-se á beira do caminho, por onde passava triumphantemente o primeiro sabio de Portugal; mas, feliz culpa, ditoso atrevimento o do rapaz, que não tinha exhauridas ainda todas as lagrimas da compuncção. Atrevimento reprehensivel fora o da porção do clero, que desenrolara do pulpito abaixo o sudario da sua ignorancia, disputando á sciencia o que era da sciencia, e arriscando a causa da verdade ás vaias de ingenerosos adversados, os quaes, não podendo hombrear com o historiador doutissimo no solio da sciencia, e castigar de lá os ignorantes, entenderam que bem mereciam do mestre apanhando-lhe a lama do chão das suas botas, e atirando-a á cara dos padres. No folheto do meu amigo não havia polemica nem sciencia; mas sobejavam conselhos aos parciaes do clero, que porfiavam em levar vantagem de injuria aos inimigos. Não se corra de ter, um dia, escripto que o padre é ignorante porque o não ensinam, e que as verdades santíssimas de Jesus não podem ser menospresadas pelas argucias da razão philosophica, nem pela rude e escura hermeneutica dos mal aviados defensores da exclusiva razão do catholicismo…

N’esta esteira foi navegando o padre, a todo o panno da sua muita critica e erudição. Pedem os leitores que os poupe ás conferencias do levita, e eu de melhor vontade os dispenso de ouvir-lh’as, mesmo porque me era preciso saber tanto como elle, para o não desprimorar da eloquencia com que me aligeirou em instantes a hora decorrida até os «Olivaes.»

Parou o comboi, e o padre suspendeu o discurso n’uma conjuncção.

—E portanto…—disse elle—Adeus, meu amigo, não ha tempo para mais.

—E portanto—disse eu—não o dispenso de concluir o seu discurso. Eu é que digo por hoje adeus ao valle de Santarem, e fico nas pittorescas ruinas dos «Olivaes.»

—Fica!—exclamou elle com alegria—Pois bem haja!

Saltei, dei a mão ao padre, e apresentei o meu bilhete ao conductor.

Merece chronica um episodio de instantes que se deu entre mim e o conductor n’esta estação. O meu bilhete designava a «Ponte da Asseca» e o conductor formalisado dizia-me que eu não podia deixar de ir á «Ponte da Asseca.» N’um breve discurso tentei debalde provar ao funccionario que a companhia não era prejudicada com o receber mais oitocentos e tantos reis acima da minha passagem para os «Olivaes.» O homem, que era belga, não entendia o meu vasconço de Poitou. O padre encostado ao cunhal da estação, arquejava de riso; o belga relanceava os olhos envinagrados, avinhados é mais exacto, d’elle para mim e de mim para elle, julgando-nos ambos cumplices na logração. A final soou, segunda vez, a campainha, e o habil empregado lá foi fazendo de mim um mau conceito. Isto prova que bem avisado andou o governo, collocando o intelligente belga, no lugar onde podia fazer tolices algum portuguez estupido. E, se não provasse isto, provaria a embriaguez do homem, e ainda assim a boa escolha.

—Ora vamos lá—disse o padre Alvaro Teixeira, encostando-se ao meu braço—Temos dez a doze minutos de caminho. Vamos pisando este chão que é como sagrado para mim. Repare nestas flôres das ribas e vallados, que eu vejo ha trinta annos, sempre com o mesmo viço e a mesma côr em cada primavera. Ha na natureza um aspecto de indiferença que exacerba a dor dos infelizes, se é que todas estas boninas não renascem para chorar commigo. Um poeta diria e pensaria isto. Quando alguns traços do passado se me varrem da memoria do coração, e, depois, acerto de encontrar-me com a madresilva, com a margarita, com a flôr do rosmaninho, revivem as lembranças todas, umas pungentes, outras doces de saudade; mas nenhuma de esperança… Esperança! Não se ri d’esta palavra na boca de um velho, que cahiria extenuado se apressasse a corrida após de uma esperança, áquem da sepultura?…

—Por que não? A esperança de encontrar mais um amigo, e depurar alguma alma empestada pelas más paixões, não é tão digna de si, e dos seus annos!? E além de que o senhor padre Alvaro não é velho.

—Veja se me lisongêa, meu amigo. Olhe se faz com as suas palavras a maravilha da fabula: rompa n’aquella pedra a fonte da juventude do corpo e a da alma. Remoce o achacoso velho que já conta… diga lá, quantos annos me faz?

—Cincoenta e seis, ou sessenta, quando muito.

—Não, senhor: tenho quarenta e seis.

Contemplei-o com assombro e piedade. Quarenta e seis annos aquelle homem, que me ia pesando no braço, e se abordoava á grossa bengala que lhe oscilava na mão! A luz dos olhos serena, mas quasi apagada. Os vincos da testa escalvada encruzados e fundos, travando-se em miuda rêde ao redor das orbitas. As faces arregoadas, lividas, e flacidas. As cordoveias do pescoço repuxadas pelos tendões descarnados. O dorso recurvo, e as extremidades tremulas e morosas nas articulações dos joelhos. Quarenta e seis annos! Que fogo voraz se retrahe no coração d’este homem, quando o involucro assim se fende e estala febra a febra! Foi a mão de Deus, que me guiou a ti, filho da dor, para me humilhar diante da tua paciencia!? Falla, falla, ensina-me a compor dos meus gemidos o hossana da victoria, sobre as agonias, que me vergam, quando eu mais me afadigo a despontar-lhe os espinhos com a rebellião insoffrida. Diz-me através de qual fibra illesa e invulneravel te vem do espirito aos labios esse teu sorriso! Dá que eu prove o fel de cada lagrima, que enxugaste com o punho da batina nas tuas faces aradas! Não cáias arvore bemdita, sem que eu colha fructos de benção d’essas magestosas frondes, que se abaixam até ao raso da minha miseria. Se adivinhaste um infeliz no homem, que deixou em tua memoria as vinte paginas do coração juvenil, deixa-o sentar-se á tua beira, a meio caminho da vida; aponta-lhe d’aqui o trilho menos escarpado da sepultura; ensina-o a converter cada espinho em flôr; cinge-lhe os rins com o cilicio que revigora a alma; dulcifica-lh’a com o travor das lagrimas penitentes; dá-lhe a força de homem, e reserva para Deus a tua essencia de anjo.

 

Este era o seu refugio, o seu descanço.

Fr. LUIZ DE SOUZA. (V. do Arc.)

A tristeza das ruinas é uma tristeza particular, da qual nem todas as almas se magoam. Já observei vezes sem conto isto mesmo no semblante das pessoas que foram commigo a visitar um palacio derrocado, ou as alpendradas d’um convento, ou algum lanço empenado de muro de castello.

No convento de franciscanos, cerca de Vianna, reliquias santas em cujas abobadas credes ouvir ainda o ciciar dar oração dos frades comtemplativos, estava eu, por uma tarde de estio, com um amigo, que escrevera muito sobre a poesia da cruz. Subimos a um teso d’onde se avistavam descampadas e fertilissimas varzeas. A fronte do meu amigo pareceu-me alumiada do sacro lume do estro. Esperei, com reverente silencio, a estrophe inspirada pela soledade, e esmaltada dos matizes do sitio, que eram poesias feitas para um genio que as bem soubesse ler. Entre-abriu o poeta os beiços, como flôr matutina o calice ao primeiro beijo do sol, e disse:

«Se fosse meu tudo isto que vejo d’aqui, ia viajar n’um vapor meu, comprava um palacio em Milão, outro em Paris, outro em Londres, e havia desbancar quantos luxos orientaes o Byron inventou para o seu Sardanapalo!»

Não respondi, de triste que fiquei, e de triste que já estava.

Outra vez, fui com outro amigo ao castello de Palmella. Desci ás masmorras em que não seria custoso com uma enxada trazer á flôr da terra as ossadas dos que alli morreram ha cem annos emparedados á ordem do conde de Oeiras. Refugi com o pensamento d’este laivo sangrento da historia, e fui em cata de glorias aos seculos primeiros d’aquelle baluarte da nossa independencia de Castella e da mourisma. Enleavam-me estas meditações, quando o meu amigo, cabisbaixo n’um angulo d’um bastião, resmoneou:

«Fizemos uma crassa tolice em não trazermos de Setubal um pedaço de carne assada e duas garrafas do Cartaxo, que era optimo vinho, e havia de saber-nos aqui que nem o nectar dos deuses.

Ora, este poeta era amantissimo de ruinas, quando as poetava no seu gabinete, em artigos, a um tempo, de saudade do que fomos, e fulminação contra os governos barbaros, que deixavam ao camartello iconoclasta demolir os vetustos moimentos da nossa extincta grandeza.

Outro caso:

Nos arrabaldes de Lisboa, ha um espaçoso jardim abandonado, junto de uma casa esburacada de balas, e aberta em largas fendas, desde o cerco de 1833. Por entre hervas e arbustos silvestres rompem algumas hastes enfezadinhas de rarissimas flôres, que teimam em reflorir na sua estação, como se a esperança lhes não morresse ainda de voltarem aos cuidados da mão delicada, que as semeara e amimára alli, com o coração em flôr tambem. Quem se lembra ainda da formosa jardineira que descia com o sol a colher ao seu jardim os mais gentis enfeites do seus cabellos? A formosa passou, e a rosa de toucar floreja ainda ao pé do myrto, á sombra da anemola e da romanzeira, abafada pelas moitas das papoulas, que são o ephemero adorno das sepulturas. Que triste eu scismava n’isto, quando o meu amigo, author de idyllios que faziam amar a botanica e adorar as flôres, rompeu n’esta canção:

—Este jardim, aqui ás portas de Lisboa, se o dono o pozesse a couve lombarda e feijão carrapato podia render vinte e tantas libras annuaes.

Disse, e perguntou-me se iriamos jantar ao Matta, ou á Taverna ingleza.

Por estas e outras, puz eu que a tristeza das ruinas é uma particular tristeza, da qual nem todas as almas se magoam.

Eu de mim, liberalmente dotado de dores minhas e intimas, já fujo de ir onde está a solidão lamentosa, parque nunca me ella deu o remedio que deu a muitos, mal feridos do mundo. E de ruinas é que fujo mais esporeado pela lembrança das más horas, e peçonha para muitos dias que tenho trazido de lá, em vez do balsamo, que a meu ver, só é salutar nas almas golpeadas, se a consciencia não se dóe com ellas.

As unicas ruinas de que tenho saudosa memoria são as da vivenda do padre Alvaro Teixeira, nos «Olivaes.»

A casa tinha claros vestigios de palacete. Os cunhaes estavam em pé, amparando alguns lanços de parede, recortados em escaleiras desiguaes. Através de nove janellas das quatorze da fachada coava-se o azul do céo, apenas interceptado por algumas vigas e ripas empenadas e torcidas pelo calor. Nas padieiras e cornijas amarelleciam fetos e outras hervagens resequidas que deixavam realçar o verde da hera. Esta marinhava do interior das paredes para os batentes e couçoeiras das janellas, sem portadas, e n’algumas enredava-se em urdidura tão agradavelmente tecida, que dissereis ser a natureza tanto mais de vêr-se quanto mais desalinhada é da esquadria da arte.

Entramos n’um largo portal, que abria para um pateo espaçoso, alcatifado de relva, nos pontos de juncção entre as lageas. As paredes circumpostas eram ladrilhadas de tijolo azul e apainelado, figurando passagens mythologicas e campestres. No rebordo superior d’este ladrilho, corriam em toda a roda argolões feluginosos, que deviam ter sido as prisões dos cavallos, nas tardes calmosas, quando os antigos senhores, refestelados nas suas cadeiras encouradas, vinham, do patim imminente ao pateo, gozar-se do espectaculo dos mursellos e alazões rinchando, escarvando, e folgando em airosas upas.

Subimos a escadaria do patim, e entramos n’uma sala pouco alumiada e muito extensa. De relance vi que o tecto era de castanho e profundo, com artezãos grosseiros, e um brazão de extraordinario tamanho e lavor no centro. D’este pendia uma corrente de arame e um grande lampadario, através de cujos vidros afumados, a custo uma tocha lograria coar o seu clarão. Ornato n’esta sala não vi algum, a não serem dous escanos de castanho, de altissimo respaldo, com a pintura duplicada a ocre das armas do tecto.

Segui o padre ao longo d’um comprido corredor ladeado de quartos, á imitação de dormitorio claustral. A maior parte d’estes quartos não tinham tecto, nem portas, nem pavimento. Na extrema do corredor estava uma velha sentada, quando apontamos á outra extrema. Levantou-se então, e forcejou por tirar do cinto duas chaves encambadas n’um atilho, operação não facil, porque o atilho se lhe enredara nas camandulas, e estas no fuso, e este no fiado.

—Não se impaciente, senhora Eufemia,—disse o padre.—Ande lá de seu vagar, que nós não temos pressa.

—Valha-me Deus!—disse a velha afreimada—este berzabum do negalho parece que tem cousa má! Não querem ver isto? Olhe onde o rosario se foi imbelinhar!

A senhora Eufemia já suava, e cada vez embrulhava mais as cousas, a tempo que o padre, tomando-lhe das mãos a tarefa, ia desdobando a miada, sorrindo e gracejando com a velha, que não podéra sahir-se d’aquellas difficuldades, por ter dous dedos da mão esquerda inutilisados n’uma grossa pitada de simonte, que resfolegou, em quando o padre pacientemente desenredava a cambulhada.

D’alli passamos á porção mais reparada e habitavel do palacete, e residencia do locatario. Era uma sala, e dous quartos contiguos. N’um d’estes estava a cama e livraria do padre; o outro era devoluto para hospedes. A sala tinha mobilia, que fora sumptuosa no começo do século passado: eram tremós dourados, cadeiras de estofo estreitas com espaldar alto e douraduras floreadas, mesas lisas orladas de embrechados a ouro, com fechaduras de prata rendilhadas, jarrões indianos com reluzentes matizes de escarlate e azul. Das paredes, cintadas de florões a oleo, pendiam os retratos de D. João V, ao de D. Pedro III e D. Maria I n’um só retabulo. Outros retratos innominados, afóra o do ministro da justiça no reinado de D. Miguel, João de Mattos Vasconcellos Barbosa de Magalhães, oriundo de Barcellos, e morto no desterro, adornavam, a grandes intervallos, as quatro paredes da sala, cuja limpeza abonava o cuidado da senhora Eufemia.

Abriu o padre Alvaro a vidraça do seu quarto, e eu fui á janella examinar os contornos da casa. Vi em baixo uma pequena parte d’um grande jardim cultivado e retalhado por meandros de murta e alecrim. O restante estava abandonado. Feixes de herva myrrada afogavam um cysne de pórfido, o qual se levantava sobre um pentágono de granito, no centro de uma bacia de marmore de todo sêcca, e esborcinada. Arvores de densa copa e muita grossura de troncos formavam, emmaranhando-se, a enorme sebe do antigo jardim. Através das clareiras interpostas aos troncos entrevi um paul, reliquias do que devera ter sido um vistoso lago. Rebalçavam-se no charco alguns patos, e saltitavam e ralavam as rãs como á competencia com as cigarras.

Defronte, a duzentos passos, vi uma casa nobre, toda ladrilhada de amarello, com as suas tres chaminés pintadas de azul, e brazão de armas, retocadas de novo, no triangulo em que remata o frontal do edificio.

—Quem vive n’aquella bonita casa?—perguntei eu.

—Aquella casa é d’um commerciante de Lisboa—respondeu o padre—Foi dos que foram donos d’esta em que vivo…

Observei no semblante do padre mudança de côr, e muita tristeza no olhar para uma das janellas do palacete. Dava a cuidar, pela insistencia com que fitava a janella, que devia alguem apparecer alli; mas tanto aquella, como todas as mais, estavam fechadas, e nenhum signal de vida, se não o chilrear das andorinhas ao longo das cornijas da casa, podia responder á observação attentiva do meu amigo. Não era observação, era absorvimento, por motivos que o leitor saberá opportunamente.

Como de golpe, sahiu o padre do seu transporte, e, voltando-se risonho para mim, disse:

—Vamos vêr se o meu amigo se conforma com a mesquinha hospedagem que lhe dou. Venha d’ahi.

Segui-o ao quarto visinho, onde estava a senhora Eufemia toda azafamada a desdobrar lençoes para a cama. Era esta um grande leito liso de pau preto com as quatro hastes do pavilhão. Completavam o adorno da camara duas cadeiras e uma banquinha, e lavatorio de ferro, onde já se via a fina e alvissima toalha. Na parede estavam doze estampas enquadradas em ébano, as quaes representavam a vida de Barnabé Chiaramonte, com referencia a Napoleão, segundo a conta Beauchamp na «Historia dos infortunios e captiveiro de Pio VII.» A alfaia mais rica do meu quarto era um festão de trepadeiras, com flôr escarlate, que ensombrava a metade superior da vidraça. A limpeza, a frescura, o perfume, e a doce melancolia d’aquelle recinto não podiam invejar pompas, se as ha, que mereçam comparação com as do meu saudoso e lindo quarto das ruinas dos «Olivaes.»

—Já sabe—disse o padre—que tem de fazer aqui penitencia da irreflexão com que se fiou da minha hospitalidade.

—Como isto é gracioso, senhor padre Alvaro!—disse eu sem simular o enthusiasmo—A poesia está aqui!

—A poesia dos prophetas de Jerusalem;—atalhou o levita—a poesia das lagrimas…

—E a da esperança, que é tão formosa, tão do céo, e dos desventurados n’este mundo!—acrescentei eu, enlevado no meu rapto de cinco minutos—Aqui, devem vir os luctadores invenciveis da má fortuna ungir os braços para sahirem de novo á arena. Aqui, restauram-se os alentos do espirito, extenuado por perdas do seu sangue, que—é a fé, a fé perdida dos pusillanimes, que apoucam a obra de Deus a uma guerra brutal entre o forte e o fraco, entre a creatura manietada, desvalida, e vil, e a besta-fera em toda a pujança dos seus musculos de ouro, da sua impavidez, e soberba. Mal d’aquelle, que foge o mundo, e se refugiarem si: é um engano; é render-se o homem ás garras do dragão que encerra, e nutre com a peçonha que a desgraça lhe vara no seio. O homem, desfavorecido dos acasos de que depende a felicidade, o bem, e a fortuna, não póde nada comsigo, nem deve estar lacerando-se com as suas proprias unhas para extirpar com o sangue a raiz do mal. Fóra de si é que está a salvação. Em Deus é que…

Em Deus—interrompeu o padre. É essa a palavra, onde eu o estava esperando, meu amigo. Não se contradiga. Disse ahi que «a felicidade, o bem, e a fortuna são dependencias do acaso.» Quem isto sente, não acha absolutamente necessaria a intervenção da vontade divina nas contingencias, meramente casuaes, d’esta vida. Offerece-se-me cuidar que o meu amigo não meditou no desconcerto dos seus principios com as consequencias. Se a felicidade—a da consciencia, entendo—é obra do acaso, o acaso é a lei de Deus na ordem do mundo. O paradoxo salta! Não serei eu quem peça a Deus o milagre de fazer-se absurdo por meu respeito, até ao ponto de pôr á minha disposição uma cadêa de acasos felizes. O bem-viver, meu amigo, é tão rigorosa consequencia do bem-fazer, como a luz o é d’aquelle astro, que alli está no céo, protestando contra a sua theoria dos acasos. O homem não acha em si os allivios da razão, quando os vicios lh’a degeneram. A razão depurada dos sedimentos da antiga culpa, no crisol do Evangelho, é Deus. Deus não é sómente puro amor, é pura razão tambem. E, se não, veja que os bem-aventurados n’este naufragio da vida são aquelles que, rebatidos d’uma vaga contra a outra, emergem á flôr de cada escarcéo, abraçados á razão, taboa de infallivel salvamento. O embriagado da sua falsa fortuna, cuidando-se, um momento, domador das tormentas, póde sorrir de desprezo ou mofa, vendo quam dissaboridos e minguados passam os dias do justo. Aquelle dirá que o acaso prospero lhe bafeja a si, e o funesto ao outro? Dirá; no entanto, meu amigo, será tudo escuridade á volta d’este fatuo dos seus bens exteriores, quando a roda do acaso desandar. O interior, a quem me soccorro desconfortado, é a minha razão. Se as paixões me apagaram esta luz bemdita, a quem pedirei eu a esmola d’outra luz, se não a Deus?

Disse bem, meu amigo: «mal d’aquelle que foge o mundo, e se refugia em si.» Não andaria melhormente avisado o naufrago que, escapado do mar alto, entendesse que o salvar-se estava em ser revessado contra os penhascos das costas. Antes prolongar a agonia na esperança d’uma vela salvadora que nos póde chamar e reanimar para maior esforço. Antes esvasiar o calix da injustiça humana, sem o repellir, esperando que o Senhor dos mundos se amercie dos seus reptis, occasionando-lhes um dos imprevistos encontros, que lá estão delineados na sabedoria divina. A solidão, sem Deus, não serve para infelizes maus. Os bons, os absolvidos por sua consciencia, refrigeram-se, convalescem, e saram no ermo; bom é, porém, que não venham aqui ungir os braços para sairem de novo á arena. O proveitoso, o melhor, o sobre-excellente é que os luctadores invenciveis da fortuna não façam timbre em se degladiarem com ella, e deixem a arena aos vencedores lacerados de uma hora, e aos vencidos manietados da hora seguinte. Dito isto, meu amigo, pergunto-lhe eu se tem horas de jantar acostumadas.

Este remate, posto com um riso de graça, fez-me rir tambem. Como eu respondesse consoante mandava a cortezia, fomos para a mesa, que era proxima da cozinha, e ficava longe, em outro pequeno lanço habitavel da casa, para onde passamos, sobre um passadiço de tabões, fincados nas soleiras de duas portas.

 

…………………….
No has visto mas?… Vuelve á la
pradera, hijo mio, por que hay en
ella cosas mas dignas de tu
atención…………………….

Dios estaba en medio de los campos.
No le has visto? A él debe la
pradera su belleza; las miradas
de Dios animabam la claridad del
sol……………………..
No has oido mas que él murmullo
de los arroyos, et gorgéo de las
aves, y el viento que mecía las ramas
de los árboles? Vuelvebe al
bosque, hijo mio, porque tus oidos
percibiran cosas mucho mas grandes

ILDEFONSO MIRANDA (Himnos de
la primera edad.)

Passaram tres dias sem me eu lembrar que era delicadeza, se não dever, despedir-me do meu gasalhoso amigo: tão dulcificante me era aquelle remançoso descanço do corpo e socego de espirito.

A minha vida aligeirava-se a conversar, meditar, e lêr, toda instructiva e de proveito, sendo que poucas horas bastam á alma para se nutrir em colmeia copiosa, como era aquella, do mel que ao depois edulçora os azedumes de largos annos.

Tinha o padre umas horas da manhã, e sobre tarde, em que evitava delicadamente a minha companhia, e se fechava em seu quarto. Na terceira tarde, estava eu á beira da lagoa onde se rebanhavam os patos, e, por entre as frondes do arvoredo, vi o padre á janella do seu quarto, com o rosto entre as mãos, e os cotovelos apoiados no peitoril, e os olhos immoveis e fitos na casa fronteira do negociante de Lisboa. Naturalmente, e não sei se até curiosamente, relancei a vista para a casa, e vi, como sempre, as janellas hermeticamente fechadas. Estive n’este reparo até ao toque das Ave Marias. Padre Alvaro levou então ambas as mãos á cabeça, tirou o solidéo, e afastou-se da janella, já com as mãos erguidas.

Á hora do chá, a mais taciturna e recolhida do padre, disse-lhe eu:

—Vossa senhoria de certo não reparou ainda no meu apêgo ás suas ruinas; creio que não, porque é bom, e sente o bem que me vê gozar. Não obstante eu devia já ter dado por concluida a minha visita, sem comtudo julgar esgotada a hospedeira bondade do meu presado amigo. Não me culpe a mim, condemne a sua affectuosa convivencia, e o mundo tambem que me não dá outro amigo como o snr. padre Alvaro…

—Onde vai dar comsigo n’esse arrazoado?—atalhou.

—Era o prologo da despedida e do agradecimento que eu estava fazendo.

—Pois fique no prologo; e se, de força, quizer entrar no discurso, reduza-o á simples confissão de que está aborrecido, e quer ir espairecer nos «cafés» de Lisboa.

—Seria a primeira injustiça que o meu amigo fizesse, pensando tal de mim.

—Então, deixe-se estar mais oito ou quinze dias. Se quizer ir á caça, eu arranjo-lhe os petrechos; se quizer dar passeios mais largos, tambem lhe arranjo cavalgadura; se tem precisão de ir a Lisboa, vá e volte; se está bem e quer estar assim, não se despeça nem me agradeça, que o mesmo é lembrar-me que sou eu o obrigado.

O veneravel velho pozera-me então a mão no hombro, e eu respondi beijando-lh’a. Chorei, e sei dar a explicação d’estas lagrimas. Lembrou-me meu pai, cuja face eu beijei no esquife ha vinte e sete annos. As ultimas palavras amoraveis d’um homem de cabellos brancos, meu pai m’as dissera. Depois, não ouvi outras, senão as do sacerdote. Ahi está a razão das lagrimas, que o santo homem viu, e me galardoou com um abraço.

No dia seguinte, sahimos pela fresca da manhã, e subimos uma ladeira de olivedos, que no topo se espalmava em hervecida chã, assombrada de grandes arvores. Em nosso alcance, sahiu a snr.a Eufemia com o almoço, e retirou com ordem de nos trazer alli o jantar.

D’aquella eminencia iam os olhos a muito longe buscar a suave melancolia que levanta o espirito. Enlevavam as lezirias com as suas manadas de gado, os grupos alvejantes de casas, as granjas dispersas na esplainada, os pomares de laranja, os olivedos, e o rumorejo confuso e indistincto das aves, dos regatos, do brando ramalhar das arvores, e da toada de vozes distantes nas veigas, que se espraiavam ao sopé e em redor do nosso outeirinho. Estavam entre as arvores umas pedras musgosas convidativas de repouso. O acaso as talhára á feição de escabello com seus encostos. O padre sentou-se na menos commoda, e disse-me:

—Almocemos aqui. O meu mais longo passeio, ha vinte annos, é até este ponto do mappa-mundi. São estas as bellezas unicas, que eu mostro aos meus raros hospedes. Esse alamo, a que o senhor encosta o hombro, plantei-o eu em 8 de Junho de 1832. Tem vinte e dous annos.

Reparei n’outra arvore proxima, e vi duas iniciaes: L. A., quasi illegiveis pela sobreposição da casca.

—E estas letras escreveu-as tambem o snr. padre Alvaro?

—Tambem.

Obrigava-me a discreto silencio a brevidade da resposta, e o recolhimento visivelmente magoado do padre. Tomei do cabaz as provisões do almoço, e accommodei-as sobre a pedra que melhor se ageitava. Fiz o chá e servi o padre, dizendo chistes, que me occorreram, tocantes aos cenobitas, moradores das brenhas, estomagos fortalecidos por fructos silvestres e raizes, os quaes não sabiam sequer da existencia do chá hysson nem do assucar, nem da manteiga de Cork, ignorada até do proprio Theocrito, Columella, e outros amantes da natureza e do leite. Se o leitor não acha sal n’estes ditos, o padre tambem lh’o não achou. De instante a instante fez-se noite n’aquelle aspecto, um quarto de hora antes claro e aberto ao contentamento interior.

—Que tristeza é essa?!—perguntei.

—A tristeza do homem, que não póde ser anjo—respondeu elle, trabalhando por reprimir as lagrimas.

De maneira dizia elle estas breves respostas, que eu não sabia replicar, nem consolar.

Aquelles minutos do almoço correram assim tristonhos, e terminaram, tirando o padre do fundo do cabaz dous livros: um era o breviario da sua reza, o outro era um romance… Um romance! e, de mais, um romance denominado VOLUPTÉ, Voluptuosidade! isto oferecido pelo homem de Deus, pelo vaso de eleição, pelo santo, cuja mão eu beijei hontem com fervor d’um catechumeno inflammado por um raio de graça, que a oração do justo me trouxera do céo! A voluptuosidade de Sainte-Beuve, aqui, n’este sitio, ao pé do livro de Job, do rei penitente, dos dictames do Espirito Santo!…

Acceitei o livro, e li, no prefacio, estas linhas:

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

«Entende o editor d’esta obra que as pessoas nimiamente escrupulosas, acaso espavoridas pelo equivoco titulo que ella tem, pouco perderiam, em verdade, não lendo um escripto cuja moralidade, por mais grave que ser possa, só diz respeito a corações menos puros e menos despreoccupados. Ao revez, pelo que toca ás pessoas, convidadas justamente pelo titulo que repelle as outras, essas, não achando no livro o que desejam, não ha que temer o derrancarem-se.»

Fui folheando e salteando os capitulos, e os relanços da obra que mais brevemente podiam ensinar-me o enredo da historia. Comprehendi-a toda em trinta minutos de leitura. É um homem que amou, e cobriu com a mortalha de levita a mulher que amara e perdera. É a analyse minuciosa e pungente d’uma paixão; e poderia tambem ser instructiva a analyse, se o espectaculo das agonias d’um naufragio fosse causa a gelar de terror os futuros navegantes e deixar rugir o oceano sósinho com os seus furores.

Fechou o padre o seu livro, e eu continuei a lêr.

—Sainte-Beuve escreveu esse livro em fórma de carta a um amigo—disse o padre—Se o senhor tivesse em mim um amigo, capaz de escrever com profundeza e graça, e me pedisse conselhos, eu mais quizera ter-lhe escripto este romance que o «Manual d’Epicteto» ou a «Imitação de Christo.» Ahi verá o philosopho, o sabio, o mundano, o penitente, o christão, e o martyr, se quizer. E sobre ser tudo isto, é ainda mais, é o homem. Quão raros são os livros que bem definem o homem, a não ser o de Job: Homo natus de muliere…, repletus multis miseriis «homem, nascido da mulher, acervo de miserias sem conto.»

—Poderei fazer uma pergunta, sem preambulos, que m’a desculpem?—atalhei eu.

—Porque não? faça.

—Entre o senhor padre Alvaro Teixeira, e este homem que veio cingir os rins n’um claustro das margens do Tejo, ha uma dôr commum, não ha?

—Ha uma dôr igual, um mesmo calvario,—perdôe-me a profanidade—mas as veredas muito differentes.

Após o silencio de alguns segundos, que eu não ousei quebrar com alguma pergunta melindrosa, o padre, erguendo a face inflammada, com a luz dos olhos estranhamente viva, disse n’um impeto de espirito:

—Hei-de mostrar-lhe algumas datas que tenho assentadas n’um livro. Não é auto-biographia, nem romance simulado com suppostos nomes, nem «Memorias» ambiciosas de futura vulgaridade. São cauterios applicados á chaga ínsanavel… Ha-de lêr os meus papeis.

—Mereço eu tanto?!—disse, sentindo-me vaidoso da confiança, e lisonjeado na minha cubiçosa curiosidade.

—A leitura do meu livro não paga merecimentos de quem quer que seja, nem sequer é uma lição nem um bom exemplo: é a parte d’um dia, menos fastidioso, que eu dou ao meu hospede. Lerá esta tarde.

Esteve-se em meditação o padre, sem desfitar os olhos do alamo e das letras, e continuou depois d’este theor:

—Se a não tivesse escripto, contava-lhe a minha vida. Tinha precisão d’este desafogo. Digo-a a cada noite que Deus manda com os seus silencios para m’a ouvir. Repito-a a cada aurora, que se aclara, não já para mim, que só espero vêl-a despontar além da sepultura. É natural este desejo de infelizes que se querem lastimados na sua dor. Esse mesmo desejo tenho submettido ao jugo de todos os outros. Nunca fallei do homem que foi aos que a mera curiosidade tem aqui trazido a ver o homem que é, em sua mesma obscuridade, um segredo estimulante de ociosos. A parte essencial da minha vida sabem-na muitos, e eu não sei quantos romances por ahi correm á conta dos meus soffrimentos. Sei que os velhos da minha creação me chamam «romantico» ou «tolo» que monta o mesmo. D’esses alguns não quizeram envelhecer ainda, e a cada passo os encontro em Lisboa, como os lá deixei ha vinte annos, gentis, perfumados, galãs, viciosos, e salvando-se da irrisão com o pouco cabedal que fazem da sua mesma dignidade. Outros avelhentou-os o mesmo vicio, e de crêr é que me julguem por si, ao verem-me assim encanecido. Haverá algum que me leia no coração e desculpe das injustiças dos outros; esse, porém, não me perdoa o feio envez em que eu espontaneamente voltei uma vida, que principiára mostrando uma face agradavel, e esperançosa de todos os bens que se tomam em conta de melhores n’este mundo. E assim é que tenho vivido e morrido só commigo, e affeiçoado aos que me lastimam e aos que me escarnecem. Uns e outros erram sem vontade. Na sociedade, em que elles medraram e se acreditaram, sou e devo ser aquillo que de mim pensam: um exquisito, que se goza das suas singularidades; ou um martyr excruciado por sua infeliz e dissociavel imaginação. Hypocrita é de presumir que me não taxem, porque a hypocrisia tem n’este mundo a sua ganancia, e elles bem sabem que eu nada tenho ganhado, nem solicitado. Isto, que vou dizendo, tem sombras de defeza propria, não tem, meu amigo?

—De defeza, não me parece, senhor padre Alvaro!—respondi—Quem é que o accusa? Escarnecer ou lastimar não é accusação. O que eu entendo das palavras de vossa senhoria é que perdoa aos baixos espiritos, que se querem levantar para avalial-o, e resvalam á lama.

—Não tanto—replicou sem embiocar a caridade—Sejamos generosos e até piedosos com as almas remissas e afrouxadas na trabalhosa fabrica das posições, das honrarias, dos bens da fortuna, da immortalidade e da perpetuidade dos seus nomes na riqueza e gloria herdada á sua descendencia. Entre estes, que muito é ser eu olhado como inutil, como o menos previdente dos tres a quem o Senhor distribuiu os talentos? O sacerdocio é havido como officio, e o sacerdote que não cura sequer de agenciar uma murça, ou uma abbadia rendosa, é um inhabil, que retrocedeu pela estrada obscura ao tempo escuro da religião. Que ha-de dizer a gente illuminada, segundo o tempo, d’um homem, que foi abastado, que se fez padre antes de ser pobre, e que empobreceu, e não cuidou de voltar a si com artes infalliveis o bom rosto da fortuna, e nem sequer escassamente soltou uma palavra de queixume contra os ingratos?

—Deve dizer—respondi commovido—que homem, que tal fez, é um dos escolhidos de Deus, um exemplo, e uma gloria da especie humana.

—A especie humana não dá fé de glorias tão baratas, meu amigo. Eu tive alguns annos de homem social e amoldado ao feitio vulgar. Pois saiba que se a mim me perguntassem então o que eram glorias da especie humana, eu apontaria Cesar, Alexandre, João de Castro, Colombo, Vasco da Gama, Camões, e os outros que escreveram para sempre os seus nomes no padrão d’um mundo novo descoberto, na pagina d’um livro, ou na lamina d’uma espada. Se me lá fossem dizer que aqui nos «Olivaes» vivia um padre, que nem sequer escrevera os sermões de Vieira, ou as «Orações funebres» de Bossuet, eu de certo responderia com um sorriso desdenhoso á admiração de quem me viesse fallar em tão pêcas glorias da especie humana.

A conversação prolongou-se n’este sentido até horas de jantar.

Jantamos.

Não quero que o leitor diga que ninguem sabe o que comem e quando comem os heroes dos meus romances. Eu tenho a sinceridade de fazer comer, com vulgar semceremonia, não só os heroes de más manhas, mas ainda os santos, como o padre Alvaro.

 

Ibit homo in domam œternitatis suœ
Irá o homem para a casa da sua eternidade.

ECCLES.—12. 5.

Na tarde d’aquelle dia chamou-me o padre para junto de si, diante da mesa em que escrevia. Abriu uma das quatro gavetas da escrivaninha, e tirou um grosso volume de papel almaço, encadernado em papelão, sem alguma outra cobertura.

—Ahi tem—disse entregando-me o livro—Leia, como quem lê um romance de historia authentica, escripto por pulso não vezado a escrever novellas. Ahi vai o coração do seu amigo, a cinza das flôres de vinte primaveras, flôres que se abriam já queimadas, porque o bolbo de cada uma rebentava já doentio da venenosa rega das lagrimas.

Lembra-me que recebi das mãos do sacerdote o livro com o respeito do acolito ao receber o evangelho das mãos do celebrante. Póde ser que na minha reverencia houvesse menos ceremonia de ritual e mais religiosa devoção.

Recolhi-me ao meu quarto, e juro que me tremia a mão, quando abri o livro. Na primeira pagina, li este dictame de Isaias:

Ingredere in petram, et abscondere fosso humo

Quer dizer:

ENTRA NA SEPULTURA, E SOME-TE NA TERHA D’ESSA
COVA.

E mais abaixo o verso do psalmo 117:

Non moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini.

Póde assim trasladar-se em vulgar:

NÃO MORREREI; TEREI VIDA PARA NARRAR AS OBRAS DO SENHOR.

A fórma da narrativa é em divisões de annos, mezes e dias. Alguns capitulos estão incompletos, e d’estes vi uns poucos suspensos em conjuncções, ou n’uma virgula. O dizer é singelo, familiar, mas correcto e sempre puro na linguagem. Rara é a pagina com emenda ou entrelinha. De vêr é que fallava o coração, e que as suas primeiras palavras eram as mais expressivas, e respondiam fielmente ao pensamento.

Na primeira tarde poucas paginas li: tão detidamente as ponderava e relia. Entrei por noite alta com a leitura, e apaguei a luz, já quando a do sol me dispensava da outra.

Conhecia já Alvaro Teixeira de Macedo desde os dezeseis até aos seus vinte e sete annos. Isto me bastava para eu não poder sujeitar á modestia do levita os raptos da minha admiração, que melhor se entendera por idolatria.

O escripto dispensava os commentarios do author. Não pedi elucidação, nem promenores. Era tudo claro e minudencioso como historia escripta de hora a hora, entre lagrima e lagrima, com o coração na humanidade, e a consciencia em Deus.

Ao oitavo dia, fechei o manuscripto, e fui restituil-o ao padre. Não cheguei a dobrar o joelho, quando me elle tomava das mãos o livro; mas o coração pesava-me como para cahir e humilhar-se aos pés d’aquelle justo. Conheceu-o elle, e abriu-me os braços, e apertou-me ao seio, balbuciando commovido do meu embaraço:

—Tem o meu segredo: não abracei ainda outro seio que o tivesse. Diga-me agora: que aproveitou?

—Aprendi a conhecer a magestade do ultimo ser da creação. Assim, sei agora, o que não podéra ainda perceber na sagrada escriptura: «que Deus fizera o homem á sua imagem e semelhança.»

—E viu que o barro do homem se recoze ao fogo da desgraça…

—E d’essa depuração ao fogo lento, vi eu tambem que sahia o anjo…

—Pouco aprendeu…—replicou o padre—Eu queria mais que tudo isso… Queria ensinal-o a ser paciente, quando for desgraçado. Não lhe posso dizer mais singelamente o resumo de tudo que leu, nem lhe darei, se m’o pede, e mesmo se m’o não pede, mais encarecido conselho. Paciencia, é a arma, é o triumpho, é a porção divina do homem, é a bemaventurança. A padecer é que os olhos da alma se destoldam, e encontram os de Deus. Padecer é a quebra, a falha irremediavel e commum; resignar-se é a perfeição. A virtude, que todos alcançam, se a querem, é dar largo e por igual a amigos e inimigos, uns o seu ouro, outros as suas luzes, outros o seu braço, e o seu descanço. A virtude dos raros, a maxima virtude, a mais edificativa, é soffrer sem amaldiçoar, no asco da pobreza, no desamparo do descredito, na ignominia de não ter um amigo. Isto ninguem o vê, ninguem o admira, ninguem o vulga aos respeitos publicos. E que vai n’isso? Basta-me Deus. Não posso duvidar que elle me está vendo. Sinto-o no repouso da minha consciencia. O coração está passado de dores, o espirito conturba-se de angustias, a noite não acaba no termo de vinte annos. Assim é; mas que importa. Basta que a consciencia me diga: «não devias padecer, porque és bom.» Quando o homem que soffre se diz isto a si, é Deus que lh’o diz. Esta é a altissima rocha que vê em baixo as tormentas a fremir-lhe na base. Este é o berço providencial do menino, lançado ás ondas, e mandado buscar por Deus, para contar ao mundo os seus primeiros dias. Esta é a arca do justo, a caverna dos leões inofensivos, o post tenebras spero lucem de Job.[1]

Vá o meu amigo escutando com boa sombra estes «Exercicios espirituaes» com que eu principio a ensaiar a sua paciencia. Isto lhe ha-de acontecer mais vezes, porque é vêzo padresco entrar de vontade pelas homilias, quando o auditorio lhe não dá campo para prégar, e até para passear desassombradamente.

Veio a senhora Eufemia cortar-me a resposta. Trazia ella uma carta chegada de Lisboa. Padre Alvaro enfiou ao lêl-a; mas a pallidez habitual voltou, passados instantes. A perseverante desgraça já lhe havia dado pulso de ferro para sofrear os impetos do sangue.

—Vou hoje de tarde a Lisboa—me disse elle, placido e triste—Se quer ficar, e esperar, meu amigo, cá fica a boa Eufemia para cuidar de si. Se quizer vir tambem, e lá ficar, fique; e, se prefere tornar para as ruinas, mais contente voltarei.

Fui com o padre para Lisboa. Sem elle, a solidão dos «Olivaes» ser-me-ia dolorosa.

Separamo-nos no Rocio, onde apeamos do carro que nos transportou de Santa Apolonia. O padre disse-me a sua pousada, e eu fui para a minha hospedaria. Procurei-o no dia seguinte: estava elle a ponto de sahir para o convento de religiosas de Santa Martha. Opportunamente saberá o leitor o que elle ia fazer duas vezes em cada dia ao convento de Santa Martha.

Vinte dias, ou mais seria, acompanhei padre Alvaro Teixeira até ao pateo do convento, e d’alli a sua casa. N’este breve termo, o semblante do homem das dores declinou rapidamente para a lividez e magreza cadavericas. As ultimas idas ao mosteiro fêl-as de sege, e ahi mesmo tinha syncopes que o extenuavam a ponto de uma vez o levarmos em braços da sege a uma grade, onde o esperava uma senhora muito idosa, de veneravel aspecto, a quem o padre chamou prioreza. De relance, vi que esta, senhora estava soluçando e limpando as lagrimas, quando entramos na grade.

Sahi logo com o boleeiro, que me ajudara a amparar o meu amigo; mas ainda ouvi estas palavras da religiosa: «Acabaram-se os seus trabalhos.»

Ao toque de Ave-Marias fui chamado pela porteira do convento, e esta me disse que o senhor padre Alvaro me pedia a esmola de lhe ir dar o meu braço para se elle encostar. Maravilhei-me da reanimação em que o achei; mas conheci logo que era excitação de febre. Nada lhe ouvi durante o transito. Levava, como da primeira vez que o vi, as mãos encruzadas sobre o seio, e as palpebras descidas como se quizesse esconder de mim as lagrimas, que eu bem via estancadas nas rugas, á semelhança das que regelam na face d’um cadaver.

E eu, que não podia enganar-me no motivo d’aquella afflicção, tão absorvido ia, e tamanha parte quinhoava n’ella, que não tive uma palavra só de lenitivo, que lhe dissesse!

Parou a sege.

Saltei para amparar o padre na descida.

—Tenha a bondade, me disse elle, sem mover-se, de subir ao terceiro andar, e dizer ao dono da casa, que tenha a paciencia de vir aqui fallar-me.

Subi, e desceu commigo o dono da casa, ao qual o padre disse o seguinte:

—Meu amigo, não tenho mais que fazer em Lisboa. Vou para os «Olivaes» agora mesmo, se o boleeiro quizer fazer a jornada de noite. Escuso dizer-lhe que está com Deus a pobre senhora. Agora é erguermos as mãos em acção de graças aquelles que a conhecemos. Eu cá me vou avisinhando das minhas ruinas como o reptil, ferido de morte, da conhecida caverna, onde se quer sósinho com as suas agonias. Dê-me a sua mão de amigo, e adeus.

Voltou-se para mim, e disse-me:

—Quando eu lhe escrever, a pedir a sua companhia, vá ter commigo, se o poder fazer sem custo.

—Pois não me quer comsigo agora?!—atalhei.

—Não, por ora não. Estes primeiros dias não podem ser repartidos nem consolados por ninguem.

Beijei-lhe a mão, que transpirava um suor rescaldado.

—Queira perguntar ao boleeiro se me leva aos «Olivaes»—ajuntou elle. Levei-lhe a resposta affirmativa, e a sege partiu, a passo rapido.

Fiquei conversando com o amigo do padre.

—Não o tornaremos a ver—disse-me elle consternado—Padre Alvaro não vive muitos dias; o senhor verá. Eu d’antes, quando o via desconfortado e com signaes de pouca vida, dizia-lhe:—«lembre-se d’aquella infeliz, que não tem mais ninguem no mundo.» Parece que isto lhe dava alma nova! Agora, não ha nada que o prenda á vida, senão o sofrimento…

—Mas eu cuido—interrompi—que o padre Alvaro ha-de achar sempre na sua vida occasiões de ser util a muitos outros desgraçados, embora se ofereçam com titulos menos valiosos á sua beneficencia. Em quanto houver um homem que lhe peça conselhos, esmolas, ou intercessão com Deus, o padre, qual elle é, não póde julgar terminada a sua missão n’este mundo.

—Essas conjecturas são conceituosas, e de bom juizo—redarguiu o sujeito—mas os negocios do coração alheio correm de modo muito diferente das nossas razões, pensadas, a espirito socegado, embora nos doam os infortúnios do nosso amigo.

E ficamos concertados a mandar no dia seguinte saber novas do nosso amigo.

O portador não nos trouxe resposta á carta. A snr.aEufemia hesitara em levar-lh’a á camara, onde se elle fechára; fôra por fim; mas voltara sem resposta, ou promessa de responder, quando podesse.

Decorrera uma semana em esperanças, até que um dia o amigo do padre me procurou para me dizer que a velha Eufemia lhe escrevera, dizendo-lhe que o seu amo estava em perigo de vida. D’alli partimos no mesmo ponto para Santa Apolonia, e de lá para os «Olivaes».

Estava o sacerdote sentado n’uma poltrona, junto á janella que olhava para o palacete fronteiro do negociante de Lisboa. Deu-nos as mãos, que cada um de nós aproximou dos labios. Respondeu a esta reverencia com um sorriso, e estas palavras pausadamente pronunciadas:

—O martyrio, que se alcança com as paixões da terra, tem tambem a sua santificação. Os meus amigos igualam-me nos seus respeitos a um S. Francisco de Sales ou Vicente de Paula…

—Esse sorriso abre-se em luz de esperança para os seus amigos, senhor padre Alvaro—disse-lhe eu.

—E eu me congratulo na esperança dos meus bons amigos. Tambem vejo a luz, que illumina e abraza… Ardere et lucere[2] Padeci muito, e esperei muito d’estas horas finaes. Misérias e oppressões de uma longa vida aqui se acabam: Miser factus sim ego, et curvatus sum usque ad finem[3]. Curvado o corpo, sim, que o desconcerto total d’esta fragil machina é a repellões de dôr; mas a alma folga, e sorri no extremo dia: Ridebit in die novissimo[4].

Estas vozes extenuaram-no como se fossem um desafogo vehemente. O meu companheiro disse abundancia de palavras que, a seu juizo, deviam refrigerar o afogo febril do enfermo. Eu não tinha alguma fé nas consolações d’elle, e menos ainda nas minhas. Assisti silencioso á perdoavel verbosidade de um, e ao recolhimento offegante do outro.

Fallou-se em ir buscar medicos a Lisboa. O padre sorriu-se, encarando no amigo, que propozera a consulta.

—Medicos!…—murmurou elle—O caixão… Mortalha cá está esta…

Dizia, tomando em ambas as mãos convulsas as abas da batina. Ao fim da tarde, pedimos que se recolhesse á cama, e elle respondeu, fitando os olhos no céo:

—D’aqui vejo melhor a patria; mas a hora não chegou ainda. Já era muito esperar… O Senhor é piedoso com os que não desesperam, e com os pacientes. Espero… e, posto que padeci muito, não direi como o néscio: «minha alma descança, que possues muitos bens»[5]. Eu espero tudo da misericordia Divina.

Proseguiu fallando a intervallos, e até alta noite não consentiu que fechassemos a janella.

Pernoitamos ao seu lado, e vimol-o dormir duas horas serenamente. Palpei-lhe o pulso, e senti-o refrigerado e sem ponta de febre. Cobrei esperanças, contra o parecer do meu companheiro de vigilia.

Ao repontar da aurora, o padre olhou em nós ambos, e disse em tom compadecido:

—Caro tributo paga a amisade!… Vão deitar-se, meus amigos. Estou melhor. Digam á minha criada que vá chamar o parocho.

Fui dar as ordens, e voltei ao quarto, d’onde sahi, quando entrou o prior.

Durante o dia conheci que as minhas esperanças eram desmentidas por desfallecimentos e agonias passageiras do enfermo. A criada chorava alto a cada accidente, e eu via, no semblante contrahido do meu amigo, quanto o pungiam aquelles gritos. Pedi á criada que reprimisse o choro, e ella respondeu-me:

—O senhor talvez não saiba que eu criei aos meus peitos esse santo que está a morrer!…—E lançou-se de joelhos a orar em voz alta. Curvei-me diante d’esta dor, e adivinhei as angustias d’aquella mulher através dos ultimos vinte annos.

Ao fim da tarde, foi ungido o moribundo. Quizemos então quasi de força passal-o á cama: não o conseguimos.

—A morte é suave em toda a parte. Aqui adormecerei. Dulcis est somnus soperanti[6]—disse elle.

E, fitando no azul do céo os olhos embaciados, continuou:

—O céo da minha mocidade! Assim era n’aquellas noites de tanto e tão puro amor! A serenidade da natureza, e as agonias da creatura! Só o homem se dóe do homem, e Deus de todos. As creações sublimes do universo olham todas para o seu Creador, e não sabem como morre o reptil, nem quando despega da arvore a folha secca.

Vinham ditas com cançasso e violencia estas palavras. Pedimos-lhe que não fallasse, e elle apoiou a barba no seio, e cruzou as mãos, murmurando vozes imperceptiveis.

As onze horas da noite, estremeceu o agonisante na cadeira, e estirou os braços convulsivos. Pensei que era o extremo estertor. Volveu, porém, á sua quietação, e viu-me de joelhos, com as mãos apoiadas nos seus joelhos. Pôz-me no rosto a mão, e disse:—Beati qui lugent[7].

Soaram as doze horas n’um relogio de parede. O padre parecia contal-as, por um movimento nervoso dos labios. Tinha cahido a ultima pancada, e elle disse:

Media autem nocte clamor factus est: ecce sponsus venit[8].

Ergueu as mãos em oração, inclinou a cabeça para o espaldar da cadeira, e suspirou. Cuidei que elle ia adormecer, quando vi calarem-lhe lentamente as mãos por sobre os braços da cadeira.

Era aquelle glacial dormir, que espera novo dia annunciado pelo anjo do ultimo juizo.

Ajoelhei de novo, e disse:

—Santo! pede a Deus por mim, e por todos os infelizes.

[1]Espero a luz, depois das trevas. Cap. VII, v. 12.

[2]S. João—5. 35.

[3]Psal. 37—7.

[4]L. dos Prov. Cap. 31. 25.

[5]S. Lucas—12. 19.

[6]É suave o dormir a quem trabalhou.

[7]Felizes os que choram.

[8]Ouviu-se á meia noite este grande clamor: é chegado o esposo. S. Matheus. 25. 6.

FIM DA INTRODUCÇÃO.

 

I

Grande, très-grande révélation. Ce
n’est pas ici un vain spectacle d’art et
de sensibilité, simple volupté du cœur
et des yeux. Non, c’est un acte de foi,
un mystère

MICHELET (La Femme.)

Alvaro Teixeira de Macedo nasceu, em Lisboa, no anno de 1813. Foi seu pae um commerciante rico, bastardo d’um fidalgo da côrte.

Cresceu Alvaro, e nunca seus labios proferiram a palavra mãe, nem tinha o coração memoria d’ella. Entrou n’um collegio. Ahi, ouviu de seus companheiros aquella dulcissima palavra, como grande parte e incentivo das saudades d’elles. Dizia um «minha mãe recommenda-me, que estude muito, que me ha-de levar á feira do Campo Grande», outro, repartindo confeitos ou amendoas pelos condiscipulos, dizia: «foi minha mãe que m’as mandou»; este escrevia a sua mãe, pedindo-lhe que o mandasse buscar no sabbado; aquelle chorava e adoecia de saudades de sua mãe.

Alvaro devia acreditar que a sua tinha morrido; mas ninguem lh’o dissera; nunca seu pae, nem sequer sua ama lhe fallaram em mãe.

Estava de ferias em casa, e tinha nove annos, quando perguntou a Eufemia, sua ama de leite, porque não lhe tinha fallado nunca de sua mãe. Eufemia, atalhada pelo repente da pergunta, tartamudeou algumas palavras, que exprimiam o em baraço d’ella, suspeitoso á precoce esperteza de Alvaro.

—Vou perguntar a meu pae—disse elle.

—Ora!—acudiu a ama—para que ha-de ir o menino fazer essa pergunta a seu pae?! Não queira saber d’essas cousas.

—Então que tem?!—tornou Alvaro, cada vez mais enleado, e curioso como creança—Eu havia de ter mãe por força, não é assim?

—Isso é; mas…

—Mas quê?

—E se ella morresse!?…

—Se morreu, é outra cousa… Então diga-me que morreu. Morreu ou não?

—Está bom, menino; deixe-se de querer saber o que não lhe importa—disse, em conclusão, a perturbada ama, fugindo a novas perguntas.

Manoel Teixeira, pae de Alvaro, queria do coração ao seu filho unico. Amimava-o n’aquella idade como no berço. Parecia crescer o amor á proporção que as feições do menino se iam compondo, retrato fiel das suas.

N’esse mesmo dia de inquietação para a boa Eufemia, estava o menino sentado nos joelhos de seu pae, que lhe anediava os cabellos, e aparava as unhas.

—Ó papá—disse Alvaro com um gesto carinhoso—a minha mãe já morreu?

Manoel Teixeira ficou por um pouco tempo suspenso; mas continuou a aparar as unhas do menino, e disfarçou a resposta com algumas perguntas concernentes ao collegio.

Estava Alvaro a ponto de sahir do gabinete de seu pae, e, como levado de providencial impulso, retrocedeu, e disse:

—O papá não me disse se a minha mãe morreu…

—Morreu—disse seccamente o pae.

Foi o primeiro gesto de enfado que viu Alvaro no rosto d’elle, sempre de riso e meiguice.

Contou o menino este caso á ama, e esta, profundamente magoada, disse-lhe em ar de reprehensão:

—Não lhe disse eu que não fizesse taes perguntas?

Tornou Alvaro para o collegio, e contou innocentemente a um dos mestres, que mais seu amigo era, o que passara com a ama e com o pae. Ficou o mestre admirado do acontecimento, e entendeu de si para si que Alvaro era filho natural do capitalista, e póde ser que da propria criada, a quem elle chamava ama. Estas desconfianças não eram boas para serem communicadas aos nove annos do collegial, e calou-se com ellas o mestre. O menino, porém, não fallava n’outra cousa, e instava por esclarecimentos, até que uma vez o mestre, mal assombrado, lhe disse:

—Estude, Alvaro; não lhe importe saber o que não lhe é necessario.

O alumno mais estudioso do collegio fora Alvaro até áquelle dia. Maravilhava o pae e os mestres com o seu adiantamento, e cuidado em aproveitar o natural engenho. De repente, com igual admiração dos mestres e do pae, o mais descurioso e desleixado do estudo era Alvaro; mas tambem, ao mesmo tempo, o mais triste e recolhido dos seus condiscipulos.

Manoel Teixeira, informado d’isto, sentiu a tristeza do filho e deu medíocre apreço ao desgosto dos mestres, no tocante a estudo. O negociante não; queria que seu filho seguisse as letras, nem se gloriava de procrear um talento. O que elle desejava era dar-lhe um verniz de boa sociedade, e habilital-o para casar com uma sobrinha sua, morgada rica, da linha paterna, menina que teria dez annos n’esse tempo. Entrava n’isto por muito o orgulho do bastardo, que pelos degraus da riqueza conseguira hombrear com os filhos legitimos de seu pae, e acudir-lhes, por orgulho tambem, nas crises fidalgas em que se elles viam apertados, no dia immediato á noite do jogo, ou do baile, ou dos casamentos e natalicios da côrte.

Decorreram tres annos. Quiz Manoel Teixeira, n’este espaço de tempo, por muitas vezes tirar o filho do collegio, á conta de magreza, de fastio, de doença, e de mil causas que inventa um pae extremoso. Alvaro resistia á ternura paternal, pedindo que o deixasse estar no collegio, onde se affeiçoára ao seu quarto, aos seus mestres, e a alguns condiscipulos, de quem o separar-se lhe seria muito penoso.

Tinha Alvaro já doze annos. Os tres ultimos, mal aproveitados nos livros, fructearam temporãos em discernimento e porte varonil. D’entre os professores, aquelle que muito o estimava e conversava, tinha-o em conta de homem, e como a homem lhe fallava. Por vezes, em intima pratica, relembravam aquella instancia de um, acerca de sua mãe, e a resposta enfadosa do outro. Notou, porém, o mestre que estas recordações traziam tristeza mais sombria para o alumno, e abstinha-se de revivel-as. Que montava isso, se Alvaro não podia esquecel-as, nem o mestre desconhecer a origem da melancolia do discipulo!?

—O senhor Alvaro está homem no espirito;—disse-lhe um dia o seu affeiçoado mestre de inglez—vou dizer-lhe o que não quiz explicar á sua ignorancia dos nove annos, quando o senhor me pedia esclarecimentos ácerca de sua mãe. Presumi eu n’aquelle tempo que seu pae tinha alguma forte, ou pelo menos desculpavel, razão para não lhe dizer quem era sua mãe. Bem podia ser que o menino fosse filho de uma das criadas de seu pae, ou mesmo ainda de uma senhora, cuja reputação corresse risco de ser manchada. Creio que me comprehende…

—Manchada… por que?—disse Alvaro.

—Por ser sua mãe.

—Por ser minha mãe!… Não entendo!…

—Assim me quer parecer; mas eu lhe aclaro a escuridade. Honram-se de serem mães, e o mundo honra aquellas mães, que estão ligadas por um sacramento aos paes de seus filhos. Agora de certo me entendeu.

Alvaro fez um gesto afirmativo, e disse:

—E minha mãe não estava assim ligada a meu pae?

—Era isso que eu cuidava; mas, estimulado tambem da sua curiosidade, pedi informações, que obtive logo, e já podéra ter-lh’as revelado, se as julgasse d’alguma utilidade, ha mais de dous annos. Vou agora contar-lhe o que sei de sua mãe. Conheço a causa da sua tristeza: é ella. Esse seu amor vago de filho tem influxo do céo. Alguma cousa quer Deus que se esconda n’esse amor; e a minha consciencia manda-me fallar.

Seu pae casou ha quatorze annos com uma senhora de rara formosura e rica, filha d’um negociante portuguez em Macáo. Maria da Gloria é o nome de sua mãe.

Os olhos de Alvaro reluziam, e a purpura do rosto inflammava-se á medida que o professor ia rompendo o véo que, para assim dizer, lhe velava um novo mundo de affectos, de sentimento, de esperanças, e um destino imprevisto.

Continuou o mestre:

—Seus paes viviam extremamente felizes, e o menino nasceu ainda na época da felicidade. Tinha Alvaro alguns mezes, quando sua mãe sahiu da companhia de seu pae, para, volvidos alguns dias, entrar n’um convento da provincia do Minho, onde vive agora. Não me peça esclarecimentos que não posso dar á sua idade, nem os daria ao seu pundonor, se o senhor Alvaro, em vez de doze, tivesse vinte e quatro annos. Fique sabendo que sua mãe é viva.

Foram as breves e ultimas palavras que o mestre lhe disse a tal respeito.

Alvaro não respondeu, de confuso que devia naturalmente ficar. A educação, a convivencia de moços como elle innocentes, a ignorancia das novellas que ensinam o espirito a tirar, por comparação, os vicios reaes da desnudez dos vicios imaginarios, eram causa a serem de todo o ponto mysteriosas para Alvaro as razões que haviam levado sua mãe a um convento, de modo que seu pae a tinha em conta de morta, e queria que seu filho assim a julgasse.

Foi Alvaro, de vontade sua, passar alguns dias a casa. Fez especie em Manoel Teixeira a extraordinaria vivacidade do moço. Folgou com a mudança, e foi agradecer aos professores, e especialmente ao mais amigo de seu filho, as melhoras do pequeno. De feito, Alvaro estava preoccupado de uma idéa que lhe dava novos espiritos.

Estava elle, um dia, em conversação acintemente promovida com Eufemia, e encaminhada ao ponto de lhe dizer:

—Quem me dera vêr um retrato de minha mãe!

Eufemia fitou os olhos n’elle, abraçou-o, beijou-o, como quando o tinha ao peito, e, entre lagrimas e soluços, balbuciou:

—Se a visse!…

—Ella de certo morreu, minha Eufemia?—tornou elle, acariciando-a—Falle a verdade… Não minta ao seu Alvaro!…

—Para que me faz essa pergunta, menino Valha-me nossa Senhora dos Remedios! Deus me não salve, se eu sei o que lhe hei-de dizer.

—Diga a verdade, que é o mais agradavel a Deus.

Eufemia quiz fugir; Alvaro susteve-a pela saia, e acrescentou:

—Venha cá, sente-se aqui, e responda-me, se é minha amiga: Porque está minha mãe n’um convento?

—Santo nome de Jesus!—exclamou Eufemia, levantando as mãos á cabeça—Quem lhe disse isso, menino?

—Que lhe importa a vossemecê saber quem m’o disse? É isto verdade? É, sei que é; o que eu lhe pergunto é a razão por que minha mãe não está n’esta casa.

—Senhor Alvaro, se continua a perguntar-me cousas assim, eu vou-me embora d’esta casa—replicou a ama com resolução feita de sahir.

—Está bom—redarguiu Alvaro—não se afflija, que eu não fallo mais n’isto; mas prometta de não dizer a meu pae nada.

—Eu, menino! Eu cahia lá n’essa! Tomára eu que elle nem por sonhos se lembre de que o senhor Alvaro me disse taes palavras!…

N’um dos proximos dias, Manoel Teixeira de Macedo, tinha sahido apressadamente, e deixára aberta uma gaveta cuja chave nunca lhe esquecera.

Alvaro entrou no escriptorio, e reflectindo disse entre si:

Não haverá aqui alguma cousa que me falle de minha mãe?

E diz elle no seu livro, por estas ou consentaneas palavras, que ouvira uma como voz do céo que o mandava abrir a gaveta da escrivaninha.

A tremerem-lhe as mãos, abalançou-se o moço ao que nunca se atrevera a fazer. Viu uma caixa de velludo encarnado, com fechos de prata. Abriu a caixa: era um retrato de mulher, sobre marfim.

—Será?—disse elle—«Senhora de rara formosura» me disse o mestre; e esta é tão formosa!…

Entrou de golpe Eufemia no gabinete particular de seu amo, e, como visse Alvaro ao pé da mysteriosa gaveta, com um retrato na mão, correu para junto d’elle, dizendo:

—Que está a vêr o menino?

—E de minha mãe este retrato?—respondeu elle sem turbação.

Eufemia, apenas lhe relanceou os olhos, exclamou:

—É, é; mas, pelo amor de Deus, não esteja aqui, metta o retrato na gaveta, de modo que seu pae não dê fé. Venha, venha commigo, menino!

—Não vou,—disse elle com firmeza—n’esta gaveta é que está o segredo que a Eufemia não quer contar-me. Hei-de procurar entre estes papeis alguma carta de minha mãe.

Eufemia espantou-se e assustou-se da gravidade inabalavel d’aquella resposta.

—Feche a gaveta, que eu prometto contar-lhe tudo—disse ella—Venha depressa, que eu ouço passos… E o paesinho que vem…

Não era; mas o medo figurava horrores na cabeça da pavida mulher.

Alvaro sahiu, depois que repoz o retrato no seu lugar, com tal cautela, que não podia denunciar mão estranha.

—Conte-me agora o que souber—instou elle com a ama.

Eufemia oscillou ainda; mas, obrigada por um gesto de justa severidade com que Alvaro censurava a hesitação, disse o seguinte:

—A razão por que sua mãesinha foi para o convento… ainda que eu lh’a diga, o menino não a entende.

—Mas diga, e depois me explicará, se eu não entender.

—Olhe, o seu pae foi a Macáo receber a herança de sua mãe, que era de lá…

—Já sei.

—Sabe?! quem lh’o disse? Credo! Aqui parece que anda bruxaria!

—E depois?

—Seu pae, quando voltou, passados dias mandou sua mãe para um convento…

—Na provincia do Minho, já sei tambem; mas isso não é o que lhe pergunto: o que eu quero é saber porque foi.

—Foi porque assacaram uma calumnia á sua mãesinha. Agora já sabe… Deixe-me, menino, por piedade lhe peço que me deixe.

—Calumnia! que calumnia!?… Então é isso o que me prometteu, Eufemia?

—Sabe que mais, senhor Alvaro?… quem lhe disse o que sabe, que lhe diga o resto…

Eufemia sahiu da beira de Alvaro, e foi, a correr como douda, refugiar-se no seu quarto, e pedir a Deus que trouxesse depressa o patrão para casa.

Alvaro dirigiu-se placidamente ao gabinete, abriu de novo a gaveta, e tirou ao acaso um massête de cartas d’entre muitos sobre que assentava a boceta do retrato. A tempo foi isto que se ouviu o toque conhecido da campainha: era Manoel Teixeira. Alvaro, tão senhor estava seu, que metteu na algibeira o massête de cartas, fechou a gaveta, e sahiu do gabinete.

Manoel Teixeira trazia o pensamento na chave esquecida. Apenas entrou no gabinete, correu á gaveta, e examinou-a; tornou a fechal-a, e não suspeitou levemente da curiosidade do filho, nem dos criados, que, salvo Eufemia, nunca entravam n’aquella recamara.

Alvaro, a hora segura da noite, quando todos estavam recolhidos, deslacrou o massête das cartas, e leu-as e releu-as sofregamente como se as houvesse recebido da primeira mulher amada, n’aquelles dias de santo amor, de luz celestial, e de flores sem espinhos, em que tudo nos vem fadado do céo, e as cartas mesmo as cuidamos dictadas pelos anjos.

A primeira, conheceu logo que eram de sua, mãe as cartas, escriptas do convento de Vairão, em 1820, quatro annos depois da sua reclusão, e cinco anteriores áquella data.

Todas ellas expressavam a mesma supplica, não de perdão, nem de piedade; mas a esmola de um beijo de seu filho, esperança unica de que se alimentava e vivia a mãe infeliz. Os termos carinhosos do amor maternal, e commoventes rogos ao pae inflexivel da creança, iam crescendo de ponto, segundo o silencio desprezador com que as cartas de Maria da Gloria eram recebidas. Na ultima, que leu Alvaro, dizia ella que já não tinha forças para rebellar-se contra a vontade da Providencia, e receiava muito que a confiança na divina justiça a desamparasse. Terminava emprazando o seu algoz, e protestando pela sua innocencia, diante de Deus.

Na seguinte manhã, Alvaro disse ao pae que ia para o collegio, e não viria um mez a casa, porque se ia entregar todo a uma traducção de um livro inglez. Quiz o negociante dissuadil-o do trabalho como nocivo á sua saude; mas o moço, com afagos, e promessas de não fatigar-se, obteve licença de estar no collegio um mez.

D’aqui passou Alvaro a ter com Eufemia este dialogo:

—Vou ver minha mãe, Eufemia.

—Que diz, menino!? Está doudo!?

—Já lhe disse que vou vêr minha mãe: o pae não vem a saber nada, porque pensa que estou no collegio.

Eufemia replicou amontoando razões que não poderam nada com Alvaro, sendo a mais forte de todas esta:

—E o menino cuida que se póde ir ao convento sem dinheiro? Olhe que são sete ou oito dias de jornada para lá, e outros, tantos para cá. Quem lhe dá o dinheiro?

—Ha-de emprestar-m’o a Eufemia, para eu ir vêr minha mãe; e, se m’o não emprestar, vou a pedir esmola.

A ama abraçou a chorar o seu filho, como ella lhe chamava, e d’aquelle lance em diante não lhe negou dinheiro nem conselhos a fim de realisar-se o intento. Ella mesma, á tarde d’esse dia, ajudada por um seu irmão, foi alugar cavalgadura, e ajustar criado que acompanhasse o menino a Vairão, guardando n’estes passos tal recato que não ficasse alguem sujeito ás iras de Manoel Teixeira, se a desfortuna os descobrisse.

Foi Alvaro ao collegio, e contou ao seu mestre predilecto a ida a Vairão. Tão digno e respeitavel achou o mestre o arrojo do moço, que nem sequer lh’o tentou impedir com reflexões. Abraçou-o com vehemente admiração de tão energica e nobre alma em tal verdura de annos, e prometteu por sua parte mentir piamente ao pae, caso acertasse de encontrar-se com elle. Aos outros professores disse Alvaro que ia passar um mez nos «Olivaes» com seus tios, onde costumava ir ás temporadas.

Na madrugada do proximo dia, sahiu de Lisboa, o filho de Maria da Gloria.

 

II

Começa o céo a dilucidar-se.

GOLDSMITH (o vigario de Wakefield.)

Maria da Gloria, depois que leu em tremuras uma carta que recebera do correio de Villa do Conde, correu transportada á cella da sua amiga Cecilia, e lançou-se aos braços d’ella, chorando de alegria.

—Que é, filha?—exclamou a religiosa alvoroçada.

—É a primeira alegria que Deus me dá em onze annos de martyrio. Olha, vê esta carta da Eufemia… deixa que eu leio…

E leu Maria uma carta em que a sua criada lhe contava miudamente as conversações, que tivera com o menino, até áquella hora em que o foi achar a contemplar o retrato de sua mãe.

—Oh meu Deus, meu Deus!—clamou a enlevada senhora, ajoelhando ante o oratorio de Cecilia—Bem haja a vossa mão que até hoje me opprimiu para que eu sentisse o immenso prazer d’esta noticia! Fallai, meu divino Jesus, fallai ao coração de meu filho, e dizei-lhe que sua mãe, se foi culpada, já deliu com lagrimas de sangue as nodoas do coração, para receber dignamente a vossa misericordia, e o amor de seu filho!

Esta curta e arrobada prece foi seguida do desfallecimento. De crêr é que o espirito quebrantado da penitente não tivesse força para vibrar longo tempo abalado pela felicidade. Cecilia tomou-a nos braços, e reanimou-a, communicando-lhe as visões de futuros gozos que a vinham resgatar, pelo amor do filho, e talvez pelo remorso do pae.

Esta nova correu logo os dormitorios, e todas as freiras se alegraram, porque Maria da Gloria era amada de todas, e respeitada das mais escrupulosas por sua resignação e conformidade. Encheu-se de gente o seu quarto, a dar-lhe os parabens, como se no animo das mais virtuosas senhoras preluzisse o vaticinio de começar d’alli a desenredar-se a trama que a desgraça urdira á innocencia da reclusa, nos melhores annos de sua vida.

Passou a febril mãe algumas horas da noite escrevendo ao filho e á criada. Eram paginas sobre paginas levantadas em amor e jubilo, como um hymno de acção de graças, a carta que ella escreveu a Alvaro. Todo e tanto amor, onze annos retraindo, e sem desafogo no proprio seio da religião, dilatou-se alli em termos de sorte amoraveis, que nunca a imaginação apaixonada do poeta os achou assim.

Passaram tres dias n’esta abrazada ancia de outras noticias. Ao quarto, Maria da Gloria recebia nova carta de Eufemia, escripta na occasião em que andava alugando cavalgadura para a jornada do menino a Vairão.

O ambicioso coração d’aquella mãe não esperava, nem sequer sonhava tanto. Sossobrou-a o transporte de alegria; e as formidaveis angustias nunca poderam tanto. Quizeram as amigas, e sobre todas a inseparavel Cecilia, modificar os sobresaltos da esperança em contentamento sereno. Não poderam. A vehemencia das pulsações denotava febre, e já as timidas senhoras se arreceiavam mais da felicidade imprevista, que das flagellações de onze annos de saudade.

Maria cahiu de cama; e, ao terceiro dia, depois da ultima carta, mallogrou se-lhe o desejo de levantar-se. Agora já a enfermava tambem o receio de que as tenções do filho fossem estorvadas por algum dos mil successos que a phantasia escaldada lhe antepunha. A bondosa abbadessa, a fim de socegal-a, promettia-lhe, chegando o menino, abrir-lhe a portaria, contra o estatuido na regra benedictina, e dar-lhe quarto ao pé do de sua mãe. Dissereis que Alvaro era o bem-vindo de todas as monjas, e para a festa da chegada se apostavam todas, com offertas e mimos, e um ar commum de festa, como se estivesse á porta o solemnissimo dia do patriarcha, cujas filhas eram.

Que folgazãs, e não sei se, ao mesmo tempo, santas, eram aquellas creaturas do mosteiro de Vairão, onde, n’esse tempo, florejava em dons do espirito e primores de coração a secular que depois esposou um dos maiores talentos de Portugal, o inimitavel poeta Antonio Feliciano de Castilho! Com que amor e enlevo se liam então alli as riquezas balbuciantes do bardo de «Ecco e Narciso» e os maviosos regorgeios d’aquella «Primavera» em que ainda hoje o espirito inverniço do leitor se póde sentir verdejar aos balsamos das flôres, que lá estão em perpetuo viçor e aroma na grinalda do então, e hoje, e sempre juvenil poeta!

E vinda a hora da acção, e frouxo ha-de ser o traslado, não á conta de o termos escassamente debuxado na idéa, mas é que o desenho de Maria da Gloria, ao dizerem-lhe que entrara o filho no pateo do mosteiro, não o faz a linguagem, e só o pincel de artista de sentir delicado o tiraria a limpo.

Chegou Alvaro ao pateo do mosteiro.

Foi Cecília a da nova, e depós ella vinham todas, alviçareiras, a esbofar de cançadas.

Maria sentou-se de impeto no leito, e abraçava, vertiginosamente, quantas entravam ao pé da cama, onde todas vieram. Até a prelada, menos gotosa que nos outros dias, regamboleava a perna, revel á propria sineta de matinas! A mãe de Alvaro pedia os vestidos, e todas á porfia lhes davam os fatos em duplicado para se vestir, chilreando destoadamente uma inglezia de que as proprias noviças estavam como pasmadas. Já Maria saltava do leito meio-vestida, quando entrou a dona abbadessa, e a obrigou brandamente a recolher-se á cama, que assim o mandára o medico, e não se fazia mistér ir buscar nos braços quem alli vinha ter por seu pé.

A este tempo, correu a chusma das noviças á porta da cella, como ouvissem de longe o rangido de botas nos sonoros corredores dos dormitorios. Vinha Alvaro com a madre porteira, com a madre escrivã, e com a madre que estava de semana no encargo de acompanhar os facultativos ás cellas das suas doentes.

O filho de Maria da Gloria quando viu um grupo de treze noviças, com os seus véos brancos e as toucas graciosas, onde enquadravam rostos mais encarnados que seraphicos, não formou idéa de todo horrorosa do carcere de sua mãe. O interior d’um mosteiro era-lhe novidade; e posto quer n’aquelle tempo, a frequencia das grades monasticas era uso e moda das boas familias, Alvaro nunca vira freiras, e julgava d’ellas pelas que via macilentas e magras nos retabulos das igrejas.

As noviças, como já não coubessem no quarto de Maria da Gloria, agruparam-se no corredor a um lado da porta, abrindo passagem ao hospede e ás tres senhoras. No limiar da cella estava a prelada, que tomou a mão do menino, e o guiou ao pé do leito. Maria, quasi a resvalar da cama, recebeu o filho nos braços, e apertou-o contra o seio em silencio de sofregos beijos, e, a rapidos intervallos, o afastava de si e contemplava com olhar frenetico, e tregeitos convulsivos como os da loucura.

—É o meu filho!—exclamou ella circumvagando os olhos mais soberbos que maviosos pelas religiosas que choravam—É o meu filho! é a minha riqueza! tenho vivido em tormentos de onze annos para este instante… Deixem-me desabafar, que a felicidade suffoca-me…

E bracejava, atirando a repellões as tranças soltas para as costas.

Alvaro contemplava a mãe com ar de assombro. Tinha visto um retrato, como elle, n’aquelles annos, poderia imaginar um anjo. A mulher, que alli via, era magra, livida, e com as rugas da velhice precoce nos rebordos macerados dos olhos. Raros vestigios das feições antigas conservava a infeliz aos trinta e quatro annos, idade em que o toque morbido e desmaiado da belleza é muitas vezes mais de captivar que o viço dos vinte annos.

—Não me esperavas assim ver tão velha, meu filho?—disse ella, correndo as mãos no rosto de Alvaro.

—Faz muita differença do seu retrato, que lá tem o papá—disse o menino a custo, de apertado que estava nos braços da mãe.

—Quando eu tirei aquelle retrato, meu filho, era feliz, e tinha dezeseis annos. Não sabes que me foste arrancado, ha onze annos, dos meus braços, Alvaro? Onze annos a pedir a Deus este dia, meu querido filho!… Onze annos!… E Deus sabe se tornarei a vêr-te!

Maria da Gloria debulhou-se em lagrimas, e rompeu em gritos. Todas as freiras a um tempo lhe disseram palavras consolativas e de esperança. Alvaro, vendo que sua mãe ia cahir exhaurida de forças para o espaldar do leito, tomou-a para si, e submetteu o hombro ao rosto pendido e gotejante de suor.

A prelada mandou sahir as religiosas, que pejavam o quarto mal arejado. Abriu-se a pequena janella, e Maria tornou a si, sentindo a mão do filho afastar-lhe da face os cabellos já passados da copiosa transpiração.

A discreta abbadessa tambem sahiu, cerrando a porta.

—Sinto-me vigorosa…—disse Maria—Olha, meu filho, entra n’aquella cella, e espera-me lá.

Alvaro passou á especie de ante-camara que sua mãe tinha, com serventia interior, por graça especial da prelada, e porque lhe sobejavam recursos para as mal denominadas regalias do convento.

Viu Alvaro n’este recinto, pequeno, mas bem assombrado e até bonito com aceio de adornos, uma livraria, que tomava um dos quatro lados, e alguns retratos, que eram os de seus avós maternos, e outros paineis de devoção. Sentou-se á banca onde sua mãe escrevia, e relanceou os olhos por sobre os papeis espalhados n’ella. Entre estes estava aberta a ultima carta, que Eufemia escrevera a sua ama. O pequeno não adivinhou a delicadeza de furtar os olhos ao estimulo da curiosidade. Leu a carta, e entendeu a promptidão com que lhe foram abertas as portas do mosteiro, onde a sua ama lhe havia dito que não era permittido o accesso, salvo ás grades, e um momento na portaria, se sua mãe solicitasse o prazer de abraçal-o. Maravilhou-se do segredo que Eufemia velára d’elle, occultando-lhe as suas relações epistolares com a mãe. Sentiu-se mais obrigado a estimar a virtuosa mulher, que para escrever á encarcerada, de todo o mundo se escondia, temendo ser repellida da casa, onde estava o filho da martyr, e ella, a alma unica de quem podia a mãe fiar as suas queixas, e receber palavras que lhe temperassem as desesperadas saudades.

Maria da Gloria, vestida em desalinho, entrou no quarto, onde Alvaro estava.

Sentou-se n’uma cadeira de espaldar, e achegou de si o filho, que parecia tomado de melancolico espasmo.

—Estás tão triste, Alvaro?… É a vista de tua velha mãe que te entristece?

—Não, minha senhora; é o pesar que eu tenho de a não vêr em nossa casa. Porque está aqui ha tantos annos, minha mãe?

Maria empallideceu, e balbuciou por entre beijos, em que parece que desabafava a vehemente oppressão da innocente pergunta:

—Tu não me entenderias, se te eu dissesse a causa d’esta minha desgraça, filho do meu coração. Es muito menino ainda para comprehenderes a calumnia de que sou victima.

—Mas—atalhou Alvaro com intervallos de suspensão, que denunciavam mais a innocencia de sua ignorancia das calamidades da vida—o pae não póde ser tão mau que tenha aqui presa sem alguma culpa a minha mãe… Diz a Eufemia que elle fora muito seu amigo, e o meu mestre de inglez tambem me disse que eu nascera na época da felicidade.

—Cala-te, cala-te, meu filho—exclamou Maria, afogada em soluços.

—Não chore assim, minha mãe—acudiu o menino, a chorar com ella—Escreva ao papá, peça-lhe que a tire d’aqui; talvez que elle tenha pena de si agora. A mãe já não lhe escreve como ha quatro annos?

—Quem te disse que eu lhe escrevia, filho?

—Eu li as cartas, ás escondidas do pae, e trago-as commigo, porque não tornei a encontrar aberta a gaveta d’onde as tirei. São todas de 1820. A mãe não escreveu mais algumas?

—Não, porque teu pae nunca me respondeu a ellas.

—Escreva-lhe agora, sim? Escreva-lhe quando eu já estiver em Lisboa…

—Que farias tu, meu querido filho, que importaria escrever eu a teu pae?

—Eu pedia-lhe que tivesse compaixão da minha mãe…

O dialogo durou assim até á hora em que Maria da Gloria e seu filho foram chamados a jantar em casa da abbadessa.

Todas as religiosas e noviças foram commensaes no banquete dado pela prelada ao filho da senhora, querida de todas. Alvaro ficou sentado entre sua mãe e a abbadessa. Defronte estava uma religiosa de annos dilatados, a qual, desde muitos mezes, só na sua cella e no coro se encontrava. Não tinha sido convidada, em respeito â sua austera soledade e continuada oração mental em que praticava com Deus. Foi ella mesmo que se offereceu para o jantar, dizendo que não podia faltar áquella honra feita a um anjo de dor e de paciencia. Isto, dito por soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor, impressionara fundamente o animo de algumas senhoras para quem a innocencia de Maria da Gloria era uma piedosa hypothese. Durante o jantar, a santa, que n’esta conta era tida e assim denominada a decrepita monja, fallou algumas vezes com Alvaro, já perguntando-lhe se desejava ficar com sua mãe, já queixando-se de que a sua vinda fosse o prognostico de ella ser brevemente furtada ás suas amigas do convento.

A este dito, respondeu Maria da Gloria que a vinda do seu filho era uma felicidade, que ella devia ás orações de soror Joanna, e d’outras virtuosas senhoras, suas dignas companheiras na terra e no céo; accrescentava, porém, que não esperava ser restituida a seu filho e á sua dignidade de esposa.

Viram todas erguer a religiosa o braço descarnado, e abrir a mão como quem impõe silencio ás palavras de duvida, e contradictorias com as do espirito divino que lhe fallava. Deu-se um religioso silencio, tal que nem as respirações se ouviam.

Estas foram as palavras de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor:

«A mãe será restituida ao filho, e a esposa ao coração de seu marido, e aos respeitos do mundo».

Por que é que os cabellos estremeceram, e o calefrio vibrou os nervos de quantas pessoas ouviram o tom prophetico da virtuosa anciã? De feito, havia instincto do céo n’aquellas palavras, o som d’ellas tinha a um tempo a força electrica de que o ouvido se estremece, e a uncção suavissima que banha a alma de luz da fé.

Maria da Gloria mandou o filho beijar o habito da religiosa. Alvaro foi, tão passado de devoção e como alheado na santa poesia do lance, que lhe tomou de joelhos a mão.

Soror Joanna deu-lhe a beijar a mão tremula, fez um geito de levantal-o da postura humilde, e, assentando os dedos afilados sobre as faces descoradas do menino, disse com um ar de graça maviosa como se nos labios lhe abrisse Deus um sorriso de sua misericordia:

—O anjo do resgate veio emfim; e não veio tarde, porque chegou á hora em que Deus o mandou chegar.

Os animos ficaram tão absorvidos n’esta affectuosa scena, que só volveram os risos e os gracejos depois que, findo o jantar, a santa se retirou encostada a duas religiosas, que haviam sido suas discipulas de noviciado, e contavam para mais de setenta annos.

Duas horas depois do jantar, foi Maria da Gloria com seu filho visitar soror Joanna. Encontraram-a em oração, e iam retroceder, quando ella fez signal de ficarem.

—Que pena tenho eu—disse a freira com muito alegre semblante—de não ter n’esta minha pobre cella um mimo que dê a este menino, para se lembrar da velha que viu no mosteiro de Vairão!

As suas palavras gravam-se para sempre no coração, minha senhora—disse Maria da Gloria, beijando-lhe o escapulario.

—Ora, deixe estar—tornou a religiosa—hei-de ver se o não deixo ir sem uma lembrança minha… Quando vae embora o menino?… não deve demorar-se muito…

—Eu desejava estar mais tempo—disse Alvaro—mas não tenho remedio senão ir ámanhã, que não vá o papá dar fé da minha falta.

—Ámanhã!—exclamou Maria—pois já me deixas ámanhã!?

—E deve ir ámanhã—respondeu soror Joanna com impressiva firmeza, como se désse ordens.

—Quando tornarei a vêr-te, ó filho da minha alma?—tornou debulhada em pranto a mãe de Alvaro.

—Mulher de pouca fé…—murmurou a santa, com brando sorriso, e um meneio triste de cabeça—O menino—ajuntou voltando-se para elle, e tomando-lhe as mãos entre as suas—sahe de madrugada, sim?

—Sim, minha senhora, se a minha mãe deixar.

—Sua mãe deixa. Pois ás quatro horas, antes do toque a matinas, venha dizer-me adeus. Vá agora, menino, vá com a mãesinha para as outras senhoras, que hão-de estar saudosas d’ella.

E sahiram ambos com sobrenatural alegria de esperanças no coração. Vieram-lhes ao encontro nos dormitorios, na claustra, na cerca, as freiras, as noviças, e as criadas a felicitarem-se com ella do termo dos seus males, jurando todas no vaticinio da santa. Maria já não duvidava. Recebia os parabens como se a promessa lhe descesse directamente do céo. Já o apartar-se de seu filho não lhe doía tanto. Fez-se um mundo novo n’aquelle espirito. As aves da floresta entoavam por ella louvores a Deus. As flores dos taboleiros recendiam os perfumes das flôres da sua mocidade. O azul do céo já não tinha o aspecto triste e de ferro com que se mostra a olhos marejados de lagrimas. Riam-lhe as aves, e o céo, e as flôres. A natureza inteira a dar-lhe as boas vindas do seu filho! E elle, sempre ao pé d’ella, com as faces anuviadas de tão doce melancolia, que fazia lembrar o grave e sereno rosto do cherubim, que no retabulo do templo, traz á Virgem de Nazareth o annuncio da sua maternidade!

Fugiam as horas do dia. As do silencio, na breve noite que se seguiu, passou-as desveladas a ditosa mãe ao pé do filho que adormecera de fatigado. De hora a hora despertava-o com a pressão dos beijos, e acalentava-o depois, como douda de felicidade com lembrar-se do amor com que o velara no seu primeiro anno.

Soaram tres horas. O criado estava já no pateo com a cavalgadura arreada. Maria, forçada pelas instancias, tentava, mas não podia acordar o filho.

—Acordal-o para o vêr ir de mim!…—dizia ella, chorosa.

Resolveu-a um recado de soror Joanna; mandava dizer que estava esperando o menino, e que fosse, porque eram horas de coro. As palavras da santa deram-lhe alma para o trance.

Foi Alvaro ao cubiculo da religiosa, e sua mãe com elle.

—Entrem, meus filhos—disse soror Joanna—Venha aqui o menino: não ha tempo para demoras. Aqui tem a lembrança que leva d’esta sua velha amiga. Logo que chegue a Lisboa, antes de entrar na sua casa, vá entregar esta carta. A pessoa é bem conhecida. Quem quer lhe dirá onde mora esta pessoa. Agora vá com a Virgem Santissima. Quando voltar, me dará novas da pessoa a quem escrevo. Emquanto a vós, minha penitente—continuou acariciando Maria—notae bem o que vos digo. Prohibo-vos de vêr o subscripto da carta que vosso filho leva. Entendeis, Maria?

—Oh minha senhora!—disse a conturbada mãe, beijando-lhe a mão.—Sou incapaz de desobedecer-lhe.

—Bem o sei: conheço o vosso coração melhor que vós mesma. Ide com Deus, meus filhos.

Do ultimo abraço que Maria deu em seu filho passou sem sentidos para os braços de Cecilia.

Alvaro escassamente chorava. Sentia em si o coração forte do homem. Quando, porém, relançou os olhos para a portaria, que se fechava, não viu senão o alvacento véo das suas lagrimas.

 

III

Quem não vê por isto que o mundo
é um juiz iniquo?

S. FRANCISCO DE SALES (Introd.
á vida devota).

Temo que me chamem milagreiro, e tomem este livro como additamento á «Flôr dos Santos» de Ribadeneira. Não quero semelhante nota. Vou demonstrar que soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor não fazia milagres: antevia unicamente, com os olhos de sua virtuosissima alma, as consequencias do que já sabia. Saiba tambem o leitor que este romance, por ter o merito da verdade, pouco tem que fazer: é a natureza que o faz.

É já sabido que Manoel Teixeira de Macedo foi a Macáo, em 1815, liquidar a herança paterna de sua mulher.

Maria da Gloria tinha então vinte e tres annos, e muita formosura. Não direi que amava, mas estimava grandemente seu marido, mais velho que ella doze annos. Não casara apaixonada, nem sequer voluntaria. Seu pae, commerciante laborioso, sympathisou com o incansavel bastardo do titular; tomou-lhe o pulso dos haveres, e achou-o já rico aos trinta e dous annos; e, como deixasse o seu negocio na India entregue a caixeiros, accelerou o casamento com o duplo fim de desapressar-se de cuidados, que lhe inquietavam os ocios de ricaço aposentado. Não quero dizer que os esposorios de paixão assegurem felicidade duradoura: sobejam ahi exemplos do contrario; estou, porém, em affirmar que os casamentos involuntarios é que não asseguram felicidade nenhuma.

Na ausencia de seu marido, a vida de Maria da Gloria era o amor de encanto á criancinha de tres mezes. Não a mortificavam grandes saudades, e menos ainda ciumes. Toda no filho, não curava d’outras sensações, como quem já não era sua, e só vivia para elle.

Defrontava com a sua casa um cavalheiro de annos adiantados, quarenta teria, mas sobravam-lhe qualidades para ser presado. Umas dava-lh’as a figura, outras a posição e os creditos. Era um magistrado, e chamava-se João de Mattos e Vasconcellos Barbosa de Magalhães.

Está o leitor como attonito de vêr em romance um galan que não se chama Alfredo, Ernesto, Arthur, ou Julio. Acceite-o assim, que era aquelle o nome do cavalheiro, que foi depois intendente geral da policia, e ministro d’estado, e holocausto de suas idéas liberaes no desterro, se bem que exilado pelo illegitimo soberano a quem honradamente servira.

João de Mattos reverenciava a sã moral, nunca violara os deveres de bom cidadão, respeitava os direitos alheios por amor de si, tinha que farte d’este util egoismo que equilibra os actos humanos, e fórma o pilar das virtudes sociaes, sem absoluta dependencia dos preceitos religiosos. Pensava com Benthan, e não tinha ido mal com tal guia. O caminho do philosopho inglez não é tão abrolhado de dificuldades como o dos moralistas ascéticos, e tem de bom que conduz ao mesmo ponto—á virtude, sem penitenciar o corpo nem a alma.

João de Mattos amou Maria da Gloria.

Mandam-me, talvez, cancellar o periodo em que ficam elogiadas as qualidades do magistrado. Não consentem que se compadeçam as virtudes sociaes com aquelle amor. Isso é juizo de vulgo errado.

Aqui tenho eu aberto um livro de grande nomeada. É o DEVER, d’um professor de moral em França. A academia premiou-lh’o, e os seus concidadãos consomem as edições, e moralisam-se. Este livro dá preceitos para regrar todas as propensões da alma. Explora a origem d’estas, e tenta corrigil-as desde a raiz.

Quando, porém, entende no sublime verbo do «amor», exprime-se d’est’arte: «A origem do amor, e os alimentos que o nutrem, quaes são? Como cresce? Como acaba? Não lia dizel-o: tão variavel é tal sentimento. No maximo dos casos, é pelos olhos que nos sentimos captivos; mas o amor acha mil avenidas por onde insinuar-se na alma. É notorio o modo como o poeta fazia fallar Othello: «Contava-lhe os meus azares: não empreguei outra magia…»

N’outro relanço diz:

«D’onde vem o amarmos as cousas bellas? porque são bellas; e as boas? porque são boas.» Vão tomando nota.

Outra passagem:

«Uma paixão nos senhoreia e nos abandona, sem podermos atinar com o porquê. Sahimos a negocios, e depara-se-nos ao dobrar d’uma esquina a mulher, que vae transfigurar-nos o coração.»

Ultima citação:

«Como havemos de conjecturar uma paixão que a si mesma se defenda de demasias? Absurda cousa! Para a paixão ha um freio sómente: é o desgosto ou o fastio.»

Conclusões a tirar em favor da paixão de João de Mattos, sem implicancia das suas excellentes qualidades:

Não sabia elle como nascera o seu amor; menos sabia ainda como havia de matal-o. Amou pelos olhos Maria da Gloria; mas as mil avenidas da sua alma tinham sido escaladas pelo amor. Amou a formosa porque era formosa. Achou-se transfigurado no coração, quando o cria esmagado sob a graveza dos cálculos ambiciosos de gloria. Quiz enfrear os impetos do sentimento; mas, antes do fastio, não ha hora alguma em que o amor, coma o leão sezonatico, se deixe acorrentar.

Ahi está. Se eu não consegui desculpar o magistrado com o livro—O DEVER, perdôem-lhe os leitores por misericordia.

Quaes foram, porém, ás demasias do visinho de Maria da Gloria? Escreveu uma, duas, seis cartas, longas e eloquentes como devia dictal-as o coração e o genio. A esposa de Manoel Teixeira peccou lendo a primeira, e lendo todas; mas não respondeu a alguma.

João de Mattos subiu um dia as escadas da esposa leal, e ajoelhou-lhe, quando ella sahia da sua antecamara para ir beijar o filho no berço. Maria da Gloria estendeu o braço para a porta da sahida, e disse ao homem corrido e allucinado:

—Quem lhe abriu as portas para esta infamia? Sáia, senhor!

Não respondeu, e sahiu.

A mulher pura chamou o criado, que lhe entregara as cartas, por intervenção da ama. Não lhe viu os olhos. Atirou-lhe com a soldada, e despediu-o. O criado quiz explicar a entrada de João de Mattos. Maria da Gloria fez-lhe um gesto severo de silencio, e mandou-o descer no rasto de quem lhe comprara a fidelidade. Vacillou em despedir a criada. N’esta oscillação olhou para o menino, e disse á ama: «perdôo-te por amor do meu filho, e porque sei que a tua culpa é de estupidez e não de immoralidade.»

Maria da Gloria tinha este crime: lêra seis cartas de João de Mattos, e dissera comsigo:—«Isto entretem.»

Voltou de Macáo Manoel Teixeira de Macedo. Depois de abraçar a esposa, acordou o filho, e tanto o acarinhou que pôz a criança a pique de morrer abafada. A bemaventurança estava alli no viver de Manoel Teixeira. Senhor d’uma mulher bella, e virtuosa, e meiga; pae d’um menino lindo como os amores; rico sem ambições que não podesse logo comprar a ouro; estimado de uns sinceramente, e lisongeado por outros; cheio de saude e promessas de longa vida… que mais póde dar este mundo?

O mundo não póde dar mais; mas póde tirar n’um momento tudo isto.

Uma tarde, entrou no quarto de sua esposa Manoel Teixeira, e disse-lhe, com rosto sêcco e pesado:

—Por que despediste o criado Gregorio?

—Porque me não convinha respondeu Maria, descórando.

—Porque descóras?

—Pois eu descórei?!—balbuciou ella—Impressionou-me a mudança do teu rosto.

Sahiu Manoel Teixeira, porque n’este ponto entrou Eufemia com o menino.

Maria seguiu-o, e entrou com elle n’uma sala.

—Por que me fazes semelhante pergunta?!—disse-lhe ella, resolvida a contar-lhe o acontecimento.

O marido fitou os olhos n’ella e nas janellas de João de Mattos. Maria ia a fallar, quando lhe elle voltou de golpe as costas, e sahiu.

—Deus sabe a minha innocencia: nada temo—disse ella.

É certo que Deus vê o crime e a innocencia de nós todos; consente, porém (e louvados sejam por isso os altissimos juizos do Senhor!) que os innocentes sejam condemnados em muitas instancias, antes de serem citados ao seu tribunal supremo, e—n’isto vai muito a dizer—parece que vê sem offensa de sua justiça a impunidade dos que delinquiram. Os theologos é que sabem dizer como isto é, e convencem a gente de que os romancistas são os menos azados para deslindarem esta meada. Consultem-se, pois, os theologos.

Na porta visinha de João de Mattos morava um especieiro que fora criado de Manoel Teixeira, e se estabelecêra com o credito d’este. O logista procurou o seu antigo amo, e contou-lhe que vira entrar e sahir João de Mattos de sua casa, uma vez pelo menos, em quanto o seu protector estivera em Macáo. Antes e depois da revelação, o mercieiro deu as razões da denuncia: achava-se obrigado a não consentir que o seu segundo pae fosse deshonrado por uma mulher indigna. E taes cousas disse n’este sentido, e com tamanha dôr, que chorou!

Manoel Teixeira não viu sua mulher durante vinte e quatro horas. Decorridas estas, convidou-a a dar um passeio de carruagem ao campo. Maria da Gloria tremia de vago terror, quando se vestia para sahir. Já preparada, foi ao berço do menino, e ajoelhou para beijal-o. Manoel Teixeira contemplava inalteravel este lance. Que esforço de homem! não digamos maldade.

Fora de portas estava uma liteira, uma mulher sobre umas andilhas, e dous cavalleiros, que D. Maria não conheceu. A carruagem parou.

—Apeie-se,—disse elle depois que saltou rapidamente da sege.

Maria sahiu machinalmente.

—Entre n’aquella liteira.

—Para onde vou?!—exclamou ella.

—Sabel-o-ha onde a pozerem. Não ha tempo para explicações. Aquella mulher é sua criada.

—E meu filho?

—Lá irá. Estes homens são seus criados até ao ponto onde a deixarem. Adeus.

—Mas o meu filho!—exclamou, estendendo os braços ao marido—Dá-me ao menos aquelle menino, se me lanças barbaramente de ti!…

—Olhe que nos ouvem, senhora! As altercações aqui, além de tardias, são indecentes.

A criada tinha apeado. Maria da Gloria foi transportada quasi sem sentidos á liteira. Manoel Teixeira já não viu este doloroso conflicto.

Deixemos ir aquella martyr, e esperemos em Deus.

O capitalista não entrou mais em sua casa. Pessoas estranhas tomaram conta de todo o contheudo n’ella. Eufemia e o menino foram recebidos em casa de uma familia, e d’ahi levados para outro domicilio, onde os esperava Manoel Teixeira. N’esta nova casa, medianamente adornada, não havia um só movel da antiga, que suggerisse execraveis lembranças.

Correu a fama a contar os successos pelas mil bocas da diffamação. Dizia-se que a criminosa esposa do desditoso fora encerrada n’um convento de Hespanha; que os remorsos a matariam alli; que o extremoso marido estava a ponto de enlouquecer; que os seus amigos desvelavam as noites á beira d’elle, receiosos d’um suicidio. Isto é o que se dizia no gremio das familias, onde as atoardas da fama iam buscar a sancção de evangelhos.

No entanto, João de Mattos, indigitado amante de Maria da Gloria, estava em Barcellos, sua terra natal, convalescendo da enfermidade do coração, medicada a tempo pelas offensas do amor proprio. De volta á capital, ouviu a historia, e deliberou-se nobremente a procurar Manoel Teixeira, e contar-lhe a innocencia de sua mulher, confessando a propria culpa. Era honrada; mas extemporanea a tenção. O ricaço tinha ido viajar pela Italia, com o filho aos peitos da ama, e comprara uma quinta nos arrabaldes de Napoles.

Decorreram tres annos primeiro que Manoel Teixeira voltasse á patria. João de Mattos, já no topo das grandezas sociaes, nem deu conta da chegada do negociante, nem é de crer que a lembrança dos passados successos o perturbasse no exercicio dos seus altos cargos. Imaginava Maria da Gloria em Hespanha, e, por decoro seu e d’ella nunca inquiriu o local, nem lhe parecia facil averigual-o. O homem é isto.

E o homem era tambem Manoel Teixeira de Macedo. Não ha julgal-o d’outro estôfo, vendo-o trazer comsigo de Napoles uma gentil italiana, e dous filhinhos, que aposentou em Lisboa n’um palacete de Belem. Consola, porém, dizer que o filho de Maria da Gloria era o mais querido, o que elle apertava ao coração com lagrimas, o que desde os quatro annos, trazia sempre sobre os joelhos, na carruagem, e offerecia aos carinhos de todos os seus amigos.

Entretanto, a martyr de Vairão, ajoelhando supplicante ou recuando blasphema dos degraus do altar, sentiu-se morrer em agonias atrozes durante os milhões de instantes de quatro annos. Estava da mão de Deus, por que era de Deus um anjo, que ella via ao seu lado, envolvido no habito de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor.

N’este largo espaço, teve noticias de seu filho a longos prasos: eram cartas que Eufemia lhe escrevia de Napoles. Logo que as recebeu de Lisboa, escreveu a seu marido muitas cartas, que elle lia commovido. Não alcançou resposta de alguma. Já sabem o que ella pedia: vêr seu filho, antes de ser chamada com o pae ao tribunal de Deus.

 

IV

Dico vobis: Omnia quœcumque orantes
petitis, credite quia accipietis, et
evenient vobis.

Eu vos affirmo que todas as cousas,
que na oração pedirdes, as recebereis,
e succeder-vos-hão.

S. MARC. 11. 24.

Em 1825, era empregado, em qualidade de aguazil, na intendencia geral da policia, um homem que merecera a confiança de João de Mattos nos mais importantes segredos d’aquella magistratura.

Na presença do intendente e d’este homem, alguem fallou um dia em Manoel Teixeira de Macedo, como suspeito partidario de D. Carlota Joaquina, e dos assassinos do marquez de Loulé, no anno anterior.

Cahiu a proposito fallar da graciosa napolitana, que vivia ostentosamente em Belem, e da esposa, que fora encarcerada n’um mosteiro de Hespanha.

O quadrilheiro, que assistira mudo a esta conversação em que João de Mattos denotava ainda vestigios do antigo sofrimento, a sós com elle, pediu-lhe, muito em secreto, licença para lhe dizer que a mulher de Manoel Teixeira não estava em Hespanha; mas sim em Vairão, onde elle a conduzira com outro homem da sua confiança, diligencia de que fora liberalissimamente pago, sob condição de divulgar que D. Maria da Gloria tinha sido entregue na raia a pessoas encarregadas de conduzirem-na ao convento hespanhol.

João de Mattos recebeu de bom rosto semelhante nova, e sem detença escreveu a uma sua tia professa no convento de Vairão, pedindo-lhe mui reservadamente esclarecimentos acerca de Maria da Gloria, entrada no seu mosteiro em 1817. Soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor era a tia de João de Mattos.

A discreta religiosa, sem dar a saber tal carta á sua infeliz amiga, contou ao sobrinho, com piedosas expressões, o atormentado viver da pobre mãe, que, a ser de todo innocente como a ella julgava, devia já ter nas mãos dos anjos a sua corôa de gloria.

Escreveu de novo o magistrado a sua tia, confirmando a conta em que ella tinha a enclausurada, por uma confissão exacta dos simples successos, que precederam a desgraça da infeliz senhora. Accrescentava elle que punha á disposição de Maria da Gloria todo o seu valimento para ella intentar contra o marido acção de divorcio, separação do casal, e posse do filho, visto que o pae escandalosamente amancebado com a mãe de filhos bastardos, não podia curar dignamente da educação nem bem gerir o património do filho legitimo.

Soror Joanna contrariou o plano judiciario de seu sobrinho, dizendo que o Senhor não faltava em tempo opportuno aos padecentes humildes, e gostava que os desgraçados fiassem d’Elle a inteira execução da sua justiça.

João de Mattos recalcitrou ainda na opinião de que a justiça humana era a expressão da vontade divina; mas a freira redarguiu de força que o sobrinho não teve animo de contradizel-a, e meditou mais summaria traça a libertar Maria da Gloria, sem dependencia da vontade do marido.

A ponto estavam estas intenções de serem executadas, quando chegou a Maria da Gloria a carta em que lhe era dada a noticia da ida de Alvaro. Soror Joanna, n’aquelles ultimos dias anteriores á fausta nova, raras horas sahira do coro. Ahi a viam como arrobada em oração mental, e tão fervoroso devia de ser o seu orar, que as lagrimas, nunca vistas no rosto sereno da santa, eram inexhauriveis durante aquellas horas do coro. Ás vezes, em communidade, erguia a voz, clamando: «Peçam commigo a nosso Senhor Jesus Christo que manifeste o poder do seu braço n’uma obra de muita necessidade.» E as freiras, e Maria da Gloria com ellas, rezavam ferventemente.

Dizem que Soror Joanna estava no coro, a tempo que chegou a noticia da vinda de Alvaro, e que, sem ninguem lh’a ter communicado, rompera em altas vozes de acção de graças, na presença de muitas testemunhas, que não souberam atinar com a causa d’aquella subitanea exaltação. Eu não affirmo isto; mas quero acredital-o para mim. A poesia do céo é esta. Não sei que hajam ahi outros incentivos que me chamem aos olhos as lagrimas do coração. Quem me quizer ver chorar, e vibrar de não sei que vehemente e religioso enthusiasmo, conte-me casos da natureza d’aquelles: faça-me acreditar, na existencia d’umas almas que vão entender-se com Deus por um raio resplendoroso de graça divina.

Dispensa o leitor que lhe refresquem a memoria dos successos decorridos com Soror Joanna, durante as vinte e quatro horas de visita de Alvaro a sua mãe. Agora sabe que, no tom prophetico das palavras da santa, não ha que vêr com milagres. Aquelles acontecimentos vieram de seu, naturalmente, depois da troca das cartas antecedentes, entre a freira e o sobrinho. Per si mesma tem a virtude umas sahidas tão maravilhosas que não ha que dizer se as lançamos á conta de milagres, nós, os cegos d’aquella celestial claridade a que as almas escolhidas a si se veem, e se vão alumiando nas escuridades da vida, sempre tenebrosas para nós… Para mim, devia ter dito; porque, em verdade, não posso nem devo duvidar das lavadas entranhas e clara fama dos meus leitores.

É tempo de voltarmos a Lisboa com Alvaro. Iremos; porém, vejamos, em quanto elle caminha chorando d’alma com saudades de sua mãe, e sorrindo ás esperanças que lhe dera a freira, os successos que tão triste resultado promettem á temeridade do bom filho.

Ao terceiro dia da sua supposta ida para o collegio, o morgado dos Olivaes Sebastião de Brito e Macedo, e sua filha Leonor, foram a Lisboa, e hospedaram-se em casa de Manoel Teixeira, irmão natural, como se disse, d’aquelle fidalgo de antiga linhagem.

Leonor era a destinada esposa de Alvaro, desde o berço. N’este enlace pozera o bastardo o fito de sua vaidade, e o legitimo o da sua ambição. A passo igual, enriquecia Manoel Teixeira, e alcançava-se Sebastião de Brito. Este encostava-se ao plano restaurador dos seus haveres; o outro gozava-se a cada nova hypotheca que o irmão fazia. Se lhe emprestava quantias avultadas, cobrava titulo d’ellas, armas de vingança com que um dia, infringida a palavra do morgado dos Olivaes, cortaria as esperanças cubiçosas de outro pretendente.

Leonor perguntou logo por seu primo, ao subir a escada. Manoel Teixeira disse que Alvaro estava no collegio, e que pedira um mez de solidão para se dar todo a traduzir uma obra. Sebastião de Brito mofou das canceiras litterarias de seu sobrinho, e disse que não queria philosophos nem poetas para genros. Censurou que Alvaro não tivesse ainda recebido lições de equitação, indispensaveis n’um mancebo que era Brito e Macedo. Manoel Teixeira gostou da censura, e disse que o pequeno apenas tinha doze annos, e era de compleição franzina para aturar as fadigas da cavallaria. Redarguiu o morgado que era uso na familia dos Britos e Macedos passarem os varões do berço para a sella. Se outrem o dissesse, era epigramma de certo.

No entanto, Leonor dizia que, a não vir o primo vêl-a, iria ella sósinha ao collegio, na carruagem do tio. Foi applaudida a galanteria da menina; e Sebastião de Brito, deixando-a ao irmão, foi visitar alguns primos e primas.

Foram Manoel Teixeira e a sobrinha ao collegio com o intento de surprehenderem Alvaro e trazerem-no comsigo. O professor de inglez é que foi o surprehendido.

—Não mande parte a meu filho,—disse o negociante,—que eu quero apparecer-lhe de repente com a prima.

—O senhor Alvaro não está cá—disse o director do collegio.

—Como?!—meu filho sahiu?

—Ha quatro dias que nos disse que ia passar um mez com os seus parentes dos Olivaes—tornou o director.

—Isto que significa?!—replicou, entre colerico e espantado, Manoel Teixeira, interrogando o mestre de inglez.

—O senhor director disse a verdade…—respondeu aquelle, denotando enleio e turbação.

—Então foi o meu filho que me mentiu?—tornou já muito alterado o commerciante—Não creio! Aqui ha embrulhada!

—Que embrulhada póde haver aqui?—disse com azedume o proprietario do estabelecimento.

—Não sei; é preciso que me digam onde está meu filho.

—Não sabemos, senhor Macedo; já dissemos a vossa senhoria que o suppunhamos nos Olivaes: se seu filho mentiu, castigue-o vossa senhoria, e não nos culpe a nós por nos havermos fiado na palavra d’um menino, que nos merecia toda a confiança.

Manoel Teixeira sahiu de maneira aturdido que deixaria a sobrinha, se o ella não seguisse. A sua primeira idéa foi… quem póde dizer qual foi a primeira idéa do negociante, cujo amor paternal era de extremos? Levar a casa Leonor foi de certo a primeira idéa.

Eufemia, desconfiada do que havia de succeder, logo que viu Leonor sahir com o tio, ficou em sezões, e esmoreceu de todo quando ouviu a voz clamorosa de seu amo chamando o filho.

Acudiram os criados todos, menos ella. Leonor foi ao quarto de Eufemia, e achou-a em desmaios. Tornou ao tio, contando lhe o estado em que deixava a pobre ama.

N’estas aperturas, soou a campainha, e annunciou-se o professor de inglez, que pedia fallar particularmente com o dono da casa. Manoel Teixeira reanimou-se.

—Vem dar-me alguma boa noticia?—exclamou o negociante com alegre rosto.

—Creio que sim.

—Appareceu o meu filho? diga, diga.

—Seu filho nunca esteve perdido, snr. Macedo.

—Onde está, pois?

—Vossa senhoria sabe que eu sou o mestre que seu filho mais tem presado.

—Sei, e merece-o.

—A nobre alma de seu filho não podia ter um segredo que eu não soubesse. Ha quatro dias que elle disse ao director do collegio que ia estar nos Olivaes algum tempo; a mim, porém, disse-me que ia vêr sua mãe ao convento de Vairão.

Manoel Teixeira deu tres upas na cadeira, e, á quarta, exclamou:

—Quem disse a Alvaro que a sua mãe está em Vairão?!

—Fui eu, snr. Macedo.

—E como sabe o snr. que ella está em Vairão?!

—Sei-o da voz publica.

—E que lhe importa ao senhor’o que diz a voz publica para o communicar a meu filho?

—Não me importa muito o que a voz publica diz; mas interessava-me muito servir os nobres sentimentos do filho de vossa senhoria.

—Fez-lhe um grande serviço, não tem duvida nenhuma!—disse ironicamente o negociante—Quer-me mais alguma cousa?

—Quasi nada,—disse o professor—restituir a vossa senhoria seis mezes da prestação que o director do collegio recebeu adiantados.

E, dizendo, tirou d’uma carteira dinheiro em papel, que estendeu sobre a banca a que Manoel Teixeira encostava o cotovelo direito.

Na garganta do negociante ficou afogada uma insolencia.

O brioso mestre tinha sahido voltando as costas ao ricaço.

A inquieta Leonor entrou logo perguntando as novidades. O tio não respondeu, e mandou-a sahir com insolito enfadamento. A breve espaço, sahiu de carruagem, a dar execução a uma traça concebida rapidamente. Era simples: logo que o filho chegasse, mandal-o para Inglaterra, demoral-o annos n’um collegio, interceptar-lhe a correspondencia com a mãe, e removêl-a a ella para convento estrangeiro. Chegou a dar ordens para ser procurado Alvaro em Vairão, ou no caminho; mas, reflectindo, entendeu que era mais prudente deixal-o chegar inadvertido, que não fosse elle evadir-se ao castigo premeditado.

Eufemia foi severamente interrogada, acerca das revelações que poderá ter feito ao menino; e, como balbuciasse nas respostas, foi despedida, e ameaçada de cadêa, se elle viesse a descobril-a cumplice na fuga de seu filho. Sahiu a pobre mulher, e escreveu a sua ama; esta carta, porém, chegou a Vairão dous dias depois da sahida de Alvaro, e não foi subtrahida no correio de Lisboa, porque ia endereçada a uma das criadas de Maria da Gloria.

Agora é que temos Alvaro em Lisboa.

Mal apeou, informou-se da residencia de João de Mattos Vasconcellos Barbosa de Magalhães, e foi apresenta-lhe a carta da religiosa. Estava o magistrado com altos dignatarios d’estado em occupações gravissimas, quando se lhe deu parte de um menino, que era portador de uma carta de Vairão. Afastou-se á parte com Alvaro, leu a carta, muitas vezes interrompida pelo relance de olhos embaciados que lançou ao menino. No fim da leitura, tomou-o para si, beijou-o, e disse-lhe com muita meiguice:

—Sua mãe fez-lhe muitos carinhos? Que horas de felicidade o menino lhe levou!… Ora deixe estar, que ha-de ser muito feliz com ella… Espere aqui um pouco, que eu volto já.

Voltando, tocou uma campainha. Appareceu, afastando o reposteiro, o aguazil, que escoltára Maria da Gloria a Vairão.

—Onde mora o menino?—disse João de Mattos.

—Na rua de S. Bento, numero 12—respondeu o esbirro.

—Vá já ter á rua de S. Bento n.° 12 com aquelle homem do Limoeiro—disse o intendente—Agora vamos, menino.

Esperava-os a carruagem blasonada do sobrinho da santa de Vairão.

—Quem será o homem do Limoeiro?!—ia dizendo entre si o filho de Maria da Gloria.

 

V

Os insensatos não comprehendem
como se enlaçam o merecimento e a
felicidade.

GOETHE (Fausto).

N’uma das suas muitas horas de desgraça impaciente e raivosa, é que estava Manoel Teixeira, ao annunciarem-lhe que parára á sua porta uma carruagem com a libré do intendente geral da policia. Não tinha elle ainda despregado a lingua do céo da boca meio-aberta de pasmo, quando o guarda-portão fez annunciar João de Mattos, e Alvaro. Aqui nos fallecem termos com que digamos ao justo o esgar de surpreza com impetos de loucura rapidamente figurados no aspecto do negociante. E da alçada de todos imaginar a turbação que devia sentir o marido de Maria da Gloria, vendo entrar seu filho ao lado do amante de sua mulher!

Estava já na sala de espera João de Mattos, algum tanto embaraçado em sua especial posição; mas tranquillo na apparencia. Já o dono da casa se ia demorando, quando a sala immediata se abriu, e o escudeiro veio ahi dizer a sua excellencia que o snr. Teixeira de Macedo não se demorava.

Alvaro tremia, e enfiava. João de Mattos tomava entre as suas as mãos do menino, e dizia-lhe:

—Que medo é esse, menino?! Seu pae não lhe faz mal… Tranquillise-se, que isto não é nada. Por que treme?

—Nem eu sei dizer… Não é medo…

Durante um curto dialogo assim travado entre o homem e a criança, vagava como allucinado o negociante, remettendo contra a porta que o separava da sala em que era esperado, e recuando com o gesto cada vez mais descomposto. N’esta afflictiva oscillação, tornou ao seu quarto, tirou d’um estojo uma pistola de dous tiros, accommodou-a na algibeira do chambre de cachemira, e entrou na sala com sinistra serenidade.

João de Mattos ergueu-se, e disse com pausada gravidade:

—Não me é difficil lêr no rosto de vossa senhoria o abalo que o meu nome lhe fez. E tão natural esse sentimento de odio, que deshonrado seria vossa senhoria se o não sentisse contra mim.

—E vem a minha casa?!—disse Manoel Teixeira com os olhos fitos no pavimento que se interpunha aos dous.

—Venho a sua casa, senhor Macedo, offerecer-me desarmado e sósinho á sua justa vingança…

—E como se acha meu filho ao lado do senhor intendente?—interrompeu o commerciante, relanceando os olhos fuzilantes sobre Alvaro.

—Vai vossa senhoria sabel-o; mas eu peço que o menino nos deixe sósinhos por alguns segundos.

Alvaro sahiu da sala; João de Mattos fechou a porta; e Manoel Teixeira encostou-se ao bordo de um tremo, e cruzou os braços em postura, que seria dramatica, se não fosse incivil.

João de Mattos, com a mão esquerda na lapella da casaca, e a direita, segurando o chapéo, sobre a cintura, fallou assim:

—Creio que o snr. Manoel Teixeira tem sobeja intelligencia para conhecer que um homem, como eu, na sua presença e em sua casa, significa um successo extraordinario movido por um impulso tambem extraordinario.

—Eu desejo realmente saber o que vem vossa excellencia fazer a minha casa.

—Venho…

Um criado cortou a resposta, dizendo que um meirinho que acompanhava um preso entre soldados queria fallar a sua excellencia.

—A mim?!—disse o negociante.

—É a mim—acudiu sorrindo João de Mattos.—Queira vossa senhoria consentir que o preso esteja ás minhas ordens na sua sala de espera.

Manoel Teixeira ergueu os hombros, e disse enleiado das estupendas occorrencias:

—Mas esse preso é cousa que tenha relação commigo?!

—É o facto importante da nossa pratica—respondeu João de Mattos, e accrescentou com tristeza:—é o fecho d’esta abobada, debaixo da qual vossa senhoria ha-de sentir esmagado o coração… Queira attender-me. Eu morei, ha onze annos, em frente do seu palacete. Não era já moço de paixões violentas; mas… era homem. Amei a snr.a D. Maria da Gloria porque a vi, e porque ella me não dava o mais leve signal de estima nem sequer de preoccupação das minhas constantes solicitações. O coração humano é assim absurdo. Vossa senhoria foi n’essa época á India, e eu cuidei miseravelmente que a esposa fiel deixaria de o ser na ausencia de seu marido. Havia na sua casa um criado, que adivinhara as minhas intenções, e se me offereceu para entregar uma carta a sua ama. Acceitei e paguei liberalmente o serviço do seu criado; porém, escrevi mais cinco cartas instando pela resposta da primeira. Sua esposa nunca me respondeu. Um dia, fui animado pelo meu confidente a entrar furtivamente em casa de sua esposa, e esperal-a na passagem do seu quarto para uma sala. Cego da minha paixão, não comprehendi que praticava uma deshonra; mas sua mulher lançou-m’a em rosto, e eu sahi de sua casa, cuidando que me era sobejo castigo o despreso com que fui expulso por um ligeiro aceno de mulher. Momentos depois, o criado era despedido tambem, e a esposa sem macula ficou pensando que Deus abençoara a sua resolução, e que o mundo lhe seria sempre uma testemunha e um applauso da sua dignidade. Terminei. Agora peço licença para ser trazido á nossa presença o preso.

Manoel Teixeira fez um gesto como de automato. João de Mattos levantou o feixo da porta, e disse ao meirinho:

—Entrem… Conhece este homem?—disse elle ao negociante, indigitando o preso.

—Tenho idéas…—respondeu Manoel Teixeira, affirmando-se.

—Diz a este senhor quem és—tornou o intendente com terrivel sombra ao preso.

—Eu sou aquelle criado, chamado Gregorio, que cá estive ha onze annos em casa de vossa senhoria.

Mal o preso proferiu estas palavras, cahiu de joelhos aos pés de Manoel Teixeira.

—Mande erguer esse homem—disse o intendente.—O juiz aqui sou eu. Levanta-te, e responde. Entregaste alguma vez cartas minhas a tua ama, esposa d’este senhor?

Gregorio balbuciava, e João de Mattos atalhou com formidavel e colerico accento:

—Se faltas n’um só ponto á verdade, mando-te espedaçar os pulsos com dous anneis de ferro. Responde. Entregaste cartas minhas á senhora D. Maria da Gloria?

—Sim, senhor—disse o preso.

—Entregaste-me algumas cartas da senhora D. Maria da Gloria?

—Não, senhor.

—Quem me disse que entrasse na casa de tua ama, e me encaminhou até ao lugar onde ella havia de passar?

—Fui eu, senhor.

—Qual foi o procedimento de tua ama, quando me viu ajoelhado a seus pés?

—Mandou-o sahir de casa…

—E a ti que te disse?

—Mandou-me embora.

—Que disseste tu a teu amo, quando elle voltou de Macáo?

O preso ajoelhou outra vez aos pés de Manoel Teixeira, exclamando:

—Eu menti a vossa senhoria, e fui a causa da desgraça de minha ama; mas quem me aconselhou foi um logista, que tinha sido caixeiro de vossa senhoria. Perdôe-me pelo amor de Deus, que estou ha tres mezes com ferros aos pés n’uma enxovia sem ar nem luz!

João de Mattos fez um signal ao quadrilheiro. Este, puxando pela gola da vestia de Gregorio, quasi o arrastou para fóra da sala, a tempo que Manoel Teixeira, como se espertasse d’um sonho vertiginoso, engatilhava a pistola, visando com olhos convulsivos e escarlates de sangue o peito do preso.

João de Mattos collocou-se entre o negociante e o preso, dizendo:

—Este homem não se castiga assim, senhor Macedo. E preciso matar-lhe uma existencia em cada fibra. A morte instantanea d’este miseravel não vale onze annos de lagrimas.

O negociante, offegando, já com as lagrimas no rosto, e a voz embargada pelos soluços, lançou-se a um canapé.

Alvaro, alvoroçado pelo ruido, correu á sala. João de Mattos tomou a mão do menino, e approximou-o do pae, dizendo-lhe:

—Diga a seu pae que sua mãe lhe perdoa; e peça-lhe de joelhos o perdão para quem unicamente precisa d’elle, que sou eu.

Alvaro ajoelhou, e sentiu-se apertado nos braços do pae, que escassamente balbuciava exclamações cortadas de gemidos.

João de Mattos, abrasado d’aquella flamma electrica que experimentam as almas apaixonadas da terrivel sublimidade da angustia, tirou da algibeira uma carta, que leu com voz solemne, cava, e pungitiva por seu tremor nervoso:

«Meu sobrinho.

«Quando esta carta receberes da mão do filho de Maria da Gloria, pede a Deus, no fervor de tua alma, que te dite ao coração as palavras com que has-de convencer o pae d’esse menino da innocencia d’esta santa. Não seja contra ti e contra a vontade Divina, a soberba da tua posição. Vai, filho de meu irmão, vai, e não peças perdão para Maria da Gloria, que não tem culpas; pede-o para ti, que foste a causa da sua desgraça, e d’outra que te ha-de castigar ainda, se fores testemunha dos remorsos do marido. Vai, meu sobrinho, vai, guiado por esse anjo, e Deus te ajudará n’essa hora a alumiares o coração do infeliz marido; infeliz, sim, porque eu tenho uma quasi certeza de que as horas de agonia d’esse homem podem bem comparar-se ás d’esta sublime e nobre desgraçada. Vai já, meu João, não demores o resgate d’esta martyr que é pura aos olhos do Senhor, mas está perdida no conceito das pessoas a quem Deus não conta os segredos do coração das suas creaturas escolhidas. Eu espero com ancia que me digas o que o meu coração espera. Se a minha fé tem luz do céo, Maria da Gloria cedo estará com seu marido e com o filhinho que lhe leva o coração. Eu perco a companhia do anjo d’esta communidade; mas ganho-a para a sua felicidade, e onde quer que ella esteja dar-me-ha sempre o mais doce dos seus sorrisos, e a mais amarga das suas lagrimas. Não te digo mais nada, porque as minhas muitas enfermidades, bemdito seja Nosso Senhor Jesus Christo, não me deixam escrever. Eu te deito a minha benção, sobrinho da minha alma. Escreve-me na volta do correio. Deus te guarde. Tua tia muito amiga.

Joanna das Cinco Chagas do Senhor.»

—Que hei-de eu responder a esta carta, senhor Manoel Teixeira?—disse João de Mattos.

O negociante ergueu-se, enxugando as lagrimas; estendeu a mão a João de Mattos, e disse:

—Eu vou levar a resposta a sua tia.

O magistrado pôde suster-se contra o impeto do coração que o impellia aos braços do negociante. Conteve-o a lembrança de que nunca podia merecer a amisade do marido de Maria da Gloria, porque a paixão não era desculpa, nem a impossibilidade do delicto innocencia.

E este sentimento adivinhava o de Manoel Teixeira. Qualquer que fosse a commoção sentida, ouvindo o sobrinho da religiosa de Vairão, não era isso bastante para que o homem compadecido offerecesse a sua amisade a outro que entrára em sua casa supplicando de joelhos a deshonra de uma familia, embora o effeito da tentativa criminosa fosse apenas a desgraça de onze annos, e a certeza da causa vilipendiosa d’ella. Sem embargo, não era tudo dor no animo de Manoel Teixeira. Era-lhe de grande alegria a evidencia da lealdade de sua mulher; sentia-se como rehabilitado perante sua propria consciencia. N’isto vae muito para a vaidade, quando não seja tudo para o coração do homem. Se remorsos o alanceavam, o muito amor ás victimas da injustiça é a penitencia d’estas culpas. O arrependimento inventa carinhos novos; e a innocente parece vingar-se, perdoando, e sorrindo ao algoz, que exora perdão com lagrimas. Assim é, assim quer Deus que seja; mas o que não póde ser é um marido, que amou sua mulher e se amou a si por orgulho de a ter, perdoar ao homem, quer elle seja primeiro ou infimo, que pôz em acção os meios de empeçonhar uma legitima felicidade, embora a pureza invulneravel da mulher mais depure o quilate da sua virtude, encarecendo a vaidade do marido. A toda a luz se vê que Manoel Teixeira, no recesso de sua alma, odiava João de Mattos; e este, homem de altos espiritos e coração, conhecia o odio, e apertara a mão do negociante por não poder, sem desaire, recusar-lhe a sua.

Alvaro não desfitava os olhos lagrimosos do affavel e magestoso semblante do intendente.

Trinta e quatro annos depois, o padre Alvaro Teixeira, apontando o retrato de João de Mattos, me dizia n’aquella casa dos Olivaes:

—Contemplava-me assim com aquelle rosto de graça! Nem a minha alma conserva tão fiel a cópia do momento em que me elle disse: «Se seus paes lhe derem licença, menino, seja meu amigo; aproveite a minha velhice; eu lhe direi o que é o mundo, e o amargo castigo das acções más.»

Foram estas as palavras do homem virtuoso, ao despedir-se de Manoel Teixeira. Este escassamente curvou a cabeça respondendo á cortezia do intendente. É que, esfriado o momento do abalo, o negociante pejava-se talvez já de ter offerecido a mão a João de Mattos com a vehemencia expansiva de amigo.

 

VI

Apollon prend les armes.

VOLTAIRE (Sat.)

N’um dos ultimos dias de setembro de 1825, amanheceram embandeiradas as janellas, e as torres do mosteiro de Vairão. Os sinos repicavam desde o abrir da manhã. Feixes de murta, e as flores da estação entravam ás cargas e em taboleiros para o convento. As criadas chilreavam de janella em janella, e em magotes, á portaria. As religiosas, misturadas com as moças, e as velhas com as noviças, tinham provisoriamente rasoirado as jerarchias da posição e dos annos. A criada passava a correr por diante da ama; a noviça não beijava a mão á prelada; a prelada consentia que as moças lhe desfolhassem rosas sobre a touca. Das noviças algumas vestiam trajes masculinos: esta remedava um alferes de milicias, aquella um desembargador, uma um camponio, outra um pescador. E á volta de cada qual eram tantos os grupos, quantas as estridulas risadas, que applaudiam o chiste da noviça mascarada.

Estas folias celebravam um abbadessado, em que devia ser reeleita pela duodécima vez a prelada, a quem todas davam mais o coração de filhas, que a submissão de subditas.

Do meio dia em diante, começaram a confluir de diversas estradas uns sujeitos bem postos sobre as suas cavalgaduras, e de semblantes radiosos, que de si mesmos estavam dizendo cujos eram, e que altíssimos destinos alli vinham a cumprir: eram os poetas. D’estes, uns vinham por convite, outros espontaneos, ou esporeados pelo furor metrico. Uns tinham alli os seus idealissimos amores; outros já os tinham tido e encanecido com elles; e alguns iriam com esperanças de merecêl-os. Poetas de Guimarães eram tres; do Porto um, que valia por muitos, o celebrado Ferro; de Braga dous conegos em Apollo, e alguns abbades circumvisinhos; de Villa Real o famigerado Mormo, e o não menos conhecido Mesquita, cujo nome se laureara entre os contemporaneos da Universidade.

Quanto pode de Athenas desejar-se,
Tudo o soberbo Apollo aqui reserva;
Aqui as capellas dá tecidas de ouro,
Do bacharo, e do sempre verde louro.

Pelas capellas tecidas de ouro não fico eu; mas que as monjas hospedavam lautamente os seus poetas das mais raras gulosinas e carissimos licores com que já de mezes antes enriqueciam a frasqueira, isso juro eu, e ainda estão vivos alguns, que deram como esgotada a Castallia, no dia em que os garrafões monasticos seccaram requeimados pelo sol ardente da civilisação, a qual (digamol-o muito á puridade) trouxe comsigo o segredo de civilisar pela fome, e de restaurar direitos, violando-os.

A noite illuminaram se as janellas, e os postigos, e os frisos das torres, e as cornijas da igreja. O chá foi servido na espaçosa grade da abbadessa, primeiro aos vates e seus amigos, depois aos notaveis d’aquellas cercanias. O terreiro do espaçoso pateo estava colmeado de gente, anciosa de versos. As freiras, mais expeditas em improvisação de motes, estavam a postos. As senhas tinham já sido pactuadas entre a freira e o seu poeta, entre a noviça delambida e o seu incognito versista, e entre a propria criada, ou tacho, e o bardo menos aristocrata, que não se dedignava incensar a mocinha conhecida, e dadivosa das mais recheadas cestinhas de bolos e garrafas do vinho furtado á ama por amor de Apollo.

Rompeu o outeiro auspiciosamente. O doutor Ferro improvisára um magnifico soneto, sem resaibos da sua costumada licença. Os conegos bracarenses traziam odes de grande fôlego, que o Ferro dizia serem ôdres e não ódes. Os de Guimarães chamavam á octogenaria prelada a paphia deusa, e decima musa. Tudo isto ia intervallado por libações amiudadas, que accendiam a furia sonorosa, e trasbordavam do peito em colloquios rimados de tanto amor que o proprio patriarcha S. Bento, se alli estivera, e tomara quinhão dos enfeitados cestinhos, que desciam das rêxas, pediria mote para uma decima, sem damno da sua santidade e bom siso.

Depois da meia noite, é que o gloriosissimo santo não quereria de certo tal camaradagem. Os poemas rebentavam já, não da vehemencia do coração, mas da exuberancia do espirito. Qual este espirito fosse, vae dizel-o um dos proprios inspirados.

Era este o abbade Mormo, de Villa Real, inimigo do seu patricio Mesquita. Nunca se haviam encontrado em outeiro d’onde não sahissem mal-feridos de estocadas metricas, e desafiados para o outeiro proximo. Mesquita era filho d’um cortador de carnes, e gastara muitos milhares de cruzados para conseguir cartas de bacharel, que a estulticia do tempo não concedia sem attestados de sangue limpo. O ingeneroso Mormo mais de uma vez, em redondilha maior, alludira cruelmente á filiação de Mesquita, e este como desforço unico, lancetava a devassidão do abbade.

O doutor Mesquita foi vexado do demonio da satyra mais cedo que o seu patrício Mormo. Os remoques eram já pungentes, como este:

Já cede Pégaso o passo,
Escoucinha, espirra, e rincha,
Ouvindo ornear o pechincha,
O abbade sujo e devasso, etc.

isto o concitavam as gargalhadas de alguns seus contemporaneos; e a mais se prostituiria a musa alcoolisada, se um mote não viesse impôr aos poetas mais respeitosa linguagem. Era o mote:—«A melhor de entre as preladas.»

O abbade Mormo ergueu-se de sobre uma alfombra de relva onde parecia sopitado, e bateu as palmas, apenas soou o mote.

—Lá vai!—disse elle—A melhor de entre as preladas.

Boas noites! vou-me embora;
Já não posso estar com somno,
Nem me apraz soffrer o mono,
Borrachão a toda a hora.
Oh! quanto melhor lhe fora
Ter as facas amoladas,
E ir cortar as colladas
No outeiro sanguinoso,
Em quanto eu louvo ditoso
A melhor de entre as preladas!

Não podia ser mais nú o insulto ao filho do magarefe! A multidão riu muito, salvo os partidarios de Mesquita. Este, espicaçado pelos glosadores da injuria, procurou o velho abbade entre a populaça, que o victoriava, e remetteu com elle a murros fechados. O aggredido não podia com o adversario; mas sobravam-lhe alli admiradores que o defenderam, immolando-lhe o nariz contuso de Mesquita. Acudiram os amigos do doutor, e a briga assanhou-se entre os dous partidos a ponto de ficar despejado o pateo do mosteiro. As freiras de compleição mais debil desmaiaram. As noviças fugiram das janellas para não insultarem com o riso as monjas velhas. As criadas estendiam as bugias e lanternas fóra das grades para alumiarem o terraço, onde estalavam as bordoadas ora nos paus, ora nas cabeças com um som mais surdo. As lages do pateo estavam juncadas de chapéos e capotes. O reboliço afastára-se em turbilhões cujo alarido redobrava o terror. A prelada ordenou que se apagassem as luzes, e mandou tocar a silencio. Meia hora depois, os poetas e os demais hospedes do mosteiro voltaram á hospedaria conventual, e passaram o restante da noite em regalado somno, excepto os dous conegos bracarenses, que d’alli se partiram logo para suas casas com as melhores odes ineditas, e sem chapéo. O doutor Ferro, como estivesse já na cama, e soubesse que os conegos não voltaram, nem voltariam ao outeiro das seguintes noites, ergueu-se de golpe, e de pé sobre a cama, com um lençol sobre as espádoas, lançado em fórma de clamyde grega, e os cabellos descompostos, improvisou um soneto, que começava assim:

Altissimo Senhor, que tudo pódes!
Transfigura em cajadas os cajados
Que pozeram em fuga os desalmados
Estomagos, que tem só vinho e odes
. . . . . . . . . . . . . . . . .

Queria a abbadessa dar por concluida a festividade da eleição, á conta da desordem, e do receio que se ella repetisse. Conjuraram muitas religiosas em demovêl-a da tenção, e os poetas, acaudilhados pelo doutor Ferro, foram incorporados solicitar a continuação do outeiro. Os requerimentos em verso foram a final deferidos, e á noite seguinte concorreram, afóra os conegos bracarenses, os mesmos poetas, sem excepção de Mesquita e Mormo, que vieram ás boas, mediante as diligencias de algumas senhoras, que muito podiam com elles.

Correu a noitada muito à prazer de freiras e poetas. Nenhuma senhora deixou de contribuir com os seus applausos para a glorificação dos vates, salvo Maria da Gloria que passava a noite no quarto de soror Joanna, recontando-lhe pormenores da sua feliz infancia, e tristonha mocidade. O pendor de todas as conversações de ambas era para Alvaro. A religiosa consolava com a esperança; Maria chorava de saudades, e temores do futuro incerto. Se, porém, a santa lhe punha os olhos expressivos de reprehensão, a turbada senhora, dizia em tom de supplica:

—Perdoe, minha amiga, perdoe á minha desgraça a sua tibieza de fé. Eu sei que Deus a escuta; mas, se me olho inculpada, e tão infeliz, pergunto a mim mesma que virtudes novas tenho eu agora para merecer que o Senhor esqueça as minhas culpas passadas! Eu pensei sempre como hoje. O crime nunca teve para mim outra cor nem o meu coração se abriu aos encantos do vicio. Sou a que era; penso que serei sempre desgraçada como tenho sido.

Soror Joanna fez um esforço para ajoelhar á beira da poltrona em que estava sentada, e conseguiu-o coadjuvada por Maria da Gloria. Esta, sem convite da santa, ajoelhou tambem, e ouviu da freira estas brandas palavras:

—A nosso Senhor falla-se com humildade. Supplique, filha; mas não se queixe. Job tinha uma pedra por leito, e outra com que se alliviava da flagellação das suas chagas. Esse ousou perguntar a Deus, porque o tirou do ventre materno. A misericordia divina perdoou-lhe ao tom arrogante da sua afflicção. Não duvide de ser tambem perdoada, Maria. Afervore-sa e rese commigo.

Durava a oração mental alguns minutos, quando subitamente se levantou um grande reboliço nos dormitorios. Maria da Gloria alvoroçou-se, e disse:

—Será outra vez bulha lá fóra?

A freira não respondeu, nem sequer desfitou os olhos do Senhor crucificado.

Cresceu o rumor já perto do quarto, e vozes distinctas, clamando «milagre!»

—Gritam milagre!—exclamou Maria da Gloria, erguendo-se, com os olhos na freira.

Soror Joanna sorriu e disse:

—Não é milagre, filha: é a justiça de Deus, que a razão humana comprehende.

Entrou uma chusma de fieiras e noviças, conclamando á mistura:

—Ahi está o menino!

—E acho que vem tambem o pae!

—E muita gente a cavallo!

—E duas liteiras com senhoras!

—E traziam archotes!

Soror Joanna estava em pé, encostada a Maria da Gloria, cujas pernas tremiam de modo, que ella chamou Cecilia para se amparar.

—Ó filhas! vós fallaes todas juntas, e quebraes a minha pobre cabeça!—disse a santa—Falla tu, Cecilia, diz o que viste.

—Vi o snr. Alvaro, e um senhor com elle, que deve ser o pae. Vi mais pessoas a apear dos cavallos, e umas senhoras saltaram das liteiras, e já lá ficou a senhora abbadessa á portaria.

Maria da Gloria, posto que sustentada nos braços de Cecilia, dobrou os joelhos para orar; mas a perturbação era tanta que perdeu a consciencia de si, se não é antes que a sua alma se entranhou toda no seio misericordioso do Senhor.

Novos estrondos se aproximaram do quarto, e logo entraram tres senhoras de mui gentil presença e entre estas uma ainda menina de treze annos, que o leitor já viu e reconhece agora por aquella Leonor dos Olivaes, sobrinha de Manoel Teixeira. Com estas senhoras vinha tambem Alvaro, a quem os seus poucos annos consentiram, por segunda especial graça da prelada, ingresso no convento. Fóra da portaria tinham ficado o marido de Maria, Sebastião de Brito, pae de Leonor, e tres cavalleiros casados com as tres damas. Entrara depois d’estas uma mulher, que não ousava mostrar-se ao pé das outras, receiosa de que o amor fizesse mal á sua humildade: era a criada Eufemia.

As senhoras cercaram Maria da Gloria, chamando-a todas, e perguntando cada uma se a conhecia ainda. Leonor dizia-lhe que era a sua sobrinha. Alvaro dava-lhe aquelle doce nome, a cujo som toda ella se estremecia. Eufemia, essa, obscura a um canto do quarto, estava como esperando que sua ama a chamasse.

—Onde está Eufemia?!—disse Alvaro admirado.—Ella vinha comnosco!

—Estou aqui, senhor Alvaro—disse a criada, a quem as freiras abriram passagem.

—Venha cá ao pé de minha mãe, Eufemia…

Maria da Gloria abrira os olhos apavorados, relanceando-os por todos até encontrar os de Alvaro, que fora ao encontro de Eufemia. Reconheceu-os ambos, ergueu-se, expediu um grito, e abraçou-os juntos com tamanho impeto, que foi preciso ampararem o grupo as senhoras mais chegadas. Leonor acudiu de novo dizendo quem era. Maria fitou-a com amor, e disse-lhe:

—Bem vinda sejas! isto é uma festa de anjos!

As tres senhoras offereceram-se aos olhos d’ella, perguntando se as não conhecia.

—Conheço—disse Maria com a voz extenuada,—conheço as minhas amigas de ha quatorze annos. São as mesmas formosas meninas. A felicidade não deixa envelhecer… E a mim conhecerme-hiam?

Não responderam: tão absurda seria a lisonja, se quizessem mentir ao seu proprio assombro.

—Senhora D. Maria—disse a abbadessa—á portaria está seu marido. Vossa senhoria poderá descer até lá?

—Póde, pois não póde?!—disse soror Joanna das Cinco Chagas—Se eu lá vou com os meus oitenta e oito e a minha gota, por que não ha-de ir ella? Ora vamos. Quem lhe dá o braço sou eu, e o senhor Alvaro dá-me o braço a mim. Imaginem que levam a eternidade no meio; e acho que não é mal posta a comparação: a boa eternidade começa pela innocencia da vida, que é o menino, e continua-se na bemaventurança do soffrimento, que é a minha Maria, e esta, de mais a mais, chama-se Gloria!

No emtanto, a poesia do pateo estava estagnada nos corações repletos dos vates espantadiços. Tinham elles visto chegar a caravana ladeada de archotes, e por pouco que o doutor Ferro não improvisa uma elegia áquelle simulacro de sahimento. Dos poetas noveis, alguns rodearam as esbeltas matronas, sahidas das liteiras, e sentiram intumecida a veia da poesia ao profano. O Mormo queria vêr n’aquillo tudo uma violencia de clausura feita áquellas senhoras, e teve o zeloso desafogo de ir perguntar aos proprios maridos que senhoras eram aquellas, e por ordem de quem eram inclausuradas á meia noite. Os maridos tiveram a complacencia de desvelar o mysterio; com a qual explicação se afoguearam os filhos de Apollo, e em cada labio borbulhou uma estrophe de enthusiastica ode á redempção de Maria da Gloria. O Ferro, sabendo que se machinava um fogo preso de odes, disse em voz alta, que dava uma peça a quem fosse buscar n’um carro os dous conegos de Braga e as odes correlativas.

Com estas e outras facecias mantiveram os poetas o outeiro animado, apesar de sahirem das janellas todas as freiras, noviças, e criadas attrahidas pelo espectaculo novo, e mais levadas do coração que da curiosidade.

Ficou de memoria a primeira quadra de um soneto declamado n’esse intervallo pelo doutor Ferro:

Vão freiras, vá noviça, e vá a moça
Gosar d’um coração que desabafa;
Mas deixem na janella quem nos ouça;
Seja um vulto qualquer… uma garrafa!

 

VII

Na oração que ha senão aquella
duplicada força, capaz de amparar-nos
na queda, ou solicitar-nos o perdão,
se nos despenhamos?

SCHAKSPEARE (Hamlet).

Manoel Teixeira esperava encostado a uma columna do portico. Os amigos cuidavam em preparal-o para a impressão. Tão agitado o viam que receiavam o effeito do abalo que a primeira vista de Maria da Gloria devia fazer-lhe.

Dizia Sebastião de Brito:

—Deves estar prevenido, mano Manoel, para veres uma mulher muito differente d’aquella gentil dama, que era Maria da Gloria ha onze annos. No ar do convento dizem os santos que as almas respiram regaladamente; mas eu, que não sou medico, nem sequer santo, defendo que o ar do convento deve ser como peste para os pulmões de uma menina galante.

A comitiva fez o favor de rir á graça do morgado dos Olivaes; o negociante, porém, fez um gesto de enfado, e limpou o suor da fronte.

Abriu-se a porta: era a prelada, á frente d’uma procissão de monjas, noviças, e criadas. Entre todas, vinha Maria da Gloria pelo braço de soror Joanna das Cinco Chagas, e esta com a mão apoiada no hombro esquerdo de Alvaro. A luz, que as alumiava, era de tochas de cera, ao clarão das quaes procurava Manoel Teixeira, com espavorido olhar, sua mulher. Viu-a e reconheceu-a. Levado da sua ancia, chegou a transpôr o limiar da porta; mas a prelada, estendendo para elle a mão, disse com affectuoso sorriso:

—Queira ter a paciencia de esperal-a aqui: não é permittida a entrada nem mesmo aos maridos penitentes.

Maria da Gloria não podia ver claramente os vultos que divisava fora da portaria. Quasi suspensa do fragil braço da decrepita freira, pediu a Cecilia que a amparasse pelo outro braço. Porfiavam em sustental-a todas, e quasi no collo a trouxeram á porta. Ahi sentiu ella que uns labios lhe osculavam a mão com afogo e tremor. Era Manoel Teixeira, que dobrara o joelho diante d’ella.

—És tu?—disse ella—E podeste conhecer-me?

—Quando te não conheceria eu, infeliz?—respondeu elle afogado de lagrimas e gemidos.

—Tambem tu tens cabellos brancos!…—tornou Maria da Gloria, sorrindo—Os felizes envelhecem tanto como os desgraçados! Não estejas assim, Manoel… Aos pés de uma amiga não se ajoelha… Ou ella perdoou antes da posição humilhada; ou não perdoa nunca. Ergue-te…

—Ajoelhe diante de Deus, diante de Deus, senhor Manoel Teixeira—disse soror Joanna—e dê-lhe muitas lagrimas de louvor e gratidão por este anjo. Agora, torno a fugir-lhe com ella; por ora é nossa; ámanhã lh’a daremos. Vá vossa senhoria e mais os seus amigos para a hospedaria do mosteiro. A nossa boa prelada lá lhes manda o chá. Vão repousar, ou façam versos, se são poetas, que esta noite todos somos poetas, todos temos no coração hymno em acção de graças ao Senhor da misericordia e da justiça.

Maria da Gloria apertou a mão do marido, balbuciando algumas palavras, e o mesmo fez ao cunhado, que a saudou com esta tirada de palaciano e enamorado de todas as palacianas:

—Olhe que eu não a esperava ver tão encantadora, mana Maria! Agora vejo que o condão das perpetuas se mudou para as rosas da sua formosura—(Sebastião de Brito havia dito isto, mezes antes, a uma marqueza bem conservada, e soubera que a marqueza repetira em ar de enfado a toda a gente a fineza; porém, gostosa de que a metaphora fosse applaudida, como de feito era). A graça do mundo—continuou elle, offerecendo simonte em caixa de ouro á abbadessa—desbota as flôres, e a de Deus reflorece-as. A mana Maria está como era; e, se não fosse a sympathica pallidez que lhe realça o mimo, seria menos bella, ou tão bella como foi.

Maria da Gloria riu-se, e as senhoras de Lisboa com ella, mas delicadamente. Ao mesmo tempo espirraram de um grupo uns frouxos de riso, que estalaram em gargalhada mais longe: eram as noviças, gente bravia, como a abbadessa lhes chamava, que traziam o mosteiro em desordem, e nunca podiam dar grande sahida pelos caminhos do céo.

A madre porteira fez menção de fechar a porta, quando Brito calou o refolhudo comprimento. Manoel Teixeira beijou a mão de Maria, e perguntou-lhe se o menino ficava.

—O menino fica—disse soror Joanna com ar alegre—porque tem de me levar á cella. Estas senhoras, se quizerem, e a senhora dona abbadessa consentir, podem tambem ficar. O patriarcha S. Bento tudo tolera hoje, por amor do nosso anjo, que não pediu a felicidade só para si. Ora vamos com Deus.

Fecharam-se as portas. Maria passou a noite de vigilia, com o seu leito rodeado das antigas amigas, das freiras mais da sua alma, e do filho acariciado, que adormecera com a fronte encostada ao travesseiro de sua mãe.

Manoel Teixeira e os seus companheiros, excepto Sebastião de Brito, pernoitaram na hospedaria do mosteiro. O dos Olivaes, tão amante das musas, quanto o ellas tratavam esquivamente, foi até ás quatro da manhã o primeiro enthusiasta do auditorio, batendo palmas delirantes, e bradando os bis com todas as potencias da sua admiração pulmonar.

Agora, abro mão do seguimento da historia, para acudir a uns reparos d’algum leitor.

Diz elle:

«Eu estava preparado para lêr algumas paginas bonitas e sentimentaes, occasionadas pelo encontro de Maria da Gloria e Manoel Teixeira. Fiquei logrado. Nenhum d’elles disse cousa que fizesse chorar, nem escassamente commover a gente. O author deixa perder as marés cheias de poesia. Aqui era que devia ostentar os thesouros do seu estilo lamuriante. Nem um aprendiz de romances deixava, pelo menos, de tirar do peito do marido quatro apostrophes, com grande chuveiro de lagrimas. Era bello fazêl-o discorrer uma hora de joelhos aos pés da esposa, desfallecida de cinco em cinco minutos. Que ella perdoasse, isso sobre ser justo, era dramatico; todavia, a palavra misericordiosa devia fugir-lhe do coração, depois que as freiras todas chorassem em coro, e soror Joanna discorresse dilatadamente acerca do perdão das injurias. Além de que, nenhum desmaiou! O tocante era ir ella nos braços das esposas do Senhor para cima, e elle ficar cá fóra, senão sem sentidos, ao menos declamando um quarto de hora, e cahir a final extenuado nos braços dos amigos. Isso sim, era uma passagem que bastava á reputação da novella, e a venderem-se mais alguns milhares de volumes. Escrever as cousas como ellas se passam no mundo, como nós as vêmos por ahi! Então é melhor não dar cópias da realidade. O que a gente quer é que o romancista nos pinte a sociedade, a vida e as paixões melhores ou peores do que são. Regala estar lendo uma scena sem naturalidade, e dizer «isto não é assim; mas, se assim fosse, era mais agradavel o mundo.» Onde está a imaginação do novellista, que repete o que viu, ou leu, ou lhe contaram?! E como dizerem que o theatro deve ser a photographia da vida! Vão para lá com os seus dramasinhos verdadeiros, e verão que nem os musicos da orchestra lh’os aturara. O romance é tal e qual a mesma cousa. Se nos não maravilha, enfada-nos. Viram cousa assim?! Deixar o author correr glacialmente aquella scena da portaria do convento! Ainda agora podiam estar os conjuges a dissertar a respeito da calumnia que custou onze annos de martyrio á esposa sem nodoa! Pois o remorso não era aguilhão sufficiente para fazer andar o marido em bolina n’aquelle local tão poetico, e obrigal-o a raivar contra si, e a desentranhar-se em eloquencia de phrases e lagrimas aos pés da mulher! Nem um ah! nem um oh! lhe ouvimos!… É de mais! Póde ser que assim acontecesse, e que o facto assim descripto o lêsse o author no manuscripto do padre Alvaro Teixeira; mas isso não indulta o artista, que recebe das mãos da natureza uma pedra, e faz d’ella uma Nióbe ou um Laocoonte. O romancista é o esculptor das paixões: enfeital-as, corrigil-as, dar-lhes com palavras a expressão que ellas estheticamente não podem exprimir, é seu officio. E, se o author me não entende, eu lhe aclaro a idéa: É de crêr que as pessoas testemunhas do lance, entre Manoel Teixeira e sua esposa, se commovessem, porque lhes viram nos semblantes os movimentos da alma; nós, porém, que os não vimos, precisávamos de receber da phantasia do escriptor uma descripção, que nos sacudisse os nervos, e levantasse o espirito á altura em que o levantam os romancistas da moda. Fique-lhe, pois, de memoria esta amigavel censura; e, para outra vez, belisque a imaginação, se quer que o seu nome de romancista reverdeça, orvalhado com as nossas lagrimas, ou festejado com as nossas gargalhadas. Chorar ou rir, é onde bate o ponto. Quem não conseguir uma das cousas, não nos importune.»

Respondendo, digo ao leitor sisudo que me conformo com o seu parecer, e de experiencia tenho que a verosimilhança, qualidade em que tenho aperfeiçoado esta minha arte, me tem grandemente desmerecido a valia dos meus romances. Ha muito tempo que não mato ninguem senão de molestia: quando muito, para aformosentar a morte com um nome bemquisto dos poetas, e dos leitores sentimentaes, tenho denominado tisica pulmonar, ou congestão cerebral, o que em boa pathologia se denomina hydropesia ou inflammação intestinal. Não se tem suicidado ninguem nos meus ultimos romances, nem mulher alguma perdida tem sido rehabilitada ao amor virginal. Isto é nocivo ás minhas curtas aspirações, bem o sei; mas já agora não arripio a carreira; liei-de ir indo assim, dispendendo-me pouco em imaginações, de que me sinto muito alcançado, e pondo as melhores tintas e pinceis na copia da verdade, embora a verdade seja descorada e dissaborida aos amigos das visualidades. Já n’outros livros me tenho cançado a responder a reparos que a critica, não impressa mas em familia, me tem feito. Paciencia. A França, de Bernardin de Saint-Pierre menosprezava a historia singela de Paulo. Arguiam de infecundidade o author que o não fez carpir-se em desesperado monologo ao pé do cadaver de Virginia. Quem me dera a mim para um dos meus livros uma sombra do renome d’aquelle romance! Quantos milhares de romances, decantados uma hora, pensa o leitor que a voragem do esquecimento enguliu, desde que a obrinha do grande naturalista recebe o tributo de lagrimas, que Napoleão lhe dava em Santa Helena?

N’este genero de escriptos, o sello da perpetuidade grava-o a natureza. O templo dos livros immortaes é servido de poucos sacerdotes; mas, grande gloria lhes é esse culto sem estrondo! Não vão agora cuidar que eu estou já d’aqui espreitando o nicho do templo da eternidade em que me hão-de encolher os vindouros—encolher, digo, porque não podemos lá caber todos! Não, senhores! eu no que penso é em converter o meu leitor á religião da verdade, e levo em vista movel-o a lêr outra vez aquella fria e frouxa scena da portaria de Vairão. E, se alguém disser que eu estou dando satisfações impertinentes, respondo que é isto respeitar os meus leitores, e proposito de adelgaçar as rudezas de alguns raros, que me trazem entre os dentes da sua critica, porque os eu não faço chorar nem rir.

Respondi, e volto ao outeiro.

Alvorecia a manhã, quando a maior parte dos poetas se retirou com as musas roufenhas da friagem matinal. As damas lisbonenses, captivas da novidade do outeiro, nem se deitaram, e com Leonor andaram, de grade em grade, pedindo que lhes ensinassem a dar motes. Notaram as freiras que particularmente a menina, se o verso que lhe davam era para assumpto sagrado, não ficava contente, nem se enthusiasmava a repetil-o ao poeta. Se, porém, no mote vislumbrava idéa amorosa, era muito de vêr e admirar o desembaraço com que a azougada menina se espevitava, proferindo eom certo requebro as palavras do verso. O pae, que andava, como dissemos, entre os poetas, regosijava-se de ouvir a voz da filha, e como tal a apresentava aos trovadores embellecados da voz argentina e insinuante, que ella tinha. D’estes, o mais verde em annos, e mais verde em esperanças, sentiu-se namorado d’aquella voz, e d’amor tão engenhoso que, até dos motes ao divino, profanava a idéa convertendo-os em madrigaes. Leonor estava encantada de ouvir o seu poeta, e já perguntava com anciosa curiosidade quem elle era. Disseram-lhe que era um filho segundo de uma nobre casa de Villa do Conde, tão bom poeta como mau filho, que tinha dado grandes desgostos a seus paes. Esta ultima parte da informação não a desviou de já, sol nado, sustentar com algumas noviças o outeiro, cujo unico poeta era o de Villa do Conde. Não queria ella retirar sem vêr o rosto do vate dos amorosos sonetos. Viu-o, e ouviu-o em prosa, e achou-o na sympathia igual ao poeta. Disse-lhe de entre as grades um adeus affectuoso, e foi passear na cêrca, e scismar, como podem os corações fatidicos scismar aos quatorze annos.

 

VIII

Oh!…………………………
Nec te aleator ullus est sapientior

Nunca velhaco algum mais destro fora.

PLAUTO.

Maria da Gloria, Leonor, e as damas, depois do almoço do dia seguinte, sahiram com Alvaro para o recinto exterior da grade mais ampla do mosteiro. Ahi eram esperadas pelos cavalheiros, tirando Manoel Teixeira, que fizera pedir á prelada uma grade especial em que elle podesse estar a sós com sua mulher. Maria da Gloria, sabedora da petição, escreveu a seu marido estas linhas:

«A tua dignidade e a minha impõe a nós ambos a delicada obrigação de não proferirmos uma palavra com relação aos acontecimentos que me trouxeram a esta casa. Sobeja e inutilmente te fallei da minha innocencia: emenda tu agora a culpa de me não teres attendido, portando-te aos meus olhos como se a consciencia te não doesse. Se precisas desafogo, procura-o em Deus, e sentirás allivio. A Divina Providencia escuta os innocentes e os criminosos.

«O pedido, que fizeste á senhora abbadessa, não póde ser por minha parte satisfeito. Irei á grade; mas Alvaro estará comnosco. Sei que te has-de cohibir de confessar as tuas culpas, na presença de teu filho, que as ignora.»

Estava já Manoel Teixeira na grade, quando recebeu o bilhete, e minutos depois chegou Maria e Alvaro. O marido apertou-a ao coração, e disse-lhe:

—É assim que te vingas, Maria?

—Que me vingo!…

—Sabias que estas dôres do remorso só podiam as lagrimas allivial-as, e prohibes-me de fallar, e chorar, para que eu não ouça da tua boca a palavra «perdão»!…

—Perdoei…—balbuciou ella.

—E o teu perdão, minha amiga, devo tomal-o como esperança de me poderes, um dia, restituir o amor que tão mal paguei?

—Cala-te… Não me falles em amor… Que vens tu pedir a uma desgraçada mulher, que envelheceu e morreu aqui?! Parece que não sabes imaginar os dias e as noites de onze annos! Quem espera achar coração em mulher que padeceu tanto! Pergunta-me se eu posso amar meu filho, e mais nada. E que mais queres tu de mim, Manoel?

—Queria ter com meu filho quinhão do teu amor. E impossivel? não me queixarei. Acceito a tua indifferença como castigo; mas não me odeies, filha, não. Fui teu algoz porque era teu verdadeiro amante…

—Basta!…—disse com esforço Maria, relanceando sobre Alvaro os olhos sem lagrimas—Esqueces o meu pedido?

Manoel Teixeira obedeceu a sua mulher e contemplou-a em silencio, a tempo que Maria encostava ao coração a face do filho. N’esta contemplação de minutos o que seria o espirito d’aquelle homem? Uma agonia mortal, tormento sem nome, nem remedio, quando a piedade recusa abrir-lhe o espiraculo das lagrimas. Que via elle? As reliquias d’uma grande formosura, os cabellos brancos, as palpebras roxas, as rugas sobre os ossos aridos, a decomposição de um rosto que fora a imagem, o symbolo vivente da graça e da harmonia. Que fizera elle durante os onze annos que devoraram a belleza e o coração d’aquella martyr? Devia de ser esta a pergunta que elle a si se fez, quando o choro lhe borbulhou dos olhos. Que fizera elle? Vivera em toda a parte a vida exterior da alegria e da opulência. Tivera palacios em Napoles, e alteára-se em suas pompas a tão elevado ponto, que deram d’elle fé os indifferentes de Paris. Em quanto a esposa pura d’alli pedia uma visita de seu filha unicamente, e deixava ao pae o gozo inteiro das regalias do seu patrimonio d’ella, quem era aquella mulher que, fatigada de felicidade, se reclinava na espaldar-setim das suas carruagens, e se aborrecia do luxo dos seus palacios de Napoles e de Belem? Como pôde elle tão depressa mitigar as saudades da esposa com as venaes caricias da italiana, a cujos pés elle rolava o ouro, que trouxera de Macáo, grangeado pelo incansavel lavor d’um pae, que a si tirava o que lhe parecia necessario á futura magnificencia de sua filha!

Devia ser este o affligido meditar do negociante, ou maiores seriam suas dores, quando elle de impeto se lançou aos pés de Maria, exclamando:

—Tu não podes perdoar-me!

Acudiu Maria a erguel-o, e disse-lhe:

—Se te mereço compaixão pelo passado, não me afflijas. Ergue-te. Vamos sahir, que me sinta aqui sem ar. Vamos experimentar as minhas forças. Dá-me o teu braço, Manoel. Iremos vêr de perto as arvores, que eu vejo, ha onze annos, da minha cella.

Manoel Teixeira recobrou vigor dos alentos e sorrisos de sua mulher. Sahiram, e sósinhos, e silenciosos. Queria Alvaro chamar Leonor, mas o pae rejeitou a lembrança.

—Vamos sós—disse elle—sejamos egoistas d’esta felicidade… embora minha sómente…

Maria sorriu-se, e disse com accentuação melancolica:

Felicidade!…Tem-l’a conhecido no amor d’este anjo?… Creio-a, se me disseres que sim… De resto… como poderias tu ser feliz, se ha Deus!…

Teixeira sentiu o golpe involuntario d’estas palavras, e murmurou:

—Deus, que deixou a tua innocencia nas trevas de onze annos… Que Deus!…

—Não offendas a mão Divina que me amparou…—tornou Maria.

As familias, reunidas na grade, sabendo que os esposos tinham sahido do pateo, desceram a seguil-os. Sebastião de Brito bradou de longe:

—Olé! Esperem lá, que nós vamos tambem. Duas luas de mel é muita lua! Conversem sósinhos em Lisboa, e dêem á gente uma particula da sua felicidade.

Quando se ajuntaram, continuou o morgado dos Olivaes:

—Queres saber, Manoel? A tua sobrinha Leonor está poeta… Não falla senão em versos. E preciso que Alvaro seja poeta.

Riram todos, porque de todos era sabido o projecto de matrimonio entre os dous primos.

—Então gostas muito de versos, Leonor?—disse Maria.

—Muito, principalmente dos que faz o senhor Sotto-Mayor.

—Quem é o senhor Sotto-Mayor?!—tornou Maria da Gloria com espanto.

—Já conhece os poetas pelo nome—respondeu o pae com alegria—O Sotto-Mayor é um rapaz de Villa do Conde, por cuja musa a pequena perdeu a noite, e perderia a vida, se elle lhe promettesse uma eternidade de sonetos.

—Já é paixão de versos!—tornou a mãe de Alvaro—Sabes tu fazer versos, meu filho?

—Não, minha senhora: sou ainda muito nova—respondeu Alvaro—A prima Leonor é que tem lido muitos versos.

—Já li o Bocage;—acudiu a menina, acompanhando a expressão de tregeitos exquisitos—li tambem o Belmiro, e as poesias do Garção, e do Quita, e do Lobo, e muitas outras que o papá lá tem. E a senhora D. Catharina de Balsemão, e a senhora marqueza de Alorna gostam muito de me ouvir recitar sonetos, e ensinam-me quando eu não declamo bem.

—Bem está—disse Maria—estás uma doutora, minha sobrinha!… Queres tu ser freira para gozares as delicias d’um outeiro de tres em tres annos?

—Freira! Deus me livre! Eu não sei como ha quem possa viver n’um convento! Antes morte que tal sorte!

O morgado achou muita graça á esperteza da menina, e concordou com ella em não saber tambem como houvesse gente que quizesse sequestrar-se do mundo, que, segundo elle, não era tão mau como os misanthropos o calumniavam.

Todos os passeantes se empenharam n’esta questão, que Maria da Gloria defendia encarecendo a felicidade dos mosteiros, quando reina a paz no coração e na consciencia. N’isto appareceu o poeta de Villa do Conde, e Leonor, estremecendo, exclamou:

—Elle lá vem! é elle!

—Quem?—disseram algumas vozes.

—O meu poeta!

—O teu poeta!—disse, com molesta accentuação, Maria da Gloria: e chamando a segredo o cunhado, disse-lhe ao ouvido:—Não deixe assim fallar sua filha, que não é bonito aquillo!…

—Por que, mana?—disse em voz alta o morgado—Ahi está o effeito dos conventos! Temos bioquice! Que tem que ella diga o seu poeta? Palavras n’aquella bôca não significam nada, mana Maria! É uma criança: deixal-a fallar.

Miguel de Sotto-Mayor tinha chegado ao grupo, e cortejou-o com desembaraço e elegancia.

—Viva o poeta!—disse Sebastião de Brito,—Eu amo os poetas, e gosto das suas relações. A sua bella musa está accesa para a noite?

—A minha musa—disse o moço—está sempre fria; e, se alguma fortuna tiver, devel-a-ha aos calorosos louvores que vossa excellencia lhe dá, posto que os não mereça.

—Pelo contrario: minha filha está encantada dos seus versos, e já sabe quem o senhor é. Alli tem uma criança que já leu os melhores poetas portuguezes!…

—Razão de mais—redarguiu o de Villa do Conde—para não gostar das minhas poesias incultas e sem mais merito que o da natureza.

O poeta foi indo no grupo, respondendo com frivolidades a outras do palavroso morgado, e agradecendo com delicados olhares á expressão penetrante dos olhos de Leonor, que parecia embevecida nas palavras d’elle.

Esmerou-se a communidade em lauto e primoroso banquete n’aquelle dia. A dona abbadessa, que tambem era capitão-mór de Vairão, infringiu amplamente a regra da ordem, admittindo as familias de Lisboa a jantarem com ella e outras religiosas de mais graduação. Ao mesmo tempo, os poetas, que o não eram senão de noite, comeram durante o dia como quem não fora alli senão para versejar, e honrar o refeitorio das monjas. Estas, porém, de ricas e generosas que eram, não se queixaram, como as do tempo d’el-rei D. Diniz, do muito que os ricos homens e infanções lhes comiam[9].

Os hospedes do convento sahiram ao cahir da tarde para o cruzeiro do pateo. Era um formoso intardecer de estio o d’aquelle dia de Setembro. Maria da Gloria não respondia ás alegrias de tanta gente que a felicitava, e não sabia entender a tristeza d’ella. Fallavam-lhe da sociedade de Lisboa as suas amigas desejosas de lá se verem. A melancolica senhora respondia:

—Que tenho eu que vêr com a sociedade!… O braço, que fere com a infamação jamais recua arrependido sem deixar ferida incuravel. Eu não detesto, mas desprezo o mundo. Dêem-me uma casinha e o meu filho, que eu não quero mais. Se este menino tivesse morrido, ha muito que eu dormiria na claustra d’esta casa; ou, se Deus me quizesse provar até mais tarde, nunca sahiria d’aqui.

Manoel Teixeira ouvira estas palavras, e interrompeu-as com muita amargura:

—Tens-me em conta de nada na tua vida, Maria?

—És o pae de Alvaro: estimo-te e respeito-te, hoje como sempre. Que mais queres de mim? A felicidade da mulher é muito fragil, e de certo irreparavel, depois que a matam com a peçonha da ingratidão… Desculpa-me, meu amigo. Não queiras milagres, que as orações das servas de Deus não conseguiram. Houve ahi muito quem pedisse ao Senhor um raio de conforto e de alegria para mim: o que o céo me concedeu foi a conformidade, e o amor d’este menino.

Maria já evitava o praticar a sós com seu marido. Magoavam-na os termos amorosos com que elle enfeitava a sua paixão para dar lenitivo aos pungimentos do seu remorso. Não o amava ella: afoutamente o digamos em nome da verdade e da natureza: não podia amal-o. Deveria perdoar e perdoou á paixão do ciume, enfurecido pelo orgulho; mas ao pertinaz desprezo de onze annos, ao silencio affrontoso áquellas apaixonadas cartas de mãe, que implorara em vão deixar no rosto de seu filho as ultimas lagrimas, não, não podia perdoar a virtuosa mulher.

Ao diante veremos que nobres e singulares espiritos eram os de Maria da Gloria.

Estamos na ultima noite de outeiro. A partida das familias para Lisboa foi marcada para as quatro horas da seguinte madrugada. Os poetas encarregaram-se de espancar o somno dos viandantes até essa hora, e galhardamente se tiraram da dificuldade. Bons tempos aquelles em que a poesia era inimiga do somno!

Quem de certo nunca bocejou foi Leonor. O vate de Villa do Conde excedeu-se a si proprio no mimo, na doçura, no amoravel dos seus sonetos e decimas. A paixão palpitava em todas as metrificações: no soneto, impetuosa e energica; na decima, toda em flores e maviosidades. O Ferro ouvira-lhe alguns versos de relance, e cantou-o assim n’um soneto, que, a meu pesar, me não repetiram completo:

Que dôces rullos rulla aquelle pombo
A pomba enamorada e toda secia!
Cuidado! que a virtude soffre um tombo,
E vamos ter alguma peripecia!

Miguel de Sotto-Mayor, posto em riso pelas chufas da plebe, azedou-se contra o repentista portuense, e quiz desafial-o. Intercederam as senhoras religiosas, conscias do conflicto, e Leonor pediu com ellas, dizendo em voz de quem manda e não pede:

—Faça o que eu lhe digo, senão não sou sua amiga.

Ora o Ferro, que fingira escassamente entender que o desafiavam, apasiguada a sanha do trovador de Villa do Conde, deu mostra da sua impenitencia n’um soneto de cujos tercetos resta memoria:

. . . . . . . . . . . . . . . . . .
Tão negro quadro meu pincel não toque!
Calcarem do perdão as santas leis,
Matarem-me por causa d’um remoque!…

Que homem tão cruel, ó Deus, fazeis!
Se me elle ao ventre aponta o agudo estoque,
Que diluvio de vinho e de pasteis!

Não averiguei as innocentes manhas de que usou Leonor para sahir da roda das senhoras, e sumir-se entre as criadas, que conversavam em prosa com os seus conhecidos, em janellas afastadas dos pontos concorridos. Miguel de Sotto-Mayor devia ter aviso d’esta mudança, porque desalojou tambem do local dos seus triumphos, dando a desconfiar de que sahira estomagado das facecias do doutor Ferro. As criadas convisinhas de Leonor ouviram este breve dialogo entre a menina e o poeta:

—D’aqui a uma hora vamos para Lisboa—disse ella.

—Para nunca mais nos vermos?!—respondeu elle—Este outeiro foi-me fatal! Permittisse o céo que os meus olhos se fechassem antes de eu vos ter visto, Leonor!

—Póde ser que eu vos torne a vêr; mas vós me esquecereis quando me não virdes!

—Primeiro esquecerei a vida, sentirei morrer o coração devodo de saudades. Jurai-me um eterno amor! Promettei escrever ao infeliz poeta, que, d’ora em diante, contará pelas lagrimas os minutos da existencia.

—Juro amar-vos eternamente…

—Juraes?! mas esqueceis que já sois a esposa promettida de vosso primo?

—O meu coração é livre—replicou ella…—Adeus, que me procuram; adeus, amai-me, e tende esperança!

Estavam as senhoras já na portaria, quando Leonor desceu. Faltava Maria da Gloria, e havia no convento, além do reboliço, afflicção em muitas freiras. Maria da Gloria tinha entrado no quarto de soror Joanna das Cinco Chagas, a dar-lhe o ultimo beijo, e desfallecera nos braços da religiosa e de Cecilia. Voltara a si, rompendo em gemidos, como se a partida fosse um arrancarem-na á felicidade. Alvaro chorava ao pé d’ella. Eufemia já pedia que a deixassem alli ficar com sua ama e com o menino. A santa, simulando coragem, impunha-lhe o dever de demudar o semblante para alegre, e feliz do bem-estar de seu marido. A força dos acontecimentos venceu a final; e Maria da Gloria, abraçando com phrenesi o filho, cobrou animo para trocar por elle a amisade angelica d’aquellas senhoras.

Rompia a luz da manhã, quando partiram, caminho do Porto. Tocou a matinas o sino de Vairão. As religiosas entraram no côro, e já encontraram soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor. Findos os psalmos, a santa ergueu a sua voz, sempre ouvida como a palavra d’um anjo, e disse:

—Suppliquemos á Misericordia Divina que aceite o calix da innocente Maria da Gloria, como desconto ás futuras amarguras d’esta familia, se os mysteriosos juizos de Deus lh’as reservam.

Quaes seriam as tuas visões, ó santa!?

[9]Aos leitores da Introducção ao Diccionario dos nonymos, de Fonseca, é bem conhecida esta antigualha, divulgada por João Pedro Ribeiro: Dom Danys, pela graça de Deus, Rey de Portugal… A vos meu Meyrinho moor saude. Sabede, que a abadessa do de Vairam mi envyou dizer que Ricos homens e Infançoens, etc. que son naturaes do dito moesteyro veem a este moesteyro comer as turas e albergar i desmesuradamente, e con mays ca he contheudo no meu Degredo, de guisa que ela e as outras Donas, que iam a servir a Deus, não podem i viver, nem manter o dito moesteyro; isto non tenho eu por bem, se asi he; por que vos mando que não sofrades aos desusuditos, etc. Unde al non ffaçades se não a vos me tornaria eu porem, e faryavos coreger de vossa cassa todos danos, etc. Que fidalgos aquelles que iam de caso pensado albergar-se no mosteiro para comerem as naturas (quer dizer—os rendimentos) das monjas!

 

IX

Proichè suo fui, non ebbi ora tranquilla,
Nè spero aver

PETRARCA (Rime).

Em breves termos darei conta do viver de cinco annos em casa de Manoel Teixeira de Macedo. Seria talvez do agrado do leitor a historia minudenciosa dos menores actos, que naturalmente se encadearam para reflorir a primavera de Maria da Gloria, e adoçar o agro que uma supposta deshonra devêra ter instillado no animo do banqueiro. É um engano. As primaveras da alma, se a aza negra d’uma tormenta as esfolha, nunca mais reverdecem; e os algozes, que afiam o gume de seu orgulho para lhe immolarem sem piedade as victimas, a si se golpêam, e tal chaga abrem de remorso que nem o balsamo do arrependimento a cerra.

Maria da Gloria, ao entrar em casa de seu marido, lhe disse a elle, sem testemunhas:

—Recebes em tua casa uma tua irmã, meu amigo. D’esta casa dá-me um quarto ao pé do quarto de teu filho. Se isto me concederes, enches o meu coração ambicioso: nada mais quero; e violentar-me a acceitar mais do que isto é mortificar-me. Acostumei-me á clausura: hei-de continual-a aqui. Se me lá era penosa por me Deus abençoar com o ardente amor de mãe, aqui, na tua casa, serei feliz porque tenho commigo tudo que me prendia á vida pela esperança. Não me leves á sociedade, nem me peças que a receba n’esta casa. Ser-me-ia doloroso contrariar-te, ou contrafazer-me. Não alteres, tu, Manoel, os teus habitos. Continua a ser o que eras antes de me ir buscar para a tua companhia. Nada te pergunto do teu passado, nem quero que m’o digas: basta que eu o tenha ouvido da malevola curiosidade de pessoas, que, ainda ha quinze dias, te absolviam a ti para me infamarem a mim. Isto bastaria para eu odiar o mundo, e presar viver em odio d’elle. A tua bondade tem-me ouvido com indulgencia para ser em tudo generosa. Dás-me assim a vida, que te peço, de portas a dentro?

—Vive como quizeres, Maria—respondeu Teixeira com semblante magoado—Hei-de obedecer a quantas condições estipulares, se d’ellas depender o teu bem-estar. Disseste-me que eras, em tua casa, meramente minha irmã.

—Tua irmã.

—Confirmas o que já me tens dito: o teu coração morreu para mim.

—Coração de irmã não é coração morto, meu amigo. A esposa has-de conhecel-a nos extremos com que ama teu filho, e na estima respeitosa com que ha doze annos te presava. A mesma te sou hoje e serei sempre.

—Comprehendi… Serás obedecida, Maria. Não me revolto contra o castigo: descontar em amarguras a culpa é allivio de remorso nas almas, que não estão de todo pervertidas. Acceito tudo.

E cumpriu religiosamente.

Aquella italiana do palacio de Belem achou-se de repente augmentada em riqueza; mas a riqueza era o ultimo saldo de contas. O millionario dera-lhe, com o dinheiro, o conselho de retirar-se a Napoles com os dous filhos. A cantora ficou com o dinheiro, e devolveu-lhe o conselho. Se até alli a perfidia fôra clandestina, d’alli em diante até por soberba se patenteava. O novo amante orgulhou-se da substituição, e ostentou-se redobrando a magnificencia da napolitana. Quiz Manoel Teixeira tomar conta dos filhos; ella, porém, respondeu que as velleidades da mulher não tinham nada commum com o coração de mãe; e não lhe deu os filhos.

Alvaro não voltou ao collegio, a não ser para ir mostrar ao seu mestre e amigo as lagrimas de alegria.

—Minha mãe—dizia-lhe elle—é agora a minha mestra. Tudo o que eu sabia era muito pouco comparativamente ao que ella me ensina. Disse-me que as horas de resignação, que teve em onze annos, as dera ao estudo. É um prazer ouvil-a discorrer a proposito de qualquer passagem de historia; mas o que mais me prende é o que ella diz da vida.

—Seu pae—disse o professor—deve sentir-se feliz, ouvindo-a…

—Meu pae raras vezes entra n’estas nossas conversações. Ha dous annos que minha mãe veio do convento, e desde então não sei como explicar o ar sombrio de meu pae. Falla-lhe com brandura e contentamento a ella; mas, se o encontro sósinho no seu gabinete, parece que vejo estarem-lhe os cabellos a embranquecer, e não tem ainda quarenta annos, penso eu. Começo a entender tudo, e o meu amigo ha-de dizer-me o que eu não souber. Lembro-me que meu pae é desgraçado porque minha mãe involuntariamente o mortifica com os signaes do sofrimento a que elle a obrigou. Ella é que envelheceu, e está para pouca vida. Muitas vezes me diz a chorar: «Quererá Deus que eu não vá d’este mundo sem te vêr homem, e no caminho da felicidade?» Receio muito que ella succumba aos effeitos dos padecimentos passados…

Um dia, Alvaro Teixeira encontrou João de Mattos, sentado ao lado do conde de Basto, na carruagem d’este. João de Mattos viu-o, e fez parar a carruagem. O ministro da justiça apeou, e abraçou Alvaro.

—Nunca mais se lembrou de mim?—disse-lhe elle.

—Lembro sempre; mas não me atrevi a procurar vossa excellencia.

—Pois procure-me, e nunca esqueça as minhas ultimas palavras.

Este encontro é posterior cinco annos á visita do intendente geral da policia a Manoel Teixeira.

Em 1830, o negociante abandonou inteiramente o trafico commercial. Falleciam-lhe forças para o trabalho, e sobravam-lhe os haveres. O seu estado era relativamente limitado. As antigas equipagens tinham sido reduzidas ao indispensavel. Maria da Gloria apenas ia com seu filho aos Olivaes, a horas em que não podesse ser observada. Alvaro, e só elle, era a sua constante companhia. As antigas amisades de sua casa retiraram ofendidas do ar ceremonioso e reservado com que eram recebidas, e mais se irritaram contra uma feroz virtude que não pagava visitas. As bem-vindas palavras ao quarto de Maria da Gloria eram as cartas de Vairão, umas da santa, outras de Cecilia, e muitas de todas as religiosas, a quem ella respondia sempre. As de soror Joanna cessaram ao cabo de cinco annos; dizia, porém, Maria da Gloria que a via em sonhos, e a ouvia do céo. Depós ella, como se a santa fosse eleita para guia da bemaventurança, algumas outras levaram a sua luz ao altar do Eterno. Os dias d’estas novas eram celebrados com muitas lagrimas de Maria. «Se tu não existisses, dizia ella ao filho, estas santas creaturas teriam expirado nos meus braços.»

Manoel Teixeira peorava de dia para dia. A medicina aconselhou-lhe os ares de Italia, depois um passeio recreativo pela Europa. Perguntou a sua mulher se o acompanhava, e ella respondeu que a magoava a pergunta, sendo esse não só o dever d’ella, que tambem a sua mais ardente vontade. Lembrou-se o pae de Alvaro levar tambem Leonor. Maria approvou a lembrança e Alvaro não soube esconder a alegria que lhe ella dava. O morgado dos Olivaes folgou tambem com o convite; Leonor, porém, nem sequer por condescendencia contrafez o desgosto de tal viagem. Disse que não tinha inclinação a viajar, e fez com que o pae inventasse desculpas que dispensassem a filha.

Maria da Gloria, como adivinhasse a tristeza do filho, fallou-lhe assim:

—Alvaro, o coração não se esconde a tua mãe. Tens dezoito annos: posso fallar-te sem rebuçar as palavras. Tu amas tua prima?

Alvaro corou, e balbuciou.

Maria proseguiu:

—Já respondeste, meu filho. Amas tua prima; e eu te digo que faças tudo quanto podem forças humanas para esquecel-a.

—Por que, minha mãe?!

—Aquella menina tem condão fatal. Os instinctos seriam bons; mas a educação degenerou-lh’os. Pódes tu imaginar que espaço vai abrir-se diante de teus olhos? A chave das maravilhas d’este mundo ha-de dar-t’as a riqueza. Não quero dizer que o teu ouro descubra corações nobres e dignos de ti; mas é certo que em volta do homem que tu has-de ser, se ajuntam os thesouros mais raros, e tu escolherás então o mais primoroso. Esquece Leonor, filho. Faz de conta que viste uma vibora enroscada entre as flores, que amavas desde a infancia. Um dia verás seccas as flôres, e a vibora em toda a sua peçonha. Perguntarás então á imagem de tua mãe que voz do céo lhe disse á alma a prophecia, que te faço hoje.

Alvaro não respondeu, senão com um sorriso de complacencia, triste sorriso, e dolorosa significação de uma angustia, que se peja de confessar-se. Estas linhas escriptas de Alvaro a Leonor dizem mais:

«Eu cuidava, minha prima, que eras feliz acompanhando a nossa familia. Meus paes amam-te muito, e eu… bem sabes quanto te amo. Não és grata ao nosso amor, Deus sabe os motivos, que tens para ficar. Lembra-te de nós, e de mim; e vem dar-me um abraço antes da nossa partida.»

No dia seguinte, veio o morgado e a filha a Lisboa.

—Não sabe quem eu hoje encontrei nos Olivaes?!—disse Sebastião de Brito a Maria da Gloria—A mana lembra-se d’aquelle poeta, chamado Miguel de Sotto-Mayor?

—Perfeitamente… Está nos Olivaes?!

—O mesmo em pessoa. Perguntei-lhe o que fazia por alli, e elle respondeu que viera a Lisboa, e andava visitando os arrabaldes. E o caso é que o rapaz viaja como grão-senhor! Traz criado de libré, e dous bonitos cavallos. Pelos modos, ha poetas que tem libré e cavallos.

—Isso que admira?!—acudiu com azedume Leonor—O pae não ouviu dizer que elle era filho segundo da casa mais antiga de Villa do Conde! É boa! querem que os poetas sejam todos uns maltrapilhos, porque Camões, Bocage, Tolentino e outros não tiveram senão versos que mostrar ao mundo! Eu cá de mim, não lhe admirei os cavallos nem a libré; o que mais notavel vejo no poeta é o seu talento!

—E o fogo que tu tomas n’estas cousas da poesia, minha sobrinha!—disse Maria da Gloria.

—A pequena é maniaca por versos—replicou o pae—E o mais é que já os faz tambem. Tu ainda não fizeste versos a teu primo, Leonor?

—Meu primo não gosta de versos…—respondeu ella com fastio.

—Eu não desgosto;—disse Alvaro—e, se fossem teus, gostaria muito, prima…

—Ora! não ha muitos dias que eu estava a lêr-te o Oriente, e tu disseste que os versos do padre José Agostinho eram gordos e atoucinhados como o author.

—Pois sim, eu disse isso a brincar; mas, se não gosto do Oriente, poderei, lendo os teus versos, tomar gosto pela poesia.

O coração de Alvaro estava cheio de lagrimas. Fizera-se-lhe uma luz súbita no espirito. Recordou-se do enthusiasmo pueril de Leonor pelo poeta de Villa do Conde, e concluiu d’elle para a visita aos Olivaes. Apenas nascido, o abutre do ciume recurvou-lhe as garras no seio. A paixão deu-lhe o desembaraço, e a dor a eloquencia. Buscou ensejo de estar só com Leonor, e disse-lhe com os olhos marejados de pranto:

—Tu de certo não vens comnosco para Italia?

—Que pergunta! Eu já disse que não ia.

—E por que não vaes, Leonor?

—Porque não quero deixar meu pae, nem troco os regalos de ver mundo pelos afagos d’elle.

—Mas teu pae tem vontade que venhas…

—Deixal-o ter; se elle não présa a minha companhia, préso eu a d’elle.

—Ha outro motivo, minha prima—redarguiu Alvaro com muita tristeza corada por um suave sorriso de artificio.

—Qual?

—Tu amas o poeta, que hoje viste nos Olivaes.

Leonor descompôz-se n’uma risada toda da garganta, e disse a final:

—Tens graça, primo! Estou eu agora feita castellan, com trovador debaixo do balcão do castello a chorar amores!… Valha-te Deus, Alvaro! A mim importa-me cá o homem de Villa do Conde!

—Mas elle de certo alli foi por tua causa…

—E, se foi, que culpa tenho eu! Os poetas tem aquellas cousas, e eu não posso ser responsavel das tolices alheias…

Leonor lançou mão do primeiro pretexto para rematar o dialogo. Alvaro, quasi repellido quando ia a fallar, foi ter com sua mãe, e desabafou por estas palavras no seio d’ella:

—Tem razão… devo esquecer minha prima.

—Menos, quando ella fôr desgraçada…—disse Maria da Gloria—Lembre-te isto sempre, meu filho.

Sahiram para Veneza.

Auras bonançosas lhes assopre brandamente as vélas, e renasçam para elles debaixo d’outros céos as lagrimas do coração!

 

X

Se alguem provou já o golpe d’um
desprezo aconselhe á minha dôr os
remedios da sua.

D. F. MANOEL (Epanaphoras).

Não estava em si Leonor em quanto se não viu nos Olivaes. A olhos enxutos vira ella sumir-se o navio, e já dizia ao pae que lhe doía o braço de agitar o lenço para responder ao adeus de Alvaro.

Miguel de Sotto-Mayor, decorridos dous dias, appareceu nos Olivaes, de volta de Sacavem, e Villa-Franca, para acceitar a honrosa hospedagem de Sebastião de Brito, offerecida no primeiro e casual encontro, casual digo com respeito ao morgado.

Leonor sabia que Miguel de Sotto-Mayor alli vinha. O juramento, feito em Vairão aos quatorze annos, não tinha sido ainda quebrantado aos dezenove. Recebera sempre cartas, e respondera a todas do seu poeta, na esperança de ser um dia, embora tarde, sua esposa.

Havemos de esboçar a indole d’este moço, se trinta e dous annos podem adornar-se com as graças da mocidade.

As freiras tinham dito que Miguel de Sotto-Mayor era mau filho; péssimo devia elle de ser, quando as virtuosas linguas do mosteiro não escrupulisavam em murmurar do proximo. Fora elle academico, duas vezes riscado por contumaz na desordem e outros effeitos da vinolencia. Este vicio dominava-o no seio da familia, e desafogava por maus tratos e injurias aos paes e irmãos. Entendêra elle que o éstro da poesia carecia a confirmação da extravagancia. Lêra de Byron os atrevimentos do genio conformados com os desvarios da vida, e não achou cousa impossivel nascer em Villa do Conde o Byron de Portugal. Em verdade, as musas não lhe eram avêssas; mas, posto que na desordem se avantajasse ao lord inglez, o genio ficava-lhe áquem, na distancia que vai d’um soneto de abbadessado ás «Peregrinações de Childe-Harold».

Por vezes alcançára a casa de seus paes, exigindo dinheiro para excursões ao Porto: davam-lh’o para se livrarem dos escandalos na terra, e tinham muitas vezes de ir resgatal-o á cadêa onde o levavam os escandalos de fóra.

Em 1828, morrera o morgado, e succedera Miguel no vinculo, onerado de grandes dividas. Muita gente espantou-se do favor que a Providencia dá aos maus: gente van dos seus juizos que quer com olhos do rosto abranger o infinito dos juizos divinos.

Constituido senhor da casa, vieram de seu os desperdicios, com o nome de despezas necessarias á sustentação da dignidade de seus maiores e sua. Os sustentaculos d’esta dignidade estavam na estrebaria: eram-os arrogantes cavallos, que escouceavam os velhos machos de seu pae.

Posto que Miguel de Sotto-Mayor mantivesse correspondencia com Leonor de Brito, o coração era estranho áquella constancia, umas vezes passatempo, e outras calculo. Em quanto filho segundo, convinha lhe o patrimonio de Leonor, se bem que desfalcado pelo pae. Informára-se, e sabia ao certo o valor da morgada dos Olivaes. Depois que succedeu no vinculo, curou de agenciar mulher mais rica, e têl-a-ia, se a reputação lhe não deslustrasse o nascimento e os bens da fortuna. N’estas tentativas, malbaratou novos empenhos levantados sobre a casa, e em menos de dous annos—eram-lhe escassos para viver limpamente os rendimentos d’ella.

No entanto como quer que nunca deixasse de escrever a Leonor, ao vêr-se assim repellido das ricas herdeiras, e ameaçado d’uma fidalga pobreza, reaccendeu a poesia das cartas, e afogueou á mais alta temperatura o coração da donzella. Animou-o ella a pedil-a ao pae, ainda que não asseverava o bom exito da petição; todavia, tão da alma era escrava d’elle, e tão livre se sentia n’essa escravidão que, no dizer d’ella, quando o pae a negasse, o coração se obrigava a emendar o erro do pae.

Tinham assentado n’isto, quando Miguel de Sotto-Mayor, explorando o cançado veio das dividas, levantou o dinheiro para a jornada e consequencias d’ella.

Agora o temos nós em casa de Sebastião de Brito, como passageiro que se faz recommendavel pelos dous cavallos e lacaio. Ahi, primeiro, desenrola o hospede os pergaminhos da sua linhagem, e diz quantos reis godos lhe giram no sangue. Sebastião de Brito, regalado com uma pratica de sua maior predilecção, mostra os retratos de alguns avós, e lastima que os não retratados fossem mais antigos que a arte da pintura.

No dia immediato, fallaram em casamentos desiguaes, e prostituição da nobreza ao ouro das classes mecanicas. Sotto-Mayor verberava os indignos herdeiros d’um castello avoengueiro, que o arrazavam para erguerem pala cios, á custa de dotes ganhados ao balcão e na balança.

Brito foi remisso nos gabos á soberba de Sotto-Mayor, por que tinha de lhe dizer que sua filha ia casar com o filho d’um negociante seu irmão bastardo, e d’uma filha d’outro negociante de Macáo. Dito isto, perguntou o de Villa do Conde se era irrevogavel o plano de tal consorcio. O morgado dos Olivaes deu a sincera explicação do casamento, descrevendo o mau estado da sua casa, e a necessidade de braço forte que a subtrahisse aos vexames da usura. Desanimou algum tanto o poeta-fidalgo; mas a subita apparição de Leonor, linda como ouro aos olhos d’um aváro, fulminou com um relance de amoroso olhar a idéa sordida que surgira da baixa alma do seu poeta. Ousou Miguel pedir a filha ao pae, na propria presença d’ella. Sebastião de Brito disse a Leonor que respondes-se: tamanha segurança tinha de a ter conforme nos seus calculos, e no conhecimento do seu desvaliado dote.

Leonor respondeu que não podia ser esposa de outro, com approvação da sua alma. Gelou-se o sangue nas veias do pae, e nunca o ella vira tão mal assombrado e iroso. Mandou-a sahir da sua presença, e disse ao hospede que, em sua casa, só eram bemquistos os amigos, que lhe não traziam planos de completarem sua ruina.

Miguel de Sotto-Mayor mandou apparelhar os cavallos, esperou no pateo que o lacaio lhe apresentasse o seu, e disse ao capellão de Brito:

—Diga ao cavalheiro que lhe não pergunto quanto devo de hospedagem, por que hei-de fazer contas com elle, quando for seu genro.

Isto entendeu elle que era puro byronianismo; o dono da casa, porém, é que deu á cousa o seu verdadeiro nome, chamando-lhe «patifaria»; e lamentou que os seus criados lhe não pozessem o espirito e a carne em lençoes de vinho.

Ao romper da manhã do dia proximo, Sebastião de Brito foi com Leonor para Lisboa, e deu-a em guarda a parentes, que lhe vigiavam as minimas acções. D’ahi a dias, foi ella intimada para recolher-se ao convento das Commendadeiras, e esperar alli que seu primo voltasse da viagem para se realisar o casamento. Leonor ostentou brava reacção; mas cedeu, por fim, á força, dizendo que o tempo era a arma e a victoria dos fracos.

Miguel de Sotto-Mayor, abonado e recommendado por cartas que apresentou ao ministro da justiça, vindas de Barcellos, tentou remover judicialmente do convento Leonor. João de Mattos, ouvindo do proprio morgado dos Olivaes as razões da sua negativa, afastou de si o pretendente, e foi em pessoa ao convento para despersuadir a filha rebelde, e concital-a a reservar o coração para Alvaro, que, no dizer do ministro, havia de ser o herdeiro dos centenares de contos de seu pae e do angelico espirito de sua mãe. Leonor passou da contumacia á dissimulação, e prometteu submetter se á vontade paternal.

A traça ardilosa d’esta condescendencia fôra-lhe suggerida por Sotto-Mayor. João de Mattos era barreira mais insuperavel á primeira tentativa que os muros e grades do convento. Apesar de sua ousadia, o de Villa do Conde receiou que o Limoeiro lhe embargasse o passo. A inimisade do ministro da justiça equivalia a um cerco de esbirros lançado no seu encalço. Soccorreu-se, por isso, da velhacaria, e, delineado o plano por cartas a Leonor, sahiu de Lisboa.

Sebastião de Brito duvidou da reforma da filha. Decorreram seis mezes, sem que os rogos de Leonor o movessem a tiral-a do convento. «Ha-de sobejar-te tempo de seres feliz—dizia-lhe o pae—Teu primo não póde demorar-se… Que te diz elle nas cartas?»

—Diz que o tio está cada vez peor.

—Pois ahi tens, Leonor. Se peora, vem; e, se morre, mais depressa vem, e mais depressa és senhora da enorme riqueza de teu sogro.

—E que dirá meu primo—replicava ella—vendo-me reclusa n’um convento?! O pae não receia que elle me rejeite, sabendo os motivos que eu dei para ser aqui encarcerada? Se elle tiver dignidade, não me quer; e, se a não tiver, não o devo eu querer a elle.

—A tua fama não está manchada—volveu o pae—Teu primo de certo perdoa a innocente volubilidade d’uma menina, engodada por um homem matreiro, ou apaixonado por ti. Não ha dama da corte a quem não tenham succedido estes episodios trinta vezes, e raras sahem d’elles com a sua reputação illesa como tu. Que culpa tens tu, se por ti enlouqueceu o poeta minhoto? E quem pede contas da sua fascinação a um espirito noviço, incauto, e impersistente d’uma menina da tua idade? Se toda a gente te desculpa, que fará Alvaro que te ama desde criança?!

Replicava a tudo isto Leonor instando por sahir do mosteiro, e mostrar-se com o arrependimento, e quietação na casa do pae, mais digna de desculpa. A passo igual cresciam as suspeitas, e o morgado dilatava a época da sahida. Leonor, levada da sua irritabilidade, resolveu fugir, e preveniu Sotto-Mayor. Não era sujeito de emendar desatinos alheios o poeta: quando muito, mais por medo da justiça que do descredito, abstinha-se de os aventar primeiro. Pareceu-lhe heroica e byroniana a fuga da morgada. Deu-se pressa em chegar a Lisboa, avisando Leonor por intercessão de terceira pessoa, que os trazia vendidos ambos a Sebastião de Brito. E o caso foi que Miguel de Sotto-Mayor, horas depois que chegava a Lisboa, era preso por malhado, e conduzido ao castello de S. Julião da Barra.

João de Mattos fôra estranho áquella vil arteirice do morgado dos Olivaes, e, conscio d’ella, deu-lhe o nome que ella devia ter; chamou-lhe infamia. Contra vontade do intendente geral da policia, chefe dos quadrilheiros, mandou o ministro da justiça dar liberdade ao preso, e chamal-o á sua presença.

Miguel de Sotto-Mayor teve uma hora de lucidez, na presença de João de Mattos: adoptou o conselho de sahir de Portugal por algum tempo, unica sahida por onde podia salvar-se da perseguição politica, e dos tormentos que elle testemunhára nas cavernas da Torre. Partiu, pois, sem demora para França, onde então o nucleo do partido liberal fomentava a restauração dos legitimos poderes. No entanto, João de Mattos, suspeito liberal por este e semelhantes actos de consciencia honrada, attrahia sobre si accusações, que mais tarde lhe sortiram a deportação para Abrantes.

Por esses dias, recebeu Leonor esta carta de Alvaro:

«Estou sem pae, minha prima. Deixei minha mãe n’um lethargo para vir escrever-te estas linhas. Estava tudo prompto para a partida, quando meu pae morreu, nos braços d’esta santa. Como ella o amava, ou como é o amor das martyres n’este mundo! Em quatro mezes de agonia, minha mãe nunca desamparou o leito do infeliz, que parecia contar os instantes de vida nas dores do coração. Foi uma aneurisma que o matou. Dizia em cada dia:—Que tristeza! contemplar-vos, amar-vos tanto, e ter n’esta agonia a certeza de que hei-de deixar-vos breve! Viver sem ti os melhores annos da vida, minha querida esposa, e chamar-te para mim, quando já via esta morte! Que fiz eu da tua felicidade e da minha! Que espectaculo eu te dou para levar a tua desgraça á perfeição! Cinco annos de doença, de desgosto, e de pedir a Deus, por intercessão da tua santa alma, que me abrevie estas penas! Se as padeço como expiação, diz tu ao Senhor que me perdoas-te as culpas. Pede-lhe, Maria, que me deixe viver tres annos por amor de ti e d’este filho, d’este anjo da reconciliação que nos veio das mãos de Deus. Pede-lhe, minha virtuosa amiga, que me dê horas de descanço e horas de tribulação. E, se Deus quer que eu acabe, roga-lhe que seja já, antes que eu perca a fé na misericordia Divina.» «—Minha mãe debulhava-se em lagrimas; sentia-se extremosa amante pelas palavras de consolação que lhe dava; ia invocar a alma da santa de Vairão; e voltava cheia de esperança ao leito de meu afflicto pae a pedir-lhe paciencia e confiança. Aqui tens a nossa vida dos ultimos quatro mezes. Bem fizeste em não vir comnosco: terias um quinhão d’estas amarguras, minha prima. Mas, ao mesmo tempo, que allivio para mim, se eu te visse ao pé de minha mãe! Eu não sei como hei-de consolal-a! Tu saberias, Leonor, porque no coração da mulher é que Deus depositou as suas palavras de consolação para os desgraçados sem culpa… Chama-me a minha pobre Eufemia… Minha mãe está delirando; faz contra si propria accusações que me traspassam a alma. Pede perdão a meu pae por lhe não ter podido dar a felicidade, que ella em si não tinha!… Não te accuses, minha santa mãe! Tu foste o anjo que se fez nas cinzas do teu coração, anjo de ternura e de piedade, anjo de perdão e de supplica por todos que te injuriaram, e te mataram, primeiro que a meu pae… Não posso mais… Logo que minha mãe tenha forças vamos para Portugal. Adeus, minha querida Leonor. Chora uma lagrima, que t’a merecem os infelizes que mais te amam n’este total desamparo, de amigos.

«Napoles—Maio 15 de 1831.

«Do teu

Alvaro.»

Leonor não tinha lagrimas. Requeimára-lh’as o odio ao pae, e o anceio da vingança.

Pouco antes de lêr aquella carta, recebera ella a noticia do desterro violento de Miguel de Sotto-Mayor.

As commendadeiras do convento houveram horror e não piedade dos esgares phreneticos da morgada.

 

XI

C’était Ninon de Lenclos qui disa-ti
qu’elle remerciait tous les
soirs, de son esprit, et qu’elle le
priait, tons les matins, de la préserver
des erreurs de son cœur.

MIRABEAU (Lettres à la marquise
de Monnier).

Já Leonor não estava no mosteiro, quando Maria da Gloria, mez e meio depois da morte de seu marido, chegou a Lisboa. O pae, temendo que a exasperação a allucinasse até o extremo do suicidio, levou-a para os Olivaes, e cuidou em amaciar-lhe a braveza com os antigos carinhos e distracção de amigos e parentes, devotados todos a delir-lhe da lembrança a imagem do expatriado.

Alvaro, no dia immediato ao da sua chegada, recebeu recado urgente de João de Mattos, para ir fallar-lhe.

—Chamei-o—disse-lhe elle—para lhe dar o que o senhor Macedo me não pede: é um conselho. Seu pae, que Deus haja, tinha em vista casal-o com sua prima Leonor de Brito. O senhor consultou alguma vez o seu coração sobre este designio de seu pae?

—Sim, senhor, e achei-o conforme aos meus mais ardentes desejos.

—Tem o senhor Alvaro alguma especie de confiança nos merecimentos de sua prima? Crê que ella o estima?

—Devo suppôr que sim.

—Está n’um erro. Agora o conselho sem preambulos: não case com sua prima, nem exponha o seu bom coração ao escarneo e á deshonra que inevitavelmente lhe ha-de vir com o arrependimento extemporaneo. Se não póde esquecêl-a, converta essa lembrança em estima, e a estima em virtude: quando a vir desgraçada, ampare-a. Imagine que sua prima ha-de passar pelos élos d’uma cadêa fatal. Não está nas suas mãos quebrar-lhe a cadêa; mas a misericordia póde muito, e a caridade faz milagres. Ainda o chamei para outro fim. Eu vou depois de ámanhã deportado para Abrantes, á ordem do senhor D. Miguel. Vou ralado de desgostos, e vaticino que toda a força de minha alma, e a muita energia que me dá a consciência pura, me não sustenham na queda. Se eu cahir, e o não tornar a vêr, lembre-se, no longo curso da sua vida, d’estas lagrimas que viu na face de um velho, e por ellas lhe rogo que, em meu nome, ajoelhe aos pés de sua santa mãe, e lhe peça perdão para mim que lhe matei a felicidade de toda a vida.

João de Mattos apertou ao seio o filho de Maria da Gloria, e disse-lhe:

—Vá!… Eu não o verei mais… Na eternidade saberei se sua mãe me perdoou.

Alvaro appareceu a sua mãe ainda com lagrimas. Interrogado acerca d’ellas, contou o successo, e fez de joelhos a supplica. Maria da Gloria ergueu as mãos, e disse em seu coração: «Vós bem sabeis, meu Deus, que eu perdoo a quantos me fizeram mal; e a este, que peccou, e se rehabilitou pela contrição da honra, dai vós, Senhor misericordioso, as consolações que a mim me daes por intervenção de meu filho.» E accrescentou em voz alta:

—Vai dizer a esse nosso amigo que tua mãe lhe deu este nome. Pede-lhe licença para saber as intimidades da sua vida. Se elle quizer emigrar, e não tiver recursos, diz-lhe que és rico: pede-lhe com encarecimento que t’os acceite. Ouvi dizer á santa de Vairão que seu sobrinho era pobre, e morreria pobre. Disse-m’o em elogio da sua probidade. Vai, meu filho, que esse homem perdeu tua mãe para a felicidade; mas restituiu-t’a para o amor.

João de Mattos ouviu da bôca de Alvaro as textuaes palavras de sua mãe. Balbuciou muito commovido expressões de reconhecimento, e apontando para um grande painel, disse:

—Guarde de mim aquella lembrança: o retrato de um pae honrado é um constante pregão de honra; o do amigo verdadeiro, e inflexivel no infortunio, é um consolador, quando não póde ser um conselheiro mudo.

Agradeceu Alvaro a dadiva, e ajudou a deslocar o quadro, para o levar comsigo. Foi esse mesmo o que eu vi nas ruinas dos Olivaes.

D’este probo e desditoso estadista não fallaremos mais. Logrou ser propheta do seu repouso. Finou-se com pouco tempo de desterro. A sua ultima carta ao filho de Maria da Gloria era uma reminiscencia dorida dos dias em que a paixão o ensandecera a ponto de não vêr o abysmo em que a virtude e a paz d’uma mulher se despenhavam com a honra d’elle. Esta carta denotava desconcerto de espirito; e, por ser a ultima, de perto se seguiu o apagar-se aquella grande luz, que de mais, no entender dos magnates e dos aulicos, alumiava a ignominia e a protervia d’aquelles que empeçavam na virtude do homem, leal ao throno; mas leal ainda mais á honra.

Choraram-no Alvaro e sua mãe. Tão afeiçoado lhe era o moço, que pedira licença a Maria da Gloria para o ir visitar em Abrantes, e conduzil-o para sua casa, indultada a sentença. Algumas horas, scismando n’elle, pensava Alvaro em vêr sua mãe ligada em segundas núpcias a um homem de quem elle já tinha no coração palavras paternaes, e segura base para o amar e respeitar no futuro com o amor e veneração de filho. Deu mate a estas doces cogitações a morte; mas a saudade ficou imperecivel no coração de Alvaro, e a gratidão no espirito de Maria da Gloria.

Se não cahisse a proposito este incidente, logo de começo teria eu dito que Sebastião de Brito foi logo visitar sua cunhada, e offerecer-lhe a sua casa dos Olivaes. A viuva não acceitou, porque a soledade com seu filho era tudo o que lhe restava bom e acceitavel n’este mundo. Leonor, algum tanto desvanecida de Miguel de Sotto-Mayor, cujo silencio de alguns mezes a desmemoriára, e ao mesmo tempo industriada por amigas e parentas, mostrou affavel sombra ao primo, por entre uns gestos de tristeza insinuante. Dizia ella que um anno de vida lhe modificara em muito o genio, e que ainda agora começava a sentir-se no coração. Recebia carinhosa, ou antes desafiava, os agrados de Alvaro, já commovendo-se com arte ás saudades com que elle relembrava o pae, já seguindo-o ás inspirações da vindoura felicidade, e phantasiando-a com elle na vida do campo, na ausencia dos esplendores sociaes, e na permutação intima e obscura dos sentimentos de duas almas apaixonadas. Com Maria da Gloria não era ella menos artificial, ou encarecendo-lhe as virtudes do filho, ou pedindo-lhe conselhos para o igualar em merecimentos.

Escutava Alvaro sua prima com assombro e desconfiança; e Maria da Gloria ouvia a sobrinha, notando-lhe a sagacidade, em que fora industriada pelo pae ambicioso, e pelas mulheres da roda illustre, professas no logro e nas fraudes do coração. E d’ahi, o silencio de ambos no tocante a casamento; e os sustos de Sebastião de Brito, e os despeitos da filha orgulhosa, á conta d’aquelle silencio.

Seccára a fonte perennal dos recursos do morgado com a morte do irmão bastardo. A cunhada não se afoutava elle a pedir as grandes quantias, nas occasiões apertadas; e ainda menos ao sobrinho, o qual, se bem que tivesse dezoito annos, nada pedia nem acceitava dos grandes haveres de sua mãe. Lastimava-se o morgado á filha, arguindo-a de ser causa de tantos desgostos e vexames com o seu proceder. Esta, que os principiava a sentir em certas faltas que a superabundancia sem regimen faz conhecer, duplicava as ciladas ao coração do primo e á bemquerença da tia.

Uma vez estava ella a sós com Alvaro. Este entretinha-se n’esse tempo a escrever as memorias da sua infancia, e deixára o manuscripto aberto na mesa de estudo. Pediu Leonor licença para lêr algumas paginas, e elle hesitou; mas insistiu Leonor tão meigamente que o primo deixou-a lêr as duas ultimas. Tinham estas referencia aos oito annos de sua idade, e terminavam assim: «Não esqueceria nunca os dias dos Olivaes, ainda mesma que da affeição, então nascida, mais odiosa me fosse a lembrança.» Seguiam-se algumas reticencias.

Leonor depoz o manuscripto, e disse triste:

—Estes pontinhos que significam?

—Nada, minha prima.

—Dás-me licença que eu complete o teu pensamento? Deixas-me escrevêl-o sobre as reticencias?

—Escreve—disse Alvaro risonho.

Leonor, sem demora de pensar, continuou assim a escripta:

«Aquella criança, innocente e formosa como um anjo aos meus olhos, n’aquella idade, amava-me, e não sei que amor era o seu, porque o amor dos anjos deve ser mysterioso, e é. Mais tarde, eu não podia amal-a, porque não poderá entendel-a. Senti-me enfastiado d’ella, como as crianças das flôres com que brincam uma hora. Não a esqueci porque a vejo sempre; mas esquecel-a-hei quando a mulher, que vagamente me falla nos sonhos, me disser: Sou eu. A tua Leonor era o amor da innocencia; e eu sou a mulher da paixão.»

—Aqui tens—disse ella—Agora, sim; está completa a pagina.

Alvaro leu, fitou os olhos em sua prima, e disse:

—Por que te enganas a ti propria, ou por que me mentes, Leonor?!

—É uma nova injuria que o meu coração te agradece assim…—E dizendo, beijou-lhe a face e retirou-se.

Ai! Maria da Gloria, como has-de tu combater o veneno corrosivo d’aquelle beijo?!

João de Mattos, varão justo, que tinhas no tom e no gesto a modulação e a postura do propheta, as tuas palavras esculpiram-se no espirito de Alvaro; mas o coração não fora chamado a jurar nas promessas do espirito!

Venceste, Leonor, venceste!… Uma victoria só te falta: olha se rebellas o filho submisso contra a vontade da mãe; espedaça os liames, que prendem essas duas almas; e então levarás a rojo da tua astucia os mais sagrados deveres do coração.

 

XII

Como se é criança!… como se é
criança!

GOETHE (Werther).

Viu Maria da Gloria seu filho amargurado, e mysterioso. Notou igualmente a ausencia prolongada de Leonor e do cunhado. Industriosamente, se fazia admirada, a vêr se surprehendia o coração do filho. Mallogrados estes meios, foi em direitura à chaga suspeita, e descobriu-a.

—O teu sofrimento são saudades de tua prima, Alvaro.

—Eu não posso mentir a minha mãe…

—São?—interrompeu Maria.

—Saudades, e duvidas que me atormentam.

—Que duvidas? se te ama?

—Penso que temos sido injustos com ella, minha mãe…

—Diz-me o que te faz assim pensar, Alvaro.

Não se fez rogar o moço: contou a scena das «memorias da infancia» e mostrou o acrescentamento escripto da mão de Leonor. Maria leu, sorriu, e disse:

—Tanta palavra! tanta palavra!… Crês isto, filho?

—Diga-me a minha mãe se não devo acreditar.

—Não deves. Vai ao convento das commendadeiras e pergunta o que fez alli tua prima, durante oito mezes.

—Minha prima esteve no convento das commendadeiras!?

Maria abriu a gaveta d’uma escrivaninha, e mostrou a Alvaro uma carta, recentemente recebida, de uma senhora, sua amiga de collegio, que a predispunha contra o enlace de seu filho e uma douda furiosa, dizia a carta. Era isto o prologo de miuda noticia de todos os actos de Leonor, desde a entrada e tentativa de fuga, até ás contorsões de possessa que a fizeram suppôr demente.

Alvaro dobrou a carta, e encostou a fronte á mão para esconder de sua mãe as lagrimas.

—Crês no arrependimento de Leonor?—continuou a mãe serena e affavel—É possível; mas o segredo que teu tio escondeu de nós, e o ar de candura com que ella se tem offerecido á nossa estima, qual provam mais, arrependimento ou astucia? A culpa arrepende-se, confessando-se. Estas palavras são uma hypocrisia, e o beijo d’essa menina é…

Maria da Gloria susteve a palavra que era a própria, e córou-a assim:

—É uma liberdade que deve magoar um coração delicado como o teu.

Seguiram-se alguns segundos de silencio, e, após elles, Maria continuou com vehemencia e magestade:

—Alvaro! tu és um homem. A tua dor é questão mais de honra que de coração. Eu tenho ciumes dos bons sentimentos da tua alma, e, por vontade minha, hei-de cedel-a unicamente a quem te chamar «esposo» com o extremoso amor com que te eu chamo «filho». Se Deus não quer que as minhas contas com o infortunio estejam saldadas, casa embora com Leonor. Não te lanço da minha alma; mas não contarei mais com a tua. A minha vida não alcançará a tua desgraça. Morrerei a tempo de ir pedir a Deus que te dê forças para ella.

Alvaro ergueu-se de golpe, e apertou nos braços a mãe lavada em lagrimas.

—Não me falle assim, minha mãe!—exclamou elle—Perdeu a confiança no poder da sua vontade?! Eu não lhe disse que casava com Leonor, nem mesmo lhe disse que a amava com paixão… Deixe-me ser para ella o que minha mãe uma vez me disse que eu fosse:—amigo d’ella, quando a visse desgraçada…

—Seja assim, filho!—disse Maria com desafogo e alegria—seja assim, converte em sentimentos de bom irmão esse amor, cuja profundeza tu não sabes sondar ainda… Ainda mais te cede a tua boa mãe… Escuta, meu querido Alvaro… Fazes-me a vontade?… Olha… estuda dous annos o caracter de Leonor, espera-lhe o desenvolvimento que ella ha-de ter n’este praso; e, se, decorridos dous annos, a vires igual, toda absorvida na esperança de ser tua, e tão amante como virtuosa, dá-m’a como filha, e eu do amor que te tenho farei um segundo coração para lhe dar a ella.

Desanuviou-se por momentos a fronte do moço; mas a tempestade lá estava na alma. A carta da commendadeira estava ainda alli sobre a banca, e contra a exactidão d’aquella historia é que o praso do estudo não podia prevalecer.

Coincidiu com estes successos a vinda do morgado dos Olivaes, a convidar seu sobrinho para festejar os vinte annos de Leonor. Não trocaram palavra resabiada de despeito, nem o semblante de Maria denotou differença.

Alvaro é que notou magreza e pallidez no rosto da prima. A natureza tem ás vezes a caprichosa benevolencia de entrar n’estas comedias humanas. Duas noites mal dormidas, um defluxo, uma dispepsia, sombream o aspecto das cores morbidas de uma certa tristeza, que fica bem. Pode ser, e de certo é, não ter parte o espirito nas contingencias do ar atmospherico, da insomnia, e do alimento indigesto; mas a critica de poetas, e amantes, mesmo sem poesia, é tão phantasiosa, que quer ver, nas desfigurações do rosto macerado, o desfibrar-se o coração a si mesmo com as presas da sua propria paixão.

Se aos trinta e aos quarenta annos ha muita gente que se prende ao visco d’esta armadilha, que fariam os dezoito annos de Alvaro Teixeira? Sinceramente acreditou que sua prima padecia as dores do arrependimento e as do amor sem esperança. Se, porém, ia no exordio d’uma falla carinhosa, assalteavam-lhe a lembrança as palavras d’aquella carta da commendadeira, e o coração retrahia-se-lhe sobre si, como se o sangue congelasse subito.

Estavam sósinhos na janella de uma saleta. Leonor apoiara a testa na mão e o braço no peitoril. Alvaro tinha os olhos no céo estrellado, e ouvidos e coração banhados das ondas de harmonia que vinham das salas.

—Por que me não amas tu?!—disse Leonor encarando repentinamente no primo.

—Que fizeste tu no convento das commendadeiras, Leonor?—respondeu serenamente Alvaro.

—Expiei um desvario do espirito em que o coração não tinha parte alguma; obedeci á fatalidade, e abrandei-a com as agonias que padeci. Purifiquei a minha alma das manchas que me deixou a indiscreta educação que me deram. Paguei amargamente a culpa de perder minha mãe aos treze annos. Aqui tens o que fiz no convento das commendadeiras, Alvaro. Quando alguma mulher virtuosa te fizer semelhante pergunta, responde-lhe pela minha bôca.

Retirava-se; mas Alvaro susteve-a, e disse-lhe com muita ternura:

—Tu não amavas aquelle homem, Leonor?

—Não o amava; via n’elle a minha desgraça; obedecia-lhe á fascinação; sentia de antemão o prazer de me sentir despedaçar na queda ao meu abysmo. Poupa-me, Alvaro; não festejes assim os meus annos. Tenho vinte; e, se podesses vêr a minha alma, tão extenuada, tão envelhecida, chorarias, e dirias ás virtuosas do convento que o seu rir das minhas loucuras era como atirar lama ao rosto de quem chora… Vamos para a sala, que é tempo.

Alvaro ficou n’aquella janella com os olhos sempre fitos na mesma estrella. Era alli que elle a via e ouvia, vinte e nove annos depois, áquella janella, quando o eu contemplava na outra das ruinas. Era alli!… que tristeza para quem tiver de Deus ou da desgraça o condão de compadecer-se nas dores alheias!

«Não serão precisos dous annos para te estudar o lento supplicio da tua purificação, minha pobre Leonor!» Isto dizia Alvaro em si, quando Sebastião de Brito o chamou para pedir á inflexivel Leonor que dançasse um minuete da corte. Alvaro pediu, e foi obedecido com um ar de victima contente do seu martyrio. Depois dos applausos, sentou-se junto á prima, e disse-lhe:

—Amas minha mãe, Leonor?

—Affiz-me a julgai-a tambem minha: queria poder… e cuidei que devia chamar-lhe mãe.

—Has-de chamar, Leonor… Por que não vaes vêl-a?! por que lhe não contas esses desgraçados desvarios, que se deram durante a nossa ausencia?!

—Quiz contar-lh’os, antes que a sociedade lh’os dissesse; mas a minha confissão devia ser do coração, e esse não tinha que confessar, e, se tivesse, só a ti se confessaria. Além de que, tua mãe deve ter vaidade da sua virtude soffredora, e seria intolerante commigo.

—A mãe não tem vaidade da sua virtude, prima!—redarguiu mansamente Alvaro—Eu queria que te ella amasse como a mim, e sei que tu o conseguirás, se quizeres. Vai ámanhã vêr-nos, conversa muito com ella, e não te molestes, se a vires menos risonha que de seu costume, não?

—Irei lá ámanhã; mas não me peças o supplicio de relatar extravagancias, que me envergonham. Sei que tua mãe m’as perdoaria aos meus annos; sei-o porque ella é boa, e padeceu. Os felizes é que não perdoam nem sabem os amargos descontos da leviandade… E de mais…—continuou ella passando da brandura á irritação—Que crime foi o meu? Em que perdi? que desaire pratiquei de que deva envergonhar-se meu futuro marido, ou minha futura sogra?

Alvaro ia responder, quando viu o rosto inflammado e o olhar sinistro de sua prima. Era o natural colerico de Leonor superando os empeços do artificio, e mostrando-se em toda a sua deformidade e nudez. A menina estorcia-se na cadeira, o arquejava de modo que lhe rangiam os espartilhos. Este accesso durou minutos, e tamanha força teve com ella que a obrigou a ir raivar sósinha no seu quarto, em quanto Alvaro, procurando o tio lhe dizia que a prima Leonor sahira de ao pé d’elle incommodada.

Voltou já outra, depois de meia hora, e explicou o accidente com dores de peito causadas pela compressão do collete.

Alvaro contou na manhã do dia seguinte estes acontecimentos a sua mãe, sobre o que dizia respeito a ella, e o conflicto do collete.

Maria da Gloria respondeu a tudo n’estes termos breves e sêccos:

—Muito bem, meu filho. Principiaste os teus estudos: continua-os. Tens dous annos, e vagar para estudal-a.

Decorreram oito mezes, sem, que Alvaro descobrisse sensiveis desigualdades no amor de sua prima. Se a encontrava triste, a si se dava conta d’aquella tristeza, attribuindo-a ao fastio de esperar na incerteza. Se lhe ella respondia com enfado agora, a arte corrigia logo as sabidas inconvenientes da natureza; e os reparos do moço desvaneciam-se. N’este longo intervallo, Sebastião de Brito fallou á cunhada na realisação do casamento, e esta decidiu-se pela vontade de seu filho: tão segura estava da palavra d’elle. O morgado, porém, infatigavel em desbaratar a casa, e forçado não tanto pelos credores como pela vocação do desperdicio, pediu dinheiro avultado á viuva, e obteve-o. Este resultado esfriou a actividade do morgado, e comprazeu a Leonor.

Em Março de 1832, foi Maria da Gloria com seu filho e Leonor a Vairão visitar algumas das suas amigas que ainda viviam, orar de joelhos sobre a sepultura de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor, e apresentar á prelada um aviso regio que concedia a Cecilia viver fora do mosteiro por tempo indeterminado na convivencia de Maria da Gloria.

Uma freira de Villa do Conde, amiga da familia Sotto-Mayor, fallando de poetas, disse que Miguel tinha escripto aos parentes, da ilha Terceira, d’onde o duque de Bragança brevemente sahiria com uma expedição para desembarcar em Portugal. Alvaro, durante a narrativa, não desfitou os olhos de Leonor, e viu-a muito attenta e excitada com a noticia. Interrogou-a particularmente, e recebeu como explicação uma casquinada de riso, com que o seu coração, absurdo como todos, se deu por satisfeito.

De volta de Vairão, dous mezes depois, Leonor e Alvaro subiram á collina dos arvoredos dos Olivaes, onde estão aquelles escabellos de pedra musgosa em que me eu sentei com o padre em 1859. Levava Alvaro um álamo para plantar, e, segundo elle, essa arvore era o symbolo da alliança eterna. Mal escolhida arvore, cuja folhagem tão movediça é! N’outro já mais entroncado talhou elle as duas letras: L. A. e dos sarmentos da arvore fez duas grinaldas com arte entretecidas, e as deixou pendentes dos braços tenros da arvore.

Finda esta bucolica, Leonor olhou para o interior de sua consciencia e coração. Chorou, e disse:

—Quem me déra ser feliz, meu Deus!

Nunca da consciencia e coração de mulher sahiu tão sincero grito! Se ha fatalidade, era aquelle presentimento da desgraça que lhe fazia tomar como escarneo e mentira o que para Alvaro estava sendo sacratissima poesia, pacto do coração confirmado por Deus, e uma festa de anjos celebrada com a innocencia da mais santa fé e esperança.

—Pois não és tu feliz, Leonor!?—exclamou o apaixonado moço, apertando ao seio a incomprehensivel mulher.

—Sou feliz, sou, primo… Tenho momentos de louca, de perdida… Nem sei o que quero, nem o que digo!… Talvez que o mais acertado fosse desejar a morte…

—A morte!…—atalhou com espanto Alvaro—E eu a amar-te tanto, e a não pensar senão na vida, na felicidade d’este mundo, em que eu creio como nas palavras de minha mãe…

Leonor não replicou: tomou-lhe o braço, e desceu para o palacete, onde os esperavam Maria da Gloria e Cecilia.

Quando, alta noite, Alvaro ia contando na carruagem a mysteriosa scena do bosque, Maria sahiu d’um recolhimento profundo, e disse:

—Já lá vão dezenove mezes de estudo, e parece que não estudastes ainda nada, meu pobre filho!… Espero que a Providencia te abra os olhos… Foi o que eu pedi á alma da santa de Vairão, e descancei na efficacia da supplica. Has-de vêr Leonor como eu te vejo a ti Alvaro.

 

XIII

«Adeus!»… palavra fatal!

BYRON (O Corsario).

Um mez ao certo, depois da plantação do alamo symbolico de eterna alliança, e do entalhe das iniciaes, desembarcou no Mindelo a annunciada expedição do duque de Bragança. Miguel de Sotto-Mayor era um dos sete mil e quinhentos, e soubera validar-se em intelligencia e linhagem para occupar entre os homens de porte uma apreciação distincta, sendo que o facto do exilio por amor á legitimidade, depois dos carceres de S. Julião, lhe bastaria a merecel-a.

Sabia Sotto-Mayor que as suas cartas, enviadas do estrangeiro, nunca chegariam ás mãos de Leonor, se as escrevesse. Apenas saltou em Portugal, aproveitou a desordem dos espiritos, e expediu aos Olivaes um caminheiro sagaz com carta a Leonor, prevenindo-a da sua chegada, caso ella estivesse fóra do convento. O enviado devia aventurar-se a entrar em Lisboa, e levar-lhe a nova ás commendadeiras. O habil confidente pernoitou na propria casa de Leonor, disse aos criados que vira desembarcar o exercito, e conseguiu entrar á presença do morgado e de sua filha. Em quanto aquelle, praguejando contra malhados e agourando-lhes derrota inteira em quinze dias, passeava na sala gesticulando, o hospede, que o applaudia, deixou cahir no regaço de Leonor a carta, e pronunciou subtilmente a palavra Sotto-Mayor.

A sobresaltada menina sahiu da sala, e leu a longa carta com arrebatada alegria e convulsões de louca.

Miguel, exhaurida a linguagem maviosa do amor, fallava da sua esperançosa posição e dos grandes destinos a que o chamavam os seus talentos. Se não era modesto, seria injusto acoimal-o de visionario. Capacidades somenos o igualavam no immoderado das ambições, e lograram realisal-as muito além do escopo em que punham o fito. Dizia, porém; elle que renunciava á gloria, se Leonor a não quinhoasse com elle, e que poria o peito ás primeiras balas dos inimigos, se a encontrasse infiel aos juramentos.

Respondeu Leonor contando-lhe mentidamente o assedio em que seu coração tinha gemido até aquella hora. Louvava-se da sua constancia, attribuindo-a mais á dôce fatalidade que os aproximava, do que ás debeis forças de mulher. Pedia-lhe que a salvasse sem demora dos últimos assaltos do amor do primo e da ambição do pae. Sujeitava-se a fugir para o Porto, com qualquer pessoa da confiança de Sotto-Mayor, e ser sua esposa lá, como da alma o era desde a primeira vez que o vira.

O portador da nova, sem o menor empeço, entrou no Porto, e sahiu dias depois a nova commissão para os Olivaes, onde a anciedade de Leonor alongava as horas interminaveis. A resposta correspondeu á ancia. Na sahida da aldêa estavam as cavalgaduras, tomadas em povoação fóra da estrada real, e o confidente, espiando hora propicia, entregara a carta, e planeara o momento da fuga.

Era no ultimo dia de Julho d’aquelle anno de 1832.

Alvaro Teixeira e sua mãe sahiram de Lisboa n’uma tarde de muita calma, e foram gozar a fresca da noite nos Olivaes, com o intento de levarem Leonor, no dia seguinte, ao valle de Santarem, onde a viuva tinha um casal, que não via desde que fora enclausurada.

A inesperada visita conturbou Leonor. Era aquella a noite da fuga, e o morgado, se a cunhada não viesse, iria para Lisboa, curioso de saber se os rebeldes tinham sido espingardeados no Porto. Como, porém, Alvaro dissesse que se movia o exercito em direcção á cidade heroica, Sebastião de Brito esfregou as mãos, e disse que os malhados áquella hora de certo já tinham embarcado para salvarem as orelhas. Leonor intimidou-se, mas o seu brilhante futuro não lh’o empanou sequer uma sombra de desistencia.

Ás onze horas, disse-lhe Alvaro:

—Vamos ao lago, Leonor? Vejo-o d’aqui tão lindo e prateado pela lua!…

—Vamos—respondeu ella após curta hesitação.

E Alvaro replicou:

—Parece que não vaes de vontade!

—Vou; mas deixa-me ir buscar um chale, que estou levemente constipada.

—Então não vamos, não, minha prima… Eu não sabia…

—Havemos de ir…—tornou ella—Espera um pouco…

Foram. A superficie do lago estava em verdade encantadora. A bacia era franjada de festões curvados e espelhados na agua morta e limpida. Entre os arbustos relampejavam os vaga-lumes, e á flôr da agua saltitavam uns insectos cujas azas reluziam douradas pelo luar. A espaços, resaltavam os escallos á tona, e abriam muitos circulos e em cada circulo uma zona de prata.

—É dizem que não ha felicidade n’este mundo?…—murmurou Alvaro, tomando nas suas as mãos de Leonor—Que é isto que eu sinto, e tu deves sentir agora!…

Leonor não respondeu, e Alvaro proseguiu:

—Estás em extasis diante d’este formoso quadro, prima? Tens razão! Tudo isto diz melhor o que sentimos do que a pobre linguagem do homem…

—Isto é bello!…—disse Leonor machinalmente, e ouviu, ou não ouviu o amor eloquente de Alvaro, que n’aquella noite fora mais que nunca eloquente; e amante.

Soaram os tres quartos depois das onze.

—Ó primo, disse Leonor inquieta, vaes tu buscar-me a minha capa de capuz?

—Vou; mas tens frio?

—Receio têl-o e não quero sahir d’aqui…

—É melhor irmos, vamos, prima…

—Não vamos: vai buscar a minha capa, sim?

Apenas Alvaro desappareceu no fundo da rua fechada de murtas, Leonor correu ao longo d’uma alea de acacias em direcção opposta. Da extrema d’este passeio, desceu por degraus a um pomar de laranja, e tirou da abertura d’um aqueducto uma pequena caixa, e um chapéu de velludo emplumado. D’alli seguiu rente com o muro da quinta, e abriu uma pequena janella de umas poucas eminentes á estrada, e saltou, auxiliada por um homem que a esperava, e a quem entregou o cofre das joias de sua mãe. A poucos passos, estavam as cavalgaduras, e o caminho franco para celerada fugida.

Alvaro tinha pedido a capa com aquella pressa do amor que nas menores cousas se desvela e impacienta. O morgado acudiu perguntando o que tinha Leonor; e, como o primo não respondesse para ganhar tempo, vieram depós elle Sebastião de Brito, Cecilia, e Maria da Gloria.

Quando abordaram o lago, ouviram Alvaro chamar Leonor.

—Onde está ella!?—perguntou o pae—Falla, Leonor, não andes a fazer fosquinhas!…

—O local é proprio para jogar as escondidas…—acrescentou Maria da Gloria.

—Eu vou dar com ella—tornou o morgado, batendo os caramanchões, e dando gargalhadas do seu logro, e da esperteza da menina.

N’isto demoraram alguns minutos, até que Alvaro disse:

—Leonor já não está aqui.

—Pois onde ha-de estar? essa é boa?—replicou o tio. Vamos dar com ella no laranjal.

E foi com o sobrinho pelo caminho, que ella seguira. Correram o pomar, e viram aberta uma janella.

—Aquella janella aberta!—disse Sebastião de Brito.

—Foi por alli que ella sahiu—ajuntou Alvaro; mas a ultima palavra proferiu-a tão afogada, como se fosse a ultima da sua vida.

O morgado debruçou-se no peitoril da janella, e viu um lenço branco. Tentou saltar ao caminho; mas o instincto do rheumatismo da perna esquerda conteve-o em contemplação arquejante. Chamou a altos brados os servos; mas ninguem o ouviu: dormiam todos. Chegavam n’este conflicto Maria da Gloria e Cecilia perguntando ambas por Alvaro. O morgado não lhes respondeu, de açodado que ia, caminho de casa. Correram o pomar, e acharam Alvaro encostado ao tanque, como se fora uma estatua de adorno. Pôz-lhe a mão na testa a mãe, e sentiu-a fria de marmore, tirou por elle para o seio, e dissereis que a estatua cahia hirta e inteiriça, impulsada pelos braços de Maria da Gloria.

—A maldita de Deus matar-te-ia, meu caro filho—exclamou a mãe.

Alvaro desligou-se dos braços de ambas, pediu que o deixassem, e sentou-se, escondendo nas mãos a face.

—Por que não ergues as mãos a Deus, Alvaro?—tornou Maria da Gloria—Vês agora o abysmo de que tua mãe te queria salvar?

—Não me falle, minha mãe—disse Alvaro com energia—A que vem Deus aqui?!… Deixe-me ver se esta agonia acaba commigo.

Maria da Gloria sentou-se ao lado do filho, invocou a alma da santa de Vairão, e pediu a Cecilia que orasse com ella. Eram passados minutos, quando no palacete se levantou grande rumor de vozes, de portas, e de passos. O morgado mandara apparelhar cavallos, e destinou um criado para a estrada de Lisboa, e outro para Villa Franca. Maria da Gloria disse a Cecilia que mandasse pôr a parelha á carruagem. Alvaro ouvindo esta ordem, ergueu-se, e disse chorando:

—Tenho ainda minha mãe… Bemdito seja Deus!…

Maria, abraçando-o com transporte, exclamou:

—E que coração de mãe tu tens aqui, meu querido filho!… Não morrerás, não, Alvaro?

—Morrer!… Não se morre assim, minha amiga… Os seus onze annos de martyrio envergonham a fraqueza de quem succumbe… Hei-de viver, minha mãe…

Alvaro, perpassando certos sitios, parava, e contemplava-os alguns instantes. Ao sahir do jardim, voltou-se de rosto para elle, e articulou:

—Adeus!…

Depois, fitou os olhos em sua mãe, e acrescentou:

—Ora veja que mocidade a minha!… Estou no principio da vida!…

Não lhe respondeu a mãe: os soluços cortavam-lhe a palavra. A carruagem veio tomal-os no pateo. Sebastião de Brito acudiu á portinhola perguntando se o deixavam sósinho com a sua afflicção: Maria disse lhe que não havia alli ninguem que podesse consolal-o.

O cavalleiro, que seguiu estrada do Porto, só de madrugada encontrou almocreves que não tinham visto senhora alguma. No decurso de algumas leguas nenhum viandante lhe deu melhores noticias. Retrocedeu á noite, ignorando que as pessoas, que fogem, só aproveitam o melhor caminho, quando não tem o peor atalho. Ora o confidente de Miguel de Sotto-Mayor tivera tempo de estudar a topographia do terreno, e atravessai o por povoações menos praticadas até Coimbra. D’ahi passou a Aveiro onde tomou um hiate, e desembarcou a salvamento em Mathosinhos, quando a esquadra de D. Miguel se estava batendo com a de almirante Sartorius, defronte de Vigo, e a costa do Porto era de facil accesso.

Miguel de Sotto-Mayor foi surprehendido nos trabalhos do entrincheiramento por Leonor, e apresentou-a como esposa aos seus camaradas, attonitos da formosura d’ella. O titulo com que a apresentara foi d’ahi a poucas horas confirmado pelo primeiro padre, que em sua consciencia se julgou idoneo para supprir o consentimento paterno. Miguel não daria grande valor sacramental ao acto mas entendeu que pendia d’elle a dignidade de Leonor, e o respeito de si proprio.

Não direi que a apaixonada e viril senhora seguisse o esposo ás trincheiras, ou fizesse ondear as plumas do seu chapéo ao sopro das batalhas. Seria falsear a chronica affirmar que o poeta se achou muitas vezes ao lado dos Garretts e Herculanos que mordiam o cartucho com tanta seriedade de espirito como escreviam a «Harpa do Crente» ou «O Arco de Sant’Anna.» O fidalgo de Villa do Conde, oferecendo os seus talentos especulativos, conseguiu empregar-se nas rodas intellectuaes d’aquelle grande apparelho de guerra; e, tão acrisolado foi nas funcções do espirito, que chegou ao termo da guerra com as carnes intactas, e grande fama de prudente. Os bravos, que o viam com mulher tão bella, achavam-lhe racional o medo, e diziam que por tal preço todos aceitariam o estigma de cobardes. Os assustadiços cogitavam na traça de salvarem as immunidades pessoaes, á sombra de tão bella egide, sem damno da sua reputação patriotica. Os casamentos, porém, eram difficeis n’aquella época, e o imperador costumava dizer que a namorada dos valentes era sua filha.

Abriram-se as linhas, entrou o exercito libertador em Lisboa, e Miguel de Sotto-Mayor, com quanto não assistisse á victoria de Cacilhas, foi um dos expedicionarios. Dias depois chegou a Lisboa Leonor, e procurou noticias de seu pae. Soube que sahira dos Olivaes para uma quinta do Além-Tejo, logo que a tropa liberal estanceou em Leiria. Escreveu ella a seu pae, em termos que os não diria mais amaveis uma boa filha. Convidava-o a aceitar a validissima protecção de seu marido, e recolher-se a Lisboa, sem temor de desfeita, ou desforço de antigos odios politicos.

Sebastião de Brito era um tolo com uma boa alma, amigo extremoso de si mesmo, apegado á vida por muitos, posto que apodrentados liames do coração, e namorado ainda de algumas velhas matronas da corte, que tinham tido a temeridade de ficar em Lisboa, sem receio dos barbaros invasores. Ir para Lisboa, quando toda a sua gente fugia, excepto ellas, pareceu-lhe cousa de aproveitar, e foi.

Leonor recebeu-o com muito carinho; deu-lhe de seu marido uma conta que invejariam anjos; ostentou felicidade nos menores incidentes da sua gloriosa aventura; convenceu o pae de que o seu destino era aquelle, e rematou pedindo-lhe novas de seu primo.

—Nunca mais o vi—disse elle—consta-me, porém, que vive muito triste, e que passa a maior parte do tempo com a mãe no valle de Santarem. Pobre rapaz!…

—Mas não morreu!—acudiu Leonor.—Todas as paixões assim são, meu pae. Uma mulher deixa muitas vezes de seguir o anjo do seu destino para se inundar a um homem, cuidando que o matará, se não renunciar á vida, ao coração, á gloria, e ás imperiosas exigencias da sua indole. A mulher sacrifica-se; e o homem, a quem se deu, passado tempo, não reconhece o sacrificio, nem se julga devedor da abnegação da martyr. E o que me estava reservado com meu primo, cujo genio é perfeitamente o envez do meu. O que seria eu agora com elle? Uma mulher muito rica e muito enjoada da minha riqueza. Assim que sou? Uma esposa que não tem tempo de calcular quantos contos de reis necessita para comprar um capricho. E elle? Soffreu no seu orgulho, soffreria tambem no coração; mas estas duas dores, quando se juntam, lá se curam uma á outra. Ora aqui tem, meu pae!

—Parece-me que tens razão, filha…—disse Sebastião de Brito, tingindo umas mechas de cabello, que tinham passado do branco ao escarlate.

 

XIV

… Que direz vous de l’indigence?

MONTAIGNE (Essais.)

Levantado o cerco de Lisboa, Miguel de Sotto-Mayor foi visitar as herdades de seu sogro, e soube dos caseiros e feitores que os bens livres não valiam as hypothecas, e os vinculados não se remiriam com os rendimentos de cincoenta annos, se os credores chamassem o morgado a juizo. Miguel de Sotto-Mayor disse a sua mulher: «olha que não tens nada; teu pae não tem um tecto que o cubra se os credores lh’o não quizerem dar por caridade.»

Leonor doeu-se do modo secco d’estas palavras, e respondeu:

—Meu pae não acceita esmolas de ninguem, nem tuas.

O marido achou bonita a reflexão; mas accrescentou que a verdade era aquella.

Convem saber que os haveres de Miguel de Sotto-Mayor em Villa do Conde tinham sido grandemente rebatidos no espaço de dous annos de emigração. Feridos de morte já elles estavam quando o fidalgo foi aos Olivaes procurar o balsamo que tão escasso lá era. Os arrendatarios da terra e dos foros haviam adiantado as rendas de alguns annos, descontando n’ellas a perigosa hypothese de morrer o administrador do vinculo, e apossar-se o legitimo successor dos bens desonerados.

Isto, vertido á lettra, quer dizer que Leonor podia replicar assim ao seu marido: «Olha que não tens nada. Não tens um tecto, que te cubra, se os credores t’o não quizerem dar por caridade.»

Sotto-Mayor fez o que faziam todos os camaradas: pediu um emprego, e ajuizou-se merecedor de tudo o que pedia. Deram-lhe uma prefeitura no Além-Tejo. Breve tempo exerceu o lugar: minguavam-lhe paciencia, habilidade, e recursos para sustentar-se dignamente. Tornou para Lisboa, requereu de novo, e foi recebido dos ministros com frieza, e esperado no livro da secretaria.

N’este tempo conjuravam os credores na total ruina de Sebastião de Brito. O velho fidalgo abandonava os processos sem contestal-os. Os bens livres foram penhorados, e os de vinculo obrigados pela renda. Ficou um palacio em ruinas deshabitado desde o terremoto, os terrenos contiguos, e uma quinta, bens hypothecados a Manoel Teixeira de Macedo, quando o bastardo, solteiro ainda, não cuidava em saldar contas com seu irmão por um enlace matrimonial dos filhos ambos.

Os homens, que parece gozarem-se em coadjuvar a má fortuna empurrando ao abysmo os que para lá pedem, não queriam que Sebastião de Brito podesse deitar-se em tabuas suas: insinuaram Maria da Gloria a senhorear-se do restante dos bens.. Esta, sem ouvir seu filho, respondeu:

—Quem castiga é Deus.

O palacete, onde nascera Leonor, passou ao dominio de um negociante, sob condição de ficarem n’elle como inquilinos por tempo de tres annos os devedores. A mobilia contheuda foi tambem penhorada, e Sebastião de Brito depositario d’ella.

N’estes termos, o espirito de Miguel de Sotto-Mayor passou da inquietação ao desespero. Leonor tragava as impaciencias do marido, e enfreava as suas, com medo de irrital-o. O velho morgado deixou a familia, e foi para Lisboa viver das sopas de parentes.

Aqui temos face a face estes dous infelizes. Afigura-se-nos que o severo anjo do castigo os está contemplando com formidavel silencio. Miguel tem um cavallo, que o leva para longe do semblante amargurado e desbotado de sua mulher. Leonor tem no jardim uns caramanchões, que a escondem a ser observada pelos olhos iracundos de seu marido. No recesso d’aquelles caramanchões estão os bancos rusticos em que Alvaro se assentava. Alli á beira do lago está o escabello de cortiça em que ella ficara sentada, quando Alvaro foi buscar a capa. Por que não creremos na muita dor e muita saudade d’aquellas lagrimas, que Leonor está chorando!?

Ahi estava sósinha ao entardecer, quando uma sege entrou no pateo.

Leonor admirou-se: já ninguem a visitava de carruagem. A nova criada não conhecia as relações antigas. Disse-lhe que a procurava uma mulher, que não tinha geito de senhora.

—Isso me quiz parecer…—disse Leonor entre si—mas de carruagem!… Alguma nova credora, a quem eu hei-de pagar a carruagem…

—O boleeiro traz libré—disse a criada.

—Libré!—murmurou Leonor—Então enganei-me…

Era Eufemia, a ama de leite de Alvaro.

Fitou com espanto a sobrinha de sua ama, e pediu-lhe licença para a abraçar!

—Abraça-me, Eufemia! e deixa-me chorar no teu seio, que não tenho mais ninguem!—disse a soluçar Leonor.

—Está muito infeliz, minha senhora?!—perguntou Eufemia.

—Estou pobre: escusas de perguntar-me mais nada. E minha tia vive feliz?

—Feliz, não! Com aquelle filho sempre triste, como ha-de ella ser feliz!… Pobre menina! Quem a viu e quem a vê! Era tão linda!…

—E achas-me feia, Eufemia?!—perguntou Leonor com um triste sorriso, expressão talvez da vaidade ferida, da vaidade, extremo reducto em que a mulher, que foi bella, ainda affronta a desgraça.

—Feia, não, minha querida senhora… Acho-a mais magrinha, e sem aquellas côres de roman, que pareciam dar saude á gente… Em fim, é conformar-se com a vontade de Deus, e pedir á Virgem Maria que dê saude a sua tia, que é uma santa. De mando d’ella é que eu vim aqui trazer-lhe uma encommenda, e dizer a vossa excellencia que, nos fins dos mezes, cá venho trazer-lhe outra assim.

Eufemia depositou sobre uma mesa um rôlo de dinheiro.

—Dirás a minha boa tia—disse Leonor com as lagrimas estancadas nas palpebras—que a pobre Leonor acceita a sua esmola, e lh’a agradece com este pranto que vês.

Eufemia pediu nova licença para abraçal-a, e disse-lhe por ultimo:

—D’hora a hora Deus melhora, minha menina. Lembre-se que sua tia padeceu onze annos…

—Minha tia era um anjo de innocencia, e eu estou expiando culpas enormes: ella consolava-se com a mesma injustiça, eu sinto que mereço o castigo.

Eufemia deu conta da sua commissão a Maria da Gloria, e retirou-se quando Alvaro entrava.

—Olha que está muito infeliz a pobre Leonor!—disse a mãe.

—Não lh’o tinha eu dito?! Acceitou?

—Acceitou, e agradeceu com lagrimas.

—Deve de estar muito quebrado aquelle genio pela desgraça!—tornou Alvaro—Acceitou a esmola!… Pobre mulher!… Deve estar mudada tambem de rosto…

—Diz a Eufemia que muito, e até trajada com pouco aceio.

—Perguntaria por mim?

—Não sei, filho… Eu presumo que não teria força para tanto!… Fiz-te a vontade, Alvaro?

—E a sua vontade, minha mãe, não era soccorrer tambem a infeliz?

—Era, era, meu filho…

—Pois não se esqueça de lhe mandar todos os mezes o que a mãe julgar necessario á decencia d’ella.

—Mas tu não pensaste ainda na parte que o marido ha-de tomar n’este soccorro?

—Que importa, minha mãe? O nosso fim é melhorar a situação de minha prima, e só o podemos conseguir melhorando a situação de ambos.

—Esperava essa resposta: a tua generosidade, Alvaro, é desinteressada, e nobre. Vejo que não pode nada comtigo o ciume…

—Não, minha mãe—disse Alvaro n’um falso tom de verdade, movimento de feições que não enganaria olhos e ouvidos mais amestrados.

—Assim é que eu entendo a virtude—continuou Maria da Gloria—são estas as joias de puro ouro que trazem do céo o signal da sua valia. Se te deixasses levar d’um calculo, o mesmo seria lançares á balança das culpas estes punhados de ouro, Alvaro. Da antiga Leonor o que resta para ti é a mulher desgraçada, não é assim?

—De certo… Que mais pode restar?!…

—Mais nada… O Senhor te abençoe o coração, e t’o encha de alegria e de santos estimulos para a caridade, sem lucro de gloria, nem orgulho das boas acções.

Alvaro, logo que pôde estar sósinho com Eufemia, perguntou:

—Minha prima não lhe perguntou por mim?

—Não, meu senhor.

—E Eufemia proferiu o meu nome?

—Sim, senhor, disse-lhe que o menino andava sempre triste… e ella… ficou assim pensativa… e fallou n’outra cousa.

—Mas ficou pensativa? e viu-lhe lagrimas?

—Ora, se vi!… quando lhe dei o dinheiro, as lagrimas rebentavam-lhe dos olhos como punhos.

—Mas a Eufemia não lhe disse que eu sabia d’estas cousas de minha mãe?…

—Nada, não disse, porque o menino e a mãesinha assim m’o ordenaram.

—Fez bem, e nunca lh’o diga, e escusa de dizer a minha mãe que lhe fiz estas perguntas.

—Não digo, esteja o meu filho descançado.

—Olhe, Eufemia… Leonor está muito acabada?

—Se está! nem parece ella! lembra-se d’aquellas rosas que ella tinha no rosto? Nem signal d’ellas! Está muito magrinha, e tem á volta dos olhos umas pisaduras que parecem de tisica…

Alvaro recolheu-se ao seu quarto, e escreveu algumas paginas d’uma saudade tão triste que, se a mãe as visse, cuidaria que seu filho amava Leonor.

Aqui vai trasladado um fragmento:

«Que sentes, que recordas tu hoje, ó desventurada, quando a minha imagem te contempla? Perguntarás a ti mesma o que fizeste de tua belleza, e o que serás ámanhã aos olhos d’esse homem que te encravou na fronte os espinhos da coroa, que eu, a victima das tuas proprias dôres, te arrancaria, se podesse!? Ó Leonor, que supplicio tu mesma escolheste! Por que não foges d’ahi onde estão as flôres da nossa infancia! Com que alma podes tu olhar aquelle lago, aquelles bosques, e aquellas arvores da collina!? Foi o teu demonio que te acorrentou á sepultura onde enterraste o meu pobre coração!?

«Eu não sou mais feliz que tu, Leonor! O tedio da existencia é a maior das tribulações. Tu desejas, talvez, a antiga felicidade, e gozas os tormentos da saudade; mas eu desejo morrer, e, a cada rebate do passado, é um novo trago de peçonha, que bebo das tuas mãos.»

Quer-me parecer que ha ahi expressões indicativas d’um sentimento que não é desprezo, nem sequer desamor. Sem medo de errar, affirmo que só a amisade, paixão muito mais entranhada que o amor, poderia exprimir-se assim. A mim me tem acoimado de paradoxal n’este meu sentir sobre a amisade: que monta isso? quero-me até ao fim com o paradoxo; e terei sempre em cousa de pouco o amor, que não enraizou na fibra mais nobre do coração: esta, a meu ver, é a que se diz «amisade» e nada se me dá que a lingua humana por ahi traga a palavra envilecida nos enxovalhos de falsos affectos, com que a civilidade e a conveniencia infamam aquelle divino dom da alma humana.

Por me não distrahir em dilações impertinentes, irei aos Olivaes.

Miguel de Sotto-Mayor, recolhendo noite alta do seu passeio, achou Leonor a pé.

—Esperei-te—disse ella—para te contar que minha tia me remetteu este dinheiro, e a promessa de me dar uma mezada. A nossa posição melhora, e o teu espirito, se me não engano, está livre das afflicções da desfortuna domestica.

—Sendo assim, de certo!…—disse Sotto-Mayor com alegria—Bem sabes que felicidade e pobreza não se compadecem. Quem teve muito e aspirou a mais, por grande que tenha o coração, esmorece ante o aspecto da miseria. Eu espero a independencia, quando entrarem no ministerio outros homens; e não me pejo de acceitar de tua tia este dinheiro como emprestimo.

—Agora, outra cousa—proseguiu Leonor—Que fazes tu fóra de casa até estas horas, Miguel?

—Que faço!? divago sem destino, fatigo o corpo e alma: são exigências do soffrimento, minha Leonor.

—Pois bem—replicou ella entre ironica e meiga—agora que o soffrimento deve ser menos exigente, vive mais commigo.

—Viverei, filha, e compensar-te-hei dos dissabores que te dei involuntarios.

Houve grande reforma no viver da morgada dos Olivaes: cresceram os criados; cuidou-se no aceio da casa; emparelhou-se outro cavallo, com o que existia, para uso da carruagem; sacudiam-se as librés do pó de quatro annos; a mesa era servida por criado de gravata branca; algumas parentas de Lisboa reconheceram de novo os pergaminhos de Leonor; o proprio Sebastião de Brito voltou á casa de seus avós, com os cabellos cada vez mais variegados de côr do barro e azeviche. Trezentos mil reis mensaes, entregues no principio de cada mez, davam que farte para satisfazer as necessidades do luxo.

Maria da Gloria disse uma vez ao filho:

—Tua prima não aprendeu nada no infortunio.

—Por que, minha mãe?

—Não a vês toda embebida em pompas, e visitas, e jantares?

—E será ella feliz?

—Parece que é.

—Pois é esse o fim para que minha mãe lhe dá dos seus sobejos. Desgraçada era ella antes dos seus soccorros.

—Mas eu achava acertado que Leonor não gastasse em frivolidades o que recebe de esmola.

—Não digamos esmola, minha mãe: a palavra é humilhante… Leonor é sua sobrinha; e meu pae daria tudo para não vêr em miseria aquella familia. Deixai-os ser felizes, que, por mais que o sejam, não nos roubam o nosso quinhão de felicidade que é o melhor.

—Que alma a tua, Alvaro!—exclamou Maria da Gloria, abraçando o filho—E de que te serve a ti a tua riqueza!? Tens vinte e tres annos, e vives como aos dezoito! Por que não compras um trem novo? Por que não vaes aos salões, onde um coração perfeito como o teu faria a maravilha da sociedade? Queres tu viajar que eu vou comtigo, filho?

—Não, minha mãe—respondeu Alvaro—Tenho tudo, que mais quero, n’este estreito recinto: aqui, minha mãe; alli, os meus livros. As viagens instruem; mas a minha ambição de saber está limitada no que posso aprender lendo e pensando; tambem distrahem; mas, se ha magoas na minha vida, são ellas de tal natureza, que o remedial-as seria igual a renovar o coração. Esta obra ha-de fazel-a o tempo. Não se é feliz em parte alguma, quando se não póde ser entre as reliquias da infancia, e os braços de uma mãe como a minha. Continuemos assim a vida, e cuidemos em a dar com menos amarguras aos que soffrem mais que nós.

 

XV

Lata porta … quœ ducit ad perditionem.
A larga porta que dá passagem para a perdição.

S. MATT.—7. 13.

A legua e meia distante dos Olivaes, morava, em antiquissimo, solar, o morgado de Porto-Alvo, casado com sua sobrinha, filha segunda de uma nobre casa de Alemquer.

Era mui gentil de sua pessoa a dama, e gozava de preclara fama de virtudes, até ao momento em que Miguel de Sotto-Mayor frequentou a familia, muito aparentada com sua mulher.

Se a isenção da morgada do Porto-Alvo degenerou, empeçonhada pelas seducções do poeta de Villa do Conde, não serei eu quem o affirme; porém, não terei de que dar contas a Deus, se disser que a sua fama corria desluzida e mareada á conta d’elle. Aquelles passeios nocturnos, nos arrabaldes de Porto-Alvo, não eram certamente o que Sotto-Mayor dizia serem a sua mulher: exigencias do soffrimento; exigencias de intenção ruim é que elles eram.

Leonor, avisada das suspeitas publicas, não teve mão do seu ciume ou da sua vaidade, que ambas as cousas correm com o mesmo nome. Invectivou a deslealdade de seu marido, e o impudor de sua prima de Porto-Alvo. Sotto-Mayor recebeu com desagrado os ciumes de sua esposa, e despresou-lh’os a ponto de amiudar os passeios a horas mortas. Aguilhoada pela raiva congenial da sua indole, Leonor escreveu uma carta anonyma ao morgado, prevenindo-o da deshonra, que lhe rodeava o palacio de noite, e teria astucia de o visitar na camara nupcial.

O velho fidalgo espantou-se da infamação. Nunca sua mulher lhe incutira suspeitas, nem de si arguira leveza de espirito. Calou o aviso como prudente, e sobreroldou as avenidas da sua casa como acautelado.

Era uma das seguintes noites disseram-lhe os vigias que, a distancia de cem passos, parara um cavalleiro, e se estivera quieto contemplando as janellas do palacio; e accrescentaram que, por volta d’uma hora, apparecera atraz da vidraça uma luz, que subitamente se sumira depois d’alguns segundos.

Eu de mim não tiro conclusões algumas d’esta luz; mas o morgado tirou-as, e terriveis. Informou-se da janella em que os vigias avistaram a luz, e pôz ponto nas suas indagações. Duas noites passaram sem descobrimento. Á terceira, por volta de uma hora, ouviu o velho sua mulher tossir no leito, paredes meias com o seu, e ao mesmo tempo um signal convencionado e mui subtil debaixo da sua janella. Ergueu-se de golpe, passou ao quarto de sua mulher, e viu-a na cama; atravessou um corredor, e passou, pé ante pé, á sala, cuja era a janella d’onde fora dado o signal. Quando entrava na sala, viu uma criada com um castiçal, junta á vidraça. Não fez o mais leve rumor, retrocedeu, e entrou no quarto da criada, quando ella entrava. Em presença d’um punhal, estrangulou-se na garganta da moça um pavido grito.

—Morres, se gritas!—disse o morgado com a postura e phrase de Tarquinio, que não quadra bem aqui, já porque a moça era solteira, já porque, sendo casada, não tinha geito algum para Lucrecia—Morres—continuou elle com voz soturna—se me não dizes o que significa o signal que tens ido dar á janella com a luz!

A criada respondeu, e o morgado retirou-se ao seu quarto, tranquillo como se houvesse descoberto que sua esposa era uma das virtudes theologaes em pessoa, e pessoa que fingia dormir profundamente.

Decorreram tres noites depois d’esta.

Foram dias e noites de supplicio para Leonor. A consciencia gritava-lhe. Aquella carta anonyma podia ser causa á morte de seu marido. Mas o orgulho, e o coração, talvez, diziam-lhe tambem que ella não merecia uma infidelidade, e os desprezos que estava soffrendo, por não poder enfrear o seu ciume.

Na terceira noite, disse ella a Miguel de Sotto-Mayor, com caricia:

—Não vás, meu amigo, não tornes a Porto-Alvo.

—E quem te disse que eu vou a Porto-Alvo?!—respondeu carregando o sobr’olho.

—Diz-m’o o coração…

—O coração!…—redarguiu sorrindo o marido—O que é o coração!… O coração não diz nada. O coração é um vaso onde passa o sangue. O coração, que não é isto e simplesmente isto, é um tolo. Eu não vou a Porto-Alvo. Vou ao Poço do Bispo onde me esperam alguns amigos para conjurarmos na derrota do ministerio, e na morte de Agostinho José Freire.

—Mentes, Miguel!—exclamou Leonor.

—Agradeço a amabilidade, e vou, porque não posso deixar de ir.

—Miguel!—tornou ella com vehemencia e excitada a lagrimas—não vás… Olha que o tio morgado teve aviso, e elle é mau, e tu ficas um dia morto.

—Quem o avisou?!—replicou, risonho, o marido—Serias tu? Capaz serias da calumnia!… Como sabes que elle foi avisado?!

—Sei-o… Não vás, peço-t’o com as mãos erguidas!…—e chegou a dobrar os joelhos diante d’elle.

—Como queres tu que eu deixe de ir a um compromisso de honra, Leonor? O meu destino é o Poço do Bispo, já t’o disse.

—Juras-me que não vais a Porto-Alvo?

Juro, dizia Molière.

—Mas lembra-te que Molière cahiu na scena moribundo, quando disse juro.

Achou Miguel de Sotto-Mayor engraçada a observação, e despediu-se de Leonor, beijando-a na testa.

Cavalgou, guiou o cavallo na direcção do Poço do Bispo, e, a grande distancia, retrocedeu por um atalho conhecido até sahir á estrada de Porto-Alvo.

Parou Miguel a distancia de meia legua, e reflectiu. «Se o morgado tivesse sido avisado, já eu teria a esta hora noticia da menor alteração. É verdade que o signal em duas noites alguma cousa póde significar; mas tambem é certo que o mesmo caso já se deu, sem significação alguma. Quem inventou o aviso foi o ciume de minha mulher.» Depois de tão seguro remate, Sotto-Mayor deu de esporas ao cavallo, e venceu o espaço em poucos minutos.

Antes d’elle avistar o palacio de Porto-Alvo, é de bom historiador dizer que o morgado, na madrugada do dia seguinte áquella noite do punhal, ergueu-se, tornou ao quarto da criada, fechou a porta, e guardou a chave. Voltando, fechou tambem a porta de sua mulher, e não respondeu ao modo de espanto com que a sobrinha lhe perguntou a causa de tal novidade. As comidas eram ministradas a uma e outra, ás suas horas, por um homem estranho de má catadura, que não respondia a pergunta alguma. Esta situação durou dous dias, e durava ainda quando Miguel de Sotto-Mayor fazia galopar o ginete por uma quebrada de cujo topo se avistava o signal.

Estacára o cavallo na chã, onde o brioso animal já sabia que descançava. Miguel afagava-lhe o pescoço, e dobrava-se sobre os ilhaes a examinar-lhe os violentos arquejos, quando, ao erguer a cabeça para examinar a um raio da lua o seu relogio, dous tiros simultaneos lhe vararam o peito. O cavallo atirou-se em galões impetuosos ribanceira abaixo, com o cavalleiro agarrado ás crinas. A poucos passos, as mãos do cadaver abriram-se, o corpo resvalou ao chão, mas foi de rojo, largo espaço, suspenso n’um dos estribos.

Ás tres horas da madrugada, os criados da casa dos Olivaes sentiram o estrepito das ferraduras nas lages do pateo, e sahiu o cavallariço a amantar e recolher, como de costume, o cavallo. Como não visse o amo, cuidou que elle havia já subido, como d’outras vezes, deixando o cavallo com as redeas ao pescoço; mas, relanceando casualmente os olhos sobre o estribo esquerdo, viu o ensanguentado. Subiu as escadarias, bateu á porta, e disse para dentro que acontecera uma grande desgraça. Leonor saltou do leito, e desceu ao pateo a examinar o sangue do estribo. Fugiu, como seguida por um espectro; entrou no seu quarto com os olhos esgazeados da demencia, e soltou estas pavorosas palavras:

—Fui eu que o matei!

D’alli em diante, o que ella dizia eram palavras sem nexo, e blasphemias, acompanhadas de medonhos tregeitos.

Sahiram os criados, uns na direcção do Poço do Bispo, outros na estrada de Porto-Alvo, por alvitre de um que sabia os segredos de seu amo.

Os segundos, a tres quartos de legua, ao voltar de uma charneca para um atalho pedregoso, acharam o cadaver de Miguel de Sotto-Mayor. A maceração e retalhado do rosto era tal, que escassamente lh’o reconheceram. Camisa e collete cheiravam ainda a queimados: os tiros tão á queima-roupa tinham sido apontados, que as mesmas buchas se lhe pegaram ao sangue empastado do peito.

Volveu um dos criados a buscar a carruagem, que devia transportal-o para casa. Leonor não atinava a dar ordem alguma para o enterro de seu marido. A noticia levada a Lisboa, onde então estava Sebastião de Brito, chamou aos Olivaes algumas familias, a quem as desventuras de Leonor tinham restituido a antiga estima. Curaram da sepultura, e a justiça dos seus deveres. Foi a justiça ao local onde estava o morto, e lavrou o auto. Proseguiu na devassa; mas era tudo escuro e indecifravel. Entre os parentes da casa, que assistiram ao funeral, estava o morgado de Porto-Alvo, de casaca preta e aspecto lagrimoso. Leonor, ao vêl-o, ergueu-se de golpe, apontou-o de perto, e exclamou:

—Foi este o assassino de meu marido.

O morgado abriu a bôca e os olhos, cruzou os braços, circumvagou a vista por todos, e perguntou:

—A infeliz acho que endoudeceu?… Pobre senhora!…

Os circumstantes confirmaram a suspeita do morgado, e lastimaram-a tambem.

—Por que não está aqui a mulher que matou meu marido? Onde está a devassa, que lhe quero gravar na testa um ferrete com sangue?

Estas vociferações augmentavam as probabilidades da demencia.

—Agora diz que foi uma mulher que o matou!…—dizia o morgado—Não ha duvida! está louca a infeliz senhora!

—Não estou louca, não, scelerado!—bradou Leonor, contorcendo-se nos braços das amigas—Mataste-o tu, cobardemente, feroz villão! Mataste-o e cuidas que a boca do morto não ha-de revelar a infamia de tua…

N’este ponto, os labios de Leonor foram cerrados pelos dedos de mão, que não era de alguma das senhoras, que a estavam a custo segurando. Leonor olhou de revez para quem lhe fazia a violencia, e viu Maria da Gloria.

O mesmo foi vêl-a, e lançar-se-lhe aos braços, exclamando:

—Ó minha tia, eu sou muito desgraçada!… Abra-me por piedade o seu coração, e esconda-me ao espectro do meu remorso…

Maria da Gloria abraçou-a com transporte, e disse ás senhoras e cavalheiros:

—Eu entendo que não devemos ter minha sobrinha exposta a estes accessos da sua doente imaginação. Consintam que eu me recolha com ella ao seu quarto, e haja ahi uma alma piedosa, que nos dispense de cuidarmos do enterro d’esse infeliz. Vamos, Leonor.

 

XVI

Suadeo tibi emere à me aurum ignitum
probatum, ut locuples fias.

Admoesto-te a que me compres o
meu ouro de fino quilate para te locupletares.

APOC. 3. 18.

Os primeiros dias de sua viuvez passou-os Leonor no seu quarto, e Maria da Gloria com ella. Era de vêr os assiduos desvelos com que as familias de sua numerosa parentela aporfiavam em mitigar-lhe as penas, desde que a souberam restituida á graça da supposta millionaria Maria da Gloria. E, como fosse notorio e vulgar o amor de Alvaro a Leonor, já diziam os aruspices, atarefados em prognosticar a vida alheia, que as segundas nupcias da morgada pobre com o filho unico do banqueiro Macedo seriam espectaculo de pouca delonga e muita graça. Houveram sujeitos imaginadores de tragedias que aventaram a verosimilhança de ter sido assassinado Miguel de Sotto-Mayor por ordem de Alvaro de Macedo. A sociedade teve sempre d’estes carrascos, para assim dizer, encarregados de mostrarem do cadafalso á canalha, sedenta de escandalos, as melhores reputações a escorrerem sangue. Eufemia ouviu, uma vez, n’uma, loja de capellista esta calumnia. Chegou a chorar e espavorida ao pé da ama, repetindo o que ouvira. Maria da Gloria respondeu ás afflicções da criada com um sorriso, e estas palavras:

—Deus sabe quem matou o marido de minha sobrinha: a calumnia é que não mata a honra de ninguem.

Ficou Leonor com seu pae.

Dizer que a viuva se definhava de dia para dia, consumida de saudades do defuncto marido, seria inventar. Não seria mais exacto o dizer que a purpura da juventude lhe retingiu as faces, e que o lindo oval do rosto se recompoz. Leonor nunca mais foi bella, desde o primeiro dia que se viu desmerecida aos olhos do marido pela mesma causa que a sociedade a lançava de si:—a pobreza. Devorou-lhe a vaidade, insoffrida e furiosa na dôr, a alegria da alma, e o mesmo foi tirar-lhe ás flôres do rosto a seiva que as alindava.

Em que pensava Leonor, n’aquella sua rapida mudança de vida? Parecia não pensar. Decorridos seis mezes, sahiu a pagar visitas em Lisboa, menos a de Maria da Gloria, que lhe não dera a isso azo. Viram-na nos theatros, e nos bailes, passado um anno. Apontaram-lhe os binoculos os conquistadores da época; e, com quanto a denominassem «bellas ruinas», fosse ella menos esquiva, e teria sobeja belleza, para acorrentar os leões de S. Carlos, jaula então muito mais de aterrar que hoje.

Em que pensava Alvaro? Como scismava elle em sua prima? Amava aquella mulher, que vira cinco annos antes. Não formava idéa alguma da mulher, que era cinco annos depois. Nunca mais a vira, nem quizera ver. Desde que pessoa descuriosa lhe disse, sem proposito, que a vira, muito outra do que era, em casa da prima condessa de tal, e no theatro de S. Carlos, Alvaro deixou de frequentar o theatro, local unico onde o levava a suave tristeza da musica.

Dizia-lhe sua mãe, um dia, que Leonor se queixava a Eufemia de não ser convidada para casa de sua tia. Alvaro respondeu:

—A mãe póde recebel-a; mas avise-me com antecipação para nos não encontrarmos.

—E, todavia, meu filho—replicou a mãe—estás sempre perguntando-me se a mezada será sufficiente para o bem-estar de Leonor!…

—Que tem que ver uma cousa com outra, minha mãe!? É um pouco de dinheiro inutil, dinheiro que nunca me lembrou quando eu pensava em ser feliz com Leonor. Se o dinheiro não entrava por nada nas minhas contas, signal é de que não representa algum affecto de coração a minha prima.

—E se ella se despenhasse em novo precipicio? Se casasse com um homem que a expozesse a novas miserias?

—Dando-me minha mãe licença, continuaria a soccorrel-a, e a luctar contra a estrella fatal d’aquella infeliz.

—E crês tu na fatalidade, filho?…

—Creio, minha mãe.

—E a virtude que fica sendo?

—A fatalidade do bem.

—Não achas mais racional submetter á Providencia Divina, e á deducção dos actos humanos o que tu chamas fatalidade?!

—Eu—disse Alvaro com profunda amargura—não sei o que é melhor, nem mais racional, minha mãe… Se quer que eu lhe diga o que sinto… o melhor é… não viver; o bem supremo da vida é esquecêl-a. O que é a embriaguez no homem de espirito que conhece o travo da peçonha que bebe? O que é o suicidio, senão a passagem para o esquecimento?

—Deves ter soffrido muito, meu filho, porque te vejo sem religião?…

—Não tenho a religião que ora, tenho a que perdôa, e se amisera de amigos e inimigos. Minha virtuosa mãe tem esta, e a da oração. Deus me será bom e piedoso pelos merecimentos de minha mãe…

Este dialogo foi interrompido por um recado de uma senhora que desejava fallar a Alvaro.

—A mim!?…—disse elle, admirado—e foi á sala onde o esperava a senhora.

Viu elle uma dama trajada de preto, com semblante de quarenta annos amargurados, e um complexo de adornos, que denotavam pobreza.

—Não a conheço, minha senhora—disse Alvaro.

—De certo, não. Eu sou a mãe de dous filhos de seu pae—respondeu ella em italiano—sou a desgraçada que acompanhou seu pae do theatro de Milão para Lisboa ha dezeseis annos. Vi o snr. Alvaro criancinha ao peito de sua ama, e torno a vêl-o homem com a reputação igual á das virtudes de sua nobre mãe.

A italiana enxugava as lagrimas.

—Queira continuar—disse Alvaro.

—Quando seu pae me abandonou ao meu funesto destino, tinha eu dous filhos, dos quaes elle quiz senhorear-se; eu, porém, sobre ser infeliz, era caprichosa, e não sei mesmo se boa mãe: não lhe dei os filhos. Em quanto a belleza me inflorava o vicio, aturdi-me nas pompas, e nos delirios d’uma brilhante ignominia; mas não olvidei a educação dos meus pobres filhos: sustentei-os n’um collegio, até 1832, época em que eu envelheci, e de repente cahi dos ouropeis da minha opulencia ao charco da miseria. Tirei do collegio os meus filhos: o mais velho era um demonio, o outro um anjo. O anjo levou-m’o Deus um anno depois, quasi fulminado pela colera-morbus; o outro ficou ao pé de mim como instrumento nas mãos da Providencia para minha expiação. Meu filho pedia-me contas do luxo, que vira em minha casa, quando criança: eu não podia responder-lhe. Quiz eu forçal-o a respeitar-me, e elle reagiu com ameaças á minha severidade. Um dia desamparou a minha casa, roubando-me as poucas alfaias de algum valor, que eu guardava para não ir tratar-me na ultima doença a um hospital. Passados dias, soube que elle estava no Limoeiro, preso por furto. Desfiz-me de quanto tinha para as primeiras necessidades do meu uso, e consegui restituir o furto ao dono, e a liberdade a meu filho. Fui, depois, lançar-me aos pés d’um homem, que me conhecera em tempos felizes… felizes!… que falsa apreciação!… Pedi uma qualquer occupação para meu filho, e alcancei empregar-se na alfandega, em lugar de bastante responsabilidade. O desgraçado parecia regenerar-se; não houve queixa d’elle em dous annos; eu julgava-me bemquista da sorte, e contava com o pão da velhice. Ha oito mezes que um grande roubo se descobriu na alfandega, e meu filho é convencido de ladrão de grandes valores, valores que elle perdeu no jogo e dissipou na libertinagem. Ha quinze dias que o filho de seu pae, senhor Alvaro, foi condemnado á grilheta por toda a vida.

A italiana esperou que os soluços a desafogassem, e continuou:

—Eu não venho pedir ao generoso filho do pae do condemnado que o salve, pagando o roubo, que sobe a muitos contos de reis. O que venho de mãos erguidas supplicar é que vossa excellencia empregue o valimento dos seus amigos para que a pena seja commutada em degredo perpetuo, sem o ferro aos pés, que assim o pede o desgraçado.

Alvaro ergueu’a mulher, que ajoelhara, e disse-lhe:

—O nome de seu filho?

—É Julio de Macedo.

—Farei o que poder. Vá a senhora dizer-lhe que espera alguma cousa dos meus esforços.

A italiana fez menção de ajoelhar outra vez, desconfiada da frieza d’aquellas palavras: impediu-a Alvaro, e seguiu-a até ao topo da escada.

Maria da Gloria, mais por amor de mãe que por curiosidade de mulher, tinha ouvido tudo. Sahiu, como desapercebida ao encontro de Alvaro, e disse-lhe risonha:

—Com que então as damas de Lisboa vem assim á hora do dia procurar-te em casa!? Queira Deus que me não raptem o meu Alvaro!…

Sorriu-se o moço, e ficou pensativo, cogitando no modo como fallaria a sua mãe.

—Em que pensas, filho!?—tornou ella rindo em gargalhada—Estás ainda arrobado na visão da deidade, que te veio roubar o socego?!… Diz o que sentes, Alvaro!

—Logo, minha mãe, logo…—respondeu Alvaro, cada vez mais enleado.

—E por que não ha-de ser já?!—redarguiu Maria da Gloria com gravidade—Estarás tu espantado, ou envergonhado de saber que uma boa arvore produziu fructos tão maus!?

Alvaro encarou com assombro em sia mãe, e tartamudeou alguns monossyllabos.

—São aberrações—proseguiu ella—Não lhe ouviste dizer á pobre mulher que o mais novo era um anjo? Ahi tens… Foi como as arvores que dão aromas e veneno… Não tens porque scismar, meu Alvaro. Faz a tua vontade completa e generosa como eu a adivinho. Tens authorisação minha para levantares o dinheiro que quizeres. O teu fausto, segundo vejo, é a caridade obscura: pois bem, goza plenamente as regalias que a fortuna te dá.

Alvaro Teixeira foi encarregar o advogado de sua casa de solicitar o perdão do condemnado a preço da quantia em que fôra avaliado o roubo. O solicitador desanimou quando lhe disseram o avultado da quantia. Alvaro, porém, authorisou-o a advogar o livramento, por todo o preço. Julio de Macedo foi um dia chamado para receber o alvará de soltura, e appareceu em casa de sua mãe, quando esta, esperançada nas promessas de Alvaro, desfazia os ultimos lençoes para fazer camisas, que seu filho levasse para Africa. O perdoado não sabia dizer como fora livre; a mãe, desvariada de alegria, não atinava a contar ao filho o modo como o salvara. N’este lance, appareceu Alvaro, e recebeu nos braços a italiana, e o filho de seu pae, a quem chamou irmão.

O filho da italiana não conhecia o filho de seu pae. Balbuciava palavras de gratidão, tão envergonhado do crime, como assombrado d’uma virtude em que não acreditava. Alvaro atalhou assim as exclamações da antiga locataria do palacio de Belem:

—Seu filho inutilmente pediria hoje um emprego. A senhora não póde contar com os meios d’elle para a sua sustentação. Meu pae, como a senhora sabe, tinha uma propriedade nos arrabaldes de Napoles, que eu conservo ainda, da qual, com o consentimento de minha mãe, lhe faço doação. Acho acertado que a senhora e seu filho vão lá viver, e levem as lições da desgraça para a conservarem.

D’um mesmo impulso, mãe e filho se lançaram aos pés de Alvaro, com exclamações e lagrimas.

—As lagrimas são um segundo baptismo em alguns olhos—disse Alvaro—Permitta Deus que o filho de meu pae se regenere com as que lhe vejo no rosto.

D. Maria da Gloria firmou a doação, e a milaneza com seu filho, partiram para Italia. Vinte e dous annos depois, me disse aquelle santo dos Olivaes que a antiga actriz morrera velha e feliz; que Julio de Macedo conservava ainda a quinta, e honrava uma alta patente no exercito da Sardenha. Perguntando-lhe eu quanto lhe custou a regeneração d’aquelle homem e a velhice venturosa da amante de seu pae, elle me respondeu:

—A fortuna de duas familias independentes.

 

XVII

Un groupe de Dalila et de Sanson
avec celui de la farouche Judith serait
toute la femme expliquée.

BALZAC.

Tinham decorrido dous annos depois da viuvez de Leonor. Na correnteza d’este espaço e quasi no termo d’elle, falleceu Sebastião de Brito, legando simplesmente alguns rolos de pergaminhos e a memoria dos seus desvarios senis. De paixão d’alma diziam os facetos que elle tinha acabado; mais serias averiguações, porém, dão que o homem succumbiu a uma febre gastrica, procedente de uma cêa no Farrobo, em casa do hospedeiro e luxuoso conde d’aquelle titulo. Não devem esquecer alguns desastrados successos pertinentes a esta época, e vem a ser que o fidalgo de Porto-Alvo morreu envenenado, consoante a fama dizia; e que sua sobrinha passou a segundas nupcias com um primo de Alemquer, e vivia ainda honrada e feliz em 1859. Achei tambem nota de que a criada, confidente da morgada, dias depois do assassinio de Miguel de Sotto-Mayor viera á margem direita do Tejo, cuspida por uma onda, e com claros vestigios de ter sido estrangulada. E de presumir que o fidalgo atirasse ao Tejo com a unica testemunha do seu crime. Se o boato da peçonha é exacto, não será peccado dizer que a casa do Porto-Alvo, não desfazendo no seu brazão, encerrava uma tribu de scelerados.

Leonor, não podendo com a soledade dos Olivaes, pediu a sua tia licença para viver em Lisboa. Maria da Gloria hesitava em conceder lh’a; mas Alvaro achou rasoavel o pedido, e desculpou a solicitação de sua prima.

Transferiu-se para Lisboa a viuva e com ella o seu trem. Tomou um palacete em Buenos-Ayres, e abriu os seus salões a uma partida semanal de parentes e amigos intimos. Estes chapados «amigos intimos» são ás vezes os inimigos de fóra. Taes foram os que vulgaram o cortejo da viuva a um moço sem nascimento nem posição, homem de letras em disponibilidade, insinuando-se, a titulo de genio, entre as pessoas, tambem de genio tão benevolo e tolerante que o recebiam.

Soube Maria da Gloria as atoardas que corriam á conta de sua sobrinha, e communicou-as a Alvaro.

—Pois a mãe que esperava!?—disse este—Leonor teve treguas de dous annos. A fatalidade refez-se de vigor, e volta á lucta.

—E qual achas tu que é o nosso dever?

—Luctar a favor da mais fraca. Aconselhe-a, minha mãe; e, se não podér nada com ella, ampare-a como até aqui.

—E se eu lhe retirasse os meios—replicou Maria da Gloria—crês tu que o segundo calculista a não deixaria em paz?

—Deixaria: mas Leonor desceria na escala social até achar um indigente como ella.

—Á vista d’isso, filho, julgas incurável tua prima!?

—Julgo, mãe.

Foi Maria da Gloria a Buenos-Ayres, em hora de não receiar concorrencia, e poz logo o dedo na chaga.

—O teu mau anjo não te deixa, Leonor?

—Porque falla assim, minha tia?

—Dizem-me que estás á beira d’um segundo abysmo. São falladas as tuas intelligencias com um homem, que offerece menos condições de felicidade que o primeiro. Como tens tu coração para o amor, filha? Por que não quer Deus que chegue para ti a hora da reflexão? Como pagas tu o que deves a ti, á sociedade, e a mim? Levanta-te d’essa miseria, Leonor! Recobra a tua dignidade enxovalhada! Lembra-te das lagrimas, que choraste nos braços de Eufemia! Medita um pouco no nobre coração de meu filho, cuja alegria mataste, e envergonha-te dos novos ultrajes que preparas áquelle anjo, que te protege!

Leonor sahiu d’uma reconcentração de minutos para beijar a mão de sua tia, soltando estas palavras:

—Agradeço a esmola a minha tia, e a meu primo a philantropia. Agora fallarei, se me dá licença. Meu primo tem-me beneficiado: eu bem sabia que elle não era estranho á esmola que tenho recebido; mas quizera antes a certeza de que esta beneficencia pertencia exclusivamente a vossa excellencia. Meu primo tem-me favorecido para me humilhar.

—Explica-te, Leonor…—atalhou Maria da Gloria estarrecida de espanto.

—Eu vou explicar-me, minha tia. Se Alvaro olhasse com piedosa vista para os meus infortunios, aliás respeitaveis por serem do coração, teria apparecido a meu lado, não como o amante despeitado, mas como o parente, que sacrifica os caprichos do coração ao dever misericordioso de rehabilitar moralmente uma mulher. Fui muito desgraçada, e era-o mais por entender que meu primo se regosijava a cada escaleira, que me via descer para a miseria, na esperança d’elle ahi descer com alguns punhados de ouro a fartar-se de vingança. Quando minha tia me enviou a sua criada com a primeira esmola, cuidei que mais tarde acharia nos meus parentes proximos a esmola de consideração, que mais necessaria me era. Passaram mezes, e o vilipendio do ouro vinha regularmente ás mesmas horas, e no mesmo dia; mas uma palavra de amor, o pão do espirito, essa nunca. Eu aceitava o ouro porque tinha um marido que me culpava da minha pobreza; porque tinha um pae que me regalára a mocidade com magnificencias superiores ás suas posses; porque tinha um nome que as sombras do infortunio empanavam, como se a arvore de tronco illustre se atascasse no lodaçal da pobreza; porque tivera uma educação com que a penuria se não conformava; porque, finalmente, humilhada por parentes, começava a sentir-me despresivel aos meus proprios olhos. Depois de viuva, permaneci dous annos nas austeridades que raros exemplos me tinham ensinado. Contrafiz a minha indole para bem merecer a estima de Alvaro; esperei que elle fosse á minha soledade santificar a esmola com uma palavra de irmão. Se elle ahi tivesse ido, eu curvaria a cabeça diante do heroe, e pedir-lhe-ia licença para beijar a terra honrada pelas suas botas. Vim para Lisboa, depois de dous annos de humilhação; e pedi licença a minha tia, porque receei que meu primo, não saciado ainda da desforra, contrariasse a minha vontade, e me reduzisse a voltar ao ermo dos Olivaes por não ter com que comprar a vida luxuosa de Lisboa. Quer minha tia saber como eu denomino este acto de desesperação? É uma cousa que modernamente chamam «cynismo»; é aquillo que eu já disse—o despreso de mim propria. Agora vamos ao ponto da sua inesperada visita. E certo que eu amo um homem, que nasceu não sei de que mulher, e tem tanto a dizer-me das suas qualidades pessoaes que nunca fallou das qualidades dos seus avós. É pobre como eu. Não pede a ninguem o pão de cada dia; lavra-o com a sua intelligencia. E creia, minha tia, que elle acha quem lhe dê por duas horas de trabalho o que me não dariam a mim pelas pedras de armas da quinta que meu pae desbaratou. Este homem pobre é quem convém á mulher nas minhas circumstancias. Eu hoje comprehendo melhor as privações com um amigo do que as pompas na solidão. Tenho vinte e sete annos. E cedo para o claustro, e é tarde para esperar, no recato de donzella, que algum singular amante da Thebaida me vá procurar na minha obscuridade. Se minha tia me vem dizer que retira a sua esmola, beijo-lhe as mãos pelo que lhe devo, e beijaria as de meu primo tambem pela sua philantropia. Ámanhã voltarei para os Olivaes. É verdade que os bens que possuo estão hypothecados a uma antiga divida de meu pae a meu tio Manoel, e vossa excellencia póde mandal-os tomar como seus. Não importa. Está lá uma casinha, que eu mandei fazer para uma velha criada de minha avó. A velha morreu ha pouco, e testou-me a casinha, que os credores de certo não querem; irei lá viver.

Calou-se Leonor.

Maria da Gloria, já em pé, olhou com muita amargura a sobrinha, e disse:

—Foste injusta, Leonor. Devem até os anjos compadecer-se da alma injuriada de meu filho. Não te castigue Deus, que eu, em nome de Alvaro, te perdôo. Cumpre o teu destino, desgraçada; e, quando o remorso te perseguir no extremo refugio do que tu chamas «cynismo», foge para mim que eu te abrirei os braços.

Leonor não ergueu os olhos das alcatifas: era de soberba, e não de abatida, que ella desfitara a vista do magestoso aspecto de sua tia.

Sahiu Maria da Gloria, e não teve que dizer ao filho. Interrogada por elle, escassamente referia alguns dos queixumes de Leonor, como a necessidade d’um amigo, a negação para a vida solitaria, o cançasso do sofrimento, e a sympathia que a ligava ao homem, com quem desejava casar-se.

Alvaro apparentou natural placidez, e, n’outro ensejo em que fallavam sobre o mesmo motivo, disse:

—Esse homem julgará rica a prima Leonor?

—Cuido que não: elle deve saber que Leonor vive da beneficencia dos seus parentes.

—Hei-de sabel-o com certeza. Se o homem a ama pobre, e não conta com o beneplacito nem com os recursos dos parentes para o casamento, é um nobre caracter. Estou que a belleza de Leonor não fascina alguem…

—Como has-de tu sabel-o, filho. Conheces por ventura o homem?

—Conheço-lhe os escriptos, e recordo-me vagamente de o ter visto no collegio, nos meus ultimos tempos.

Foi Alvaro ao collegio, e fallou largo tempo com o seu antigo amigo, professor de inglez. Dias depois, procurou-o o mestre, e respondeu assim ao encargo, que recebera:

—Fallei com o jornalista. Aquillo é uma alma lavada como pedras de amolar! Apenas lhe toquei no assumpto, accendeu o cachimbo, cobriu as pernas com as abas do chambre de sêda desbotada, e refestelou-se na poltrona velha como um turco, para me dizer o seguinte: «Não ha duvida que eu namoro a viuva, primeiro porque é romantica, segundo porque é romantica, terceiro porque é romantica.»

—E porque é rica—atalhei eu.

—Ah! sim! e porque é rica: então é por quatro razões, e não por tres. Acho eu que vem a ser quatro as razões…

—Não, senhor, são simplesmente tres, porque a quarta é uma sem-razão. D. Leonor é pobre.

—Pobre! ora essa! conte-me isso, meu bom amigo!

Disse-lhe eu que a viuva vivia da beneficencia dos seus parentes, e que os parentes da viuva não estendiam a sua caridade até aos maridos inconvenientes das suas parentas necessitadas.

—Mas aquelle palacete dos Olivaes, que eu hontem fui vêr—redarguiu elle—e aquell’outro de ruinas tão poeticas; e aquellas duas quintas que se espreguiçam na margem do aurifero Tejo… que me diz o senhor a isto?

—Digo-lhe que os palacetes e as quintas não são mais da viuva que meus. Tudo aquillo está hypothecado, penhorado, consumido, &c., &c. Mas—conclui eu—as tres razões, que o meu nobre amigo expendeu, prevalecem, apesar de tudo. A viuva Sotto-Mayor é sem questão tres vezes romantica.

—Diz muito bem—acudiu elle:—o casamento ha-de fazer-se, quando eu for tres vezes romantico; mas, por em quanto, bem vê o meu caro mestre e amigo que eu laboro na prosa villôa do artigo de fundo.

—Quer dizer…

—Que hei-de abrir o meu coração á viuva, e a minha bolsa mesmo, se ella quizer. Se me não engano, a viuva é litterata, e sabe da seita philosophica, que tinha, como eu tenho, horror ao vacuo. Resta-me agradecer-lhe as tão espontaneas como miudas informações, e aqui estou ás ordens.

—Aqui tem o senhor Alvaro—continuou o professor de inglez—o que passei com o litterato Mascarenhas. Agora, peço perdão da liberdade com que expuz fielmente o texto da nossa conversação.

Alvaro, tendo contado a sua mãe o picaresco dialogo do litterato e do mestre de inglez, disse:

—Agora, minha mãe, esperemos. Não estão muito no meu genio estas encobertas operações; mas a intenção é salvar Leonor.

Mascarenhas foi á partida da viuva, como costumava. Nunca tão amorosa e manifestamente se revelara Leonor, a elle e aos hospedes maravilhados. Ao despedir-se do escriptor, disse-lhe ella:

—Extremamente desejo fallar-lhe ámanhã depois do meio dia. O cavalheiro de certo não falta.

—Oh! minha senhora!… quem quer faltar á sua propria dignidade!?

—E por que não diz «ao seu proprio coração…»?—retorquiu ella com despeitado sorriso.

—O coração, minha senhora, é tão de vossa excellencia, que não se atreve a entrar nos juizos do espirito…

Leonor achou conceituosa a razão alambicada do litterato, e esperou anciosa o dia seguinte.

—Vou responder—disse ella—cathegoricamente ás suas cartas. O pensamento reservado de todas ellas é uma ligação, que faça respeitavel e sagrada a paixão que o meu amigo encarece nas suas cartas, não é assim?

—Com que outro intento podia eu dirigir-me a vossa excellencia?!

—Bem! Resolvido está por tanto a ser meu marido?… Não lhe cause estranheza o estilo secco e desornado da pergunta… assim é preciso.

—Respondo, minha senhora. Primeiro que tudo, eu amo tanto vossa excellencia quanto a respeito. Acima d’estes dous sentimentos está o da amisade, que lhe dedico, e o da gratidão à benevolencia com que me tem distinguido em sua casa. Vossa excellencia não ama os grandes preambulos, e por isso vou já direito á materia sujeita. Se eu acceitasse a honra, que vossa excellencia me dá de querer alliar-se á minha vida, sacrifical-a-ia, minha senhora. O mesmo seria obrigal-a a trocar por um coração dedicado as regalias de que se está gozando com grande inveja das suas amigas. Que vale um coração dedicado em confronto do bem-estar, da segurança do dia seguinte, das considerações desveladas, que rodêam vossa excellencia?

—Elucide-me…—atalhou Leonor—A sua linguagem é escura!

—Escura é a existencia sem meios de a fazer brilhar, minha senhora. Eu sei, tambem como vossa excellencia, que os seus muitos recursos procedem da amisade d’uma tia millionaria, que vossa excellencia tem.

—Não ha duvida; mas eu não disse ainda a vossa senhoria que me dotava com estes recursos, e vossa senhoria, nas suas cartas, falla-me da felicidade da solidão, e da doçura do pão ganhado com o nobre trabalho da intelligencia.

—Tambem é certo—redarguiu algum tanto confuso o jornalista—era, porém, intento meu fazer o elogio da mediocridade em relação áquelles que não conheceram a opulencia. Neste caso não está vossa excellencia: estou eu; mas eu é que não devo sacrificar a felicidade real da senhora D. Leonor ás minhas phantasias de philosopho. Todavia…

—Queira dizer-me—interrompeu a viuva—a quem pediu informações dos meus recursos?

—Não as pedi, minha senhora: seria grandemente ignobil o pedil-as; não as averiguei; deram-m’as.

—Quem?

—Conhece vossa excellencia por ventura um mestre de inglez!?

—Conheço.

—Como conhece, minha senhora?

—Fallou-lhe esse homem em meu primo Alvaro Teixeira de Macedo?

—Não, minha senhora; limitou-se a dizer-me que vossa excellencia não tinha absolutamente nada que lhe segurasse a futura subsistencia, se contrahisse segundas nupcias contra vontade dos seus parentes.

Leonor ergueu-se, sahiu da sala pisando com soberana arrogancia, e o litterato ficou perplexo com os olhos cravados na porta por onde a vira sahir.

Instantes depois, entrou um criado de farda, e disse ao cavalheiro:

—Sua excellencia manda sahir.

Mascarenhas tomou o chapéo, e retirou-se tão affrontado como se tivesse espirito muito susceptivel ás injurias.

Leonor não recebeu alguém n’aquelle dia. O seguinte era o ultimo de Setembro de 1838. Eufemia era esperada com a mezada n’esse dia. Não era esperar, era ancear em phrenesis a agitação de Leonor.

Quando Eufemia entrou, estava a viuva vestida de preto, com o fato avelhentado do lucto de ha quatro annos e já de chapéo.

—A senhora vai sahir, e de lucto carregado?!—disse a criada—Que tem, senhora D. Leonor?! a menina tem febre!

—Trazes-me a esmola?—disse Leonor com desabrimento—Leva-a a tua ama, e ao teu amo. Diz-lhes mais que venham tomar conta do que esta casa encerra. Tudo isto não vale um terço do dinheiro, que recebi; mas é honra pagar pouco, e ficar sem nada. Diz a meu primo que esta nobre desgraçada repelle a mão bemfeitora que larga o ouro, e aperta o cabo do punhal com que se mata a dignidade dos infelizes. Diz a meu primo que o rotulo da sua caridade é um insulto a mim, que não lhe esmolei o seu ouro, ganhado sobre o balcão. Diz a minha virtuosa tia que a virtude não está sómente nos temperamentos de gelo, que facilmente são virtuosos. Diz isto. Agora, vai, ou fica.

Leonor ia a sahir, e Eufemia abraçou-se a ella, chamando soccorro, por julgal-a demente. Os criados vieram; mas recuaram ante o olhar imperioso de sua ama. Leonor sahiu a pé, só, com os olhos raiados de sangue, e o coração em convulsões. A longa distancia de casa, entrou n’uma sege de praça, e deu ordens ao boleeiro.

Eufemia contou o succedido. Maria da Gloria chorou, e pediu a Deus que não desamparasse da sua vista a perdida mulher. Alvaro ouviu serenamente repetirem-se os afrontamentos de sua prima, e parecia gozar-se dos novos espinhos, que lhe sangravam o coração.

—Esperemos…—disse elle a sua mãe.

 

XVIII

N’aurez-vous point pitié, jeune homme?…
Non, non, j’en ai le pressentiment,
une ère nouvelle commence

R. de LORGUES. (L. das Communas.)

Leonor, apeando no pateo do palacete dos Olivaes, chamou o feitor, e pediu a chave da casa da Luiza: por este nome era conhecida a casa que Leonor dera á sua velha criada, e herdara d’ella, mezes antes. A passo firme abriu a porta, fechou-se dentro, abriu os dous postigos envidraçados, e sentou-se no bahú, que estava aos pés da cama em que morrera a criada. Alli estava tudo como a fallecida o deixára, pobre, mas limpo, a não ser a capa de pó que assentara no verniz de alguns velhos moveis, que Leonor lhe dera. O feitor, se bem que prohibido de a seguir, teimou em vigial-a, suspeitoso do descuido em que a vira vestida, e do desconcerto do rosto. Afoutou-se a pedir-lhe que abrisse a porta, e entrou, rogando que não repellisse o seu velho servo, se estava afflicta. Leonor pediu-lhe um copo de agua, e a chave do bahú de Luiza, parte da herança que ella não tivera tempo de examinar, nem quizera dar a outras criadas, que lh’a pediam, como farrapagem inutil á herdeira.

Abriu Leonor o bahú, e entre a roupa branca, recendendo a alfazema, encontrou um embrulho de dinheiro em prata. «Isto é que é verdadeiramente meu, disse ella; posso com este legado da minha Luiza resistir á morte da fome por alguns dias.» Como o mordomo persistia em rondar as avenidas da casinha, Leonor deu-lhe dinheiro para lhe comprar um jantar como costumava ser o de Luiza, e accrescentou:

—Não cuide que isto é dinheiro de minha tia… É meu, que m’o deixou a minha criada. Achei-o no bahú. A boa velha, que criou minha mãe, economisou toda a sua vida para matar a fome de alguns dias á filha da sua ama, a Leonor de Brito, á ultima morgada dos Olivaes.

O tom d’este dizer dava azo a que o mordomo ia tivesse em conta de douda. Assim o creu, e mandou aviso a Maria da Gloria.

Alli passou o restante do dia. Ao trazerem-lhe o jantar, recebeu-o por um dos postigos, e tomou d’elle o prato menos exquisito, uma pouca de vacca, dizendo que não tinha posses para mais. Pernoitou no leito de Luiza, e abriu alta noite as janellas porque sentiu aquelle especial e nauseabundo cheiro das exhalações cadavericas.

De madrugada, abriu a porta, e sentou-se no unico degrau. Estava abrazada em febre, e, a intervallos, deixava pender para o seio a cabeça extenuada de vagados. Quando presentiu passos nos arredores da casa, recolheu-se e fechou a porta: era o feitor, que passara a noite velando a casinha onde dormia a filha de seus amos.

A febre abrazou-se até ao delirio. Leonor prostrou-se na barra, e sacudia vertiginosamente os braços e a roupa. O feitor chamou criados, arrombou a porta, e collocou sua mulher ao pé do leito da febricitante. Como recobrasse alentos, e se visse rodeada de gente pobre da aldêa, Leonor sorriu a todos, e pediu que a deixassem. Queria ficar de força a mulher do mordomo; ella, porém, tão affligida se mostrou da contrariedade, que conseguiu ficar sósinha. Ergueu-se, cambaleando aturdida, e trancou a porta, porque a fechadura tinha saltado aos empuxões de fóra.

Depois, abriu o bahú, tirou o cesto de costura da criada, e experimentou na extremidade do dedo indicador da mão esquerda a ponta d’uma tesoura. Feita a experiencia e ensanguentado o dedo, escreveu no verso de um papel sellado, que era a certidão de idade da defunta criada, as seguintes palavras, com a cabeça de um alfinete:

«A minha tia Maria da Gloria.

«Não posso com a dependencia, nem tive educação para agenciar a independencia com o meu trabalho. Matei-me d’uma só vez para não morrer mil vezes, aceitando esmolas com a condição de me fazer escrava d’ellas. Dou louvores a Deus por me ter defendido de alguma tentação deshonrosa, até cahir n’esta desgraça. A minha memoria será longo tempo escarmento para infelizes; mas não será vexame para os meus parentes. Agradeço o bem que me fez minha tia; e sinto não ter tido uma alma bastante vil para se não conhecer aviltada. Escrevo no meu perfeito juizo.

Leonor de Brito.»

Dobrou o papel, e collocou-o sobre a mesa em que o escrevera. Arregaçou a manga do vestido, e cravou a ponta da tesoura no sangradouro do braço esquerdo. Como a cisura apenas revesse o sangue, ligou e comprimiu o braço com uma tira de lençol. O sangue espirrou com força; e, de o ver, turvou-se-lhe o animo de modo que já não pôde passar á cama.

Era á hora do jantar. A mulher do feitor batera e chamára sobresaltada; o marido veio depós ella, e quebrou os caixilhos das vidraças, por onde saltou dentro.

Estava Leonor cahida no pavimento. O braço nú gotejava sangue, que salpicava e fazia rego no soalho. Tomou-a nos braços, e levou-a sem sentidos ao leito. Sondou-lhe o pulso, e achou-a viva. Mandou chamar o cirurgião, que morava a um quarto de legua, e vedou-lhe o sangue com pannos adhesivados e compressas.

De repente, deram passagem a alguem os muitos visinhos, que alli chamara a gritaria da mulher do feitor, e se agrupavam á porta: era Alvaro Teixeira.

Foi direito á barra, onde Leonor arquejava, com a vista terrivel de mortal espasmo.

—Leonor! minha prima!—exclamou elle—passando-lhe a mão na fronte—Que sangue é este?!—bradou, vendo as compressas tingidas.

—É que a senhora morgada abriu a veia do braço com uma tesoura…—disse o feitor.

—A minha carruagem depressa aqui!—bradou Alvaro—Ajudem-me a transportal-a.

Tomou-a elle em todo o peso nos braços, fez entrar a mulher do feitor na carruagem, e, com o auxilio d’ella, pôde encostar Leonor ao respaldo, e, com duas cadeiras, formou-lhe apoio para o restante do corpo. Recebeu das mãos do mordomo o papel escripto com sangue, leu-o quanto as lagrimas lhe permittiam, e mandou seguir a carruagem para Lisboa, a passo.

A meio caminho, Leonor reconheceu seu primo, e estremeceu. Fitou os olhos esgazeados nas compressas, e agitou o braço direito como se tentasse arrancar o apparelho. Alvaro segurou-lhe o braço, e disse:

—Que queres fazer, minha prima?! Espera mais algum tempo… Morre, quando me não vires n’este mundo… Deixa-me viver, e vive tu, o tempo necessario para ires d’este teu inferno com a certeza de que eu te amei sempre…

Dilataram-se os labios roxos de Leonor n’um gesto que podéra chamar-se um sorriso, e murmurou:

—Um cadaver…

Alvaro tomou para o peito a cabeça, outra vez, desfallecida de Leonor, e chorou-lhe sobre a face algumas d’aquellas lagrimas, que são no coração humano, como o alimento, a seiva das ultimas esperanças.

E contemplou-a.

Nunca mais a vira desde aquella noite de Julho de 1832. D’aquelle viço esplendido, d’aquella belleza viva e irrequieta, da exuberancia de vida que lhe sahia aos olhos em faiscas e em risos expansivos aos labios, restava a pelle cortada dos ardores da febre, os ossos descarnados, o pallor da agonia, e a desfiguração inteira de todas as feições. E parecia absorvido n’aquelle atormentador enlevo! A expressão dos seus olhos não a soube dizer elle mesmo! Fôra-lhe aquella uma infernal hora de cujas sensações a alma, desmemoriada de tamanho horror, não guardou lembrança.

A carruagem parou á porta de Alvaro. Maria da Gloria e as suas criadas, chamadas pelo desvariado moço, desceram ao pateo, e ajudaram a tirar Leonor, e leval-a a um leito.

—Creio que vem morta…—disse Alvaro—e sahiu para logo voltar com dous medicos. Do exame rapido que estes fizeram, concluiram por esperanças de vida; mas vida de continuados padecimentos, disseram elles.

—A vida da alma—dizia Alvaro com assombro dos medicos—deem-lhe a vida da alma, que eu quero que ella me veja, e me julgue antes de morrer! Um corpo varado de dores, não importa; mas um espirito com a luz da razão!

E, fallando assim, erguia as mãos supplicantes aos medicos. D’estes dizia um ao outro com o frio desdem da sciencia:

—Espirito sem luz de razão creio eu que é o d’elle.

E o outro bamboando sinistramente a cabeça, dizia ao ouvido do collega que Leonor perdera em sangue o que Alvaro perdera em sizo.

Maria da Gloria, a martyr sem treguas, andava repartida entre Deus, e o filho, e Leonor. Invocava o Altissimo pedindo-lhe a vida da sobrinha, que chamava e beijava, cuidando que o halito dos seus labios lhe coavam vida; abraçava-se ao filho alvoroçado, rogando-lhe que esperasse em Deus o salvamento da prima.

Leonor descerrou os olhos quebrantados, mas serenos. Reconheceu a tia e comprimiu-lhe a mão, que sentiu na sua; fitou-os com doçura em Alvaro, e balbuciou:

—Salvam-me as tuas lagrimas, meu amigo!… Pobre Alvaro!… o que tu tens penado!…

Não se enganaram os medicos. A vida voltou lentamente a Leonor, mas jamais a saude. Afrouxaram-lhe os musculos motores de todas as articulações; generalisou-se a enervação, a atrophia, e a frialdade, excepto na cabeça, de que se ella queixava como de fogo que lhe estivesse calcinando as fontes. A isto succederam espasmos, senão antes intermittentes de paralysia em parte dos vasos sanguineos, que formam o coração. O ancear d’estas horas era angustissimo.

Maria da Gloria e Alvaro revesavam-se ao pé do seu leito. Um e outro, conversando, chamavam-lhe o espirito ás ridentes imagens d’uma esperançosa viagem que os tres fariam aos locaes mais pittorescos da Italia. Leonor agradecia-lhes, com sinceras lagrimas de remorso, o amor com que velavam os seus longos paroxismos, e dizia que a viagem a fazer era certa, e de encantadoras visões para sua virtuosa tia e primo; mas não para ella.

É bem de vêr que então a mãe de Alvaro se desentranhava em encarecimentos á misericordia divina, convidando a sobrinha a rezar com ella as orações que soror Joanna das Cinco Chagas lhe ensinára. E Leonor rezava, e com ardente fé, e muito pranto, em cujo espectaculo o coração de Maria da Grioria se embriagava de santas delicias.

Alvaro simulava jovial semblante a sua prima. Fechado, porém, no seu quarto, desafogava chorando, ou escrevendo paginas de muitissima tristeza, mixto de saudade e desespero, saudade da Leonor da sua mocidade, e desespero de não poder tornal-a á belleza de alma e de feições, perdidas para sempre. Cegueira da sua paixão! Alma, com as bellezas da innocencia, quando a teve a fatidica Leonor? Ai! a belleza das fórmas essa é que não ha olhos enxutos que a vejam fenecer de hora a hora; essa é que influe ao animo um pungimento de saudade tão vivo, que eu não sei se ha dor a igualar-se áquella saudade da perdida formosura da mulher que amamos, perdida tambem para nós, no instante em que mais fervorosa adoração lhe da vamos!…

O primeiro dia em que Leonor sahiu do leito, foi festejado não com bailes nem banquetes, mas com liberalidades de esmolas, levadas por Alvaro, de ordem de sua mãe, a muitas familias indigentes, que a denominavam anjo de beneficencia, e gloria do céo. A todos os conventos de religiosas pobres, ou empobrecidas pela mudança do regimen, enviava Maria mensalmente uma delicada dadiva, e Alvaro tinha de sua mão soccorrer alguns egressos, que corriam de noite as ruas de Lisboa, estendendo a mão á caridade indifferente d’aquelles primeiros annos rancorosos do velho odio civil.

Com o lento crescer de forças, accedeu Leonor ao empenho de Alvaro e sua tia: sahiram de Lisboa no estio, correram as provincias do norte, e visitaram Vairão, onde Cecilia, sempre saudosa da sua cella, se deixou ficar esperando a morte bemaventurada dos que a esperam ao pé do altar. Nas visinhanças de Hespanha, Maria da Gloria, desde muito valetudinaria, e então muito quebrantada, causou receios a seu filho, e retrocedeu para Lisboa. Aqui, melhorou de aspecto, e transferiu a sua residencia para a quinta do valle de Santarem.

Leonor escassamente se vigorisára para um curto passeio. Tinha semanas de soffrer e chorar, pedindo a Deus que lhe tirasse a vida. Alvaro era o consolador d’estes desconfortos, umas vezes rodeando-a de improficuas juntas de medicos, outras abalando-lhe o espirito com alegres esperanças. Perguntava-lhe se a convivencia com as suas relações lhe seria desagradavel; experimentou, apesar d’ella, chamando alguns parentes e amigos ao campo, e preenchendo as horas tristes, que lá se vivem, com o que podia inventar o seu espirito attento a minorar as amarguras da inconsolavel doente: inutil tudo, Leonor rogou a seu primo que a não obrigasse a esconder os seus soffrimentos de pessoas estranhas; que a deixasse gozar os instantes de allivio na companhia d’elle e de sua mãe.

—Se não podes dar-me vida, Alvaro—dizia ella—que vem aqui fazer esta gente, a quem o espectaculo da dor enfada?! Cuidas tu que os move a piedade d’este meu estado? Deixa de ser a candida alma, que tens sido, meu primo! Estas familias, que vieram a um teu aceno, souberam que eu vivia miseravel nos Olivaes, e encarregavam-se de exaltar a Providencia Divina, dizendo que eu estava expiando; e, como o valerem-me seria contrariar a vontade de Deus, abandonaram-me… Se me eu tivesse esvaido de sangue n’aquella casinha, onde o nosso fatal anjo te encaminhou, estes parentes, obrigados a fallarem de mim a quem lhes perguntasse a razão do seu lucto, diriam que o meu fim desastrado tinha sido o natural remate das minhas loucuras. Por que não estudaste o mundo, Alvaro? Quando te eu ralava o coração de desgostos, se tu cedesses á curiosidade interesseira do mundo que te chamava, serias a esta hora feliz!…

—Feliz!…—atalhou Alvaro, contemplando Leonor, e cuidando vêl-a formosa, como a tinha amado, quando amava e esperava.

—Feliz, sim; terias odiado, e esquecido a tua pobre Leonor… Se a visses infamada, e perdida nos mais baixos sedimentos da sociedade, passarias por ella, sem que o pejo te dissesse que era nobre estender-me a tua mão. A sociedade não ousaria dizer-te: «valha áquella mulher!» porque a sociedade, se censurasse a tua indiferença la fóra, ao pisar os tapetes das tuas escadas, subiria estudando phrases de louvor á tua probidade. E tu, meu Alvaro, louvado e querido em particular e em publico, andarias feliz e convencido de tua honra. Muita gente diria de ti: «E tão nobre que nem falla d’ella, nem dá margem a que lhe fallem. Os seus amigos, com medo de lhe ferirem o nobre coração, não se atrevem a pedir-lhe que dê as migalhas da sua toalha a Leonor.» E não eras tu assim tão venturoso, Alvaro?! De que te ha servido a tua riqueza? Poderás dizer-me que tens remediado a pobreza de muita gente, principiando por mim e acabando por essas famílias indigentes, cujas bençãos te enchem a alma de thesouros do céo. Pois sim; mas que contentamento é esse da alma, que te não transparece no rosto?! Por que te vejo eu sempre triste?! Por que não ha-de a virtude ostentar as exterioridades de jubilo, que eu muitas vezes senti, sendo tão culpada e contando tantas horas cortadas de desgostos?

Alvaro reprimiu a resposta que, repulsa dos lábios, fallou em lagrimas. Leonor tomou-lhe as mãos com estremecimento carinhoso, e disse-lhe:

—Por que é, meu querido primo? Por que te não dá Deus a felicidade que mereces?

—Dá, minha Leonor…—balbuciou o internecido moço—Dá… é a tua amisade… são as melhores lagrimas do teu coração… Que lhe tenho eu pedido? N’aquelle tempo em que eu olhava para esta época, e te via continuando a estação de felicidade que minha santa mãe me trouxera do seu carcere… n’aquelle tempo, Leonor, gozei horas de alegria celestial… Eu, sem ti, não sabia recordal-as, e nem o bem da saudade me era dado. Agora, quer Deus que a minha alma se alumie á luz dos meus dias alegres… pallida luz, como a da lampada do sacrario ao amanhecer… mas, aqui estou vendo os olhos, que me viram feliz… E tu, Leonor, o teu espirito vive e falla… O melhor de ti era o sentimento que hontem acordou… e a amisade sem os dissabores da paixão… N’aquelle tempo…

—Oh! por piedade, cala-te, Alvaro!…—atalhou Leonor, afogada de soluços…—Não me castigues tu, meu anjo de desgraça e de compaixão…

 

XIX

…. Já dava no rosto a friagem
da noite da eternidade; só faltava regelar
de todo… e cahir.

A. F. DE CASTILHO (Fr. F. de
Monte-Alverne).

Leonor, ao cabo de dous annos de padecer, difficultosamente sahia do leito. A extrema fraqueza e tremor espasmodico das pernas seguiu-se a paralysia, e a inteira inactividade. Se a tiravam do leito, transferiam-na a uma poltrona de rodas, que Alvaro com sua mão conduzia a uma varanda envidraçada, onde Leonor ficava horas embebecida nas bellezas do céo, e do valle de Santarem. Duas maravilhas então occorreram: nunca mais Leonor se lastimou da sua desgraça. E se acontecia Maria ou Alvaro olharem-na com piedade, sorria ella, e dizia:

—O espirito é feliz; e as dôres abrandaram muito, desde que metade do corpo morreu. Vejo-me meia morta, e não me aterro.

A outra maravilha foi o remoçar-se-lhe o rosto, até á formosura que ella naturalmente conservaria, com vida quieta e bonançosa, nos seus vinte e nove annos. A nutrição encheu-lhe os sulcos das faces; a pelle amaciou-se e restaurou a antiga alvura; volveram as cores purpurinas, e contornou-se o oval do rosto. Eufemia esmerava-se em toucal-a, em quanto ella, sorrindo, dizia:

—Queres por força que a morte se namore de mim!

Alvaro depunha muitas vezes o livro, com que sua prima se recreava, e extasiava-se nos olhos d’ella; mas que amargura elle escondia n’aquelles extasis!

—Vejo os teus dezoito annos, Leonor!—disse-lhe elle um dia.

—Valho hoje mais, Alvaro! Perdi meio corpo, e ganhei o coração!—respondeu ella—A primeira paralysia era a peor…

Maria da Gloria chamou uma vez o filho ao seu quarto, e disse-lhe:

—Vaes ouvir-me, sem sobresalto, meu Alvaro. Eu tenho até hoje escondido de ti o unico segredo, que devia esconder—a sensivel aproximação do meu fim.

—Que é, minha mãe?!—exclamou o filho, correndo a abraçal-a.

—Não é isso o que eu te pedi, Alvaro!… Escuta-me com socego: sê até ao meu ultimo dia o homem forte. Pedi ao meu medico que nunca te revelasse a minha molestia, depois que lhe arranquei a confissão de que ella é incuravel. Eu morro do coração. Os rebates d’esta dolorosa doença senti-os no meu primeiro anno de convento. A minha vida tem sido um milagre. Quiz Deus por intercessão das almas que me presaram, que eu chegasse até aos teus vinte e sete annos, filho. E choras como aos dez, Alvaro! e tiras-me assim as forças de que eu tanto carecia para te dizer o fim para que te chamei!…

—Diga, minha mãe…—atalhou Alvaro com simulada quietação.

—Pois, sim; socega, escuta-me, filho… Que farás tu, depois da minha morte? Em que destino tens tu pensado? Assistirás á agonia de Leonor, ou acabarás por pedir ao mundo um quinhão do contentamento qualquer que te compense da triste vida que tens vivido!? Acharás um dia uma esposa com o coração de tua mãe, ou ficarás esperando a tua hora final, depois que deres a mortalha a tua prima? E a ti quem te amortalhará, meu pobre Alvaro!?

—Hei-de eu amortalhar-me, minha mãe—respondeu elle tranquillamente após alguns instantes de concentração—Agora, rogo-lhe, por quanto amor lhe tenho, que me não faça mais perguntas.

No dia seguinte, pediu licença a sua mãe, e foi Alvaro a Lisboa. Apresentou-se ao cardeal-patriarcha, e demorou-se algumas horas em pratica secreta. Commetteu importantes encargos ao advogado de sua casa, e voltou ao valle. No caminho encontrara o medico de sua mãe, e, como quem ouvira da enferma o terrivel segredo, obteve do medico a confirmação d’uma breve morte. Era a doença um scirro no coração, já em seu periodo final.

Alvaro encontrou sua mãe animada, fóra do leito, ouvindo Leonor, que lia os manuscriptos de seu primo, na maior parte traducções, feitas no collegio. A que ella estava lendo, era a do «Cura do Wakefield» de Goldsmith. Reviam lagrimas suaves os olhos de ambas, quando Leonor lia o XXIX capitulo que eu inculco muito d’alma a todos os desgraçados, e que vem assim intitulado: Demonstração da equidade da Providencia para com felizes e infelizes. Resulta da propria natureza do prazer e da dôr, que os desgraçados devem encontrar na vida futura compensação dos seus soffrimentos.

Alvaro não consentiu que Leonor fechasse o manuscripto, e sentou-se a ouvil-a, até estas linhas que a leitora já lêra a custo, de turvada que tinha a vista por lagrimas: «A morte nada é, e todo homem póde mostrar-lhe rosto sereno; mas os tormentos é que são provações horriveis, que poucos sabem supportar.»

—Não leias mais, filha…—disse Maria da Gloria—conta-nos o que fizeste em Lisboa, Alvaro… Devia de parecer-te nova a cidade! Ha tres annos que lá não tinhas ido!… Com quem fallaste, filho?

—Com poucas pessoas, minha mãe. Passados dias, tenho de me lá demorar algum tempo para negocios nossos.

—Algum tempo!—disse Leonor—e com que placidez de espirito dizes isso, primo! Pois tu deixas-nos por algum tempo!? E podes, Alvaro?

—São sacrificios necessarios, minha prima. Eu hei-de aligeirar a minha demora o mais que possa…

—Soubeste—atalhou Maria—se teem sido cumpridas as nossas determinações?

—As mezadas?… tem sido pontualmente pagas, minha mãe… Parece-me que a vejo reanimada!…

—Estou, filho… Por que te admiras?! No final das jornadas parece que o vigor do caminhante se recobra para maior caminho. A esperança é tudo, meu Alvaro, e, a morte é nada… não o ouviste ainda agora?

Nos tres dias consecutivos, Maria padeceu muito, e perguntou placidamente ao seu medico se seria chegado o termo. Não era. As dôres abrandaram; e o descanço de alguns dias faria reviver esperanças a quem as tivesse vivas e anciosas no espirito.

Leonor, desde que sua tia acamou, pediu que lhe não dessem outro local, senão o quarto d’ella; Alvaro entregou-lhe á sua vigilancia a mãe, e foi para Lisboa.

Ao termo de quatro dias, foi chamado por uma carta de Leonor, atribulada pelo receio de ver morrer sua tia, posto dizer a enferma que não morreria sem ver seu filho, com um ar de certeza e contentamento que parecia instincto do céo. Em carta, escripta de seu proprio punho ao filho, dizia ella: «não te apresses nem alvoroces, filho, que eu pão morro sem te dar o ultimo suspiro.»

A tempo foram as cartas de estar cumprida a diligencia que o levara a Lisboa. Sem respiro, transpoz Alvaro as doze leguas que o separavam de sua moribunda mãe. Diziam as criadas, e Leonor com ellas, que Maria da Gloria, sem delirio nem fraqueza de espirito, horas antes da chegada do filho, estava sempre dizendo, com sombra de jubilo, estas e outras exclamações:

—Como elle vem triste; mas que linda é a sua auréola de justo!

—O senhor condoeu-se da mãe innocente, e deu-lhe aquelle filho. Bemdito seja o Senhor no improfundavel mysterio dos seus juizos!

Foi Aivaro offegante ao quarto de sua mãe, que tinha a cabeça encostada ao peito de Eufemia, e os olhos postos no crucifixo. Maria, ao vêr o filho, nem sequer se aterrou no rosto, a não ser o sorriso instantaneo, que se abriu, na custosa articulação d’estas palavras:

—Não te disse eu que não era pressa, filho? Estou agora socegada; e, se assim morrer, suave é a morte. Tinham-me dito que o morrer d’este mal era horrivel de agonias! Deus faz o que os medicos não sabem… Estás fatigado, Alvaro? Vai descançar… Almoçaste, filho? Vai tratar d’elle, Eufemia… A nossa Leonor, coitadinha, não póde ir… A tua irmã querida… Deixo-t’a como filha.

—Eu vou comtigo, Alvaro?—disse com muita doçura Leonor—Ajuda-me? levas comtigo este meu esquife?

—A mãe quer estar sósinha?—disse Alvaro.

—Quero, filho: está ahi o meu confessor…

Sahiram da camara, e acharam fóra o confessor e o medico. O segundo pediu venia ao medico da alma para vêr a doente. Demorou-se instantes, e disse ao padre:

—Agora é toda sua a missão. Eu não venho em cata de esperanças; vinha espantar-me da serenidade da moribunda.

Depois de confessada, preparou-se o quarto para a recepção do Sagrado Viatico.

Alvaro, quando soube que sua mãe ia ser ungida, entrou no quarto, beijou-lhe a mão com torrentes de lagrimas, e pediu-lhe licença para vir da igreja acompanhando o Senhor. Maria fez um gesto de gostoso assentimento.

Soava já o toque lugubre da campainha, e o «bemdito» do povo, que acompanhava a extrema-unção. Os servos da casa ajoelharam na ante-camara da agonisante. Leonor estava já aos pés do leito, n’um recanto escuro, com as mãos erguidas.

Entrou o ostiario, e ao lado d’elle um outro sacerdote com as ambulas dos santos-oleos.

Ouviu-se um ai agudo, e o nome de Alvaro proferido com espanto. Leonor reconheceu-o, Maria descerrou as palpebras, e balbuciou:

—Não está aqui meu filho!?

E o levita, que entrára a par do vigário, aproximou-se da cabeceira do leito, e disse:

—Aqui estou, minha mãe.

Maria da Gloria estremeceu, estendeu os braços ao vulto que fallára na voz de seu filho, abriu a boca para deixar sahir a respiração convulsa, correu as mãos na face de Alvaro, que se aproximára da sua, e pôde exclamar:

—Tu!… Alvaro!… tu!… ministro de Jesus!

—Já vê que fico amortalhado, minha santa mãe…—disse o padre Alvaro.

Maria poz as mãos, cerrou os olhos, e murmurou:

—Infinitas graças, meu divino Senhor! Bemdito seja o vosso nome, Virgem Mãe de Jesus! Joanna das Cinco Chagas, santa, filha escolhida do meu Deus! pede um raio da tua gloria para a alma da tua serva!

Ajoelharam todos. Maria commungou, e foi ungida. Terminada a ceremonia, e desempedido o quarto, a moribunda acenou ao filho, que continuava de joelhos. Alvaro foi, e curvou-se sobre o leito, applicando-lhe o ouvido aos labios. Os labios de Maria já não tinham palavras; se estavam ainda quentes, era o calor do ultimo suspiro. Tomou-o Alvaro no coração quando a boca se entre-abria proferindo a palavra «mãe!»

Fez-se o terror do silencio alli n’aquelle quarto. Ninguem se desafogou em gritos, porque era de todos a dôr que os afoga na garganta.

 

XX

CONCLUSÃO

Oublie-toi! dévoue-toi! sacrifie-toi!

J. SIMON (Le devoir.)

E não ha um remançoso abrigo onde saiam a repousar-se e a deleitar-nos estes desafortunados dos prazeres reaes da vida!

De força ha-de o animo do leitor compenetrar-se dos regalos intimos da virtude, para entender que a virtude é boa?

Quando raiará o dia de felicidade para Alvaro?

Quando entardeceu o dia de contentamento para Maria da Gloria?

Peccaminosa pergunta, se o leitor duvida das consolações mysteriosas com que Deus acode e se amerceia dos que o confessam e chamam nas atribulações.

Que ante gosto da bemaventurança não provou Maria, abraçando aquella mortalha de seu filho! Que suave doer, e dulcissimo anhelar a Deus não será o d’aquelle levita na correnteza dos annos, de penitencia voluntaria, e de evangelica abnegação? Não duvidemos: abaste-nos o orgulho da nossa miseria, e não façamos do nosso scepticismo um cadafalso injurioso á dor e á fé. Se em volta de nós não vemos senão imagens nossas, e almas aferidas no padrão vulgar; se a nossa idéa do prazer a aceitamos do vulgo, remodelada nas suas apreciações; será justo que não desdenhemos a felicidade que nos fica incomprehensivel áquem da baliza onde o curto alcance do espirito viciado nos leva.

Se Alvaro foi feliz?! Perguntemos a Deus se os seus martyres correm n’este mundo os estadios de suas dores, sem que a luz ineffavel de seus olhos os não guie ao horisonte da bemaventurança, assignalado pela cruz! E o caminhar sem desvio nem tropeços á patria infinita que nome tem, se não é a felicidade suprema?

Oito dias depois do trespasse de Maria da Gloria, padre Alvaro fallou a sua prima, n’um tom de voz e magestade de postura, que denotava a mudança do homem, ou o esforço d’elle sobre o coração do homem amortalhado.

—Leonor—disse elle—bem me vês: vesti-me assim para a mim me vêr e convencer de que tudo se acabou para mim, menos a vida da alma e as voluntarias mortificações do meu sacrificio. Este caminho é o das alegrias da virtude, por elle irei indo ao lado da sombra de minha mãe, até me identificar com a luz da sua gloria. Se errar o passo dificultoso, a santa pedirá por mim ao Pae compassivo dos que se levantam da queda, chorando. Aqui tens o amigo da tua infancia, minha prima: os teus infortunios ganharam para sempre a dedicação, que a tua paciencia merece, e me ensina a praticar. Deus perdoar-me-ia se te eu agora contasse a longa historia, os longos trabalhos que me custou o morrer do coração. Tu é que me não desculparias a inutil crueza de te dar um espectaculo de angustias, que eu de mim proprio forcejava por esconder. Lá vai tudo. Agora, perdão e paz. Nem lagrimas me dês ás cinzas da paixão desgraçada! Escuta, Leonor, tu tens nos Olivaes uma casa em ruinas. Venho-te pedir que m’a cedas para os dias todos da minha vida.

—A casa é tua, Alvaro; é teu tudo quanto o mundo chamava meu…

—Não sei se eram minhas as ruinas dos Olivaes, Leonor; sei que sinto prazer em pedir-t’as.

—E poderemos alli viver, Alvaro?—atalhou Leonor.

—Eu viverei.

—Tu! e eu não, meu primo?!

—Não, Leonor—respondeu o padre com um ar de firmeza, que não animava a ser contrariado—Ficas aqui, com as criadas de minha mãe, senhora d’estes nadas que pouco importam á tua triste existencia; mas o teu lugar é este onde recende ainda o perfume da mulher virtuosa, que nos levou a Deus a conta das nossas lagrimas.

—E queres que eu aqui fique, Alvaro? não poderei pedir-te que me deixes escolher outra residencia? Respeitarás, ou terás piedade do coração que t’a pede, do coração que não morreu ainda?

—Escolhe, Leonor; quererás voltar a Lisboa? queres antes viver na casa que lá temos?

—Não, meu primo. Dá-me uma cella n’um convento, e uma criada, que me sirva.

—E a chorar me pedes um convento, Leonor?

—Quem deixaria de chorar a esta hora, Alvaro!…

—Eu, bem vês.

—Tu, sim, primo… Só podiam ser do coração as tuas lagrimas!…

—Não são, não devem ser…—Alvaro concentrou-se, levantou ao céo os olhos, e continuou:

—Irás para um convento, deixando-me sem condições a licença de regular a tua casa. As criadas de minha mãe irão comtigo, menos Eufemia, que me embalou o berço, e me ha-de fechar o caixão. Ámanhã iremos para Lisboa. Se, durante a noite a reflexão alterar o teu proposito, dir-m’ohas, Leonor.

No proximo dia, sahiu Leonor com as suas criadas para Lisboa. O padre Alvaro anticipou-se algumas horas, e foi em direitura ao convento de Santa Joanna, e d’alli ao conseguimento das licenças ecclesiasticas para a reclusão de sua prima.

N’esse mesmo dia, entrou Leonor de Brito no mosteiro de franciscanas, e depós ella uma sumptuosa mobilia.

O padre abraçou-a no portico do convento, e disse-lhe:

—A paciencia faz os anjos: pedirás a Deus por mim, quando te sentires alumiada da graça que fortalece e santifica.

Leonor soluçava em gemidos, que lhe tomavam a voz. Alvaro pôz-lhe a mão de leve no rosto, e murmurou:

—Não sejam as ultimas que chores por saudade de nossa mãe… Nossa, de certo, minha irmã!… Juntos seremos em cada prece que ella fizer a Deus.

Alvaro cortejou a prioreza e outras religiosas que assistiam á entrada de Leonor, e sahiu.

No mesmo dia, foi o padre para as ruinas dos Olivaes, onde Eufemia o estava esperando. Em quanto fazia habitavel uma parte do edificio alluido, viveu na casinha, onde encontrara Leonor esvaida de sangue. Reconstruída uma pequena porção do palacio, transferiu-se para lá, e decorou-a com parte dos moveis, que conhecia desde a sua infancia em casa de Sebastião de Brito. Entre estes objectos, de sua casa levara apenas o leito em que morrera sua mãe, e o retrato de João de Mattos.

Os bens de fortuna de padre Alvaro Teixeira eram ainda grandes. Adjudicou a maior parte d’elles ao tratamento de Leonor, e a pensões de algumas religiosas necessitadas do convento d’ella. Para si tomou uma pequena parte dos rendimentos de um capital, que doara a Eufemia. Dizia elle muitas vezes á velha criada «que estava vivendo da beneficencia d’ella.»

Este viver assim durou desde 1839 até 1859. Vinte annos!

N’este longo termo, quando alguem acertava de perguntar por aquelle exquisito Alvaro Teixeira, os melhores informadores diziam em tom de plangente hypocrisia que o pobre moço endoudecera. Lembrem-se do que a tal respeito o sacerdote me disse. Como ninguem soubesse atinar com a razão d’aquella virtude, os mais cordatos chamavam-lhe misanthropia, e os poetas achavam-no digno de ser cantado; mas ninguem cantou o heroe obscuro: a piedade era assumpto mingoado para o estro ambicioso dos romanticos d’aquella época. Esqueceu, por tanto, Alvaro Teixeira amortalhado no seu habito.

É de crêr que lêsse muito, porque a sua instrucção era admiravel, e que soffresse muito porque os seus quarenta e cinco annos eram a decrepidez.

Visitava Leonor ás temporadas, e a secular de Santa Joanna vinha á grade, transportada na sua poltrona de rodas, e chorava a cada traço novo de extemporanea velhice, que divisava no rosto de Alvaro.

Algumas vezes supplicou-lhe que a deixasse ir estar com elle, algum tempo, nas suas ruinas. Alvaro respondia que o seu pacto com ella era encontrarem-se na presença de Deus.

Tinha o padre um amigo em Lisboa; era o seu mestre de inglez, aquelle homem que assistiu commigo ao sublime espectaculo da morte do justo. Accrescentado pelas liberalidades do sacerdote, o professor abandonara o officio, e chegara a merecer por suas virtudes uma distincta posição entre os homens uteis d’este paiz. Se elle tivesse passado, e se a gloria da virtude não fosse a modestia, eu escreveria aqui o nome do amigo digno de Alvaro Teixeira.

Não sei que mais lhes possa dizer da vida d’aquelle padre dos Olivaes. Recordem os primeiros capitulos, e suave lhes será relembrar os santos dictames d’aquella boca ungida das lagrimas que lhe sulcavam o rosto venerando.

Já sabem porque elle se esquecia contemplando a janella fronteira das suas ruinas. N’aquella janella ouvira elle, em noite de baile, vinte e nove annos antes, as palavras de Leonor com que o seu amor inflorára a garganta do abysmo onde cahira entre os braços da piedade e da honra. Tambem se lembram da rapida sabida, que elle fez para Lisboa, ao annunciarem-lhe a agonia de Leonor.

Eu fui ao convento de Santa Joanna, e perguntei a historia dos ultimos instantes da entrevada. Disseram-me, debulhadas em pranto as religiosas, que a morte de Leonor fora o remate de um colloquio com o espirito de Maria da Gloria. E, como eu me detivesse em amiudar os pormenores d’este vago dizer, tiveram as senhoras a bondade de me contar que o rosto de Leonor, nos seus ultimos mezes, brilhava de um resplendor, que não era natural; e, ao sahir d’aquelles extasis, dizia ás suas amigas que estivera vendo no céo a imagem de sua tia. N’um d’estes arrobamentos é que Leonor expediu o espirito, dizendo estas palavras: «Abre-nos o teu seio, santa! leva para ti os teus dous filhos, e não me lances de ti, que as minhas lagrimas purificaram-me.»

Eu quiz, não por duvidar, mas por escrupulo, combinar dous factos inconciliaveis.

—Se Leonor morreu de repente, como foi avisado o padre Alvaro de que ella estava em agonia da morte?

—Não se lhe deu tal aviso;—respondeu a prioreza—Leonor, na vespera do seu trespasse, tinha dito que, se o seu primo não viesse vêl-a até ás quatro horas do dia seguinte, só na presença de Deus a veria, Ora, nós tanta confiança tinhamos nas previsões da virtuosa senhora, que nos apressamos a chamal-o.

—Deu-se, por tanto um milagre!—atalhei eu.

—Milagre foi, louvado seja por isso o Senhor, que escolheu a sua serva para nos edificar—respondeu a prelada—O padre Alvaro chegou minutos depois da hora que ella dissera.

—Serei importuno fazendo mais uma pergunta?

—Queira dizer.

—Leonor tinha reminiscencias magoadas, ou mesmo saudosas d’um passado, anterior a trinta annos?

—Não sabemos—respondeu promptamente a prioreza—o que podemos dizer-lhe é que Leonor, logo que entrou n’esta casa, quiz que as suas criadas lhe chamassem Magdalena.

Pensei na palavra, e puz ponto na minha curiosidade.

Já fóra da portaria do convento, meditei no que teriam sido vinte annos de horrivel immobilidade, de paralysia, com o coração vivo, e o fogo da indole e do instincto inextinguivel n’elle. Não me entendia com o mysterio de semelhante conversão.

Alheado n’estes pensamentos ingratos e inconcludentes, ouvi uns sons de orgão, cuja toada vinha do templo do mosteiro. Retrocedi, entrei na igreja, ajoelhei, orei, e tudo comprehendi, encarando no retabulo de um dos altares. Era o painel significativo da contrição de S. Pedro; e, á orla inferior, li estas palavras: Flevit amàre: CHOROU AMARGAMENTE.

Os infelizes chorem, que á ultima lagrima da penitencia segue-se a primeira da santificação.

 

FIM.