Contos e Phantasias by Maria Amalia Vaz de Carvalho

CONTOS E PHANTASIAS


D. MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO


CONTOS
E
PHANTASIAS


2.a EDIÇÃO


LISBOA

PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
LIVRARIA EDITORA
Rua Augusta—50, 52 e 54
1905


LISBOA

Officinas Typographica e de Encadernação

Movidas a vapor
DA

Parceria Antonio Maria Pereira
Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.o
1905


PRIMEIRA PARTE


UMA HISTORIA VERDADEIRA

I

Era uma physionomia incaracteristica, apagada, tristissima.

Não se podia dizer a idade que tinha, nem mesmo se tinha idade.

Tanto podia ter trinta ou quarenta como setenta annos.

Curvado pela idade ou pelos desgostos? Encanecido porque os annos tinham corrido por sobre a cabeça d’elle, ou porque lhe tinham pesado duplamente sobre os hombros debeis?

Quem o podia dizer?

Era uma organisação acanhada e rachitica, podia mesmo chamar-se incompleta.

[8]

Para elle com certeza que a adolescencia não tivera as suas madrugadas azues tão gorgeadas e tão festivas, nem a virilidade tivera a fanfarra estridente dos seus clarins, a florescencia escarlate dos seus rosaes voluptuosos.

Tinha sempre vivido debaixo de uma estranha pressão dolorosa.

Dependêra de todos primeiro porque era fraco e inerme, depois porque fôra pobre, dependente, sem aquella aspera dignidade que os atrictos da vida tornam mais rude e que é a armadura moral que salvaguarda o homem nos duros combates sociaes.

Nasceu n’uma casa opulenta que lhe não pertencia, cresceu no meio de um luxo de que seus paes erão parasitas voluntarios e de que elle era… parasita inconsciente.

Começára por ter medo de tudo e de todos; um medo que não raciocinava, que não sabia, que não indagava mesmo a sua propria origem.

Nasceu assustadiço, como certos animaes silvestres, e toda a vida conservou a mesma expressão inquieta e medrosa da lebre perseguida.

Em primeiro lugar tinha medo de seu pae; um homem alto, espadaúdo, plethorico, de voz grossa e modos brutaes, que comia como um abbade, que bebia como um lansquenete, que praguejava como[9] um carreiro, e que se vingava nos poucos entes que tinha debaixo do seu dominio, das complacencias servis que era obrigado a mostrar aos que o mantinham n’aquella farta ociosidade de commensal que só goza e não paga.

Depois tinha medo de sua tia; a dona da casa, a senhora, a suzerana ante a qual todos se curvavam submissos.

E no emtanto ella era bonita, delgada, flexivel, muito branca.

Uma figura ideal de pintor inglez.

Mas que culpa tinha elle, o pequenino parea, se os olhos d’essa graciosa e delicada senhora lhe pareciam frios e metalicos, com umas scintillações azuladas como as do aço fino? se as suas mãos esguias e brancas se lhe affiguravam duas tenazes que podiam apertal-o, apertal-o até o torcerem todo, até o esphacelarem e fazerem d’elle, do seu pequeno corpo tão fraquinho, uma grotesca massa informe, que o mundo inteiro pisasse, onde o mundo inteiro cuspisse!

Seria allucinação d’aquelle cerebro enfermo e condemnado ás scismas doentias?

Quem sabe?

O caso é que o sentia, e que nunca pudera esquivar-se a essa preoccupação intensa e dilacerante!

Um d’estes dous entes que dominaram de estranho[10] terror a sua infancia, maltratava-o nas explosões brutaes de seu temperamento de touro bravo.

O outro—a senhora—muito altiva, muito fria, muito desdenhosa, nem sequer lhe fallava.

Olhava-o ás vezes como se olha para um animal repugnante, para um sapo, ou para uma carocha, e passava adiante, imperturbavel e olympica.

Havia, porém, um outro sêr, dos que mais em contacto estavam com elle, que nem o maltratava, nem o desprezava com a glacial frieza do seu desdem.

E comtudo era d’esse que elle tinha ainda mais medo.

Era seu tio; uma figura original, uma physionomia de titan que por um engano qualquer da natureza não pôde conseguir passar de anão.

Seu tio!… Como esta individualidade extraordinariamente accentuada, como este rosto ironico, irregular, convulsionado, dominou para sempre o destino obscuro da infeliz creança que eu conheci já velho!

Seu tio não o perseguia nem lhe manifestava uma repugnancia muda, pelo contrario.

Chamava-o continuamente para o pé de si, ensinava-lhe, quando estava só, palavras, esgares, visagens grotescas que lhe fazia repetir diante de[11] gente, n’um côro de gargalhadas asperas e hostis como gumes de espadas!

Vestia-o de um modo desusado e extravagante, vestia-o de marujo, de escossez, com as suas pequenas pernas magras, trigueiras, ossudas, n’uma nudez friorenta que lhe doia, e o fazia tiritar; vestia-o de tyrolez, o que lhe dava um aspecto comico, que arrebentava com riso a criadagem.

Ás vezes nos seus dias de melhor humor sahia com elle, que tinha apenas sete annos de idade, de casaca, chapéo-alto, e berloques na cadeia do relogio.

Tinha tempos em que não podia passar sem a sua companhia; a creança era a unica distracção do anão.

As caricias d’esse homem singular, de olhar faiscante, de cabelladura revolta e electrica, de voz sonora e rica de inflexões estranhas, doíam, porém, ao pequeno muito mais do que os desprezos ou os máos tratos dos outros.

Ao pé d’estes sentia-se perseguido, ao pé d’aquelle sentia-se humilhado.

Um dia o marquez—o tio do pequeno Thadeu era marquez,—achou comico mandar introduzir a creança no cofre acharoado que havia junto ao fogão do gabinete de trabalho, destinado a guardar a lenha ou o carvão que se consumia.

[12]

De minuto em minuto abria-se a tampa e sahia a cara vermelha e congestionada do pequeno, uma cara de animal assustado, o que divertia extraordinariamente as visitas.

Outra vez, n’uma ceia alegre em que havia rios de champagne e risadas crystallinas de mulheres, Thadeu com um fato de meia preta a cobril-o todo e dous castiçaes nas pequenas mãos, servia de centro agachado n’uma posição grotesca no meio da meza.

Sahiu d’alli com uma febre que o teve um mez entre a morte e a vida, delirante, sem conhecer ninguem, com a mãe debulhada em lagrimas á cabeceira.

Mas Thadeu não gostava de sua mãe.

Era uma creatura tão debil como elle, pallida como uma defunta, inerme, estupida, sem vontade.

As lobas defendem os seus filhos, a mãe de Thadeu não o sabia defender!

Entregava-o ás coleras descompostas do pae; aos desprezos gelidos da tia; aos caprichos monstruosamente comicos do marquez; ás apupadas brutaes das aias e dos lacaios; aos risos das visitas; ao pasmo desprezador das outras creanças, que iam áquella casa opulenta e ruidosa acompanhadas por seus paes, vestidas de velludo, com plumas nos seus lindos chapéus, o ar grave de meninos bem creados,[13] e que não tinham licença de brincar com aquelle pequeno histrião, feio, ridiculo, doente, com gesto de epileptico, com fatos de palhaço e com soluços de martyr.

II

Um dia, porém, fez-se na vida atormentada e tempestuosa do pequeno Thadeu uma claridade de luar, uma claridade opalisada e doce.

Houve treguas nos seus varios martyrios, e sua mãe, n’uma bella manhã de primavera em que os passaros cantavam ao desafio nas grandes arvores do jardim, levou-o pela mão, pé ante pé, a um quarto forrado de setim côr de rosa, um quarto digno de servir de habitação á fada mais linda que uma phantasia de poeta oriental houvesse imaginado.

N’aquelle quarto havia um ninho todo branco feito de rendas, de fitas de setim, de pennugem de passaros, e n’esse ninho dormia uma creancinha que parecia uma rosa.

—É tua prima; murmurou baixinho a mãe de Thadeu, emquanto este, mudo, surpreso, extasiado, fitava os seus olhos vitreos, onde o jubilo acendia uma luz desusada, nos grandes olhos luminosos e pasmados do bébé que acordára.

[14]

Oh! como Thadeu adorava aquella creança! Como na sua vida houve de repente um ficto, uma esperança, uma luz!

Sua tia, uma vez em que a bebé chorava muito nos braços da ama, dissera a Thadeu com uma voz menos glacial do que o costume:

—Thadeu, brinca com a prima a vêr se ella se cala.

E elle fizera calar a rabujenta pequerrucha.

Desde esse dia soube-se que a menina tinha o insolito capricho de adorar Thadeu, de rir quando elle estava de joelhos dobrado sobre o seu berço, de chorar quando alguem o levava d’alli para fóra.

A ama tomou o costume de o chamar e de o fazer estar horas e horas a entreter a menina.

Ao principio elle fazia-lhe carêtas e momices, como as que usava fazer para divertir seu tio; depois, sem bem perceber porque, adoptou outro systema inteiramente opposto.

Percebeu que a pequenina não queria um bôbo, como esse espirito embotado e pervertido que o victimára com os seus caprichos. O que a bebé queria, na ingenuidade adoravel do seu despotismo infantil, era um companheiro de seus brinquedos, um socio, um escravo que a adorasse.

Thadeu era tudo para ella: queria-o perto da grande tina em que tomava o seu banho de manhã;[15] queria-o junto da pequena mesa de nacar onde a ama lhe dava as sopinhas; queria-o no berço ao adormecer; queria-o no jardim, á sombra das arvores, sobre a arêa finissima, onde se rolava, vestida de rendas brancas, a rir como uma perdida.

Chamaram-lhe Margarida.

Margarida quer dizer perola, e Thadeu, que vira muitas vezes sua tia vestida de baile, achava um nome muito bem posto áquella creança branca, transparente, loura, idealmente graciosa.

Oh! Thadeu ainda andava muita vez vestido de marujo, de granadeiro, de tyrolez e de alferes, ainda o introduziam no cofre da lenha, ainda o faziam fumar um charuto depois de jantar, cheio de ancias, de nauseas, de gritos abafados de angustia!… Mas que importava!

Logo que podia escapava-se para o quarto da fada, para o estojo côr de rosa da sua perola, da sua Margarida, e então eram risadas sem fim, eram corridas delirantes por sobre o tapete, era um papaguear de duas aves felizes.

Margarida com a idade ia-se fazendo despotica.

Pudera!

Ou ella não fosse mulher, e estremecida pelo seu humilde escravo!

[16]

Mas era assim mesmo que elle a queria.

Quando as mãosinhas polpudas e brancas de Margarida lhe batiam, Thadeu sentia-se feliz como um rei.

Quando ella o obrigava a agachar-se no chão para lhe servir de jumento, o rapazinho tinha tentações de rinchar de prazer, fazendo o passo bem ao vivo.

Porque no fim de contas, apezar de todas as suas adoraveis crueldades, Margarida gostava d’elle.

A presença de Thadeu illuminava de risos o seu rosto oval coroado de cabellos louros annellados, o seu rosto a um tempo angelico e gaiato!

Margarida não o achava feio, nem tolo, nem ridiculo, nem doente.

Não desprezava a fraqueza dos seus braços, nem a pobreza absoluta da sua imaginação.

Pelo contrario! Admirava o!

Sim; ella dera-lhe essa sensação poderosa e extraordinaria, a sensação dos que se vêem admirados com ingenua confiança.

Margarida pedia-lhe cousas enormes, com uma serenidade ineffavel de crente!

Pedira-lhe um ninho de melros, e o que é mais! conseguira que elle tão medroso, tão debil, tão assustado, trepasse pelos braços nodosos de uma grande arvore e lh’o fosse buscar lá cima.

[17]

Que triumpho este d’ella, ao ver satisfeito o seu capricho! mas que triumpho maior ainda o d’elle ao comprehender, que alcançara essa cousa prodigiosa, que nem nos sonhos mais arrojados das suas noites de febre elle ousara até ali conceber!

Um dia Margarida, em frente d’aquelle rasgo assombroso de valentia que collocara Thadeu ao lado dos maiores heroes, puzera se grave, meditativa, e apontando com serena magestade para a lua que se reflectia n’um tanque do jardim, pedira a lua ao seu amigo Thadeu!

Está claro que elle lh’a não pôde dar, mas gostou d’aquillo!

Percebeu que o julgavam capaz de cousas grandes, de levar a cabo emprezas impossiveis, e esta idéa que alguem tinha da sua força, fê-lo crescer aos seus proprios olhos.

O marquez conhecendo que o pequeno deixára de ser seu joguete, simplesmente para ser joguete de sua filha e herdeira, applaudiu-se de lhe haver dado aquella educação especial, e prohibiu que o distrahissem, fosse sob que pretexto fosse, das suas novas funcções.

Margarida era ainda muito pequenina para entreter os paes.

Elle precisava das excitações da politica, das luctas do parlamento, dos sorrisos falsos ou verdadeiros,[18] caros ou baratos das formosas mulheres, do jogo, da ambição, do amor, da violencia corrosiva de todas as pequenas e grandes paixões!

Ella precisava do luxo, das joias que scintillam, das sedas que se quebram em ondulações brilhantes, do côro das adulações mentidas, de todas as ephemeras alegrias que só o mundo lhe podia dar.

Para ambos Margarida seria um remorso, se a não vissem tão nedia, tão roliça, tão alegre, com chispas de travessura maliciosa no olhar, sempre acompanhada do seu pequeno amigo, submisso e fiel como um cão.

Deixaram-os, pois, crescer e viver juntos sob o olhar das aias, sempre um pouco hostil para Thadeu e por isso tanto mais insuspeito.

Foi o verdadeiro paraiso que este conheceu na terra, foi a sua idade de ouro.

Ha entes que nunca nem por um instante só conheceram a completa ventura.

São de todos os mais desgraçados.

Thadeu mais tarde podia ao menos recordar-se!

E elle sabia apreciar tão bem aquellas alegrias que em manhã abençoada tinham cahido sobre a sua pobre cabeça!…

Um dia Margarida travessa e caprichosa como era, desattendendo todas as advertencias de Thadeu, deixara-se cahir dentro do tanque do jardim.

[19]

O pequeno não sabia nadar.

Que importa!

Sem premeditação, sem raciocinio, obedecendo a um instincto de dedicação inteiramente canina, deitou-se n’agua atrás d’ella.

As criadas, acudindo, tiraram do tanque as duas creanças abraçadas.

Imagine-se o que iria em casa!

Thadeu, castigado severamente, não quiz condemnar a sua amiguinha, para se salvar a si.

Foi ella que, soberba, graciosa, com a sua magestade de pequena rainha, disse aos paes:

—Não batam n’elle. Elle pediu-me que não fosse. Eu é que quiz ir.

Acharam-na adoravel; encheram-na de caricias e de gulodices, mas ninguem pensou na acção tão simples e tão heroica do pequeno Thadeu, a quem tinham posto a alcunha de medroso.

III

Foi assim que Margarida fez nove annos.

Era linda e indomita.

Tinha um corpo airoso, flexivel e forte.

Ninguem opprimira nunca aquella altiva natureza aristocratica.

[20]

D’ahi a sua isenção, a liberdade dos seus movimentos, o fulgor radioso dos seus grandes olhos azues, onde um observador veria talvez as scintillações metallicas que davam tamanha dureza ao olhar de sua mãe.

Margarida tinha uma vontade de ferro, e uns nervos de mulher caprichosa.

Quando a professora allemã que seus paes mandaram buscar, quiz sujeitar o seu espirito a uma certa disciplina, Margarida revoltou-se n’um impeto de insubordinação selvatica.

Tivera criadas que a serviam, um escravo que tremia diante d’ella, e paes que transigiam com todos os seus pequenos desejos de creança.

Dera-se bem n’aquelle meio, não queria outro, não o aceitava, nem curvaria a sua cabecinha erecta e firme com uma aureola de anneis de ouro a cerca-la, a nenhum dominio que não fosse o da sua vontade.


Um dia Thadeu ouviu fallar vagamente n’uma viagem que seus tios iam fazer ao estrangeiro, e viu começar os preparativos para ella.

Ficou no céo.

Viveria só na grande casa com Margarida e o rancho dos criados.

Seriam livres.

[21]

Ella teria um balouço no jardim, uma rede brazileira no kiosque, e um barquinho no lago.

Eram os seus tres sonhos ainda irrealizados.

Thadeu dirigiria todos os trabalhos.

Diria aos operarios que tinha dezeseis annos, e que era sobrinho do marquez.

Os operarios haviam de respeital-o.

Elles não tinham precisão nenhuma de se rir do seu corpo enfezado e rachitico.

Não é preciso ser-se athletico para se ser respeitado pelos homens a quem se paga.

Thadeu havia de arranjar algum meio de lhes pagar.

Andava então doente, exquisito, com uma excitação nervosa que o torturava.

O seu affecto por Margarida tivera uma recrudescencia violenta e dolorosa.

Tinha vagos presentimentos que o faziam chorar.

Parecêra-lhe que sua tia, uma vez, ao encontral-o n’um corredor, olhára para elle com uma aguda ironia malevola.


—Não sabes, Thadeu? gritou Margarida entrando como um raio de sol no quarto onde costumava brincar com o primo. Não sabes?—E atirou-lhe negligentemente aos pés com um feixe de flôres e de folhas verdes que estivera colhendo[22] na quinta.—Tambem eu vou com o papá e a mamã. Vamos a Paris… muito longe… muito longe… Estive á escuta… percebi umas cousas mas não percebi outras. Fallaram n’um convento… no Sacré Cœur… Sabes o que é?…

Thadeu sabia.

Não disse nada, mas no outro dia não pôde levantar-se da cama.

Tinha dôres em todo o corpo e um grande cançasso, como de quem deu uma larga caminhada.

Gemia baixinho abrazado em febre, e quando pediu muito humildemente, com medo de recusa, para ver Margarida, disseram-lhe que a doença d’elle podia pegar-se e que as meninas não iam ao quarto dos homens.

Pois isto é um homem? pensava Thadeu desolado.


Margarida de endoudecida com a mudança, com o movimento, com a espectativa de uma existencia desconhecida e nova, esqueceu-se completamente do enfermo.

Partiu sem pedir sequer para lhe dizer adeus!…

Quando Thadeu ao cabo de um mez de doença sahiu do quarto com o rosto macilento, abatido, cançado, como o de um velho, com a espinha dobrada e as magras pernas vacillantes, pediu para[23] ir ao quarto onde brincava com a sua perola, e agachou-se a um cantinho a chorar com uns uivos dolorosos, com uns uivos caninos que faziam mal.

Sentia-se para sempre só…

IV

O marquez tinha ido sósinho para França. Fôra, ao que se dizia, buscar a filha ao Sacré-Cœur.

A educação de Margarida devia estar completa. Fôra-se embora com nove annos de idade, e haviam já passado sete depois que ella partira.

Sete annos! que longo periodo!

A casa dos marquezes era pouco mais ou menos a mesma cousa.

Thadeu perdêra sua mãe, mas aquella figura apagada, melancolica, de uma debilidade de valetudinaria, pouca falta havia feito no palacio illuminado e radioso.

O marquez aconselhado por alguma pessoa de juizo e de caridade tinha consentido a que logo depois da partida de Margarida seu sobrinho entrasse para um collegio.

Tambem já lhe não servia para nada.

Com o seu corpo magro e desengonçado, um corpo de funambulo, um corpo de grotesco, tinha[24] melancolias quixotescas que incommodavam quem o via.

Os criados deram por mais de uma vez com o rapazola a chorar de bruços n’um recanto do jardim, chamado o canteiro de Margarida.

Era um pequeno espaço semeado de flôres, onde principalmente abundavam os malmequeres brancos que tinham o poetico nome da filha do marquez.

Havia ali uma grande arvore, um castanheiro copado cuja rama folhuda abrigava as longas scismas dolorosas de Thadeu.

Não se podia consolar!

Era ali n’aquelle sitio fresco, esmaltado de flores, exhalando um cheiro agreste e sadio, que elle se deixava ficar horas e horas esquecido de todos, n’uma especie de lethargo bestial, o lethargo de um animal ferido.

E desfiava na memoria todo o seu passado, toda a vida que vivêra, abandonado, desprezado, perseguido de chufas ou de maus tratos, de caprichos humilhantes, ou de observações glacialmente desdenhosas.

Só ella nunca o ferira! só ella fôra no seu viver de cão apedrejado um consolo dulcissimo! uma nesga do céo que se entreabrira!

Só ella nunca se tinha rido á custa d’elle, e fôra[25] elle—o misero, o abandonado, o enfermo—que tivera o primeiro sorriso d’aquella boquinha de rosas, o primeiro beijo d’aquelles labios frescos e humidos de leite!

Era feio, era rachitico, era estupido e desastrado.

Todos o conheciam, todos o repetiam em alto e bom som para que elle o não ignorasse, mas ella amava-o; ella não o dizia, não o pensava, não o tinha notado sequer!

Para ella era forte, e grande, e poderoso!

A elle é que Margarida confiára sempre os seus desejos, os seus sonhos, os seus affectos de creança mimosa.

Ralhava-lhe ás vezes, batia-lhe, quando aspirava ao impossivel que Thadeu lhe não podia dar, mas as creanças ricas têm horas de tedio só comparaveis ás horas sinistras de um imperador romano, e Thadeu comprehendia isso tanto, que antes queria as coleras, do que os desalentos rapidos e violentissimos da sua perola.

Tudo que houvera bom na sua vida lhe tinha vindo d’ella.

Dos outros—nada!

E elle odiava todos os outros, só para poder adoral-a com um culto exclusivo de negro pelo seu fetiche.

[26]

Não perguntava noticias; para que?

Tinha a certeza intima de que lh’as não dariam completas nem verdadeiras.

Antes não queria saber nada, do que banalisar a sua idolatria, revelando-a a seus inimigos.

Ella tambem lhe não escrevêra, o que o não surprehendera nada.

Estava tão costumado a ser uma cousa inutil e desprezada, que nunca lhe viera á idéa a possibilidade sequer de possuir uma carta d’ella.

No entanto ia adoecendo, definhando, parecia uma sombra.

Um medico que o viu torceu o nariz, e deu claramente a entender que aquillo nunca chegaria a ser um homem.

Foi então que se lembraram de o mandar para um collegio, em primeiro lugar para não terem o desgosto de o vêr a cada passo, em segundo lugar para o distrahirem da idéa fixa que o estava consumindo.

No primeiro dia em que Thadeu fez a sua entrada no collegio houve uma tal galhofa, um gaudio tão extraordinario entre a rapaziada, que os professores para manterem a ordem tiveram de empregar severos castigos.

Não havia meio de o vêr sem rir.

Tinha um tic nervoso a um canto da bocca, tinha[27] os olhos de vidro embaciado, tinha as pernas muito magras e muito cambadas, e um modo de fallar timido, acanhado, medroso que era de fazer morrer de riso os rapazes.

Os proprios mestres tinham de fazer esforço para se não rirem quando o viam.

Na hora de recreio tornou-se a victima, o bode expiatorio do collegio.

Um dia, porém, a brincadeira attingiu taes proporções que degenerou em perversa brutalidade.

Thadeu cahiu no chão extenuado a lançar jorros de sangue pelo nariz.

Do grupo estupefacto e arrependido dos collegiaes destacou-se então um, o mais velho, o mais valente o que nunca entrava n’aquellas farçadas brutaes, e disse com voz decidida:

—Tomo esse pobre diabo debaixo da minha protecção. O primeiro que lhe tocar tem os ossos n’um feixe.

Ninguem se atreveu a responder uma palavra.

Henrique de Souza era temido e respeitado.

Nas aulas era o primeiro; nas brincadeiras era o mais forte; na lucta era o mais destemido.

Orphão de pae, era sustentado no collegio pelo trabalho insano da mãe e da irmã mais velha que se haviam feito costureiras para o poderem educar.

[28]

Henrique fizera-se homem antes de tempo.

O seu pensamento fixo era poder pagar a divida sagrada que contrahira com as duas heroicas e dedicadas mulheres.

Quando Thadeu despertou do desmaio em que a fraqueza o mergulhára, fixou os seus tristes olhos esgazeados e humildes na physionomia meiga e viril de Henrique.

Comprehendeu que tinha achado um amigo e cahiu-lhe nos braços a soluçar.

V

Thadeu conservára-se cinco annos no collegio, e sahira de lá um pouco mais forte e um pouco menos desgraçado.

Henrique, que havia tres annos tinha completado a sua educação, e que agora cursava a escola de medicina, nunca deixára de o ir visitar de tempos a tempos, levando-o muitas vezes por occasião das férias a passar o dia em casa de sua mãe.

O moço estudante de medicina dava lições de francez e inglez nas horas vagas, para augmentar os minguados recursos da familia, e como um tio que morrera lhe tivesse deixado uma pequena pensão,[29] viviam agora todos tres mais desaffogadamente.

Occupavam uma casa pequenina mas muito aceiada e quasi nova; tinham um quintal com tres gallinhas, um casal de pombos e um canteirinho semeado de flôres.

O trabalho da casa era a mãe de Henrique quem o fazia; a irmã costurava e bordava para fóra, o irmão vivia de estudar e de esperar.

Muito unidos, muito resignados; em certos momentos mesmo, muito alegres, d’uma alegria serena e doce, a alegria dos corações honrados que confiam na providencia de Deus!

Henrique era formoso sem dar por isso. O unico modo possivel de um homem ser formoso.

Joanninha, a irmã, que já fizera vinte e sete annos, era uma doce e casta physionomia de virgem que tem padecido muito.

Nos seus grandes olhos melancolicos havia a tranquilla doçura dos que repouzam depois de uma lucta esmagadora.

Tinha a certeza de que havia na terra alegrias que nunca seriam d’ella, e no entretanto não se revoltára; puzera n’outro ponto mais alto a sua mira.

Desdobrára a sua individualidade, vivia da vida e das esperanças de seu irmão.

[30]

N’este interior recolhido e casto, Thadeu sentiu pela primeira vez acordar a consciencia.

Soffria muito ali pelas comparações dolorosas que fazia, mas comprehendeu que n’esse mesmo soffrimento havia um progresso do seu espirito e affeiçoou-se ás torturas que elle lhe dava.

O trabalho era a lei d’aquella casa, e Thadeu não sabia trabalhar.

Ali concebia-se a vida de um modo elevado e justo, a dignidade do homem estava identificada com a sua independencia, e Thadeu não passava de um parasita.

Aprendeu na convivencia de Henrique e de sua mãe e irmã muito mais do que aprendêra em todos os 18 annos de sua desconsolada existencia.

Determinou ter uma occupação, um officio, exercer um trabalho qualquer, mas bem depressa adquirio a desoladora certeza de que a sua fraqueza physica o tornava incapaz de qualquer esforço aturado e violento.

Com vinte e tres annos conseguira tão sómente, por fim de porfiada lucta, ser uma especie de caixeiro de guarda-livros de seu tio.

Aprendeu a fazer bem contas, e tornou-se util n’aquella desordenada administração de uma casa collossal.

Isto não era de certo cousa que satisfizesse as[31] ambições de outro qualquer, mas para elle isto já era uma grande, uma sublime conquista.

Ganhava o pão que comia.

Era um escripturario humilde, mas tinha direito a dizer que não dependia de ninguem.

VI

No dia em que Thadeu soube que Margarida ia chegar, a sensação que fez vibrar todo o seu sêr, foi violenta de mais para que possa ser descripta.

Acudiram-lhe em tropel, desordenadamente, n’uma confusão louca, todas as lembranças do passado, todas as queridas visões d’aquelles nove annos de extase que elle vivêra.

Estava tudo intacto n’um cantinho luminoso da sua alma, onde elle não entrava com medo de fazer fugir as avesinhas azues que eram as suas saudades.

Margarida! Bebé! A sua alegria! A loura cabecinha encaracollada, os olhos côr de azul, limpidos, transparentes, crystallinos, como um céo de primavera! os pequeninos braços gordos e nedios! a boquinha risonha! a voz musical, uma voz de cotovia acordando os écos da alvorada!

[32]

Todo aquelle conjuncto de graças ia ser d’elle outra vez.

Com que delicia soffrega elle não beijaria os pézinhos da sua fada pequenina e loura!

Como lhe contaria tudo que tinha passado longe d’ella!

As saudades sem consolo, as lagrimas que chorára, as humilhações que soffrêra no meio d’aquelles perversos de faces rosadas e imberbes, que se tinham constituido em algozes da sua fraqueza e do seu desamparo!

Oh! amal-a-hia tanto e tanto, que ella havia de dar-lhe por força um bocadinho de affecto, e esse bocadinho só bastaria a torna-lo mais feliz do que um rei.

Margarida!

E ao repetir baixinho com um calafrio de prazer este nome querido, via saltar n’um raio de sol uma figurinha esbelta, graciosa, de fato muito curto e muito simples, um vestido branco, um cinto azul, um bibe de cercadura bordada, onde as amoras colhidas por elle tinham posto uma mancha vermelha, com os espessos cabellos louros em anneis soltos, e uma risada a vibrar ainda em torno d’ella como um rosario de perolas que se desfiasse dentro de um cofre de crystal.

Henrique julgou que elle endoudecia, e Joanninha[33] com a sua voz velada, onde havia uns toques de doçura maternal, dizia-lhe:

—Mas olhe que ella é uma senhora! Já não póde ser a mesma. Não tenha uma esperança que vai converter-se-lhe em martyrio!

—A minha Margarida, repetia elle alheiado, meio louco! A minha filhinha adorada! Nunca tive uma alegria que d’ella me não viesse! Todos me tratavam mal, só ella gostava de mim e me queria sempre ao seu lado. Has de vêl-a, meu Henrique, verás se ha no mundo uma creança mais linda, mais mimosa, é uma fada, é uma perola, é a minha unica amiga n’este mundo!

VII

No dia seguinte á hora em que uma brilhante festa de familia, uma especie de baile muito intimo, reunia nas salas do marquez todos os parentes, alliados e amigos que vinham solemnisar a chegada da sua filha e herdeira, Thadeu na pequenina sala de jantar de Henrique, dobrado sobre o peitoril da janella n’uma postura de desolação e de abandono, soluçava baixinho, ao pé de Joanninha, que tentava em vão consolal-o.

Estava de casaca, coitadinho; Joanna não seria[34] capaz de rir do desgraçado, mas como a casaca lhe ficava mal!

Tinha-se vestido para assistir ao jantar.

Antes do jantar não conseguira vêr Margarida.

—A sr.a D. Margarida vinha muito cançada, estava no seu quarto. Dormia. Não havia ordem de a acordar.

Eis as seccas respostas que as criadas,—aquellas perversas—tinham dado ás supplicas phreneticas do pobre Thadeu.

Emquanto a ir ao encontro d’ella como tanto sonhára, não tinha podido.

Seu tio, agora que lhe descobrira algum prestimo—muito secundario, é verdade, mas um prestimo em todo o caso—abusava d’elle horrorosamente.

Tinha-o tornado uma machina de fazer contas, contas de sommar, de repartir, de multiplicar, o inferno!

Não pudera ir, mas esperava vê-la logo que ella chegasse, vê-la só, poder beijar-lhe as mãos, a testa, os cabellos, os pés! Vesti-la toda de beijos como d’antes!

E depois sabia que tambem ella havia de ter saudades! Que tambem se havia de lembrar muito do seu amigo, do seu Thadeu, do seu cão fiel!

Estava impaciente, estava no ar. Mas quando[35] teve a certeza de que só a veria na sala, foi vestir-se logo, envergou uma casaca de seu pae que este mandára arranjar para elle, uma casaca muito larga, já fóra da moda, de panno azulado.

Que lhe importava! Ia vê-la!

Vê-la era o céo.

Vinha-lhe á lembrança aquelle ninho de melros que apanhára um dia—sabe Deus com que trabalho—para lhe dar, e o dia em que ella lhe pedira a lua com uma gravidade tão comica, apontando para o tanque, e o balouço que ambos tinham projectado fazer, e as historias que elle lhe contava debaixo do castanheiro á tarde, emquanto que a musica do piano suspirava ao longe, e havia no ar uns rumores indefinidos de que ella lhe perguntava a explicação.

—São os passarinhos que andam a arranjar-se para se deitarem a dormir dentro dos seus ninhos—costumava dizer Thadeu.

E ella ria-se virando a cabeça muito esperta para a cupula do castanheiro, a ver se descobria como se faz a toilette nocturna dos passarinhos.

Entrára emfim na sala.

Havia grupos aqui e ali. Graves politicos que discutiam, financeiros de abdomen volumoso, matronas severas, moços elegantes, e no meio de tudo um bando de raparigas alegres, garridas, a chilrearem,[36] a rirem e a cochicharem entre si, contentes da nova companheira que lhes chegava de longe, mas muito mais contentes ainda d’aquella atmosphera festiva e perfumada que as envolvia.

No meio d’esse grupo encantador é que ella estava de pé.

Um corpo deliciosamente modelado, de uma graça franzina e toda moderna.

Tinha um vestido de foulard muito justo, muito elegante, e no meio dos rôlos do seu crespo cabello louro aninhava-se uma rosa vermelha, uma rosa côr de sangue.

Os olhos azues, altivos e desdenhosamente fixos lembravam… os olhos metallicos de sua mãe.

Pois era aquella a sua Margarida?!

Era.

Não lhe restava a menor duvida. Apesar de todas as differenças tinha-a conhecido logo.

A sua limpida testa de creança um pouco curta, indicio de obstinação e de capricho; a sua bocca pequenina, até alguma cousa dos seus gestos antigos, tudo trouxe ao coração de Thadeu uma lufada de saudades irresistivel.

Correu para ella como doudo, atravessou pelo meio de toda aquella gente, sem a menor timidez, sem o menor receio, sem notar sequer o espanto que a sua comica apparição tinha excitado.

[37]

As raparigas que faziam um circulo em torno de Margarida separaram-se n’uma subita explosão de risadinhas, e ella, olhando muito fixa para Thadeu, exclamou rindo, rindo sem poder mais:

—Ih! credo, primo Thadeu, que casaca!… que figura!… Pelo amor de Deus vá já tirar essa casaca e venha depois!

E ria, ria sem disfarce, emquanto elle com os braços quebrados, o rosto estupido, a physionomia espavorida, sentia dentro de sua pobre alma sem consolo esphacelar-se, desfazer-se, diluir-se em lagrimas de fel a ultima esperança da sua vida!

VIII

Tres dias depois, Margarida, que se esquecêra completamente d’aquelle insignificante episodio em que Thadeu figurára, encontrou-o por acaso na Baixa, onde andava fazendo compras com sua mãe, ao lado de Henrique, que para o distrahir tinha ultimamente fingido precisar absolutamente da sua companhia.

Margarida sahia de uma loja e ia a saltar ligeira, elegante com a sua graça parisiense para dentro do coupé delicioso que, de proposito para a filha, o marquez havia encommendado mezes antes á[38] casa Binder, e que dous finos cavallos inglezes esplendidamente ajaezados faziam voar pelas ruas da nossa pacata Lisboa.

A vista de Thadeu despertou-lhe umas poucas de idéas que ainda não lhe tinham occorrido.

Lembrou-se, por exemplo, de que não o vira mais, desde o instante em que elle se apresentára diante d’ella com uns transportes ridiculos e uma toilette horrorosa, na sala povoada pelas suas novas amigas, tão ironicas, tão cruelmente maliciosas…

Por que não tornára ella a vê-lo? Tinha-lhe esquecido perguntar por elle, fôra muito ingrata…

E sem raciocinar aquelle impulso estranho, parou, esperou em uma attitude de coquetterie irresistivel que os dous amigos se approximassem, visto que ambos caminhavam na direcção em que ella estava, e estendendo a Thadeu a sua mão esguia e fina, a sua mão de loura, enluvada de pellica côr de bronze, disse com uma expressão de finura e malicia intraduzivel:

—Então seu ingrato! Não me tem querido apparecer! Por onde tem andado?

E ficou a olhar para elle, como quem espera alguma cousa, interrogadora, fascinante, sempre aristocratica.

[39]

A marqueza, que já estava dentro do trem, murmurou levemente enfastiada:

—Então, Margarida, ficamos aqui?…

E Thadeu córando, balbuciando, resmoneava confusamente uma banal desculpa.


Margarida saltou emfim o estribo que o criado conservava desdobrado, envolvendo n’um olhar magnetico dos seus scintillantes olhos azues, a bella e viril figura de Henrique de Sousa, que presenciára mudo aquella scena inexplicavel.


IX

Uma noite em S. Carlos estreiava-se uma celebridade lyrica na Norma, que então estava muito na voga.

Henrique vivamente instado pela mãe e pela irmã e tambem um pouco pelo seu proprio desejo, determinou ir ouvir a opera adoravel, que é uma verdadeira perola musical.

Havia tempos que elle andava nervoso e inquieto.

Não sabia bem o que tinha mas sentia-se mal.

Tinha impaciencias nervosas que nunca havia[40] conhecido no seu organismo equilibrado e harmonico.

Surprehendia-se ás vezes doentiamente, a fazer planos impossiveis antes de adormecer; a imaginar quanto seria bom ser muito rico, viver na alta roda, n’aquella esphera aristocratica e distincta em que se não trabalha, em que se falla de um modo especial e caracteristico, com termos escolhidos, com inflexões muito mais suaves, com uns certos desdens que d’antes lhe pareciam ridiculos e que lhe estavam agora parecendo superiormente requintados. Ter um palacete com alguns salões apainelados em cuja escadaria de marmore povoada de estatuas e de plantas raras, se aprumassem espadanados lacaios de farda; ter equipagens luxuosas, ter uma mulher loura, franzina, de testa curta, de olhos piscos, com um sorriso felino, quasi cruel nos labios vermelhos, e um corpo flexivel, delicado, mignon de estatueta de biscuit… Uma mulher que se chamasse Margarida.»

N’este ponto da sua scisma Henrique suspendia-se como que sentindo a estranha impressão de quem vae caminhando por uma estrada lisa e de apparencias tranquilisadoras, e encontra de repente, debaixo dos pés, quando menos o espera um reptil desconhecido.

Margarida! que tinha elle com Margarida?!

[41]

Lembrava-se que a desprezára e amaldiçoára no dia em que vira chegar a sua casa, pallido, desfeito, com uma casaca grotesca e uns olhos inchados e vermelhos de chorar, o seu pobre amigo Thadeu, que na vespera o tinha deixado tão louco de alegria e tão triumphante de felicidade!

Margarida!

Vira-a depois loura, elegante, com o seu desdenhoso olhar de myope, subir com ligeiresa fidalga o estribo de uma carruagem, descobrindo os finos bordados das suas saias, o pequeno pé primorosamente calçado, todo um poema de mysteriosas elegancias.

Nunca mais a vira, nunca mais desejára vêl-a!

Para que?

Ella lá tão em cima, elle cá em baixo lidando, tressuando, luctando para alcançar… o que talvez não tivesse nunca!

Um nome, uma posição, o pão de sua mãe e de sua irmã, sem amarguras e sem pequenas privações humilhantes!


N’aquella noite em S. Carlos a musica sentimental e enervante de Bellini, o contacto de todo aquelle mundo ocioso e rico ainda o tornava mais nervoso e excitado. Estava quasi arrependido de ter vindo.

[42]

N’isto sentiu que lhe batiam no hombro e uma voz aflautada, uma voz tremelicante, com inflexões muito alegres, disse-lhe ao ouvido:

—Anda cá acima, pediram-me para te vir buscar, para te apresentar; gostam muito de ti! Não imaginas como és estimado pela minha querida Margarida, desde que soube que tens sido o meu unico amigo, o meu auxilio na vida, aquelle a quem mais devo depois d’ella.

E Thadeu, porque era elle, arrastava pelos corredores das frisas Henrique surprehendido, contrariado, com uma estranha sensação de desconforto a comprimir-lhe fortemente o peito.

X

Na frisa, radiante de mocidade, de fina distincção, com todos os requintes da moda a fazer realçar a sua belleza moderna, fragil, quebradiça, alguma cousa amaneirada estava Margarida.

A marqueza ao lado d’ella conversava com um velho diplomata.

Á entrada dos dous a mãe teve um comprimento um pouco secco, a filha um sorriso de graça adoravel, de garridice innata mas irresistivel.

—Quiz vêl-o porque soube que tem sido muito[43] bom para Thadeu, excellente mesmo. Elle contou-me tudo.

Pobre rapaz! poor dear boy! e sorriu-se outra vez com um aspecto bondoso e protector que a transfigurou por instantes.

—Eu tinha-me esquecido, o Thadeu é que se lembrava de tudo. Fez-me reviver a minha infancia. Sempre é bom. Agora já estou tão velha que acho immensa graça a estas recordações do passado.

E graciosa, maternal, afastando toda e qualquer idéa que não traduzisse uma solicitude encantadora para o seu companheiro da infancia, Margarida foi o que seria a noiva idealisada pelo austero coração de Henrique.

E d’ali em diante o amigo de Thadeu deixava-se arrastar de oito em oito dias até o palacete dos marquezes.

Era ali optimamente recebido.

Margarida, adorada pelos paes, dava a lei em casa. Sabiam-n’a voluntariosa, cheia de caprichos e de phantasias, tinham medo de irrital-a resistindo-lhe.

Depois, Henrique com as suas maneiras de gentleman, com a gravidade desaffectada do seu porte, com os generosos ardores da sua rica organisação, revelava-se o que era: um homem de futuro,[44] um homem que havia de ter nome mais tarde.

O marquez, cynico como a vida o tornára, era juiz excellente n’este assumpto.

Conhecia um homem depois de duas horas de conversação.

As proprias severidades do moço, amollecidas agora ao contacto da perturbadora formosura de Margarida, agradavam ao marquez como uma cousa nova, picante, inteiramente imprevista para elle.

Thadeu nadava em um jubilo celeste.

Era muito bem tratado; Margarida tinha com elle umas garridices angelicas que ás vezes o deixavam pallido e suffocado, encostado a uma arvore ou a um banco do jardim para não cahir no meio do chão desfeito em lagrimas.

Thadeu tinha agora de vez em quando um odio selvagem á sua mesquinha e enfezada personalidade.

Se elle não fosse como era… se fosse alto, esbelto, forte… póde ser… tem-se visto tanta cousa…

E tambem ficava absorto, idiota, seguindo com um olhar esgazeado umas visões que o iam enlouquecendo.

Ella no emtanto vinha alegre, radiosa, cheia de vida, com o seu vestido de foulard côr de carne a desenhar-lhe as fórmas flexiveis, com uma rosa[45] nos seus cabellos louros, dava-lhe o braço, e arrastava-o enlevado e estupido pelas alamedas do jardim.

—Conta-me lá o que tu fazias quando eu cá não estava! conta-me em que pensavas. Estavas muito triste? Quando é que viste pela primeira vez o teu amigo Henrique? Que lhe dizias tu de mim? E elle?… elle que idéa fazia d’esta endiabrada pessoa que tu lhe descreveste tanta vez com a tua phantasia de poeta—porque tu quando se trata de mim és poeta, meu pobre Thadeu!—Anda, falla, conta-me o que vocês faziam, gosto tanto de te ouvir!

E toda dobrada sobre o hombro d’elle, meiga, electrica, fascinadora, com meneios de serpente, levava horas passeando pelo braço de Thadeu.


Um anno depois d’esta época, Margarida declarava terminantemente aos paes que voltava para França, que ia morrer freira no convento onde vivêra educanda, se elles a não casassem com Henrique.

E dizia-lhes estas palavras n’uma tal violencia de gritos e de soluços, tão magra, tão empallidecida n’aquella lucta intima de doze longos mezes, que o marquez encolheu os hombros com a suprema indifferença que fazia d’elle um viveur, e que[46] a marqueza animada pela placidez do marido ao encarar esta questão magna, declarou á filha, hoje seus unicos amores, que ia fazer tudo para lhe dar o noivo da sua alma, o escolhido pela sua ardente paixão juvenil.

Teve medo de ver a filha definhar-lhe e morrer-lhe nos braços. Via-a tão abatida, tão triste, tão enfastiada da vida, que a idéa de perdêl-a sobrelevou a todos os seus escrupulos de rica e de fidalga.

Margarida auctorisada pelos paes pôde dizer a Henrique, que o amava!

Quanto amor! que enthusiasmo febril n’este sublime impudor da creança opulenta, formosa, aristocratica, disputada por dezenas de noivos tão ricos e tão nobres como ella, que vem espontaneamente offerecer a sua mão e a sua vida inteira ao obscuro plebeu que passa confundido no meio das multidões desconhecidas!

E esse impudor ninguem mais fidalga e altivamente do que Margarida o soube ter.

Sabia-se adorada, estremecida, sabia que um riso d’ella bastaria para as alegrias e para as torturas de uma semana passada por Henrique na labutação da sua mesquinha existencia; mas sabia tambem que elle era tão grande, tão forte, tão orgulhoso e digno que podia morrer, mas que morreria[47] calado, sem que uma palavra revelasse o seu martyrio!

—Thadeu, meu querido Thadeu, meu amiguinho, tenho sido muito má, não tenho querido contar-te nada com medo de que lhe dissesses a elle alguma cousa. Eu queria ser a primeira a dizer-lh’o, queria gozar do seu sorriso, do seu olhar de anjo, de martyr beatificado, do seu olhar que me enlouqueceu para sempre… Agora digo-te, já não tenho motivo nenhum para t’o esconder.

Vou casar-me, vou ser d’elle, só d’elle… levar-te-hei comnosco… Olha que foi elle que m’o pediu… Vê como elle é bom. Eu a fallar a verdade estava tão douda que nem me lembrei de similhante cousa; mas elle fallou logo em ti, foi a sua primeira vontade! Adoro-te visto que elle é teu amigo. Has de aborrecer-me ás vezes, meu pobre Thadeu, porque nunca entendes a tempo quando deves ir-te embora, mas eu hei de educar-te. Verás! Viveremos todos tres. Nunca mais te hei de tratar mal! nunca mais me hei de rir da tua casaca. E, a proposito, tu ainda a tens, aquella malfadada casaca? Não me faças rir no dia do meu casamento, pelo amor de Deus manda fazer uma nova para esse dia. Não tenhas medo de gastar. Eu tenho muito. Sou rica, muito rica, somos todos tres muito ricos.

[48]

E douda, anhelante, no delirio da creança que venceu a sua primeira teima, na dilatação ampla de uma alma que conquistou o seu desejo supremo, Margarida expandia n’estas palavras diffusas, incoherentes, sem nexo, toda a felicidade que era hoje d’ella e que julgava eterna.

Thadeu escutava com o olhar morto e vidrado de um somnambulo.

Depois emmudecido por uma dôr aguda que lhe rasgava as carnes de todo o seu corpo como um punhal de muitas laminas, sahiu do quarto cambaleando como um ebrio.


No dia do casamento de Henrique houve dous entes que na humilde tristeza de uma pobre casa, choravam unidos todas as lagrimas da sua alma.

A um d’esses entes pungia-o uma angustia dilacerante demais para que a palavra humana a pudesse traduzir.

A outro sobresaltava-o um presentimento horrivel, como que um dobrar de finados que lhe écoava lá dentro, e ao qual não podia fechar os ouvidos.

Esses dous entes esquecidos, voluntariamente afastados das pompas principescas d’aquelle dia, das festas d’aquella solemnidade esplendida eram Thadeu e a irmã de Henrique.


[49]

XI

De feito havia já cinco annos que viviam juntos em uma casa espaçosa e lindissima de Buenos-Ayres.

Henrique pedira com tão meigas e sentidas palavras a Thadeu para que elle os não deixasse, que depois da viagem de rigor feita pelos noivos á Suissa e á Italia o bom cão fiel foi viver junto d’elles.

As investigações da sciencia, o estudo paciente dos homens e das cousas, altas aspirações inspiradas pelo marquez a uma gloriosa carreira politica, absorviam Henrique, emquanto que Thadeu mais amadurecido agora pela experiencia da vida, administrava a casa, tomava contas aos feitores e criados, punha em ordem os róes, recebia os rendimentos, pagava aos fornecedores, era por assim dizer o mordomo mór da opulenta fortuna da sua companheira de infancia.

Margarida continuava a ser o enlevo e o mimo de quantos viviam junto d’ella.

De uma organisação delicada, nervosa e vibratil, com um aspecto infantil, que infundia uma vaga e doce idéa de protecção; boa, d’esta bondade superficial e egoista, que consiste em não gostar de ver ninguem triste ao pé de si, todos os seus caprichos[50] se convertiam n’outras tantas graças, todas as suas exigencias se impunham com a tyrannia adoravel de uma supplica!

O marido tinha por Margarida aquella paixão deleteria e quasi covarde, que ella lhe inspirára logo no primeiro dia.

Não sabia resistir senão a muito custo, a um olhar d’aquelles olhos humidos e radiantes, a um sorriso d’aquelles labios vermelhos, a um gesto d’aquellas mãos finas, esguias, pallidas, da suave pallidez dos lyrios.

Não era bem amor, era uma fascinação, uma embriaguez, uma d’estas doenças que exercem no cerebro a sua acção paralysadora.

Margarida que nenhuma força superior tentava dominar, déra expansão completa a todos os caprichos da sua colorida e quente phantasia.

Adorava o luxo, as cousas d’arte, a musica, as flores raras, frequentava muito o alto mundo onde era requestadissima, vivia na perpetua idolatria de si propria, que a pouco e pouco a inutilisava para os graves deveres da vida.

Thadeu no meio da sua céga e embrutecedora adoração obedecia-lhe como um escravo. Só elle sabia as despezas collossaes, as extravagancias principescas d’aquella pequenina pessoa, activa, graciosa, phantasista como um poeta oriental.

[51]

Mas economisava ridiculamente em todas as verbas, para que ella, a rainha, a perola, a Margarita dos seus sonhos d’outro tempo não franzisse um minuto a sua testa curta, a sua testa de teimosa, na contrariedade de um desejo insaciado.

E ella estava tão habituada á submissão e á humildade d’aquelle pária, que o tratava como um traste, um objecto seu, com o qual não tinha de mostrar o minimo constrangimento, a minima attenção affectuosa.

—Thadeu, quero isto! Thadeu, quero aquillo! Thadeu, vi hoje na loja de F. um adereço de um conto de réis. Se o não mandar buscar até ámanhã vendem-n’o. Eu quero-o. Não me deixes ficar sem elle. Fazias-me chorar!

Não lhe pedia a lua como em outro tempo, mas quantas vezes lhe pedia cousas quasi tão inacessiveis como a lua!

Margarida tinha dous filhos. Um menino e uma menina. Dous cherubins.

Mais meigos do que a mãe nunca fôra, mais doceis, mais tranquillos, tendo no olhar a serenidade melancolica do olhar de seu pae!

Thadeu envelhecido, de uma velhice precoce que assombrava os que o haviam conhecido na infancia, tinha por essas duas creanças um louco amor de avô.

[52]

Aquelles quatro seres eram a sua vida.

Fundia-os a todos na mesma adoração apaixonada e timida.

Vivia d’elles e para elles.

Henrique era o seu respeito. Margarida o idolo do seu passado, os dous cherubins louros, a unica esperança suave do seu futuro.

Sacrificar-se, esquecer-se, abnegar de si, eis o modo obscuro e sublime pelo qual elle sabia querer!

Mas os dous pequeninos que não eram turbulentos nem crueis, tinham nas suas caricias inconscientes o balsamo poderoso, o balsamo divino para as chagas occultas d’aquelle coração que a vida ulcerára tanto e tanto.

XII

Desde algum tempo que Thadeu andava inquieto.

Com o seu faro finissimo de rafeiro fiel presentia no ar um perigo desconhecido, alguma cousa de mysterioso e de sinistro, que ouvia rugir ao longe como no fundo de uma voragem.

Na apparencia todos viviam tranquillos:

Henrique sempre bom, sério, pensativo, de uma indulgencia de forte, de uma doçura de heroe.

Margarida sempre buliçosa, inquieta, cheia de[53] desejos infantis, de caprichos, de alegrias ruidosas ou de melancolias subitas que ás vezes no silencio da sala fôfa e discreta pareciam a Thadeu um grito de alarme na monotonia do deserto.

As criancinhas… sempre os seus mais dôces amores, aquelles de que jámais lhe proviera uma amargura.

Quando Thadeu pensava que podia uma fatalidade qualquer separal-o dos seus dous anjos, desatava a chorar como um perdido na solidão do seu quarto.

XIII

Elle estava sentado ao pé da mesa. Primeiro estivera fazendo contas, róes de casa, agora pendia-lhe a cabeça embevecido n’uma vaga scisma.

Sem saber explicar por que, n’aquelle dia lembravam-lhe tantas cousas do seu passado!…

Sentia dentro de si uns vagos assomos de revolta, lembrando-se das humilhações que padecêra, dos tratos com que lhe haviam enfraquecido o corpo e atrophiado a intelligencia. Depois… na sua vida, até ali obscura e dolorosa, surgia de repente envolta nas rendas brancas do seu berço uma visão deliciosa, uma pequena fada, a sua amiguinha, a sua Margarida!…

[54]

Como fôra feliz com ella e por amor d’ella…

Comtudo… pensando bem… para essa felicidade chymerica fôra elle quem fornecêra todos os elementos. Ella nunca vira no pobre Thadeu senão um instrumento dos seus caprichos, um escravo das suas vontades…

Em todas as delicias com que dourara a sua vida não havia uma só que fosse nascida da vontade de ser-lhe boa, util, consoladora!…

—É verdade, murmurava o pobre doudo, é verdade! Ella nunca teve coração!

E suspendeu-se como que aterrado d’aquella blasphemia.

N’este momento Margarida entrava pelo quarto de Thadeu, pallida como um cadaver, com os grandes olhos dilatados n’uma expressão de indescriptivel pavor.

Agarrou-se-lhe ao braço e disse lhe baixo, n’uma voz estrangulada e rouca:

—Henrique chegou da quinta. Eu não o esperava. Contava que elle viesse ámanhã. No meu gabinete ha uma pessoa que deve sahir sem que meu marido a veja. Ouves? Estou perdida… Estava perdida mas lembrei-me de ti… Salva-me…

Não me digas nem uma palavra, proseguio vendo que elle ia fallar. Uma demora de segundos perde-me sem remissão.

[55]

E sahiu com o seu passo miudinho, o seu passo chic, aprendido de passagem nos boulevards de Pariz.

Thadeu sahiu do quarto, e quando tornou a entrar ali, acompanhava-o um moço muito pallido, de bigode louro, cabello cuidadosamente frisado e toilette irreprehensivel.

Não trocaram uma palavra. Thadeu apontou-lhe para uma cadeira, fechou a porta do quarto á chave e sentou-se junto da janella, que dava sobre o jardim.

Era em plena primavera. Pela janella aberta entrava um perfume vago e subtil, um perfume de rosas, de madresilva e de baunilha em flôr.

Ouvia-se o rir e o chilrear das duas creanças, e entre as ramarias entrelaçadas dos grandes arbustos exoticos, Thadeu viu passar com os seus meneios serpentinos, o seu vestido branco, a sua cabelladura d’ouro, a figura esbelta de Margarida pendida ao braço do esposo com quem fallava baixinho.

Foi a ultima visão que teve d’ella.

Uma visão de perfidia felina e de felina formosura.


[56]

XIV

—Deixe-se estar quieto. Não vê que não póde sahir d’este quarto senão á noite? pronunciou a voz enrouquecida de Thadeu.

E sem dar mais attenção ao seu odioso hospede, poz-se a arranjar papeis, uma trouxa de roupa, algumas velhas reliquias, os retratos dos seus dous pequeninos, dos seus netos como elle lhes chamava.

Depois despregou da parede as duas photographias de Henrique e de Margarida. A d’elle beijou-a, e guardou-a com as dos pequeninos. A d’ella… approximou-a d’uma vela que acendêra e deixou-a arder até que ficaram só cinzas. Estava medonhamente livido.


Era noite: sentiu o rumor conhecido da hora de jantar, esperou que o criado viesse chamal-o e respondeu-lhe:

—Diga aos senhores que jantem. Eu hoje estou convidado fóra, não os posso acompanhar.

Olhou para o homem que alli estava na mudez estupida dos malvados, que são ridiculos, e disse-lhe:

—Venha d’ahi.

Sahiram juntos.

Thadeu nunca mais voltou; não pôde.

[57]

Pediu a esmola de um agasalho á irmã de Henrique, e achou meio de fazer n’um escriptorio cópias que lhe rendem tres tostões diarios!

D’isso come e d’isso se veste.

Fingiu-se offendido com Henrique por uma duvida mesquinha de contas, que este nunca chegou a perceber.

Aceitou o papel degradante do ingrato que morde a mão que o soccorreu.

Ninguem pôde nunca arrancar-lhe nem uma palavra do seu segredo.

Tem 35 annos e dão-lhe setenta.

As poucas pessoas que o vêem ou o desprezam por absolutamente insignificante ou têm por elle a commiseração que inspira um idiota.


O TIO SEBASTIÃO

I

Não havia cousa que mais alegrasse o tio Sebastião, um velhito que conheci em uma aldeia perto de Braga, do que fallarem-lhe no filho que estudava em Coimbra.

Sorriam-se-lhe os olhos, e um contentamento intraduzivel espelhava-se-lhe no rosto.

Quando lhe elogiavam o caracter, o talento, a bondade e a applicação do rapaz, elle fingia que não acreditava, dizia que não era tanto assim… e repetia:

—Favores, meu amigo, favores…

Mas lá no intimo agradecia aquillo tudo, e tinha vontade de apertar nos braços a pessoa que[60] fallava com tamanho louvor do filho estremecido.

Quando elle descobria o seu fraco, era quando lhe elogiavam na presença outro rapaz, outro estudante.

—Sim, sim, mas como o meu! Não é porque o rapaz seja meu filho, mas disse-me o prior, e olhe que o prior não é tôlo nenhum, pois disse-me o prior que o meu pequeno era o melhor estudante que andava nas aulas de Braga, que lh’o tinham dito os proprios mestres. Aquillo tem uma memoria! E então lêr! Ás vezes estava horas e horas a ouvil-o, fazia gôsto. O talho da lettra já foi melhor, isso foi, mas o prior, a quem eu disse isto, consolou-me, dizendo-me que todos os doutores tinham má lettra. Assim será, mas as primeiras cartas que o pequeno me escreveu, quando foi para o estudo, podem mostrar-se… Quer você vêr uma d’essas cartas?…

Toda a gente da aldeia gostava do velho, e não havia uma só pessoa que para o lisongear, ao encontral-o, lhe não perguntasse pelo filho.

—Obrigado, vae bom! e com um sorriso doce, enternecido e caridoso envolvia o da pergunta.

O tempo das ferias, sobretudo as do Natal, que é quando se mata o porco, e se fazem filhós, e se conversa animadamente em volta da lareira, era anciosa e impacientemente esperado pelo velho;[61] todas as noutes ia ao reportorio, que tinha á cabeceira da cama, e pondo uma cruz no dia que findára, dizia jubiloso:

—É de menos um!

Na vespera da chegada do filho, era uma azafama, um revolver as velhas arcas de onde se exala um forte cheiro de maçãs camoezas, e um andar tudo n’uma poeira n’aquella casa.

—Esta cama não tem roupa bastante, Joanna, dizia para a creada; vá buscar mais um cobertor!

E alisava a colcha, endireitando a fronha da travesseirinha, e repetindo:

—O estudante é muito mimoso, e depois faz frio que não é brincadeira!

Ia á cosinha, era preciso comprar isto e mais aquillo. Examinava os armarios, passava revista aos frascos das compotas, e punha de banda as garrafas de vinho antigo.

—Não que elle gosta do que é bom!

Na rua não esperava que lhe perguntassem pelo filho:

—Chega ámanhã, chega ámanhã!

As ancias eram no dia da chegada. Vinha para a porta, esfregando as mãos, rutilante de prazer. Todo o pobre que passava tinha uma esmola, todo o transeunte um cumprimento benevolo e affavel.[62] Os visinhos exploravam aquelle grandissimo e sagrado affecto.

—Com que então é hoje, hein?

—É verdade, pelo menos assim o espero. Queira Deus que lhe não succeda alguma no caminho. Isto de rapazes…

—Ha rapazes e rapazes. O seu é uma joia…

—Sim, sim, mas ha más companhias…

—Qual! E então o juizo e o talento para que servem? Eu tenho ido com elle algumas vezes a Braga, e bem vejo as pessoas com quem o seu menino se dá. É tudo gente da melhor. E não lhe fazem favor. Todos me gabam a sabedoria do seu estudante, todos…

—E eu que o diga, affirmava outro.

—Então porque não entram? Vejam se apanham um catharral! Está muito frio. Ó Joanna, traze duas malgas d’aquelle vinho que sabes, e não te esqueças de trazer uma talhada de presunto. Vão beber pinga de substancia! Este é do tal que faz peito, hê, hê, hê!

—Com que então—diziam os biltres—á saude do sr. doutor!

—Que Deus fará! Tornava o bom do lavrador, com as lagrimas nos olhos. Mas eu não tenho malga, traze-me tambem uma, que quero beber á saude aqui dos amigos.

[63]

E bebia de um trago, valentemente, com alma.

O estudante ás vezes, na vinda de Coimbra, chegava a Braga, onde tinha amigos e condiscipulos antigos, e ficava mais um dia. De fórma que o velho esperava, e ia deitar-se cheio de cuidados; não pregava olho toda a noute.

A Joanna, que bebera o mesmo leite que Sebastião, ouvindo-o gemer e suspirar, erguia-se, e perguntava-lhe:

—Tem alguma cousa, sô Sebastião?

—Que é? O estudante chegou? Já me levanto, traze-me a candeia!

E era preciso que a velha lhe explicasse tudo, e que o emballasse carinhosamente com aquellas doces palavras com que as mães adormecem os filhos rabugentos.


O tio Sebastião, quando casou, tinha cincoenta annos, uns cincoenta annos limpos e rijos como não ha ahi muitos trinta.

Emquanto a mãe foi viva, não lhe quiz dar nóra.

—Nada! dizia ás pessoas que lhe aconselhavam o casamento, nada! Que lucro eu com isso? A velhinha podia não se dar com o genio da mulher que eu trouxesse para casa e isso era o inferno[64] para mim. Quem manda n’aquella casa é minha mãe, e ha-de mandar em quanto fôr viva. Ella ralha, ella grita, ella dá por paus e por pedras, por dá cá aquella palha. Deixal-a! Quando rabuja de mais, saio de casa, e a Joanna que a ature! São mulheres, e lá se entendem. Se eu me casasse, tinha de acudir por uma ou por outra… Nada! boi solto lambe-se todo…

E ainda solteiro fechou os olhos da mãe que lhe morreu nos braços.

Joanna ficou senhora de tudo. Era ella que olhava pela casa, que dava ordens, a verdadeira dona da casa emfim. Aquelle novo modo de vida, porém, começou a pesar-lhe, entrou a ter saudades do antigo jugo, queria receber ordens e não dal-as; a domesticidade era para ella um habito de que não havia desacostumal-a.

—Sabe o que mais, sô Sebastião? disse ella um dia ao patrão. O tempo das rapasiadas passou. Por que não toma estado? Moças é que não faltam. É verdade que o mundo vai perdido de todo, mas ainda ha raparigas perfeitas e tementes a Deus.

—Endoudeceste, Joanna! Eu caso me lá, n’esta edade! Só se fôr comtigo…

—Lá começa elle com as tolices do costume.

Agua molle em pedra dura…

O tio Sebastião entrou um dia em casa com noiva.[65] Era orphã de pae e mãe, era pobre, não tinha parentes a não ser um irmão que fôra para o Brazil, e de quem não havia noticias ha muito tempo; contava trinta e tantos annos, mas era madrugadôra como um gallo, direita como um vime, e valia por dous homens no amanho da vida.

Quando o tio Sebastião lhe fallou em casamento, ella fez-se vermelha como uma papoula, hesitou um momento, e atirando com a fouce com que andava a cegar fêno, lançou-se-lhe nos braços, e n’um amplexo formidavel de leôa, rompeu com isto:

—Esperava esta felicidade ha dez annos. Abrace-me, sô Sebastião, que se não fosse comsigo, não me casava senão com a cóva.

Vinha de longe o affecto d’esta mulher pelo bondoso homem.

O pae de Carlota cahiu entrevado; o tio Sebastião ao passar-lhe um dia á porta ouviu choros e lamentações; entrou e soube que havia alli necessidade e quasi fome; a filha unica do invalido, Carlota, tinha de ficar á cabeceira do catre; as ultimas economias haviam-se extinguido pouco a pouco.

O tio Sebastião soccorreu aquella gente, mandou chamar o medico a Villa Verde, pagou os remedios da botica e por fim o enterro do infeliz.

Entre as poucas pessoas que acompanharam á[66] egreja o modesto ataúde, ia o tio Sebastião curvado, melancolico, com o seu rosto barbeado, e cheio de bondade e lhaneza.

Carlota, que chorava a um canto do albergue, com as mãos atadas á cabeça despenteada, ao vêr entrar o bemfeitor, não lhe agradeceu as esmolas com palavras ociosas—arrastou-se para elle de joelhos, e agarrando-lhe nas mãos beijou-as com devota soffreguidão.

Passados tempos o tio Sebastião esquecera-se d’aquelle episodio, e nem sequer reparou que a melhor cantadeira do logar, que inquestionavelmente era a Carlota, deixava de cantar todas as vezes que elle passava por uma certa azinhaga…

Se elle volvesse o rosto veria no meio das hervas altas e humidas, ou em cima dos castanheiros folhudos e entrelaçados de pampanos, um vulto de mulher voltado para elle, a devoral-o com a vista, a seguil-o, a banhal-o na luz cariciosa de um longo olhar enamorado.

Não deu por tal o tio Sebastião; Joanna, porém, que era amiga de Carlota, adivinhou o segredo, e o resultado sabe-o o leitor.

[67]


Tres annos depois do casamento o tio Sebastião enviuvára.

Ficou-lhe um filho, uma creancinha loura e adoravel, o vivo retrato da mãe.

O lavrador concentrava no pequeno todos os affectos, amava-o até á insania.

O rapaz cresceu rodeado de caricias, de mimos e de ternos cuidados.

Não havia vontade que se lhe não fizesse. Era um pequeno rei despotico a cuja voz o pae e a velha Joanna se curvavam com cega obediencia.

Ao completar seis annos, por conselho do prior, começou o pequeno a estudar as primeiras lettras com o professor régio da freguezia.

—Temos homem, dizia o prior ao velho; o rapaz vae bem, estuda e aprende com facilidade.

—Quando me lembro que posso morrer sem o ouvir cantar a missa nova, parece-me que estalo de pena.

—Ó senhor prior, o meu rapaz dava ou não dava um padre de mão cheia?

Era para padre que o velho destinava o filho, sonhava todas as noutes com a sua primeira missa,[68] via-o com as vestimentas engommadas e duras do sacerdocio, deante do altar da egreja da freguezia, no meio de nuvens de incenso, emquanto os padres cantarolavam ao som plangente e arrastado do orgão, e os sinos tangiam alegres repiques, e subiam ao ar as girandolas de foguetes impregnando de um espesso cheiro de polvora o adro enramilhetado de murtas…

Prompto nas primeiras lettras, foi o pequeno Sebastião para Braga onde se matriculou no lyceu.

N’este entrementes chegou do Brazil o irmão de Carlota. Foi á aldeia natal, procurou os parentes, e soube que todos tinham fallecido, restando-lhe tão sómente um sobrinho.

O brazileiro era solteiro, e doente; não vinha millionario, mas tinha mais do que o sufficiente para dar uma bonita carreira ao estudante.

—Olhe, mano, disse ao cunhado, deixe isso ao meu cuidado, eu me encarrego do menino. O bem que desejava fazer a meus paes, que infelizmente não encontrei, hei de revertel-o em favor de meu sobrinho.

Uma condicção exijo: não quero que o rapaz se ordene. Quero dizer, se isso fôr da sua vontade, d’elle, não me opponho, mas deixemos o tempo ao tempo. Cá a minha opinião é que elle deve estudar medicina. Os medicos ganham muito dinheiro[69] em toda a parte, e no Brazil sobretudo, onde o mais réles tem carruagem. Está por isto? O rapaz quando acabar os estudos em Braga vae para Coimbra?

O tio Sebastião custou a descer d’aquelle sonho em que andára tantos annos embevecido. Mas por fim cedeu.

O brazileiro demorou-se alguns annos ainda em Portugal. A quebra, porém, de uma casa importante do Rio chamou-o ao Brazil, para onde partiu deixando ao sobrinho, que até então se havia portado com singular e exemplarissimo discernimento, ordem franca para receber tudo que lhe fosse preciso n’uma das casas mais acreditadas do Porto.


Um dos estudantes que mais dinheiro gastava em Coimbra por aquelles tempos era Sebastião Alves, a quem a convivencia com os rapazes oriundos das mais nobres familias de Portugal empavonára e envaidecêra extremamente.

No seu quarto, que elle adornára com excessivo e inaudito luxo para um estudante, reuniam-se todos os que sobresahiam em Coimbra pela fidalguia, pela força, e pela estroinice.

[70]

Sebastião entrou a ser explorado; pediam-lhe dinheiro que nunca era restituido, vestiam-lhe o fato, calçavam-lhe as botas, e comiam-lhe ceias abundantes e regadas de vinhos caros.

Com aquella vida era incompativel o estudo e a reflexão. Deixou de ir ás aulas. Enganava o tio e o pae, enviando-lhes certidões falsas dos actos que nunca fizera.

Havia dous annos já que não ia á aldeia, cujo viver lhe aborrecia e se lhe figurava mesquinho e chato.

Quando os estudantes partiam para férias, contentes e alegres para os abraços da familia, Sebastião Alves deixava tambem Coimbra, percorria as praias, ia ao Porto, a Cintra, ao Bussaco.

Aquella vida inutil e varia era de quando em quando remordida pelo remorso, todas as vezes que o vadio recebia as cartas do pae, que, apesar de não terem ortographia, e de serem escriptas com uma lettra grotesca e pesada, lhe avivavam o entranhado amor com que elle era querido por aquelle amantissimo coração de velho.


[71]

II

O brazileiro voltára a Portugal. Em Santa Apolonia comprou bilhete para Coimbra, mas adormecendo profundamente só acordou quando ouviu um empregado gritar: Granja!

—É o mesmo, disse comsigo. Até é melhor. Fico no Porto, e escrevo ao Sebastião que venha ter commigo se quer ir vêr o filho a Coimbra.

Escreveu. Se o tio Sebastião queria ir a Coimbra! N’isso pensava elle havia semanas, porque já não podia com as saudades.

—Já cá estão dous carros e uns pósinhos, dizia elle, se não fosse isto, quem ia vêr o rapaz era o filho de minha mãe…

O convite do cunhado alvoroçára-o de alegria e de desusado contentamento. Ria alto, andava radiante, cantava:

Á uma hora nasci,
Ás duas fui baptisado,
Ás tres andava de amores,
Ás quatro estava casado.

—Queres tu vir d’ahi, Joanna? dizia elle para a creada que lhe arranjava a mala.

[72]

É verdade, ó Joanna, não te lembras assim de uma cousa que o estudante goste? Uma cousa bonita…

A creada que era gulosa, lembrava-lhe marmelada, doce de ginja, pêras de calda…

—Upa! cousa melhor…

—Quer saber? disse a velha, com os olhos accesos de quem achou um thesouro, e a mim que me não lembrou logo! Eu cá se fosse o sô Sebastião comprava uma medalha de ouro como a que o sr. Morgado traz no cordão do relogio; mettia-lhe dentro o retrato da fallecida, e levava isso ao menino que ha de ficar no ceu ao vêr a mãesinha que Deus lhe levou.

O tio Sebastião approvou a ideia. O retrato foi tirado da parede, tinha sido feito em Braga, logo nos primeiros tempos do casamento. Representava Carlota vestida com uma saia de seda preta, lustrosa, cheia de vincos, com grossas arrecadas, e uns enormes grilhões no peito largo e afflante, os pés nús n’umas chinellas bicudas de verniz. Na mão direita tinha um lenço cheio de bordados, tufado. A esquerda descançava nas costas de uma cadeira, e os grossos dedos d’essa mão pendiam para a palhinha, lanzudos, reluzentes de anneis. Nos olhos de Carlota havia o espanto de quem vê bruxaria, uma especie de pavôr disfarçado.

[73]

O lavrador pegou no retrato, e esteve a olhar para a mulher. Não chorou, nem teve saudades, estava absorvido por um sentimento superior.

—Ó Joanna, mas o retrato é grande e a medalha pequena. Eu não tenho alma de degolar o retrato…

A creada sorriu-se.

—Pois leve o retrato e a medalha ao menino, e elle lá que o mande arranjar…

Na manhã seguinte almoçava o tio Sebastião com o cunhado, e partia n’essa mesma tarde para Coimbra, onde chegaram de noute. O brazileiro, cheio de cansaço, adoentado, propoz que se adiasse a visita ao estudante para o outro dia. Que eram horas d’elle estar a estudar; que não era bom distrahil-o das suas obrigações. O tio Sebastião, porém, não se convenceu. Disse que iria só, que não podia esperar, que não dormiria bem sem dar um abraço no filho. Partiram ambos.

Os viajantes bateram á porta da casa de Sebastião Alves, maravilhados de verem as janellas abertas e a casa completamente ás escuras. Ninguem lhes respondeu.

Bateram de novo.

Uma visinha com a sua voz fina e cantada perguntou o que desejavam, e explicou que o sr. Sebastião Alves tinha ido ceiar com uns amigos a uma hospedaria da baixa.

[74]

Perguntou o brazileiro onde era essa hospedaria, e para lá se encaminhou com o ancioso companheiro, que ao vel-o meditativo resmungava como que para attenuar a extravagancia:

—Rapazes! um dia não são dias.

As ruas da alta estavam solemnemente silenciosas, os transeuntes eram raros.

Ao passarem por uma casa, cujo primeiro andar tinha as janellas abertas, viram um estudante com a cabeça encostada ás mãos, absorvido e com os olhos n’uns livros…

—Aquelle tambem é rapaz, tornou o brazileiro com gesto sentencioso, mas faz a sua obrigação. Quem vem para aqui é para estudar…

Ao subirem as escadas da hospedaria ouviram um grande rumor, vivas, e hurrahs freneticos e enthusiasticos; os creados açodados, vermelhos, passavam com largas travessas fumegantes…

—Desejamos saber, disse o brazileiro a um dos creados, se o sr. Sebastião Alves está aqui.

—Está, sim senhor, se lhe querem fallar, vou dar-lhe parte…

O brazileiro tirou meia corôa da bolsa de prata, e dando-a ao creado continuou:

—Não queremos perturbar o sr. Sebastião, fallar-lhe-hemos depois. O que desejamos é um quarto onde possamos esperar até que finde a ceia. Faça[75] favor de lhe não revelar que estamos aqui, é uma surpreza que queremos fazer ao estudante; e sorriu contrafeito.

O creado conduziu-os a uma sala, separada d’aquella em que os estudantes ceiavam simplesmente por uma porta.

O tio Sebastião tinha o coração aos pulos dentro do peito.

—Eu vou lá; dizia baixo com a voz tremula, quero vel-o.

O cunhado conteve-o.

—Espreite pelo buraco d’essa fechadura que já o vê.

O velho curvou-se e olhou.

—Lá está elle! lá o vejo. Está mais magro… aquillo talvez seja do estudo. Coitado! Mas que chibante que elle anda! Os outros ao pé d’elle parecem uns pobretões! Um até tem a vestea toda rota e cheia de nodoas. Aquillo que elles trazem é assim a modo de batina de padre… pois não é? Espera, ó mano! lá vae o meu filho levantar-se. Ó meu rico filho da minha alma!

Sebastião levantára-se de facto para fazer um brinde.

Tinham bebido á saude das mulheres, do amor, da gloria, do talento…

Sebastião, um tanto inflammado de repetidas libações,[76] fez uma saude a um velho que estava sentado á meza, um pouco distanciado do grupo dos estudantes.

O brinde foi estrepitosamente victoriado.

O velho agradeceu n’estes termos:

«Muito obrigado, meus senhores! Reconhecido pela deferencia com que me honram, consintam que beba á saude do pae do cavalheiro que me brindou.»

O brazileiro disse:

—Tome, mano! aquillo é comsigo!

—Mas eu vou lá, vou dar um abraço n’aquelle honrado homem que se lembrou de mim…

Os estudantes ergueram os copos.

—Á saude de teu pae, clamaram.

—Que infelizmente está longe, disse commovido pelo vinho Sebastião Alves.

—Longe! qual longe, nem meio longe, tartamudeou o tio Sebastião, e ia para lançar-se pelo corredor fóra, quando o brazileiro de novo o reteve.

—Espere homem! o rapaz talvez fique envergonhado se lhe apparecermos assim de repente.

—É verdade, meus senhores, disse um dos da roda, um que passava por orador e que gostava de fazer estylo.

«O pae de Sebastião está longe, vive em plagas[77] distantes, em terra de Santa Cruz n’esse paiz uberrimo, monstruoso, gigante, que se chama o Brazil, e onde os nossos recebem uma hospitalidade tão franca e tão generosa. Brindando ao pae de Sebastião, brindo aos nossos irmãos de além-mar.»

—O que diz elle? resmungou o tio Sebastião, que eu estou no Brazil? Não é má!… e atabafava o riso.

O brazileiro comprehendeu tudo e murmurou: canalha!…

Um dos rapazes que fôra condiscipulo de Sebastião em Braga, voltando-se para este, disse:

—É verdade, ó Sebastião, aquelle velhinho que uma vez te acompanhou á mala posta, e que eu vi a chorar como uma creança na rua da Conega quando se despediu de ti, era teu avô? Muito gostei eu do velhinho. Parece que o estou a vêr a acenar-te com o lenço, correndo com as suas pernas tropegas e cansadas atraz da carroagem, a dizer: O Senhor vá na tua companhia!

Sebastião avincou o rosto, um rubor subito incendiou-lhe as faces, e partindo uma noz, respondeu:

—Esse velho era caseiro de uma quinta que meu pae comprou quando esteve ultimamente em Portugal.

O tio Sebastião voltou-se para o brazileiro. Estava[78] livido, tinha os labios apertadamente unidos, os olhos injectados de sangue. Esteve um segundo, com os olhos fitos nos do cunhado, sem poder articular uma palavra, bamboleando a cabeça, respirando offegantemente pelas narinas palpitantes e dilatadas; depois cahiu nos braços do cunhado e prorompeu n’um soluçar dilacerante e pungitivo:

—Ingrato! ingrato!


Quando o tio Sebastião chegou á sua aldeia, vinha pallido, desfeito, parecia desenterrado.

A velha Joanna assustada perguntou-lhe:

—Que foi? que foi? E o menino?

—Morreu!


O ANNEL DO DIPLOMATA

—Parecia que vendia saude… tão forte que era!…

—É verdade! quem o havia de dizer!

—Era uma creança ainda, pouco mais tinha de setenta annos, volveu outro que, pela figura e pelo andar tropego e vacillante, denotava ter os seus oitenta, bem puxados.

—E olhe que era um bom homem! Você não viu como a filha chorava quando o pozemos em cima da cama? Cortava o coração, coitadita!

—E honradinho! Eu sei cá! Poucos se topam por ahi com tão bons sentimentos e com cara tão limpa…

—Lá isso!…

—Não, que quem sahe aos seus não degenera!

[80]

—Era muito amigo da pobreza! tartamudeou uma velha.

—Ó Christo! era o pai da pobreza, é o que vossemecê deve dizer, tia Joaquina.

—E depois olhe que era o melhor letrado d’estas oito leguas em redondo.

—Aquillo era um selvage

Assim fallavam alguns individuos pertencentes a diversas cathegorias da pequena sociedade da villa de X***, descendo as escadas da casa do advogado Vasconcellos que cahira mortalmente fulminado por uma congestão cerebral, no momento em que defendia calorosamente um individuo que n’uma allucinação brutal de ciume assassinára a mulher e dous filhitos.


O advogado Vasconcellos morrêra pobre, sorte de todos os causidicos de provincia, que logram vencer, quando muito, por mez, o que qualquer dos collegas de Lisboa e Porto dá aos seus agaloados trintanarios.

Filho segundo de uma casa de bom nome na provincia do Minho, cursava canones e leis na Universidade, no anno de 1828, emigrando n’esse[81] mesmo anno, e vindo terminar o curso mais tarde, depois de ter defendido a causa da liberdade, de parceria com outros condiscipulos, que tão assignaladamente se distinguiram depois na politica, nas armas e nas lettras.

Depois de formado, recolheu-se á sua villa natal, e não podendo contar com a mezada que seu irmão lhe arbitrára, visto que os rendimentos da casa mal chegavam para a alimentação e sustento do primogenito, abriu banca de advogado, dependurando de um dos lados da estante de pinho, encimada pela pasta verde e encarnada de quintanista, a lata com os seus pergaminhos de bacharel in utroque, e de outro lado a farda impregnada da polvora de vinte combates e varada pelas balas dos servidores d’el-rei nosso senhor, no cerco do Porto.

A formosa irlandeza que o acompanhára no exilio, e que lhe foi denodada companheira nas asperas provações da vida, morreu-lhe pouco tempo depois, deixando-lhe dous filhos, um rapaz e uma menina.

Tanto um como outro eram educados com sollicitude e esmero, que para a educação dos dous não se forrava aquelle pae amantissimo nem a despezas nem a trabalhos.

O rapaz foi para Coimbra, e a menina para o[82] convento das Salesias em Lisboa, de onde recolheu quando o irmão entrava para o primeiro anno juridico.

—É preciso estudar, Antonio, olha que se eu não tivesse aquellas cartas, tinha de andar a cavar nas hortas de meu irmão, ou de esmolar nas escadas ignobeis das secretarias um logar de porteiro ou de amanuense, e isto ainda assim, apresentando como documento dos meus serviços aquella farda…

Não eram necessarios estes conselhos. Antonio de Vasconcellos foi sempre um sisudo moço, estudioso, o que não quer dizer que aquella mocidade fosse bisonha e avessa ás ridentes alegrias dos vinte annos.

Pobre da arvore que ao sorrir da primavera se não estrelleja de flores, e em cujos ramos folhudos e a revêrem seiva não cantam as toutinegras e não assobiam os melros!


Recolhia-se á sua casa, em Coimbra, o moço estudante, alegre e contente de si por ter correspondido bizarramente, n’uma sabbatina, ao alto conceito em que o curso o tinha, quando lhe entregaram uma parte telegraphica.

[83]

Rasgou alvoroçadamente o sobrescripto, leu e empallideceu horrivelmente.

—Meu querido pae! murmurou, e curvado sobre a sua mesa de estudo deixou cahir a cabeça nos punhos fechados. Pobre pae! pobre pae! que me não chegou a ver bacharel!

Na manhã do dia seguinte entrava por casa dentro, ao passo que descia as escadas o caixão em que vinha mettido o pae.

Quizeram-no affastar, esconder-lhe aquelle espectaculo lutuoso, mas elle resistiu, e abraçado ao cadaver do pae chorava como choram os que de repente sentem que o braço amoravel que os guiava n’esta vida enfraquece e esfria para sempre, deixando-os na mais desconsolada e algida das solidões.

Amparado nos braços de um amigo da infancia, entrou no aposento em que a irmã pallida e desfeita expedia gritos clamorosos e hystericos.

—Sósinha, repetia a misera, sósinha!

—E eu, minha querida Francisca? Não te lembraste do teu irmão? disse o moço engulindo as lagrimas, e fazendo-se forte para dar coragem á desgraçada menina.

Assim no alto mar quando o temporal arripia e ennovela as ondas, e o velame bate nos mastros com o ruido molhado das azas de uma ave que se[84] afoga, e a marinhagem assustada grita e pragueja ante a morte proxima e inevitavel, o capitão que tem filhos e esposa, longe n’uma pequena aldeia á beira-mar, dá ordens com voz tranquilla, e commanda a manobra com a serenidade de quem vê perto as aguas quietas e espelhadas do ancoradouro.


Volvidos alguns dias, desceu o estudante ao escriptorio. Examinou as gavetas e os moveis, a vêr se o pae havia feito as suas ultimas disposições. Não encontrou senão minutas, autos, libellos em principio, considerações juridicas.

—Parece-me que o estou vendo! A ultima vez que o vi, estava aqui sentado e perguntou-me a rir se eu sabia o que era um libello!—disse o moço para a irmã, que o acompanhava.—Respondi-lhe, e elle tornou:

—Caspité! Pois olha, que quando deixei Coimbra não o sabia. A minha universidade foi esta banca. Aqui é que se aprende, deixa lá! E depois tu verás!

Mal sabia elle que eu nunca havia de vêr isso…

—E porque, Antonio?

—Porque? porque estamos pobrissimos. O pae[85] morreu honrado, mas sem recursos. O que nos resta, filha, são umas cincoenta moedas, que a nossa velha Joanna ajuntou com as soldadas ganhas no serviço da casa de nossos avós, e n’esta… casa que é hoje d’ella, porque é ella que nos tem sustentado desde que nos faltou o nosso querido amigo…

Bateram n’este momento á porta do escriptorio, Antonio de Vasconcellos foi abrir. Appareceu no limiar da porta um lavrador que disse, desbarretando-se:

—Queria dar uma palavra ao sr. doutor…

—Meu pae falleceu esta semana…

—O que! E eu que o vi ainda ha dias tão fero e rijo! Em nome do Padre e do Filho… É o que nós somos n’este mundo… Que Deus o tenha na sua gloria, que era um homem ás direitas… Então queira perdoar.

E sahiu emquanto os dous com os olhares atados um no outro, perguntavam n’aquella muda linguagem, o que seria d’elles desamparados e sós n’aquelle temporal, que tão a subitas lhes escurecera o azul sereno da vida.

[86]


Alguns amigos do advogado e um parocho d’aquellas circumvisinhanças, reunidos n’um sagrado pensamento, ajustaram entre si dar uma mensalidade a Antonio de Vasconcellos, que a rogos da irmã acceitou aquelles adiantamentos como uma divida que satisfaria mais tarde.

Temos o nosso estudante formado e prompto. Logo que se viu senhor dos titulos alcançados pelo seu estudo e applicação, foi á villa natal agradecer aos que o haviam tão evangelicamente amparado, e, por conselhos de um condiscipulo, dirigiu-se a Lisboa, onde fixou residencia, e entrou a frequentar o escriptorio de um dos advogados de mais renome no fôro da capital.

Ir para a provincia trabalhar como um mouro, estudar como um benedictino; para que? O resultado conhecêra-o elle, que o exemplo lhe fôra mais que manifesto na propria familia. Em Lisboa encontraria campo mais dilatado onde desafogar as suas altas aspirações.

O peior seria o primeiro anno e ainda o segundo, mas depois acudiriam os clientes, e o seu nome[87] adquiriria a gloriosa reputação com que outros de menos talento se ufanavam.

—Ao principio, Francisca, dizia o moço doutor, não correrá tudo á medida dos nossos desejos, mas tu has de ter muita coragem, não é assim? Quando eu entrar em casa, e vir um sorriso na tua boca, verás como me lanço ao trabalho com vontade e com intrepidez…

Pobre creança!


N’aquella época chegara a Lisboa um individuo que fôra o mais perdulario dos leões da Lisboa de ha trinta annos, e que presentemente occupava um elevado lugar diplomatico em uma côrte estrangeira.

Contavam-se d’este homem excentricidades que fariam morrer de inveja o mais fastiente e spleenetico dos lords. Batera-se vinte vezes e por motivos diversos, por questões de jogo, por questões de mulheres, e por questões de politica.

Espirituoso, valente e rico, passou pelo mais bem acabado producto do seu tempo e do seu meio.

Agora velho mas sempre original e taful, era estimado por todos, querido nas salas, temido ainda na imprensa e respeitado pelos politicos a quem[88] asseteava com o acre azedume de quem já mourejou nos bastidores da politica, e lhes conhece de sobejo os fumosos mysterios.

Estava Antonio de Vasconcellos no Chiado, conversando com um condiscipulo, quando o diplomata se apeou de um trem, e se deteve a conversar alguns instantes com umas senhoras que iam passando.

—Sabes quem é aquelle sujeito? perguntou-lhe o condiscipulo.

—Não.

—É Jorge de Alvim. O velho mais moço que passeia n’esta cidade sorumbatica e sôrna…

—Esse nome não me é estranho. Foi condiscipulo de meu pae que o estimava e tinha em grande conta, e até se me não engano, queimei uma larga correspondencia travada entre aquelle homem e meu pae. A elle pessoalmente não conhecia, mas é sympathico.

—E homem de grande influencia politica.

N’este momento o cavalheiro F. e o ministro L. que passavam, acercaram-se do diplomata e demoraram-se com elle em palestra em que pareciam enlevados.

—Repara tu como elles o tratam! concluiu o condiscipulo de Vasconcellos ao dar-lhe o aperto de mão de despedida.

[89]


—Sempre me decido, Francisca.

—Pois vae, Antonio, vae que não deshonra pedir trabalho e protecção…

—Receber-me-ha elle bem?

—Quem te não ha de receber bem, tôlo? vae que eu fico a pedir a Deus por ti!

Antonio de Vasconcellos foi e fallou com o velho amigo de seu pae, Jorge Alvim. Contou-lhe toda a sua vida trabalhosa, as luctas obscuras, as miserias que affrontára, descreveu-lhe a núa e triste agua-furtada em que viviam, elle e a irmã, as longas e plumbeas noites mal dormidas, a costura mal remunerada, a dureza dos senhorios.

E no gabinete cheio de conforto e de luxo aquellas palavras tristes, desesperadas e expirantes soavam lugubremente como um grito de agonia nas alegrias de um noivado…

—V. ex.a não sabia de uma cousa que lhe vou agora dizer. Seu pae salvou-me da morte uma vez no cerco do Porto, eu salval-o-hei custe o que custar das… garras da…

—Miseria, disse o moço com o rosto ligeiramente carminado.

[90]

—Pois seja assim! Começaremos a combater o monstro hoje mesmo. Para isso é preciso que V. Ex.a envergue as armas proprias para combates d’esta ordem. Em vez do arnez, do broquel, das cannelleiras e do elmo, aconselho-lhe que se vista com elegancia igual á sua gentileza, porque vae combater a féra no salão da mais elegante senhora de Lisboa, e ante a presença das nossas mais acentuadas celebridades politicas e litterarias. Até logo, não é assim? disse o velho estendendo com uma graça adoravel a mão a Antonio de Vasconcellos que desceu as escadas enceradas com o coração cheio de sol e de alegria.


—Não estejas triste, a casaca fica-te bem, não está muito nova, mas ninguem repara. Põe este botão de rosa na casa. É bonito. Vaes mesmo um taful—dizia a irmã de Antonio de Vasconcellos recuando e examinando amoravelmente o moço.

Depois, com um gesto impregnado de um mixto singular de protecção e de doce auctoridade, continuou:

—Prohibo-te que estejas com essa cara desconsolada.[91] Digo-te eu que és o mais bonito que lá apparece. Depois m’o contarás.

E conversando e rindo n’um abandono divino e infantil, aquelles dous camaradas na adversidade, edificavam castellos de ventura, esquecidos de que o padeiro n’aquelle dia recusara fiar-lhes mais pão. Oh mocidade!


Jorge de Alvim n’aquelle dia parecia exceder-se a si proprio, tão brilhantes eram as suas respostas, tão finas as suas ironias, tão cheias de sal as anedoctas com que encantava os conselheiros, ministros e jornalistas que estavam á mesa da elegante condessa de X***.

Fallou-se em diamantes. Jorge de Alvim desde logo entrou a historiar casos e anedoctas a tal respeito. Narrou as aventuras de diamantes que se tornaram celebres pelas peregrinações em que andaram, e assim precisou com uma erudição graciosa a historia do Sancy, diamante que foi de Carlos o Temerario, e que das mãos d’este passou para as de um Duque de Florença e depois para o poder do Prior do Crato, que o empenhou ao intendente das finanças em França, Harley de Sancy, de onde lhe proveio o nome.

[92]

—Ainda aqui não pára, minhas senhoras, a odysséa d’esta pedra. Harley de Sancy quando Henrique IV de França antes de ser reconhecido se achou em grandes apuros de dinheiro, mandou vender esse diamante aos judeus de Metz. O homem encarregado de tão preciosa missão, cahindo nas mãos de uma quadrilha de bandidos, e receiando que lhe roubassem o thesouro que levava, engulira a pedra…

—Ora essa! disse a dona da casa.

—Verdade pura, minha senhora. O cadaver foi descoberto passados tempos no bosque de Dôls, e aberto o ventre, acharam o diamante que foi vendido a Jacques II de Inglaterra, de cujo poder passou para o de Luiz XIV.

—E depois? disse uma das senhoras. Não póde parar ahi esse longo peregrinar de que V. Ex.a está sendo um Fernão Mendes…

—Minto?… pois seja assim. O que posso afiançar a V. Ex.a é que esta pedra, depois de varias e encontradas vicissitudes acabou por onde acabou a esposa de Meneláu… Foi roubada, e hoje pára nas mãos dos Russos.

—Justamente o que mais dia menos dia succederá ao seu magnifico annel, Sr. Jorge de Alvim, tornou a mesma interruptora, dardejando um olhar guloso e felino á pedra do annel[93]

—E é verdade que é lindissimo e de appetite o seu annel; deixa-m’o ver, Sr. Alvim? disse uma das senhoras que estava ao lado de Antonio de Vasconcellos.

O annel foi passando de mão em mão crivado de admirações e de quentes cobiças…

A conversação tomára outro rumo; era o momento dos toasts, e então Alvim explicou uma usança que lá fóra estava agora muito em moda nos jantares da alta vida, a taça da amizade.

Ia a descrever este costume elegante quando a senhora que estava á esquerda de Vasconcellos soltou um grito.

—Ah!

—Que foi? O que foi? repetiram em roda.

—Tinha aqui o annel e desappareceu-me!

Levantaram-se pratos, arredaram-se cadeiras, houve varias conjecturas.

—Estaria aqui? talvez estivesse ali…

E sempre debalde.

Ergueram-se todos, sem cerimonia, turbulentamente, como da mesa de um hotel…

O annel não apparecia.

Um dos convivas, celebre no fôro, começou a examinar o rosto de cada criado, como quem tenta descobrir o author de um crime.

—Uma joia tão rica!

[94]

—Não está alli por menos de duzentas libras, affirmou um banqueiro.

—Ora, pelo amor de Deus, meus senhores, volveu o velho casquilho. O meu annel que julgo não tem ainda por ora aventuras, ouvindo as minhas narrativas de ha pouco encheu-se de brios, e quiz provar aos incredulos que tambem lhe estão reservados altos destinos… Vou propôr a V. Ex.as uma cousa que lhes parecerá excentrica, mas que me relevarão, já que em Lisboa passo por um ente singular e extraordinario. Ahi vai a singular excentricidade que me passou pela cabeça: ao sahir d’esta sala hão de todos deixar-se revistar pelos donos da casa. Rejeitam ou approvam?

Ouvindo aquella proposta exquisita e quasi que offensiva, alguns sorriram, indignaram-se outros, franzindo os sobrolhos, e um pesado silencio constrangido cahiu n’aquella sala ha pouco tão sonora de vozes, de risos e do fino tilintar da prata e dos crystaes.

—Peço perdão, mas opponho-me e rejeito essa proposta!

Quem assim fallava era Antonio de Vasconcellos. Estava pallido como a morte, tentava sorrir, mas os dentes cerravam-se-lhe nervosamente, e os cabellos empastavam-se-lhe na testa gotejando suor.

[95]

—Seria elle? disse a dona da casa baixo, e fitando-o tristemente.

E toda a gente que o ouvira como que por instincto affastou-se do pobre moço.

Podia ser, que fosse elle. Era pobre, pois não viam isso claramente?

Os olhos de todas as mulheres que alli estavam começaram então desapiedadamente a analysal-o por miudo, e passavam-lhe em revista a casaca cossada, a pouca finura da camisa, a gravata branca ligeiramente encardida, as joelheiras luzidias das calças pretas.

—E não é feio rapaz!

—Pois sim, mas Lacenaire tambem não era feio, volveu outra menos caridosa e mais letrada.

Antonio de Vasconcellos approximou-se de Jorge de Alvim, e baixo com voz concentrada disse lhe:

—Uma palavra, Sr. Alvim, desejo dar-lhe uma palavra…

—É melhor mais tarde… depois…, replicou desdenhosamente Jorge de Alvim.

Repararam todos na insistencia de Antonio de Vasconcellos, e as suspeitas mais e mais se enraizaram no espirito dos convivas.

O pobre rapaz, que conhecia a falsa posição em que se collocara com a sua phrase, sentia-se humilhado e como que vendido n’aquelle meio.

[96]

Os proprios criados olhavam-no com manifesto desprezo.

Vasconcellos disse ainda ao diplomata:

—Sr. Jorge de Alvim, pela ultima vez, quer ouvir-me?

—Homem, já sei; é pobre, teve uma fascinação, já li isso não sei aonde… Ah! já sei… n’um conto de Balzac…

E voltou-lhe as costas.

N’esse instante uma voz entaramellada e rouca echoou na sala:

—Peço que me escutem! como sou o unico pobre que aqui está, e como todas as circumstancias são em meu desfavor, podem julgar que fui eu que roubei esse annel. Se não consenti na proposta feita pelo Sr. Jorge de Alvim,—e na pallidez do seu rosto destacavam-se duas rosas de pejo,—foi porque, se me revistassem, encontravam-me no bolso isto que eu furtei para levar á minha irmã que não come desde hontem… disse o mancebo tirando da algibeira um pão.


Houve um grande e profundo silencio angustioso. A condessa foi a primeira a rompel-o adiantando-se para Vasconcellos.

[97]

—Pobre rapaz!…

E com o movimento que fez, um objecto brilhante faiscou nas franjas do seu vestido.

—Permitta-me V. Ex.a, condessa, disse o banqueiro abaixando-se e desprendendo das franjas o objecto que reluzia e chispava: aqui está o annel.


Antonio de Vasconcellos occupa hoje com geral applauso e com grandes creditos o lugar de secretario, na embaixada de que é ministro seu amigo e cunhado Jorge de Alvim.


A ESCOLHA DE GASTÃO

Fez verdadeiramente o que se chama escandalo, em todas as salas da alta roda, o casamento do filho do visconde das Lagôas.

O visconde, cujo nome primitivo era João do Moinho Novo, e que depois não sei porque artes se appellidava João Silveira, fôra para o Brazil muito moço, creio que com dezoito annos, e voltára de lá com cincoenta e archi-millionario.

Rosnava-se muito ácerca das origens d’esta nebulosa e extraordinaria fortuna.

Uns fallavam de escravatura, alguns de contrabando, todos de negocios pouco lisos e pouco licitos. No fim de contas, porém, o principal é que uma pessoa seja muito rica.

Lá o como e porquê são questões secundarias,[100] com que se preoccupam muito os invejosos, e um pouco os escrupulosos.

O resto das pessoas, e já se vê que são muitas, essas nem para ahi voltam os olhos.

Acham este esmiuçar impertinente das vidas alheias além de enfadonho pouco aristocratico.

O visconde passava o verão na provincia do Minho, n’uma povoação perto de Vianna, onde comprára um velho palacio, cuja frontaria ennegrecida elle mandára cuidadosamente caiar.

O portão do palacio era encimado pelo brazão d’armas da familia arruinada a que pertencêra. O visconde, que não quizera conservar mais nada intacto, teve a caridosa lembrança de o conservar a elle.

Mandou-o limpar das hervas e dos musgos damninhos que se tinham introduzido entre as fisgas da pedra, e dos ninhos que a phantasia errante das andorinhas alli armára no estio.

Depois de limpo pareceu-lhe um ornato sympathico e nada contradictorio com os seus gostos plebeus, e deixou-o alli ficar, com tenção firme de o cobrir de crepe, no caso de lhe morrer algum dos seus.

Foi depois d’isto que se decidiu a pedir ou por outra a comprar, dos poderes publicos complacentes o seu titulo de visconde.

[101]

O mais modificou-o e transformou-o á sua vontade.

Detestava as ruinas por instincto.

As vastas salas apainelladas e forradas de custosos pannos de Arrás, mandou-as estucar á moderna, de côres claras e alegres, vendendo a um amador de curiosas velharias,—o mais caro que poude, já se entende—aquellas colgaduras ennegrecidas e esfiadas, cujo merito não havia nunca logrado perceber.

Vendeu igualmente a velha mobilia, que punha como que um perfume de grandeza extincta no arruinado casarão, as credencias marchetadas, os tremós de espelho partido ao meio, e em cuja moldura dançavam estranhas figurinhas, as cadeiras abbaciaes de couro e pregaria amarella, os cofres de pau santo, os tamboretes de carvalho, as reliquias d’um mundo que desabára.

Os dominios do visconde depois de transfigurados pelo seu opulento proprietario perderam aquelle aspecto desolador, saudoso e melancolico que os recommendava aos artistas e aos… morcegos.

Ninguem por mais phantasioso e poeta que fosse, seria capaz de evocar na sombra dos longos corredores claustraes, uma d’aquellas figuras que são a graça mysteriosa do passado.

[102]

Uma castellã pallida e esguia, sustendo nas suas mãos de marfim o missal de ricas illuminuras… Um pagem louro e namorado, embevecido no sonho de longinquas aventuras e de impossiveis amores… Um vulto de abbade austero e glacial, trazendo para o meio do mundo a gelida mortalha da sua piedade monastica…

Nenhuma d’essas visões podia agora evocar-se.

Foram derrubadas as arvores silvestres cuja sombra envolvia o palacio n’uma austera solidão; arrancaram-se as heras possantes que cobriam com o manto vigoroso da sua folhagem verde-negra os muros gastos e esburacados; calçaram e ladrilharam os pateos por onde a herva crescia indomada e livre, e onde fontes enormes choravam dia e noite com uma triste e somnolenta melopeia.

Um jardineiro inglez veio de proposito cortar as moitas de buxo espesso do jardim, onde umas estatuas de pedras mutiladas e musgosas pareciam ainda relembrar no desamparo da sua nudez friorenta, uma vida inteira que o passado abysmára.

Aquella desolação das ruinas e aquelle indomito luxo da natureza entregue a si, foram substituidos por todas as graças e coquettismos da moderna jardinagem.

[103]

Uma estufa de plantas raras, de extranho colorido, de fórmas phantasticas e inquietadoras, de cheiro irritante e acre; taboleiros de gazon d’uma frescura esmeraldina, camelias, rosas, trepadeiras floridas, tudo que as tyrannias da arte teem misturado nas liberdades da Natureza.

O visconde depois de haver-se rodeado de tudo que póde tornar aos ricos a vida não só aprazivel o que é pouco, mas invejavel o que é muitissimo, começou a grangear relações, e a receber com bizarra hospitalidade os amigos que durante o inverno adquiria nas salas da capital.

Em Lisboa não era menos rica, nem menos confortavel, a habitação do millionario.

Vastos salões ricamente mobilados, equipagens de alto estylo, criadagem insolente e ociosa, escadarias alcatifadas, bailes e ceias onde toda a côrte concorria tão cheia de curiosidade como de gulodice, jantares aos quaes eram convidados os ministros, os titulares, os diplomatas estrangeiros e os funccionarios mais influentes, tudo emfim que póde dar á vida um aspecto opulento e principesco, tudo que constitue o orgulho supremo dos mediocres e a inveja brutal dos ambiciosos.

De resto o dono da casa era tão pouco conhecido da maioria dos frequentadores das suas festas, que mais d’um o tomou pelo criado de si[104] mesmo, e lhe pediu com desdenhosa insolencia, o paletot, ou um copo de agua.

O visconde enviuvára antes de deixar o Brazil, e os que haviam conhecido sua mulher, não lamentavam que a pobre senhora fosse dispensada pela Providencia de assistir á espectaculosa mise-en-scéne da vida dos que tinham sido seus.

O visconde tivera do seu matrimonio, duas filhas e dois filhos.

Na epocha em que elle maior ostentação desenvolvia, teriam as meninas dezoito a vinte annos.

Tinham sido educadas em casa, por uma mestra franceza escolhida pelo pae. Vestiam-se da Aline, quando não mandavam vir directamente de Pariz as suas toilettes extraordinarias, e sempre muito além da moda.

Usavam tudo que havia de mais excentrico. Os chapeus mais pequenos, ou os chapeus de mais largas abas, os vestidos que deixassem vêr o pé todo, ou os vestidos cuja cauda roçagante lembrasse um manto de rainha… de theatro.

Havia tempos em que usavam na cabeça o cabello de uma duzia de mulheres, e outros tempos em que appareciam de repente de cabello cortado como os rapazes, encaracollado e de risco ao lado.

[105]

Timbravam em não se parecer com mais ninguem.

Mas não podiam eximir-se a um defeito especial que as fazia darem muito na vista. Occupavam-se extremamente de si.

Fallavam do seu boudoir, das suas toilettes, das meias de sêda de tres libras ou doze mil réis—as unicas que traziam—, do elegante edredon do seu leito, das finas perfumarias do seu toucador.

Isto fazia rir com riso amarello as amigas mais intimas, que diante de gente, costumavam puxar-lhes pela lingua.

De resto as filhas do visconde seguiam rigorosamente os preceitos e regras da alta-vida.

Tinham assignatura em S. Carlos, para serem vistas, e frequentavam assiduamente a egreja, para se parecerem com as filhas de condes pallidas e anemicas, cujo luxo superior é a devoção e a caridade, diluidas ambas as cousas em pequeninas praticas de todos os dias.

Sabiam conversar pouco mais ou menos sobre tudo, sendo no fundo d’uma crassa ignorancia ácerca de todas as cousas.

Como dissemos fôra franceza a mestra que as dirigira. Dera-lhes o verniz da educação, e mais nada.

De linguas sabiam o bastante para conversarem[106] com os diplomatas; de musica, para criticarem o physico das cantoras; de artes para revellarem a cada instante a negação profunda que tinham para o bello.

Respeitavam e invejavam todas as superioridades sociaes; o dinheiro, a fidalguia herdada ou comprada, a posição, as honras, a formosura.

Desprezavam profundamente uma só cousa: a pobreza.

Quando viam alguem pobre, pouca ou nenhuma attenção lhe prestavam; mas se esse alguem tivesse a inaudita ousadia de apresentar uma ideia, uma opinião, um juizo, de contrarial-as, de escarnecer alguma das cousas que ellas acima de tudo reverenciavam viam-as então revellar um pasmo sincero, um espanto que tinha o seu quê de tragicamente ridiculo.

Um dia ouviu alguem a uma d’ellas este aphorismo extraordinario.

Quem é pobre não tem opinião.

E tinham um modo de levantar a voz, de alçar altivamente a cabeça, de sublinhar vigorosamente as palavras, que mais do que tudo confirmava que ellas como pessoas que possuiam duzentos mil réis por mez, só para os seus alfinetes, não tinham nunca imaginado sequer a possibilidade de não terem razão.

[107]

Era uma maneira não menos auctoritaria, porém menos correcta de dizer o que á senhora de Stael disse um dia a duqueza de la Ferté.

Il n’y a que moi, chère amie, qui aie toujours raison.

Ahi estão pouco mais ou menos as duas filhas do visconde.


O filho mais velho, que partilhara no Brazil os primeiros trabalhos e as primeiras luctas de seu pae, adquirira com a victoria d’elle, que era tambem sua, o mesmo ar de ingenua superioridade.

Tinham trazido do Brazil uma fortuna collossal, logo tinham o direito de dominarem onde quer que estivessem.

Toda a gente que frequentava a casa d’elles, que lhes aturava a impertinencia boçal, confirmava pela sua servil condescendencia esta convicção; porque é pois que não haviam de a sentir?

O primogenito do visconde occupava-se muito, com verdadeira alegria de seu pae, de cifras e de operações bancarias; jogava em fundos extrangeiros, tinha a vocação mercantil pronunciadissima, e nos intervallos que estas occupações transcendentes lhe deixavam, governava um carro, e mandava correr os seus cavallos.

[108]

Estivera em Londres, quando lá fôra deixar n’um collegio o seu irmão mais novo, e voltara com certas aspirações a gentleman rider.

Fallava pouco, com ar sacudido, apressado, sentencioso.

Usava suissas e vestia d’um alfaiate inglez. Queria ser homem sério, respeitavel, homem de pezo, e pensava n’uma candidatura como n’um pedestal proprio para as suas attitudes.

É no meio d’esta familia admiravelmente feita para a sua epocha e para a posição que tem, que vamos encontrar Gastão, o ultimo filho do visconde, um phenomeno destinado a contrariar tudo que se tem dito e escripto sobre a lei da hereditariedade.

Gastão tem vinte e um annos, é alto, delgado, d’uma constituição tão delicada e nervosa, que ao lado de suas irmãs com o seu ar masculino e as suas inflexões duras, elle é que parece a mulher e ellas é que parecem os homens.

Dizem os que um dia se atreveram a chasqueal-o pelo ar timido e suave que apparenta, que nos seus olhos azues, d’uma expressão triste e soffredôra, passou um relampago de colera, pouco tranquilisador para os que abusarem da sua excellente educação.

Gastão da Silveira, chegara havia pouco d’uma[109] viagem que fizera pela Europa, depois de concluir a sua formatura n’uma Universidade de Inglaterra.

Da sua familia não sabia senão que era rica, e que vivia grandemente, como elle tinha visto viver os opulentos banqueiros inglezes, nas suas deliciosas casas dos arrabaldes da cidade, confortaveis e luxuosas.

Esta informação não lhe faltava porque seu pae, suas irmãs, seu irmão mais velho, nunca se cançavam de lh’a repetir em todas as cartas.

Isto porém não bastava a Gastão. O que elle desejaria profundamente, era conhecer a fundo o caracter dos seus, e o que d’esse caracter lhe revellavam as cartas seccas e laconicas de que fallamos, teimava elle na sua fé juvenil, em não o acceitar como prova ou como manifestação.

Tinha pelos seus amigos e condiscipulos conhecido a vida ingleza em relação á familia, fôra convidado para passar as ferias, em casa de ricos industriaes na companhia de alguns dos seus mais caros collegas de estudo, e podera conceber um ideal realisavel, de paz, de conchêgo, de conforto domestico, que anciava encontrar no seio da sua familia.

Tinham-lhe dito que seu pae ganhara pelo trabalho a grande fortuna que possuia, e Gastão habituado[110] a observar a actividade enorme, incansavel, persistente, a fecunda actividade ingleza, sentira crescer o amor pelo visconde ao saber a tenacidade com que elle trabalhara.

Intelligente, d’uma intelligencia fina e delicada, a viagem que fizera desenvolvera-lhe o espirito, e afinara-lhe o gosto.

Voltava cheio de ideias, de factos, de noções praticas, respeitando acima de tudo a intelligencia, e a dignidade da vida.

Como homem educado ao contacto da vida inglesa, avaliava o dinheiro mas não como um fim, simplesmente como um meio, o mais energico e infallivel dos meios para chegar a grandes fins.

No dia em que Gastão conheceu seu pae e seus irmãos imaginem a dolorosa surpresa que elle sentiria.


No animo do visconde e de seus filhos excitou porém o apparecimento d’aquelle bello moço de maneiras distinctas, affavelmente dignas, de espirito superiormente cultivado, de conhecimentos scientificos excepcionalmente desenvolvidos, a mais agradavel das impressões.

Um irmão d’aquelles, um filho de tal maneira[111] elegante e fino, dava-lhes honra, dava-lhes importancia e realce. Se fosse um extranho ter-lhe-hiam inveja, mas emfim, Gastão pertencia-lhes, era d’elles, a sua graça, a sua superioridade, a sua distincção communicava-se-lhes, destingia sobre as suas pessoas.

O visconde pensava que no fim de contas o que constituia o especial encanto do filho, a educação, fôra elle quem a comprára muitissimo cara.

Podia orgulhar-se de Gastão diante dos extranhos mas queria dominal-o, subordinar as opiniões d’elle ás suas, mostrar lhe bem claro, que o adorava pelo que elle transmittia a sua vida de elegante e de superior, mas que o considerava um objecto raro adquirido por muito bom preço, e do qual dispunha absolutamente.

As manas, essas não occultaram no primeiro momento de enthusiasmo que a posse de Gastão lhes dava muito mais chic do que a posse do seu coupé novo tirado por dois cavallos inglezes pur sang e cujos arreios irreprehensiveis tinham sido louvados pelo embaixador de França.

—Ora tu verás, dizia a mais velha para a outra, que as Pimentas em vendo Gastão ficam de fel e vinagre. Repara bem para a cara que ellas fazem, sobretudo se vierem acompanhadas do mano, d’aquelle Leopoldo, de olhos vesgos, de quem[112] toda gente se ri, e que ainda não acertou a fazer uma conta de sommar.

E exhibiam o irmão pelas salas das suas amigas, sob pretexto de que não tinham quem as acompanhasse, e repetiam em segrêdo a todas as pessoas do seu conhecimento:

—Não fazem ideia! O mano Gastão é um poço de sciencia. Sabe todas as linguas. Eu creio que elle até sabe sanskrito. O papá gastou immenso, mas que educação que elle lhe deu!

E por aqui adiante uma ladainha em que se confundiam a sciencia do mano, os gastos do papá, a inveja que todos tinham d’ambos, e a gloria que a ellas provinha da inveja, dos gastos e da sciencia.

Gastão tornara-se o luxo superior da familia.


Foi por esse tempo que o visconde entendeu que era necessario casar o filho mais novo, visto que o mais velho dissera com desdem supremo que só se atiraria a esse abysmo do casamento, quando tivesse completado os seus folgados quarenta annos.

—Quando Gastão casar, as pequenas poderão frequentar mais os bailes, os saraus e os passeios.

[113]

Eu gosto de receber em casa; não me incommodo com isso, mas lá para andar sempre pelo meio da rua é que não estou. E depois Gastão póde fazer um casamento esplendido. Está n’esses casos por todos os motivos.

E foi resolvido em conselho de familia, que Gastão tomasse estado.

A casa do visconde das Lagôas tornou-se a mansão de todos os prazeres, como o bom do homem dizia na praça aos seus amigos titulares e merceeiros. Bailes, jantares, petites sauteries intimes, concertos, a fortuna!

leôa d’estas reuniões, que os noticiaristas immortalisavam na secção da alta elegancia mundana, chamava-se Clotilde de Magalhães. O pae ambicionava um titulo que ainda não tinha podido alcançar dos governos, mas que mediante um avultado donativo a não sei que estabelecimento bafejado pelo favor da côrte, lhe fôra promettido para muito breve.

O conselheiro Magalhães dissera porém ao seu amigo o visconde das Lagôas, que essa promessa lhe não bastava, que o que elle queria e alcançaria decerto, visto que ao dinheiro nada é impossivel, era um titulo em duas vidas, um titulo que elle podesse transmittir a sua filha e portanto a seu genro.

[114]

O visconde ouviu e comprehendeu.

Desde esse dia as duas familias acariciaram como uma esperança lisongeira, o projecto de enlace entre Clotilde de Magalhães, a filha unica d’esse conselheiro millionario, e Gastão da Silveira, o elegante filho do visconde das Lagôas.

Clotilde tinha vinte e dous annos. Uma esplendida physionomia peninsular illuminada por um par de olhos negros, dos que ateariam incendios ha trinta annos no seio apaixonado dos tetricos trovadores.

Era intelligente o bastante para occultar o soberano orgulho, que lhe esterilisava o coração.

Tudo quanto a educação das salas tem de mais requintado e precioso possuia-o Clotilde em larga escala.

Manejava facilmente duas ou tres linguas, cantava com uma voz de contralto quente e apaixonada as arias mais enervantes dos mestres italianos, dançava com uma perfeição de attitudes que a tornavam celebre nos salões, vestia-se bem, sem excentricidades e sem plebeismos de mau gosto.

As filhas do visconde das Lagôas invejavam-na ardentemente conhecendo-lhe a superioridade dominadora, mas fingiam adoral-a, porque da frequencia de Clotilde em casa d’ellas, resultava grande animação para as suas soirées.

[115]

Clotilde que era caridosa em certas horas, e que ostentava o capricho da protecção, tinha em sua casa, como companheira, pupilla ou o que quer que fosse, uma parenta pobre de sua fallecida mãe.

Muitas vezes a levava comsigo ás reuniões mais intimas talvez por um refinado instincto de garridice.

Tão admiravel e triumphante era a belleza de Clotilde, como doce, modesta, soffredora, era a apparencia de Angelina. D’este contraste que a todos os olhos se impunha, resultavam sempre grandes alegrias de amor proprio para a elegante herdeira.

Angelina tinha pois uma dupla missão, inteiramente passiva. Fazer sobresahir a bondade de Clotilde e a sua formosura.


Quando Clotilde conheceu mais de perto aquelle que seu pae lhe promettera muito brevemente para esposo, comprehendeu logo, com a rara perspicacia que a distinguia, que o que na sua pessoa havia de mais brilhante e admirado pouca ou nenhuma influencia exerceria no coração d’elle.

Uma noite em que a filha do conselheiro Magalhães[116] estivera mais rodeada de admirações lorpas e de cultos banaes, em que, ebria d’esse grosseiro incenso das salas, ella exhibira todas as suas raras e distinctas prendas de mulher bonita e de mulher garrida, ousou sorrindo perguntar a Gastão, que mais d’uma vez a tinha olhado com mal disfarçada ironia:

—Não me dirá qual é o seu ideal de mulher? Vejo-o sempre tão reservadamente cortez com todas as senhoras, que ainda não percebi o que é preciso ser para lhe agradar.

—Meu Deus! não ha nada mais facil—respondeu o moço fictando o olhar limpido e honesto no altivo olhar de Clotilde.—É preciso ser uma mulher em quem ninguem repare.

—Julguei que a mediocridade o não captivava a esse ponto—volveu Clotilde mordendo os beiços de colera.

—Mas é que não é ser mediocre ser modesta. É que a mulher que gosta de brilhar, não sabe o que é sacrificio e abnegação, é que para mim todos os encantos que se apreciam nas salas, não valem um bom e candido coração que saiba amar-me e viver só para mim.

Não se póde dizer que Clotilde adorava Gastão, mas emfim a verdade é que gostava muito d’elle. Achava-o superior, correcto, distincto, d’uma aristocracia innata que a encantava.

[117]

Achava-o digno de si.

Não lhe sacrificaria nenhum dos seus triumphos, nenhuma das suas vaidades, nenhum dos seus gozos, mas sacrificava-lhe com certeza todos os seus adoradores.

Ser mulher d’elle era para ella um sonho radioso.

Discordavam, porém, em tudo, nos gostos, nas ideias, nos sentimentos, na maneira de entenderem a vida.

Clotilde na arte preferia tudo que é brilhante e apparatoso; Gastão amava tudo quanto é grande e dedicado. Clotilde só vivia no meio das opulencias sociaes; Gastão tinha a ambição das alegrias intimas e ignoradas.

Ella gostava do incenso de todas as lisonjas por mais grosseiramente capitoso que fosse; elle mais d’uma vez dissera que achava ignobil da parte d’uma mulher consentir que um sujeito de casaca, engravatado e ridiculo, tivesse a audacia de lhe declarar perto do ouvido que a estava achando formosa e cubiçavel.

—Só digo finezas ás mulheres a quem desprezo. São as unicas que nos dão direito de lhes dizermos o que nos passa pela cabeça.

Um homem que diz cousas ternas a uma senhora, fazendo boquinhas e phrases romanticas, insulta-a d’um modo indigno.

[118]

Como é que as mulheres são tão absurdamente educadas que não percebem isto?

Um dia perguntaram a Gastão diante de Clotilde se gostava da musica italiana.

—Conforme! Gosto do bom que ha em todas as escolas. N’esse ponto sou ecletico e creio que todos o deviam ser. Agora a musica italiana das salas acho-a ridicula e pouco decente. Uma senhora a cantar arias em que se falla de amor, de paixão, de extasis inolvidaveis, etc., que diz io t’amo revirando os olhos ao primeiro sujeito que passa, perdeu o direito a que um homem serio a escolha para sua mulher.

Desde esse dia Clotilde deixou de cantar.

Gastão não percebeu o sacrificio, ou pelo menos não mostrou que o percebera.

Era um espirito logico e recto, e tinha o defeito de se guiar na vida pelas opiniões que professava.


Dançavam todos em casa do visconde das Lagôas, e junto d’uma pequena mesa de trabalho, no gabinete das filhas do visconde, uma figura loura e delicadissima, inclinada sobre um album de retratos, parecia ignorada e esquecida de toda aquella multidão que se divertia.

[119]

—Porque não dança, senhora D. Angelina? perguntou jovialmente a voz de Gastão. Se eu lhe pedir que seja meu par, recusa-me?

—Recuso, respondeu ella docemente, e uma côr viva tingiu-lhe as faces.

Recuso por muitas razões. Em primeiro lugar é um pouco extranho dançar quando se tem a posição que eu tenho, porque emfim eu não sou mais que uma dame de compagnie, uma aia, uma governante ou como queiram chamar-me, de casa dos meus caridosos parentes.—Ao dizer isto, talvez involuntariamente, na voz de Angelina havia umas inflexões de amargura resignada.

—Depois—continuou—não danço porque me faria mal. Dóe-me muito o peito!

Gastão sentiu dentro d’alma como que a brotar subitamente, um sentimento que lhe era desconhecido e em que havia dó, tristeza, admiração, um enternecimento sem nome que lhe embargava a voz.

Angelina era tão delgada, tão fragil, d’uma physionomia tão delicadamente melancolica!

Para tudo a fizera o destino, menos para combater e para luctar. A desgraça despedaçara-a sem que ella tentasse resistir-lhe sequer.

Como seria doce protegel-a, guial-a na vida, abrigal-a no peito contra os embates hostis da adversidade!

[120]

Era assim que Gastão havia sonhado uma adoravel e submissa mulherzinha, com aquelle olhar largo e limpido que lembrava um lago da Suissa, com aquelles louros cabellos ondados emmoldurando uma testa setinosa e côr de marfim.

Trocaram mais duas ou tres palavras, e depois separaram-se de novo. Angelina talvez ficasse a scismar, que nunca mais teria occasião de ver postos nos seus uns olhos onde se lesse tão doce e tão honesta sympathia.


O visconde das Lagôas convidou a familia do conselheiro para estar um mez na sua quinta do Alto Minho.

Angelina acompanhou naturalmente a sua gentil parenta e protectora.

No campo estabelecem-se facilmente intimidades que na cidade parecem inconvenientes e impossiveis.

Gastão entre aquellas duas bellas creaturas, d’uma belleza tão diversa como diversos eram os caracteres, poude apreciar e aquilatar a alma e o coração de ambas.

Durante um mez Clotilde foi a rainha acclamada[121] e triumphante do solar provinciano povoado de numerosos hospedes que alternadamente chegavam, ou partiam.

Era ella quem organisava as festas, quem dirigia as partidas, quem inventava as distrações e os jogos. Activa, intelligente, soberanamente caprichosa, ser dominada por ella constituia uma seducção. Emquanto assim era o centro da animação festiva que se notava na opulenta casa do visconde, Clotilde empregava para captivar Gastão todos os seus artificios de sereia.

Envolvia-o no magnetismo irresistivel dos seus sorrisos mysteriosos, do seu espirito acerado e mordaz, da sua graça magestosa e altiva.

Punha aos pés d’elle todas as homenagens de que era objecto.

Ás vezes á noite, sentava-se á meza com o desleixo creoulo que sabia fingir, e punha-se a desenhar, com uma verve comica imcomparavel, as caricaturas dos galans suspirosos que a cercavam. Depois, conscia de que a sua mão valia um milhão, e sem attender aos desesperos que excitava, offerecia a Gastão os desenhos com um gesto ironico e submisso de que só ella possuia o segredo encantador.

Os serões animava-os com a sua presença, com a sua voz, com a sua mestria musical, com os seus[122] conhecimentos variados adquiridos nas viagens e nas leituras.

Angelina voluntariamente occulta no canto mais escuro da sala, assistia a todo este jogo brilhantissimo com a silenciosa resignação de quem se sente para sempre expulsa de todos os prazeres da vida.

Nem sequer percebia que era para o lugar em que ella trabalhava, que os olhos de Gastão se dirigiam constantemente, e que elle tão desdenhoso e tão ironico para com as outras, lhe fallava sempre timidamente, respeitosamente, como os devotos fallam com o seu Deus, como as mães fallam com os seus filhos doentes.

Houve um dia em que uma resposta quasi insolente de Clotilde a fez padecer muito.

Arrazaram-se-lhe os olhos de lagrimas, levantou-se e foi encostar-se á varanda toda enredada de trepadeiras que dava sobre o jardim.

Não percebeu que a crueldade de Clotilde significava um despeito, um ciume, talvez uma agonia profunda de amor proprio! Pensou sómente que a herdeira rica e poderosa insultava diante da sua familia, diante do seu noivo, a orphã desamparada, e chamou baixinho por sua mãe, pedindo lhe que a levasse comsigo para o ceu.

Então uma voz grave, sonora e viril, a voz d’um[123] homem de coração e de coragem, murmurou perto d’ella:

—Quer ser minha mulher, Angelina? Ha muitos dias que tenho vontade de fazer-lhe esta pergunta e não me atrevia!

É que se me recusar, juro-lhe que me dá um desgosto muito grande! Não faz idéa! Parece-me que a conheço desde que nasci, que nunca vi outra mulher, que nunca achei possivel ter outra esposa… Talvez não creia… mas olhe… hei de fazel-a muito feliz… hei de amal-a com uma devoção tão profunda…

Angelina não o deixou concluir. Tapou-lhe a bocca com uma das suas mãos diaphanas, e pallida, a tremer, deixou-lhe cahir a cabeça sobre o peito a soluçar…………………………


A familia de Gastão quando o moço lhe participou a resolução definitiva que adoptára, repelliu-o do seu gremio illustre com o mais indignado espanto.

Aquelle mesquinho enlace que vinha destruir tantas esperanças pomposas, era para todos uma vergonha.

O visconde, as duas manas, o irmão mais velho, o conselheiro Magalhães, tudo se revoltára contra o que chamavam o romantismo de Gastão.

[124]

Só uma pessoa o acceitou sem colera e sem protestos.

Foi Clotilde.

Quiz ella propria conduzir á egreja a sua juvenil protegida, e até á ultima hora teve para com ella e para com o homem a quem um dia no intimo do coração chamára—o seu noivo—uma attitude irreprehensivel de serena dignidade.

Gastão e Angelina vivem n’uma deliciosa casinha em Buenos-Ayres, onde ha dias os visitei.

Elle alcançou uma excellente collocação n’uma casa bancaria; ella tem o singular segredo de ser economica com elegancia e laboriosa com gentil dignidade.

São ambos felizes como dois leaes corações que se estremecem e se entendem.

No seu gabinete confortavel e artisticamente arranjado pelas mãos de Angelina, quantas vezes á noite no tranquillo recolhimento do serão commum, os dois noivos não lamentam a sorte dos seus parentes millionarios!

Clotilde não casou ainda nem casará talvez.

Apparece em todas as festas, em todos os bailes, em todos os theatros, sempre com o seu eterno sorriso mordaz nos labios empallidecidos.

Ha porém quem julgue lêr na sua bella physionomia altiva, uns toques de intraduzivel soffrimento.


O ROMANCE DE ADELINA

(FRAGMENTOS DE CARTAS)

Meu pae, minha mãe, as pessoas que me cercam dizem-me continuamente que a vida é triste, que o dever tem sempre um aspecto difficil, que as chiméras da nossa imaginação nunca chegam a realizar-se…

Eu ouço-os, mas affirmo-te que não estou nada convencida.

Supponho ás vezes que vejo a existencia pelo avesso, que tenho um modo muito extravagante de comprehender as cousas.

Ouço por exemplo chamar romanescas a todas as mulheres loucas ou desgraçadas.

Ás que deixam seus maridos para seguir um[126] sujeito de bigode e collete branco que lhes recitou versos ao piano entre dois candelabros; ás que andam toda a vida á procura de um ideal que ora encontram ora deixam, percebendo que se enganaram; ás que usam olheiras e cabellos cahidos, e fallam do seu desespero inconsolado entre uma quadrilha e uma valsa.

Para mim essas mulheres são tudo menos romanescas.

Sabes ao que eu chamo romantismo?

A uma aspiração delicada, a tudo que é bello e bom. A um desejo ardente de perfeição que se não satisfaz facilmente. A uma tendencia para idealisar os deveres e os sentimentos.

Crê, minha boa Thereza, que não ha ninguem mais romantica do que eu!

Chego ás vezes a ter medo de que isto seja um pendor funesto que me arraste a algum desvario.

No outro dia casou aqui uma prima minha.

É uma galante rapariga, bem educada e intelligente.

Encontrou o noivo uma duzia de vezes, elle pediu-lhe licença para confessar aos paes que a amava muito.

D’alli a dous mezes, concluidos os preparativos, casaram-se.

Não se conhecem nada, mas como as fortunas,[127] as idades, e as posições dos paes estavam em harmonia, concluiram que se haviam de dar optimamente.

Aquelle casamento que agradou a toda a gente, consternou-me a mim.

O meu casamento ha de ser o unico romance da minha vida, mas affirmo-te que o quero bem longo, bem completo. Quero que as suas paginas luminosas lidas uma vez me dourem de mysteriosa claridade todo o futuro. Quero amar o meu noivo para adorar eternamente o meu marido.

Dizem que o dever é sempre custoso de cumprir.

Conforme!

Eu tenho dezoito annos, e nunca até hoje liguei á ideia do dever uma ideia que não fosse de satisfação intima.

Sou tão feliz em amar meus paes, em soccorrer os desgraçados, em cultivar o meu espirito, em sacrificar os meus prazeres aos prazeres de alguem!

O sacrificio seja elle de que genero fôr, parece-me uma dôr suave, uma sensação de pungitiva delicia, que nos eleva e nos engrandece.

Só os que sabem sacrificar-se affirmam a sua superioridade.

Tenho medo de ser criminosamente aristocrata.

Parece-me que assim como as pessoas bem educadas[128] nunca se deixam avassallar pela gula, pela violencia dos appetites grosseiros, assim as almas finas não devem entregar-se a uma ambição desregrada de prazeres.

Soffrer é uma condição humana, mas ha soffrimentos que são a mais requintada das doçuras.

Ás vezes olho para minha mãe e lembro-me que se pudesse trocar a minha robustez pela sua debil saude, a minha cabelleira densa e loura pelos seus lindos cabellos brancos, a minha alegria exhuberante pelo seu sorriso meigo e soffredor, conheceria um gráo de felicidade mais puro, mais alto do que todos os gozos que até agora experimentei.

E no emtanto ao dar-lhe a minha mocidade, ao receber em troca a sua velhice, de certo que sentiria infinitas saudades!

Não se renuncia friamente a todas as esperanças do futuro!

Seria, porém, uma das taes dôres que eu amo, uma d’aquellas tristezas divinas que fazem bem á alma e como que a depuram das imperfeições da terra.

Será isto romantismo, Theresa?


Andam commigo agora de baile em baile, de soirée em jantar.

[129]

Imaginam que me enganam, os queridos velhinhos!

Elles que gostam tanto do cantinho do fogão, onde conversam, e se recordam de tudo que passou, fingem um subito e inexplicavel desejo de distrações mundanas.

Eu sigo-os com um sorriso malicioso que ás vezes os assusta.

Sabes as minhas ideias, não é verdade?

Que garantias de futuro me daria a mim um marido apanhado a laço á luz dos lustres dourados, em uma sala de baile frivola e banal?

Não é ahi que eu encontrarei de certo o noivo da minha alma!

Porque é que se não poderá alliar a poesia do coração com os deveres da realidade? Não entendo isto!

Pois só serão deliciosos os amores vedados?

A mim parece-me que a vida com o seu cortejo de dores, de deveres, de sacrificios, de affectos, a vida com a sua manhã purpurea e gorgeada, com o seu meio dia luminoso em que rompe em ondas crystallinas a musica triumphante dos vinte annos, com a sua tarde melancolica d’uma doçura indefinida e dubia, com a sua noite emfim, noite estrellada e calma, em que esmorecem e expiram todos os rumores da terra, é como que um poema[130] completo, uma symphonia em que ha todas as notas, todos os tons, todas as expressões.

Os que amaldiçoam a vida, ou querem fugir das suas commoções naturaes, procurando n’um meio artificial, n’uma atmosphera de estufa outros gozos, outros prazeres, outras angustias, são esses que não entendem a opulencia harmoniosa da criação!

Ser filha, e noiva e esposa e mãe! onde acharemos estados da alma mais completos que aquelles que resultam naturalmente d’estes modos de ser?

Aqui ha tudo! Alegrias, dôres, sobre-saltos, esperanças, sonhos, arrebatamentos, extasis ineffaveis!

Não proscrevamos o romance da vida, pelo contrario identifiquemol-o com a vida!

Ponhamos no nosso modo de sentir a maior porção de ideal, a que sejamos accessiveis.

Pensar que o dever só póde comprehender-se terra a terra é amesquinhar e rebaixar o dever!

A paixão não precisa de ser criminosa para nos dar gozos supremos; creio mesmo que é o crime que a torna amarga aos labios e dolorosa ao coração!


Perguntavas-me no outro dia maliciosamente se[131] eu faço a minha leitura predilecta da Moral em acção.

Não faço.

Se ha cousa que eu acho desmoralisador é um tratado de moral chaufé à froid.

Sabes quem são os meus mestres do bom e do bello? São Beethoven, Mozart, Hayden, os meus queridos e nobres artistas.

Cada dia me deixo levar mais apaixonadamente por este amor da musica que me consola, e me levanta e por assim dizer me realiza todos os sonhos ambiciosos da minha alma.

Presinto que se chegar na vida para mim uma hora sombria em que veja por terra os meus idolos, a musica me ha de consolar de tudo!

Ha pessoas que choram com a musica. Foge sempre da musica que faz chorar. É enervante, é perigosa e traiçoeira.

Mozart e Beethoven não enfraquecem, fortificam. Dão-nos á alma como um grande banho de ar puro.

Fazem-nos subir ás alturas immaculadas e de lá ver tudo que é pequeno, ephemero, transitorio aos nossos pés.

Ó Beethoven, se eu alguma vez fôr trahida envolve-me nas tuas azas de luz!

[132]


Não te disse eu que o meu romance existia algures, n’um mysterioso recanto onde eu ainda não déra com elle?

Não me enganei.

Existe.

Tem vinte e cinco annos, ha muita gente que diz que elle é feio. Eu acho-o simplesmente adoravel.

Tem uns bellos olhos escuros que a paixão illumina, de que a ironia faz chispar faiscas sombrias, e que em horas de embevecimento e de ternura tem segredos doces de uma bondade ineffavel! Tem uma testa larga e pensativa, e uma boca desdenhosa como se o sarcasmo a houvesse affeiçoado.

Acham-lhe innumeros defeitos, eu acho-lhe sómente alguns.

Mas é para aquelles que a vida endureceu e azedou, que as almas moças devem abrir os mananciaes da sua fé.

Hontem disse-me, depois de me ter ouvido tocar piano durante tres horas, que eu lhe fizera tanto bem, que se esquecia por amor de mim do mal que todos os outros lhe tinham feito.

Estas palavras que em outra boca seriam uma banalidade, na boca d’elle pareceram-me um juramento que vinculava para sempre as nossas duas vidas.

[133]


Tres annos de silencio! Como é que tu has de perdoar-me, Thereza!

Mas se eu te disser uma cousa, só uma cousa, perdôas-me de certo.

Sou muito infeliz.

Quiz talvez realizar o impossivel, quiz achar no amor de meu marido o conjuncto de todos os amores de que eu me sentia capaz.

Fiz tudo para conservar a felicidade, e a felicidade fugiu-me.

Elle vê em mim um pezo, uma prisão, talvez que um grande desapontamento.

Nunca me queixo. Para que?

A gente não deve queixar se, porque é uma humilhação escusada e inutil.

Procuro convencer-me de que na vida de todas as mulheres ha d’estes cilicios occultos que ellas supportam ageitando nos labios um sorriso heroico.

Não renego nenhuma das minhas ideias. O dever consola, o dever compensa.

Não comprehendo que, porque um faltou ao contrato ideal que fez com a consciencia, o outro deva faltar tambem.

Emquanto elle me quizer junto de si, hei de dar-lhe toda a minha vida, feliz d’este sacrificio sem paga.

[134]

Illudi-me porque lhe quiz muito, e perdôo-lhe por que me illudi.


Hontem, minha mãe, a pobre velhinha que succumbe ás agonias da sua recente viuvez, dizia-me diante do berço de meu filho desamparado, do meu orphãozinho, cujo pae vive ainda:—Acabou-se tudo! Naufragámos todos tres!

Pelo contrario! Agora é que tudo começa!

Não imaginas a coragem e a energia que eu sinto em mim!

Sou eu, minha mãe e meu filho.

Uma quasi que perdeu a consciencia, o outro não a tem ainda. Sou eu que preciso pensar e trabalhar por todos tres.

Na grande desgraça que me feriu, a ideia de que sou necessaria, de que me tornei indispensavel aos entes a quem mais quero, inoculou-me no espirito dilacerado uma força superior.

Mas como foi que tudo isto succedeu? perguntas tu cheia de pasmo.

Não sei! Uma mulher que passou, uma artista que tinha em talento o que lhe faltava em coração e que o levou atrás de si, satelite desprezivel, de um astro cahido.

Não tenho saudades d’elle, crê que não tenho.

[135]

O homem que eu amei era uma nobre e digna creatura, incapaz de transigir com a honra, e de submetter-se á tyrannia dos appetites brutaes.

Tinha defeitos, era violento, apaixonado, irascivel, mas era honesto.

Esse homem morreu, ou não existiu nunca.

O que fugiu não se parecia com elle.

Quando estou só, estremeço ás vezes com um asco intraduzivel de mim propria.

Quem é que se consola das maculas de um tal amor?

Não te disse eu, que se tudo me faltasse, os meus velhos mestres, os meus amigos, as almas sonoras e transparentes que sabem traduzir em sons tudo que ha de bello na natureza, as côres, os perfumes, as linhas, o mundo da materia e o mundo do espirito; não te disse eu que elles me consolariam e me haviam de amparar?!

Chegou o momento supremo.

Chamei os e não faltaram ao meu apello.

Mostrei-lhes o meu coração partido, o meu orgulho machucado, as minhas illusões desfeitas e disse-lhes: Consolai-me! Mostrei-lhes o meu filho pequenino, e a minha mãe decrepita, e disse-lhes: dae-lhes pão!

E ouviram-me as almas adoraveis!

Sinto em mim a virilidade augusta dos fortes.

[136]


O meu Arthur tem hoje quinze annos.

É um formoso adolescente, louro e timido como uma virgem.

Vivemos eu e elle n’uma casinha de um bairro tranquillo e retirado.

De dia elle frequenta o lyceu, e eu dou as minhas lições de musica, á noite lemos, conversamos e tocamos juntos.

Todos os annos, n’um dia certo, fazemos uma romagem piedosa.

Vamos visitar ao cemiterio o tumulo de pedra, pobre e modesto, onde dorme o seu tranquillo somno a minha querida mãe.

Foram serenos e doces os ultimos dias que ella viveu na terra.

Ajudou a crear o meu Arthur, que era tão endiabrado e travesso como hoje é tranquillo e scismador!

Eu sahia de casa muito cedo, e deixava-os a ambos juntos a papaguearem alegremente, porque não ha nada que illumine a tristeza dos velhos como a alegria dos netos.

Ao principio era-me doloroso aquelle monotono trabalho de ensinar os principios de musica, mas quando vi desenvolver-se em casa o conforto devido[137] aos meus pertinazes esforços, cobrei nova coragem e alentos novos.

Sahia com mais animo e voltava com mais alegria.

Em mim faziam-se dous trabalhos: Procurava afazer-me á minha nova existencia e apagar da memoria o meu passado enganoso.

Tivera o meu romance, e o romance deixára-me na boca o travor amargo das cousas insalubres!

Em todo o caso nunca me arrependi de ter aspirado a saciar a minha sêde de ideal nas fontes puras do coração.

Era mais feliz na minha infelicidade que os outros nas suas alegrias!

A minha vida de professora, fazendo-me penetrar em muitas casas diversas, deu-me ensejo para conhecer melhor o mundo.

Encontrei muita gente alegre e satisfeita que me causou profundo dó.

Marido e mulher separados pelas ideias moraes, pelas crenças religiosas, pelas occupações, pelas indoles diversas, pelo modo antithectico de encarar as cousas; unidos sómente por um laço, o habito; por uma força, as conveniencias sociaes.

Oh! antes o meu desamparo, antes o abandono em que eu fiquei na flôr da vida!

Conheci muitas mulheres que procuravam no[138] turbilhão mundano consolação para intimas tristezas; outras, que me confessaram chorando, que a ingratidão e a inconstancia do marido as arrastára á perdição, ao desprezo de si proprias.

Não as repelli, porque não tinha direito para ser implacavel; lamentei-as, não porque as achasse dignas de lastima, mas porque me pareciam dignas de desdem!

Como se o crime posterior da mulher não fosse a justificação do crime anterior do marido!

Ser boa e digna e virtuosa, quando tudo nos ajuda a isso, grande milagre!

Na solidão, no abandono, na injustiça do mundo, é que a honestidade da mulher se acrisola!

Se meu marido não houvesse fugido de mim, deixando-me nos braços uma creancinha de mezes, como poderia eu conhecer as luctas da vida e ter sahido triumphante das provações da desgraça?

Não imaginas, querida amiga, como hoje é doce e tranquillo o meu outomno!

Em primeiro lugar o querido anjo que eu eduquei sósinha, depois a musica, as flôres e os bons livros. Falta-me a minha mãe querida, mas essa morreu abençoando-me!

Ao domingo, quando eu e Arthur nos achamos bem sós, no nosso pequeno gabinete de trabalho, chego a conceber a beatitude do paraizo.

[139]

Sento-me ao piano e toco, toco até me sentir sem forças.

Converso longamente com os amigos da minha mocidade, com os que me vestiram a alma da crystallina armadura que resistiu a todos os attrictos da miseria humana.

Conto-lhes as luminosas aspirações da minha adolescencia, a ideia que eu fazia da abnegação, do amor, do sacrificio; e os esforços que empreguei para me cingir sempre a essa ideia levantada e superior.

Conto-lhes o bello instante radioso em que na minha vida desabrochou a flôr mysteriosa que elles me haviam ensinado a julgar o premio mais dôce de um coração cheio de fé. E com que extremos eu cultivei essa flôr que um dia se desfez em cinzas nas minhas tremulas mãos! E como a doce illusão de a possuir me fizera melhor!

Depois conto-lhes a tempestade que subitamente fez sobre mim a sua explosão sinistra, e o meu desamparo e a minha dôr fulminadora, e a vacillação tremenda em que eu vi tudo que julgara immutavel prestes a desabar, deixando-me só ruinas!

Foi então que o amor d’elles me salvou, foi então que as suas vozes divinas me chamaram, e que, na esphera elevada em que elles moram, eu[140] me senti penetrar da calmaria adormecedora de todas as paixões ruins!

No outro dia, depois de tocar duas horas, esquecida de tudo, procurei meu filho e achei-o de joelhos ao pé de mim.

Tinha a gentil cabeça loura mergulhada nos meus vestidos, e, quando levantou os olhos cheios de lagrimas, disse-me com uma voz em que se fundiam todas as musicas:

—Ó mãe, Deus te abençôe, porque foste ultrajada e trahida, e eu posso amar-te e respeitar-te.


A CIGANA

Quando o gageiro gritou do alto das vergas—terra!—toda a gente que vinha a bordo da galera Terrivel sentiu uma grande e indefinida alegria.

Subiram uns para o tombadilho, outros deixaram-se ficar no convez, e os passageiros da prôa, os mais pobres, encarapitaram-se na amurada; começaram todos a olhar com uma anciedade febril para a facha escura que a pouco e pouco avultava no horizonte.

A viagem tinha sido longa; a galera levára cincoenta dias a chegar do Rio de Janeiro.

Mas, todas essas penas, todo esse aborrecimento que assaltam o viajante que durante dias e dias não vê mais que o céo e o mar, desapparecem[142] como que por encanto ante essa palavra magica, solta pelo gageiro—terra!

Os passageiros eram, na maior parte, gente de baixa condição e de ambições modestas: tinham sido no Brazil carroceiros, feitores de roça, carpinteiros e pedreiros.

Vinham com pouco dinheiro, mas traziam grande abundancia de saudades; tinham soffrido, padecido longe da patria, mas como ella os ia compensar de todas essas amarguras!

A alegria bailava em todos os olhos.

Ah! o capitão Navarro, apezar de ter feito aquella viagem cincoenta vezes, tambem vinha contente e esfregava as mãos, tomado de um jubilo desmedido.

Quando o piloto se correspondia com o castello da barra, o capitão impaciente, mas sem perder o seu aspecto risonho e benevolo, perguntava:

—Deixam-nos ou não nos deixam entrar a barra?

—Estão-me agora a perguntar se morreu alguem a bordo.

—Ora essa! Morto estou eu por me vêr em Massarellos. Querem vêr que ainda temos que ir dar com os ossos em Vigo? Com mil bombas! Era o que me faltava agora!

Mas não aconteceu o que o capitão receiava:[143] do castello fizeram signal que a galera podia entrar, e foi com uma voz vibrante de enthusiasmo e de um prazer intenso que o capitão commandou a manobra.

A galera como um cavallo que obedece facilmente á pericia de um optimo cavalleiro, proejou a barra em meio das exclamações dos impacientes e saudosos passageiros.


A galera fundeou defronte de Massarellos.

No dia seguinte, já não havia alli senão parte da tripulação e um ou outro marinheiro que não tinha familia e que olhava para o cáes com repugnancia e com desdem.

As capoeiras em redor do tombadilho estavam despovoadas, a roda do leme reluzia ao sol, parada, sem movimento, as tampas enceradas da meia laranja abriam-se como as azas de uma enorme borboleta em repouso, e as mangueiras de linho cheias, retezadas, levavam o ar á camara e ao porão.

Um bello dia de agosto!

O capitão Navarro assistia ao descarregar sentado em uma barrica de farinha de mandioca; o[144] contra-mestre no portaló olhava mais lentamente para o Douro como quem procura enxergar uma cousa desejada e cubiçada.

—Ainda nada? perguntou o capitão.

—Admira, capitão! Das outras veses pouco se deixa esperar essa visita.

E com a mão em quebra-luz continuava a observar o movimento dos botes e das catraias.

De repente, a Cigana, uma cadella de fila que era o idolo de toda a tripulação do navio, deu um salto, subiu as escadas do portaló, e alongando o pescoço, meneou festivamente a cauda e ladrou de contente…

Era um latir alegre e de boa feição, o latir que ouvimos aos cães das nossas casas, quando recolhemos depois de longa ausencia.

—Espera! disse o contra-mestre, a Cigana tem faro. Ahi vem a sua gente, capitão!

Navarro ergueu-se, olhou e viu um barco que, á força de remos, se dirigia para a galera.

—Até que emfim! disse o capitão, e desceu cheio de contentamento as escadas do portaló…

A cadella, vendo descer o dono, acompanhou-o e saltou ao mesmo tempo que elle para o interior do barco.

O contra-mestre olhava de cima aquelle quadro e murmurava entre alegre e melancolico:

[145]

—Parece que é bom ter familia e ter uma pequerrucha bonita como a do capitão que nos venha dar um abraço quando vimos de longe…

—Assim será, meu contra-mestre, mas quando essa filha vem de luto, devendo vir vestida de côres alegres; quando ella nos vem dizer com a voz abafada em lagrimas e soluços—a mamã morreu!—não me parece que seja muito para invejar, meu rude celibatario, que não tens outro affecto senão pela tua galera e pelo mar, a quem confiaste a tua mocidade e a quem confiarás um dia o repouso do teu corpo!


De sorte que aquelle momento tão appetecido pelo capitão foi-lhe amargurado pela noticia da morte da mulher que elle extremecia devéras.

Eram quatro os affectos do capitão: a mulher, a filha, a Cigana e a sua bonita e garbosa galera.

O primeiro affecto desapparecêra, restavam-lhe ainda os tres; não tinha muito que se queixar do destino: a galera ali estava capaz ainda de arrostar com sessenta viagens, a filha dependurava-se-lhe do peito amplo e largo, cheia de viço e de adoravel meiguice, e aos pés de ambos, rojava-se latindo[146] baixo a Cigana, acariciando-os com os olhos onde havia o indefinido das vagas, e como que um lampejo humedecido de uma ternura doce e humana.

A filha de Navarro, depois de haver chorado no seio do pae, abaixou-se e passou a mão pela cabeça da cadella.

—Quando partir de novo, papá, deixe-me a Cigana, sim? A mamã era tão amiga d’ella!

Cigana, parecendo comprehender aquellas palavras, endireitou-se, e pousando as patas no collo da menina, beijou-lhe carinhosamente as mãos…

Quando Navarro chegava do Brazil e ia passar algum tempo a Lessa com a familia, levava sempre em sua companhia o seu querido animal! Imagine-se como este seria amimado, festejado e cheio de affagos quando souberam que uma vez no alto mar…


Não sei quantas milhas devorava n’esse momento a galera.

Era meio-dia, fazia um sol de rachar, os marinheiros á prôa comiam o rancho, e na tolda não estava senão o capitão, a Cigana, e o homem do leme.

[147]

O piloto fôra buscar ao seu beliche um mappa que o capitão lhe pedira, e demorara-se mais que o tempo necessario. Navarro ergueu-se do banco de vime e encostou se ás grades da ré.

Como foi aquillo? Vertigem? Congestão cerebral?

Foi elle encostar-se á grade, estar alli cousa de dous ou tres minutos, e de subito borcar-se-lhe o corpo nas ondas…

O homem do leme viu aquillo, e afflictivamente exclamou:

—Jesus! acudam!

E quando os passageiros correram ao tombadilho e a tripulação veiu saber o que succedera, o piloto, pallido e assustado, mandou colher todo o pano; podia vêr-se ao longe em meio das aguas, que faiscavam e transluziam os raios do sol, um ponto negro e que pouco a pouco parecia affastar-se, affastar-se…

Os dous escaleres da ré foram descidos ao mar, e dentro d’elles os mais robustos dos tripulantes.

—A modo que elle não estava bom! disse o homem do leme. Que eu só reparei n’elle quando o vi no ar…

—Deitem-lhe a boia! gritou o contra-mestre.

N’aquelle momento de anciedade, procurou-se a boia e não se encontrou.

O contra-mestre estava desesperado, as pragas[148] mais violentas sahiam-lhe em borbotões por entre os dentes, que apertavam estreitamente o tubo fumoso do cachimbo.

O navio afrouxára a sua marcha, comtudo os escaleres ainda iam bastante longe do ponto negro que todos julgavam ser o capitão.

—Lá bom nadador é elle, dizia o contra-mestre, mas se ha tubarões assim! e reunia os dedos em pinha.

Estendia os braços, dependurava-se da grade da pôpa, e com gestos anciosos tentava animar os marinheiros dos escaleres.

—Força, rapazes!

No rosto de todos os passageiros lia-se um grande terror e uma pena profunda.

Era impossivel escapar. O capitão apesar de bom nadador já estava velho e cançado, depois os tubarões…

Os marinheiros contavam casos horrendos que haviam presenciado, e em que figuravam esses assanhados tigres do mar.

—Valha-nos o senhor de Mattosinhos! conclamavam n’um grito lancinante aquelles homens, que tantas vezes tinham luctado heroicamente contra as colericas sanhas da tempestade, e que adoravam o bondoso velho, o seu capitão.

O ponto negro ia-se distinguindo mais nitidamente:[149] ás vezes afundava-se, outras vezes immergia-se; e emquanto os escaleres voavam, o contra-mestre continuava a gritar, posto que as suas vozes já não pudessem ser ouvidas pelos que iam em salvamento de Navarro.

Quando o vulto vinha a distancia de uma milha o contra-mestre exclamou, affirmando a vista:

—Ou eu me engano, ou o capitão não vem sósinho… esperem! é a Cigana que traz a reboque o patrão!…

Era a Cigana effectivamente. Quando o velho cahira ao mar, o animal atirara-se logo atrás, e mergulhando conseguira apertar nos dentes as roupas do capitão, e desde esse instante nunca mais o largára.

Quando os escaleres se aproximaram dos dous, a pobre Cigana estava quasi exhausta e sem forças.

Arrancaram-lhe a custo da boca o seu querido fardo e ella continuou a nadar frouxamente sem poder resistir ás ondas que a levavam de chofre de encontro aos escaleres.

Quiz subir, galgar a borda de um dos escaleres, e não pôde, resvalou na agua, ganindo dolorosamente, sendo preciso que um dos marinheiros a empolgasse com força, arrebatando-a assim á morte inevitavel.

[150]

Da galera, applaudiram a acção da Cigana, e quando ella e o capitão chegaram, não sei bem qual dos dous foi mais abraçado.

—Bravo, Cigana! exclamou o contra-mestre, não ha homem que te valha. Dá cá um abraço!

O capitão foi levado por dous marinheiros para a sua camara, emquanto a Cigana, resfolegando alto, com os olhos embaciados, o corpo escorrendo agua e todo tremulo, tentava arrastar-se para onde lhe levavam o dono.


Ora, aqui está porque a Cigana era tão querida e estimada na pequena e alegre casa do capitão em Lessa, e aqui está a razão por que a filha do velho e bondoso Navarro lhe pedia com tão amavel meiguice que deixasse ficar a Cigana quando para a outra vez tivesse de fazer viagem.

Quando a galera Terrivel partiu, não levava a seu bordo nem o capitão nem a Cigana. Porque?

Se o leitor é pae diga-me, se no caso do capitão Navarro, teria forças de fazer-se ao largo e deixar sósinha uma filha de quinze annos, graciosa e encantadora.

Não tinha forças para tal, acreditamos.

Ao capitão succedeu o mesmo. Despediu-se dos[151] seus companheiros, chorou quando viu pela primeira vez a Terrivel fazer-se de vela sem elle, mas ficou em terra.

Tinha saudades, isso tinha, do mar, da solidão magestosa das aguas, da melancolia das horas da calma, das tempestades que, de quando em quando, o visitavam, mas fitava os olhos azues da filha e bebia n’elles consolações que lhe amorteciam essas maguas.

Ás vezes, sahia de casa acompanhado pela Cigana, e ficava-se á beira do mar, observando os navios que passavam a distancia, absorvendo a plenos pulmões o saudavel ar maritimo, regalava-se conversando com os pescadores e com os embarcadiços, e n’essas tardes recolhia mais alegre e com o corpo mais direito e rejuvenescido.

Outras vezes, ia n’um bote pelo amenissimo rio Lessa acima, e n’essas excursões levava quasi sempre a sua querida Luiza, e quasi sempre n’esses passeios em que elle contava á filha as peripecias de toda a sua vida trabalhosa, encontrava-se com outro bote em que ia ao leme um moço de vinte annos, elegante e galhardo que o comprimentava respeitosamente.

Á terceira vez que aquelle encontro se deu, o velho disse á filha:

—Não sei se conheço aquelle moço? É o filho[152] unico de um meu antigo companheiro. O pae está rico, está. Eu tambem por aquelle preço podia estar como elle ou melhor. Que se elle tem muito de seu, a mim m’o deve. Joaquim Antonio Ferreira, que depois foi feito Conde da Guaratiba, bem queria que eu fosse capitão de uma sua barca, recusei, porém, sempre, e apresentei-lhe um dia Gouvêa, o pae d’esse rapaz, que afinal de contas depois de seis ou sete viagens felizes á Africa, deixa a vida do mar e foi um dos que mais lotes de escravos levava aos armazens de Vallongo… Ser rico á custa de tantas lagrimas não era para o filho de meu pae…

E aqui entrava o capitão a contar a Luiza cousas da sua mocidade, e absorvido n’essas recordações não reparava que a filha seguia com a vista anciosa o barco em que ia o herdeiro do millionario Gouvêa.


Luiza amava, e amava com o primeiro e grande affecto de quinze annos.

Segregada das moças da sua idade, não tinha a quem confiar tantos e tão amantissimos segredos: embriagada por aquelle amor, deixava-se ir deliciosamente pela correnteza, sem medo de encontrar[153] um dia a voragem que a tragasse, o abysmo em que se lhe afundasse a honra e a vida.

Nunca tinha fallado ao noivo da sua alma; via-o de longe, ora passar a cavallo pela rua em que morava, ora no rio quando o pae a levava aos costumados passeios.

Conhecia-o pelas cartas, que lia, relia e decorava, e a todas ellas respondêra, menos á ultima cujo conteudo a trazia surpreza, enlevada, vibrante…

O não responder a essa carta era como que um assentimento a um pedido que n’ella se fazia.

O velho capitão n’essa noite pedira á filha que lhe lesse uns livros de viagem. Luiza lia perfeitamente, com uma entoação harmoniosissima, e dando com a voz um relevo maravilhoso á narrativa. O capitão, com o corpo reclinado na poltrona, o cachimbo apertado nos dentes, e a cabeça da Cigana nos joelhos, sorria na plena beatitude de um goso indefinido. De vez em quando, accordava d’aquella deliciosa somnolencia e emendava as incoherencias e os enganos do escriptor.

—Nada, nada, isso não é assim. Venham cá dizer-m’o a mim, que passei por esse ponto mais de trinta vezes…

Ás dez horas serviu-se o chá, a Cigana foi levada para o quintal, e Luiza acompanhou o pae até ao limiar do quarto.

[154]

—Deus te abençôe, minha filha, disse o velho ao despedir-se, e beijou Luiza na testa.

—Hoje tenho pouco somno, papá, fico ainda a lêr um bocadito na sala, se o papá quizer alguma cousa chame-me, sim? Vou acabar de lêr este livro, acho-o muito bonito. Gosto tanto da vida do mar!

—Filho de peixe sabe nadar, volveu o capitão sorrindo com o divino sorriso dos paes, que se crêem unicos senhores dos affectos dos filhos.

Passada meia hora, ouviu-se no quintal o ladrar continuo, frenetico e raivoso da Cigana.

O capitão gritou da cama:

—O que é aquillo, filha? A Cigana está hoje como nunca a vi. Vai socegal-a, se não tens somno, e prende-a. Naturalmente os pescadores saltaram-me á fructa. É o que é. Deixal-os lá, coitados! Estes dias tem havido pouco peixe. Não vá a Cigana fazer alguma das suas… Ora vae, anda, tem paciencia… Eu não vou porque me sinto fatigado e exquisito hoje… A Cigana ouvindo-te, socega…


Luiza desceu ao pateo.

Abriu com mão tremula a cancella e encostou-se vacillante, agitada e convulsa ao muro. O ladrar[155] da cadella cessára. Adiantou-se. No fundo do jardim sob a latada, um vulto cosia-se com a parede. A pobre menina levou as mãos ao peito, como para socegar a douda violencia do coração que parecia suffocal-a; quiz fallar e não pôde. O corpo vergava-se-lhe frouxo, molle, sem forças…

De repente sahiu das sombras das arvores a Cigana, que se arrastou para Luiza, ganindo dilacerantemente, movendo com difficuldade a cauda, com a parte posterior do corpo quasi paralytica, escorrendo-lhe da boca uma baba espessa, com os olhos dilatados desmedidamente…

N’aquelle olhar que a claridade da lua deixava distinguir havia um pedido, uma supplica.

Cigana! exclamou Luiza.

Ouvindo aquella voz, a cadella, que se sustentava difficilmente nas patas dianteiras, ergueu ainda, por um supremo esforço, a cabeça, e, tomada de uma ancia afflictiva, convulsionando-se-lhe o corpo n’um estremecimento instantaneo, soltou um gemido rouco, escabujou violentamente, e cahiu morta aos pés da filha do capitão.

—A sua Cigana é muito má, mas ainda é mais gulosa, disse o vulto que se escondia sob a latada.

—Que mal lhe fez este animal, sr. Gouvêa? perguntou reprehensivamente Luiza, estrangulando-se-lhe a voz na garganta.

[156]

—Boa pergunta! Não subisse eu tão depressa para o muro e estava asseiado a estas horas! O demonio do bicho! Mas vinha prevenido, atirei-lhe uma bola, que lhe soube como se fosse manteiga. Ora deixe lá o cão, querida, não se faça piégas…

Luiza interrompeu bruscamente aquellas palavras tolissimas, e endireitando o corpo, ergueu a voz quebrada pelas lagrimas:

—Saia, saia depressa; se não quer que meu pae o venha aqui matar sem ser tão cobardemente como o senhor acaba de matar a minha pobre Cigana.

E emquanto o vulto marinhava pelo muro, a desditosa creatura abraçava a Cigana, e chorava como sómente uma vez em vida chorára, quando lhe levaram para fóra de casa o corpo de sua mãe.

Cigana, minha pobre Cigana! repetia Luiza, fui eu que te matei!

Ao outro dia murmurava o capitão, fingindo-se sereno e forte para poder consolar a filha:

—Vão lá depois fazer bem… Eu mandava prender a Cigana para que não fizesse mal a ninguem, e pagaram-me d’esta fórma!…

E o velho, para não chorar tambem, fingia que não reparava nas lagrimas que rolavam como perolas pelo rosto descolorido e pallido da filha.


DUAS FACES DE UMA MEDALHA

Ella tinha já feito vinte e cinco annos, elle contava apenas vinte e dous.

Era uma creança triste e ambiciosa.

Sonhava no impossivel, e n’esse sonho creava forças heroicas para todas as luctas da realidade.

Margarida distinguira-o no meio de todos os homens ricos, elegantes, nobres ou poderosos, que a rodeavam e acclamavam rainha.

É que na fronte d’elle, já cavada por duas linhas profundas, lia o que não lera ainda nos outros—o pensamento e a energia.

Sabia, porém, que seu pae, o banqueiro millionario, só a daria com prazer a quem trouxesse mais lustre ou mais dinheiro á sua casa, e timida, melancolica, sem disposições para as luctas da vida,[158] repugnava-lhe tudo que fosse combate ou resistencia.

Tinha sido doente desde pequenina, era um organismo nervoso e delicado, cheio de caprichos inconscientes, mais artistico do que reflexivo.

Gostava de musica, de flores, de versos, das cousas bellas e harmoniosas, tinha um vago desdem silencioso por tudo quanto via ser o enlevo e a preoccupação exclusiva dos seus.

O dinheiro! sempre o dinheiro!

Ninguem fallava em torno d’ella senão em dinheiro, e no entanto ella, que vivia n’um voluptuoso ninho de princeza de conto de fadas, tinha pelo dinheiro em si o mais soberano desdem.

Salvava-a isto da vulgaridade que mais ou menos contamina as mulheres ricas.

Margarida no inverno vivia em Lisboa.

Tinha então a vida futil e ociosa de todas as rainhas da alta vida.

Ia muito a S. Carlos, recebia n’uma certa noite da semana, presidia aos jantares dados por seu pae, ia passar muitas noites fóra, fazia compras, corria as modistas acompanhada sempre por miss Brown, uma correcta ingleza de sacca-rolhas côr de açafrão, que seu pae descobrira felizmente n’uma das suas viagens a Londres.

No meio d’esta vida artificial tão vazia e tão fatigante[159] ao mesmo tempo, que lugar havia para que ella pensasse, sentisse, desejasse alguma cousa para fóra do circulo estreito que a encerrava?

Margarida deixava-se viver.

Um dia, porém, n’um baile, apresentaram-lhe Eduardo de C., e depois de meia hora de conversação sentiu por elle o que não sentira ainda por nenhum outro.

Ficaram conhecidos.

Elle na sombra, de longe, já se vê; ella lá em cima na plena irradiação da sua graça, da sua formosura, da sua opulencia, de todo o seu esplendor.

Cumprimentavam-se com uns toques de familiaridade, e n’um ou n’outro baile d’estes a que vae toda a gente, a boa e a má, tinham-se apertado a mão mutuamente, e tinham trocado algumas phrases affectuosas.

No verão, o pae de Margarida, que tinha propriedades em varios pontos de Portugal, consultava a filha para que lhe indicasse a quinta em que mais gostaria de passar as calmas do estio.

Pouco tempo depois do encontro com Eduardo, Margarida, disse a seu pae, que a consultava como de costume:

—Este anno vamos para o Minho, sim? Sinto-me tão fraca, tão doente! O ar do Minho ha de por força fazer-me bem.

[160]

É verdade que nas vesperas, n’um baile, Eduardo dissera-lhe, approximando-se d’ella:

—Peço licença para apresentar a v. exc.a as minhas despedidas. Alcancei uma collocação em Vianna do Castello, e parto para alli um dia d’estes.

—Vianna! pensou Margarida emquanto dous raios de alegria se accendiam nas suas pupillas de um azul sombrio.

—É em Vianna a nossa quinta.


Partiram.

Na provincia a intimidade estabelece-se forçadamente entre pessoas que não pertencem ás mesmas camadas sociaes.

Para se admittir um sujeito em qualquer sala de provincia exige-se simplesmente que tenha uma educação limpa, e que possua alguma prenda de sociedade.

Em Vianna, na sala do grande banqueiro tão altivo e tão inaccessivel, reuniam-se não só os fidalgos mais primorosos das cercanias, como tambem os humildes funccionarios do Estado, que por aquellas regiões se achavam accommodados.

[161]

Margarida, com o seu porte de soberana, o seu sorriso altivo e distrahido, a graça ondeante da sua gentil figura, recebia a todos com a mesma benevola indifferença.

Todos a contemplavam fascinados e quasi medrosos.

Ninguem se atrevia a dirigir-lhe finezas banaes: de tal modo o olhar d’ella sabia tornar-se glacial, logo que adivinhava a pretenção de um namorado na amabilidade um tanto desastrada de algum dos seus convivas provincianos.

—Não ha aqui um empregado chamado Eduardo de C.? perguntava um dia na sala a elegante filha do banqueiro.

—Ha. Um rapaz muito estudioso, muito concentrado, que desenha muito bem, acudiu espevitadamente d’alli uma menina que fazia as delicias das soirées de Vianna, pela sua voz de falsete sempre prompta a torturar os ouvidos do proximo. Conhece-o?

—Foi-me apresentado este inverno em Lisboa; respondeu Margarida.

E accrescentou mentalmente:—Quem me dera que elle aqui apparecesse! Como me distrahiria de tudo isto que me cérca.

Isto era uma duzia de cavalheiros da provincia acompanhados das suas respectivas esposas ou manas,[162] tudo gente preoccupada dos interesses mais mesquinhos, das pequenas intrigas mais pueris, fallando, gesticulando, dançando, tocando, cantando, murmurando e constituindo a unica diversão das noites de Margarida.

Não sabemos de que traças usou a gentil lisboeta: sabemos que algumas noites depois d’esta, Eduardo de C. era apresentado por um fidalgote, aspirante e litterato, na sala do banqueiro.

Desde esse dia elle e Margarida formaram em commum uma especie de refugio contra a frivola banalidade d’aquellas noites.

Eduardo desenhava com muito chiste caricaturas e graciosos croquis, que Margarida guardava contentissima; ella cantava com a sua voz meiga e flexivel algumas simples melodias allemãs, ou tocava as musicas dos velhos mestres classicos, tão queridos de Eduardo.

Fallavam a respeito de tudo com a liberdade de pessoas que se entendem e apreciam.

Discutiam litteratura, musica e versos.

Ás vezes fallavam ambos do futuro.

—Que tem tenção de fazer? perguntava Margarida.

—Ora! Não sei bem. Com certeza hei de fazer alguma cousa. Ando a crear forças para a lucta. Ha de ser tenaz, ha de ser terrivel, bem sei, mas eu hei de vencer!

[163]

—Quer que lhe dê um talisman para entrar no fogo?

Elle envolveu-a em um olhar ardente; depois, baixando a vista, respondeu quasi com violencia:

—Não brinque comigo. Olhe, que me faz muito mal.


Margarida sabia que era amada.

Tambem ella sentia por elle o que nunca sentira, mas não tinha coragem para resistir ás ordens de seu pae.

Por esse tempo andava elle a arranjar o casamento da filha com o conde de V., um moço que tinha nas veias o sangue dos reis godos, e na cabeça a mais crassa estupidez de que ha memoria desde o tempo dos ditos.

Margarida sabia ou suspeitava do caso, mas deixava-se ir n’uma indolencia de crioula á mercê dos acontecimentos da sua vida.

Ao pé de Eduardo sentia-se bem, e quando elle a fixava com o seu bello olhar de ambicioso e de pensador, Margarida esquecia-se de tudo que não fosse a delicia de ser preferida por aquelle homem.

[164]


N’uma noite em que os hospedes habituaes estavam na sala, e em que junto da meza redonda do serão Eduardo e Margarida liam esquecidos de tudo que os cercava, felizes, despreoccupados como os dous amantes do florentino, ouviu-se o rodar de uma carruagem que parava á porta do palacio.

O banqueiro levantou-se rapidamente da banca do voltarete e sahiu da sala relanceando para a filha um olhar de esconso.

Margarida, sem saber porque, fez-se pallida como uma morta.

—Ó meu amigo—exclamou n’um impeto ardente, irresistivel, que não soube conter,—chegou o fim da nossa felicidade!

Eduardo olhou para ella desvairado.

—Que diz? que é isso? a que se refere?

N’este momento entrava na sala o pae de Margarida dando a direita ao ultimo herdeiro de nobres avoengos.

—O sr. conde de V… pronunciou com o orgulho humilde dos burguezes ambiciosos de honrarias sociaes, apresentando o recem-chegado a toda a companhia.

[165]

Margarida accolheu-o com um sorriso gelado.

Conhecia-o, sabia que o pae queria pôr-lhe sobre a cabeça loura e altiva uma corôa de condessa, e sentiu que dentro d’alma lhe estalava uma corda que nunca mais tornaria a vibrar!


D’alli a seis mezes todos os jornaes annunciavam na secção do high-life o casamento da filha do banqueiro opulento com o neto dos heroes medievicos.

Os noticiaristas fundavam as mais ardentes esperanças n’este consorcio que alliava o sangue nobilissimo e a fortuna collossal, e contavam com grandes minudencias as pompas d’aquella festa principesca, os presentes riquissimos que a noiva recebera, a toilette d’esta, a alegria dos numerosos convidados, etc., etc.

O que ninguem sabia é que esse casamento despedaçára duas vidas!


No fim de dez annos o conde de V… déra cabo do dote da mulher, e da vida do sogro, que morreu amaldiçoando-o.

[166]

Continuava, porém, la vie à grandes guides, que tinha começado no dia seguinte ao seu noivado, e já havia quem calculasse muito pela rama por quanto tempo podia durar ainda a desenfreada orgia d’aquella existencia de Marialva estupido.

Em casa da condessa o luxo não se modificára com as aproximações da pobreza.

No olhar d’ella divisava-se uma profunda e desdenhosa indifferença da vida.

Nem o amor maternal conseguira salval-a do desespero.

Ligada a um homem que desprezava do intimo d’alma, entristecida para sempre por uma d’estas recordações que lavram dia a dia, e que por fim se apossam de uma existencia inteira, Margarida procurava esquecer-se de si, aturdir-se no turbilhão das festas mundanas.

Os filhinhos estavam entregues ao cuidado d’aquella pobre miss Brown que ao vêr o abandono dos pobres anjos, innocentes das culpas de seus paes, se dedicára por elles com a abnegação profunda de que só é capaz uma ingleza feia!

Margarida passeava de carruagem, ia ao theatro, ao paço, aos bailes, ás festas de beneficencia, vendia nos bazares de caridade elegante, fazia e recebia visitas, e de vez em quando, se no meio d’este turbilhão avistava o marido, media-o de alto[167] a baixo com um olhar de profundo e inconcebivel tedio!

Eduardo durante estes dez annos tambem soffrera grandes modificações na sua vida.

Luctara como um homem, e soubera vencer a mediocridade do seu nascimento e da sua posição.

No instante em que aquella que elle um dia amara como a noiva estremecida da sua alma, sentia vagamente afundar-se no sorvedouro negro da miseria, elle recusara altivamente uma pasta de ministro e uma noiva brazileira, possuidora de duzentos contos fortes, isto depois de uma sessão legislativa, em que a sua palavra viva, nervosa, eloquente, colorida e artistica havia deslumbrado o paiz.

—Não me vendo por dinheiro, nem pelas honras mentirosas com que os tolos lançam poeira á cara uns dos outros; respondera a quem o interrogava espantado ácerca d’estas duas recusas.


Alguem, que me contou este vulgar episodio da vida moderna, mostrou-me o fragmento de uma carta que Margarida escreveu doze annos depois de casada a uma socia das suas antigas alegrias.

[168]

«É a ti que prefiro escrever. Conheceste-me solteira, feliz, idolo de um pae, que, ai de mim! se perdeu e me perdeu pela vaidade. Has de ter dó de mim.

«Tenho dois filhos e preciso ganhar honestamente o pão que elles hão de comer!

«Presinto o teu espanto, as tuas interrogações, os brados afflictivos da tua surpreza!

«Não me perguntes nada.

«Pergunta-o se quizeres, a essa Lisboa, que assistiu ao louco esphacelar de uma fortuna enorme, com o sorriso banal e adulador que ella tem para todos os perdularios.

«Sabes a educação que recebi.

«Creio que seria uma mestra capaz de cumprir com a minha ardua missão.

«Em nome dos teus louros pequeninos, tão fartos de gulodices e de beijos, arranja-me algum meio de ganhar um pedaço de pão para os meus filhos.»


Dava lições!

A brilhante Condessa de V…, a filha adorada de um dos homens mais ricos de Lisboa, a rainha dos salões luxuosos, a estrella mais fulgurante do alto mundo, dava lições para sustentar os dous[169] filhos que lhe restavam, unicos vestigios de um passado de pomposas mentiras.

O infortunio nobremente supportado transfigurara aquelle rosto desdenhoso e soberbo de garrida mundana.

Deixára de ser rainha e levantára-se martyr!

Levantava-se de manhã muito cedo, bebia á pressa uma chicara de café, que a sua fiel Miss Brown, companheira dos triumphos e das desventuras lhe preparava por suas proprias mãos, e sahia, modestamente vestida de preto, a cumprir a sua improba tarefa.

Só voltava a casa de noite.

Divulgára-se rapidamente a noticia d’aquella excepcional desventura, e muita gente, que vira com desprazer a prodigalidade da caprichosa condessa, compadecia se agora, sem pensamento reservado, d’aquella digna e santa expiação.

Margarida tinha muitas discipulas.

Fazia pena vel-a, muito delgada, quasi diaphana, com os olhos pisados, as faces córadas pelo cansaço e pela febre, e um sorriso triste resignado, humilde, n’aquelles labios que tinham sabido tregeitar com tão altivo desdem.

Era sempre a mesma alma sem energia.

Não esperava cousa nenhuma da terra senão a morte, levando a consciencia de ter expiado os erros do seu orgulho.

[170]

Cumpria uma penitencia, não encetava uma lucta heroica de que esperasse sahir vencedora.

N’uma tarde do mez de janeiro, chuvosa, humida e fria, Margarida subia a muito custo a calçada de S. Bento, em Lisboa, onde morava uma das suas discipulas.

A rua, viscosa e lamacenta, inspirava-lhe aquella repugnancia patricia, que a infeliz ainda não soubera vencer.

A atmosphera plumbea e carregada dava-lhe ao coração uma dose de invencivel tristeza.

Sentia-se predisposta para as recordações cruciantes para as inuteis fluctuações de um sonho que se extinguira.

Comprehendia com angustia que lhe faltava coragem para levar a cabo o doloroso dever que a si propria impuzera.

Oh! ella bem sabia que a sua alma não era da tempera das que luctam e se sacrificam!…

N’isto uma carroagem elegante descia a calçada ao passo de dous formosos cavallos inglezes.

Margarida, vendo a alguns passos o correio agaloado, percebeu que era um ministro e, sem querer, movida por um impulso subito, levantou os olhos e fitou os no homem que ia dentro do trem.

O que ella sentiu não se explica.

O ministro era Eduardo de C.

[171]

Os olhos dos dous encontraram-se.

Margarida quiz saborear a voluptuosa tortura de vêr n’esses olhos o brilho de um satanico orgulho, de um triumpho sinistro e mau.

Não viu!

Eduardo teve tempo de inundal-a em um d’estes olhares doces, unctuosos, cheios de misericordia, de doçura, de perdão; em um d’estes olhares que só podem comparar-se ao olhar do Christo redimindo a Magdalena!

Só de longe a tinha visto de vez em quando nas salas do alto mundo: nunca lhe fallara então; não quiz humilhal-a fallando-lhe agora!

Ella sentiu que se lhe despedaçara no peito alguma cousa indispensavel á vida.

Apertou em torno do corpo friorento e emmagrecido as pregas do seu pobre chale preto, abaixou a cabeça instinctivamente, como se fizesse pender para a terra um pezo estranho, e continuou a subir devagarinho, arrimando-se á parede, aquella eterna calçada, cheia de agua e de lama.

Cahia uma chuva fria e miuda que lhe encharcava o fato.

[172]


Um mez depois, da casa pequenina de Margarida sahia um enterro aceiado e modesto.

Era o enterro d’ella.

Miss Brown explicava que a pobre senhora voltara uma noite muito constipada das lições, que teimara em sahir ainda no dia seguinte, mas que tivera de recolher-se á cama, onde penou pouco menos de um mez.

O enterro de Margarida levava por acompanhamento unico uma carruagem sem brazão.

N’essa carruagem ia Eduardo de C.

Margarida, antes de morrer, escrevera-lhe uma carta cujas supplicas dolorosas iam apagadas pelas lagrimas.

Os dous orphãos de Margarida estão agora a educar-se em um dos melhores collegios de Lisboa, e todas as despezas da sua educação são pagas por um protector invisivel e mysterioso.

Ha quem dê a essa Providencia ignota o nome sympathico e hoje glorioso e querido de Eduardo de C.


A TIA IZABEL

Conhecia-a em casa de uma familia amiga da minha.

Affirmavam os que a tinham conhecido em menina, que fôra bonita; a mim parecia-me simplesmente sympathica.

Era alta, magra, loura e muito branca, uma physionomia serena e melancolica, sem muito relevo, mas com muita doçura.

Andava sempre vestida de escuro, com uma simplicidade em que transpareciam, porventura, vislumbres de antigas elegancias.

Ao olhar para ella conhecia-se que havia de ter gostado de certas puerilidades mundanas, de se vestir e pentear bem, por exemplo, de ser citada pelo esmero do seu gosto, e pela distincção finissima de suas maneiras.

[174]

Hoje todas as vaidades se tinham apagado; fizera quarenta annos, e acolhêra-os com resignação, com dignidade, com uma certa graça melancolica que lhe ficava muito bem.

Nenhum dos rapazes que frequentavam aquella casa se atrevia a chamar-lhe solteirona.

solteirona é a mulher solteira que não sabe acceitar resignada as amarguras da sua isolação, e as converte em ridiculos quando as não converte em pessimas qualidades.

solteirona é pretenciosa, presumida, avida de attrahir a attenção, revolve os olhos sentimentalmente, lê romances, come gulodices, tem um king charles e inveja tudo o que é moço, radiante, feliz, tudo que tem esperanças e para quem o futuro desabrocha em promessas.

solteirona é egoista, incommodam-na como uma injuria que lhe é particularmente dirigida todas as alegrias que não tem, persegue-a atrozmente a aspiração irrequieta a um pobre marido que podesse atormentar á vontade; sente-se na vida como n’uma casa que não é sua; d’aqui o seu mau humor continuado que torna d’ella quasi sempre o flagello da familia onde se sente pária!

A tia Izabel, porém, não era nada d’isto, pelo contrario.

Tinha para os sobrinhos um coração que, sem[175] ser de mãe, encerrava muito de maternal, sobretudo no que as mães têem de indulgente!

Nunca a vi colerica, nunca a vi tambem excessivamente animada.

Não se ria, mas tinha habitualmente um sorriso placido, quasi distrahido, o sorriso de quem se sente um pouco estranha a todas as alegrias que a rodeiam, mas que nem por isso deseja projectar as suas sombras na luz que os outros espalham em torno d’ella.

Era muito estimada pelo irmão, pela cunhada e pelos sobrinhos, uns traquinas que andavam sempre a recorrer á sua inexgotavel paciencia, e que nunca foram expulsos com um gesto de irritação ou de desamor.

Sabia a difficil sciencia de se tornar util a todos, quasi indispensavel; estreitando d’este modo os laços que a prendiam aos seus, tornando-os por assim dizer inquebrantaveis:

Sentia-se assim menos só!

Nos jantares de familia os melhores pratos eram sempre executados debaixo da sua direcção; era ella quem fazia o menu, quem distribuia os lugares, quem presidia a todos os arranjos de casa.

Encarregava-se das tarefas mais enfadonhas, d’aquella parte aborrecida que tem uma festa e que as donas da casa acceitam com tédio, mas que[176] lhes é mais tarde compensada no applauso, na satisfação, ás vezes mesmo na inveja disfarçada em risos dos seus convivas.

N’essas occasiões solemnes em que ninguem dava por ella, creio que se permittia um instante de innocente amor proprio, vendo a meza bonita, bem disposta, com a elegante e symetrica poesia das grandes jarras do Japão cheias de flores, dos crystaes facetados onde o vinho tomava as olympicas apparencias do nectar, da bella louça da China de lavores extravagantes e phantasiosos, da roupa fresca, pesada, macia, de linho da Russia adamascado, tendo bordadas iniciaes… que não eram as d’ella.

Depois voltava para o seu logar secundario, obscuro, e voltava de boamente com simplicidade despreoccupada.

Estava sempre bem com todos, sem se curvar obsequiosamente diante de alguem.

Tinha mesmo um modo seu de dizer as verdades com firmeza e com brandura, sem transigencias cobardes, sem severidade excessiva.

Quando havia em casa um doente, sentava-se-lhe tranquillamente á cabeceira, fazia-lhe sentir com discreta suavidade a sua influencia boa, perdia as noites com um aspecto de intrepidez e de meiguices; era inapreciavel emfim.

[177]

Tinha uma infinidade de pequenas idéas que punha em pratica e de cada uma das quaes resultava um allivio para o doente: arranjava as almofadas, aconchegava as roupas do leito, dir-se-hia que a sua mão esguia, branca, um pouco secca, tinha o segredo de verter balsamo em todas as feridas de um corpo enfermo.

Na convalescença lia alto.

Escolhia muito bem os livros, tinha a maravilhosa intuição de todas as necessidades de um espirito adormecido, n’aquella dubia luz crepuscular da doença physica.

A sua voz vellada, sem grande sonoridade, tinha umas notas macias que entravam até ao fundo do coração e que o amolleciam docemente.

Ainda nos desgostos de familia, na hora das crises e das catastrophes era para ella que instinctivamente todos os braços se estendiam.

É que ella, com o seu passo miudinho, o seu ar sereno, os seus habitos methodicos, nem diante das maximas catastrophes perdia a placidez necessaria.

Uma das suas particularidades mais accentuadas era a repugnancia pelo barulho, pelo espalhafato, por todas as exterioridades apparatosas.

Andava, fallava, trabalhava, movia-se sempre devagarinho.

Lembro-me perfeitamente do quarto d’ella, como[178] d’uma especie de pequeno sanctuario onde poucas vezes penetravam as travêssas creanças de quem ella era como que segunda mãe.

Quando eu acertava de lá entrar com ellas, emquanto a pequenada corria de um lado para outro, vendo, tocando tudo, perguntando informações de todas as cousas, eu observava callada com o meu olhar de mais velha, mais penetrante e mais curioso.

Tudo alli era limpo, aceiado mas tudo antigo, datando sem duvida da sua adolescencia, do tempo em que ella fôra feliz, porventura requestada e formosa.

A alcova branca, discreta, com o seu oratorio de pau santo, cheio de bellas imagens, a Virgem risonha e loura com o menino nos braços, o Christo macerado e sangrento com a expressão de sobre-humana agonia no amortecido olhar.

No gabinete contiguo as cortinas, os reposteiros de chita, as poltronas, as pequeninas mezas cobertas com os seus panos de crochet, as estantes de livros, tudo emfim era bem conservado, sem ser novo; via-se que tinha sido o objecto de attentos cuidados, que todas aquellas cousas mudas haviam sido as companheiras unicas de uma existencia concentrada e solitaria.

Nas paredes, sobre as pequenas étagères, muitos[179] retratos, todo um cortejo moço e triumphante que passava ao longe.

Exhalava se d’aquelles objectos tão esmeradamente cuidados, um vago, um indistincto perfume de saudade, como d’um herbario de flôres seccas, colhidas entre risos de crystal, nos dias radiantes da primavera…

Os pequenos então, com a sua inconsciente crueldade infantil, faziam mil perguntas, impacientes, curiosas…

—Quem era esta menina, tia Izabel? tem um vestido de seda decotado e na mão um malmequer que está desfolhando. Como ella scisma tão embebecida! Em que scismaria ella, minha tia?

—No futuro!… respondia ella sorrindo com o seu bello sorriso intraduzivel em que havia talvez muitas saudades.

—Que é feito d’ella? Era sua amiga, não era? Porque é que a não vem cá vêr nunca?

—Ao principio veio, depois casou-se; o marido levou-a a viajar, foram muito longe, divertiram-se, provavelmente ella esqueceu-se. Quando voltou trazia um filho, um baby louro e côr de rosa como o teu irmãosinho Arthur. Só o vi uma vez. As creanças absorvem muito as mães, por causa d’ellas esquecem-se de tudo, até das amigas da infancia. Hoje só sei que é muito feliz, e quando tenho[180] saudades olho para o retrato d’ella!… Fômos tão amigas!

E callava-se baixando os olhos, receiosa de que a vissem contemplar com demasiado enlevo os dias que já não podiam voltar.

Todos aquelles retratos tinham uma historia.

Aquelle cortejo de juvenis visões louras, morenas, travêssas ou melancolicas faziam parte do passado, por isso lhes queria tanto.

Umas tinham casado, eram felizes, viviam absorvidas pelo divino egoismo da familia, todas entregues ao bem estar dos seus, aos interesses, ás alegrias, ás dôres do seu pequeno circulo de affectos.

Outras tinham morrido; eram as que alli nos appareciam mais pallidas, com um vago reflexo de luz febril nos olhos pasmados e pensativos.

Tinham morrido na plena florescencia do seu imaginar juvenil, levando para a cova, como levariam uma flôr ainda constellada pelos orvalhos matinaes, a dôce chymera que nenhum sôpro brutal lhes havia desfeito.

Fecharam os olhos cercados por todas as apparições fulgidas, que envolvem a mocidade como n’um circulo de estrellas, e foram despertar—quem sabe! n’outras regiões de que ninguem ainda voltou, do sonho feliz que haviam começado na terra.

[181]

Não eram essas as menos bemfadadas.

Ella, porém, ficára só.

Porquê?

Condemnação de que não conhecia o implacavel segredo!

Tambem fôra môça, tambem tivera crenças, esperanças, pequenos sobresaltos de amor proprio, ephemeras vaidades de quem se julgara querida!

Estremecera muita vez, ao sentir abrir uma porta, echoar um passo ligeiro e firme nos vastos corredores, vibrar uma voz viril, grave e terna!

Tivera rubores subitos, sentindo pousar na sua fronte branca, a luz d’um olhar quente e caricioso; colhêra uma rosa, prendera nos cabellos um cacho de madresilva, vestira um dia um certo vestido branco, cheia de alegria, agradecendo a Deus ter feito a vida tão boa, o céu tão azul, o cheiro das arvores tão penetrante e tão sadio!

Olhava n’este tempo para as creanças, beijava-as como a ensaiar as graças da maternidade, fazia-lhes festas, pensando que tambem havia de ter um dia uns pequeninos como aquelles, que lhes havia de querer muito, e leval-os a passear, seguida pelo olhar invejoso das outras mães… cujos filhos seriam forçosamente feios.

Então consultava comsigo mesma o systema de educação que adoptaria, e o modo porque os havia[182] de vestir, e concluia vendo-os entrar para a Universidade, n’um dia de muitas lagrimas e de muitos dilaceramentos, altos, esbeltos, um pouco altivos, com um buçosinho louro, appetitoso como a pennugem d’um pecego mal maduro.

Foram-se-lhe dias e dias n’este sonhar que a entretinha, como a leitura d’um romance cujo interesse nunca afrouxa.

Um dia, porém, por acaso viu-se ao espelho, e despediu-lhe o seio um grito de angustia.

Despontava-lhe entre os fártos cabellos louros, o primeiro cabello branco, um fio de prata, tenue, quasi imperceptivel, uma cousa em que ninguem reparava.

Reparou ella.

Reparou tambem n’esse momento que todas ou quasi todas as companheiras tinham casado, que muitas das suas illusões se tinham desfeito ás asperas nortadas da realidade, que se ia sentindo na vida muito só.

Teve umas horas de lucta, de revolta, quasi de desespero.

Alguem, ou alguem invisivel em que ella sempre acreditára, mandou-lhe a força, porque lhe mandou a resignação!

Quando o pae lhe morreu veio para casa dos irmãos, e a pouco e pouco achou em si a fonte de[183] todas as riquezas mysteriosas, que espalhava pelos affectos que o seu coração adoptou!


Eis pouco mais ou menos a historia da tia Izabel.


O MELHOR SOMNO DO MILLIONARIO

Tinha ido para o Brazil ha muitos annos.

Ainda havia frades em Portugal e fôra até um seu tio frade que o acompanhara a bordo de um brigue e que lhe dissera com voz solemne e sentenciosa, no momento da despedida, estendendo os braços n’um largo gesto de pregador:

—Deus te leve a salvamento, Francisco!

O sr. Francisco Cerqueira lembrava-se de todos os pormenores e incidentes trabalhosos da jornada que elle fizera desde a sua pequena e risonha aldeia minhota até Lisboa.

Era um gosto ouvil-o á mesa, ao domingo, quando o armazem repousava na sua humidade claustral, e não se ouvia o estrepitoso labutar dos negros[186] carregadores, a voz arrastada dos Mineiros freguezes da casa, e a melopéa das quitandeiras na rua.

Os socios muito mais moços que Cerqueira puxavam-lhe pela lingua conforme a pittoresca locução do povo, e á sobremesa, recostados, com os charutos accesos, ouviam-no discretear alegremente.

Lembrava-se de tudo o sr. Cerqueira. Era uma chronica viva. Recordava-se da sua aldeia, narrava historias da sua infancia, descrevia com rudes mas pittorescas phrases a aula de primeiras letras, o abbade da freguezia, as proezas do tio frade, que com um varapáo nas unhas era homem para varrer toda uma feira, e enternecia-se até ás lagrimas, quando tocava no assumpto de despedida da mãe.

—Ah! vocês não imaginam! Não me sahe d’aqui! Parece que tenho um nó na garganta, quando me lembro d’aquelle momento. Abraçava-me a chorar e a soluçar que era uma cousa por maior! Inda me parece que a vejo ao pé das carvalheiras do adro da igreja, estendendo-me os braços de longe e gritando suffocada:

—Ah! rico filho, rico filho da minha alma!…

Que idade terá ella hoje? Ora, espera, eu tenho cincoenta e seis; ella, pelas minhas contas, vem a ter os seus setenta bem puxados… quem me dera vêl-a!

[187]

—Mas, seu Cerqueira, nada mais facil! Por que se não resolve? Em dezoito dias está lá…

—Sim, é verdade.

E ficava triste e meditabundo por instantes…

—Mas tenho medo de chegar e de não a encontrar. O unico motivo que me leva á Europa, é ella, a pobre velhinha… É o unico parente que tenho, que não sei se vocês sabem, que da nossa familia restamos tão sómente nós, ella e eu… a minha terra é aqui, para aqui vim creança, e aqui me fiz gente… Que vou eu fazer á Europa, não me dirão?

Isto dizia o sr. Cerqueira; mas o que se lhe passava no intimo era bem diverso. Tinha saudades, tinha-as e bem fundas da aldeia em que nascêra e da casa em que se creára.

Porque a sua vida fôra um luctar sem treguas, um batalhar decidido e um inferno, á sahida do qual elle contava, como o mythologico Orpheu, rever as appetecidas Eurydices—a mãe e a patria…

Escrevia á mãe de tres em tres mezes, e nunca deixava de lhe recommendar que conservasse tal e qual como estava a casita, e que não mexesse nunca no leito em que elle dormira nos annos proximos á partida para o Brazil.

[188]

«Porque desejo morrer n’elle», escrevia Cerqueira á mãe amantissima.

E ia-se deixando ficar.

Por duas vezes os socios estiveram em Portugal, mas o nosso Cerqueira não se decidia.

Ás vezes parecia tomado de uma forte resolução, e, ouvindo as descripções das viagens dos socios:

—Homem, parece-me que sempre me resolvo!

No outro dia, porém, lá andava pelos armazens mourejando, dando ordens, e n’aquella atmosphera de trabalho vivificante e saudavel parecia transfigurado e como que esquecido da promessa que a si proprio fizera.


Um dia, quando o sr. Cerqueira encarapitado no alto banco de palhinha sobre a secretária, revendo se na sua bella letra ingleza e floreada, entrou no escriptorio um dos caixeiros annunciando-lhe que estava alli um sujeito que desejava fallar-lhe.

Cerqueira collocou a penna atraz da orelha, puxou do lenço vermelho, e abrindo a caixa enterrou[189] unidos, no tabaco, o pollegar e o index, e mal acabava de absorver a pitada pela narina direita, tamburinando voluptuosamente com os restantes dedos na esquerda, quando lhe surgiu á porta um rapaz bem trajado e modesto, que figurava ter quando muito dezeseis annos.

—Creio que fallo ao snr. Francisco Cerqueira?

—É verdade.

—Cheguei hoje de Portugal e trago-lhe esta carta.

E o rapaz desabotoando o fraque, tirou do bolso uma carta que entregou respeitosamente ao negociante.

Olhou attento para a lettra do sobrescripto e sorriu-se; um bom sorriso beatifico e dourado de mocidade que lhe illuminou o semblante.

Depois abriu a carta, desdobrou-a e collocando-a ante o rosto começou a lêl-a devagar, como que saboreando cada palavra e cada phrase. Ás vezes parava, e como um namorado que espreita por cima d’um muro, erguia os olhos acima do papel e examinava attentamente o rapaz, que se conservava de olhos baixos, direito e tranquillo.

Chegando ao fim da carta, voltava de novo a lêl-a. Era como que um conversar com aquellas letras que vinham de longe e que lhe traziam um pouco de perfume das larangeiras do paiz natal, e um tudo nada das lagrimas de sua mãe.

[190]

—Queira sentar-se, disse benevolamente o commerciante ao mancebo.

E continuou a ler. A carta era pequena, mas n’aquellas letras arrevesadas e tremulas elle via um rosto, umas feições adoradas, e logo depois como nas tintas esbatidas e aereas de um sonho de convalescente, levantava-se uma figura de mulher ainda moça e vigorosa, ao pé de umas carvalheiras, e essa mulher estendia-lhe os braços e dizia-lhe de longe com uma voz entrecortada de lagrimas:

—«Ah! rico filho, rico filho da minh’alma!»

Arrancado d’aquella visão, o sr. Cerqueira dobrou a carta devagar com as mesmas dobras, abriu a larga carteira de marroquim vermelho e collocou-a com grande cuidado n’um determinado compartimento.

Em seguida levantou-se e pitadeando de novo:

—Olhe, o nosso guarda-livros vai espairecer até Buenos-Ayres, e creio que por lá ficará. Coitado! aquillo vai mal!… Quer o senhor occupar esse lugar n’esta casa?

O moço acceitou reconhecido, e ia a levantar-se quando um preto velho em mangas de camisa abriu a porta do escriptorio:

—O jantar está na mesa, nhônhô[191]


Passados dias notaram os socios do sr. Cerqueira que este não parava em casa um instante. Sahia frequentemente, andava mais contente e lepido que o costume. Pouco fallava ao jantar; de communicativo que era, tornara-se recolhido comsigo, mas no olhar lampejava-lhe uma doce e ineffavel alegria.

Ora que fazia o sr. Cerqueira?

Andava envolvido n’uma terrivel conspiração, queria desfazer-se, desligar-se dos queridos laços, creados pela sua longa e trabalhosa vida de perto de quarenta annos, n’aquella terra a que elle de entranhas queria, e aonde aportara pobre, desprotegido, sem recursos…

Logo pela manhã, depois de dar as suas ordens no escriptorio, mettia-se a caminho, percorria as ruas, examinando attentamente cousas que antes lhe haviam passado desapercebidas.

Entrando nos americanos, dirigia-se aos formosos arrabaldes da côrte…

Lembrava-se então das suas merendas saudosas e illuminadas pelo sol dos vinte annos, no morro de Santa Thereza, nas chacaras ridentes do Botafogo, á sombra das arvores do Corcovado.

[192]

E passava distrahido sem corresponder aos frequentes e affaveis cumprimentos que lhe faziam os conhecidos e amigos, do alto da imperial dos omnibus, ou da plata-forma dos americanos.

Alguns dos companheiros dos seus passeios e folguedos da mocidade tinham morrido, outros haviam deixado o Brazil e viviam na Europa, em Portugal.

—Como poderam elles deixar isto sem saudade? É verdade que eu gostava de morrer lá, onde nasci, na minha pobre aldeia, ao pé de minha mãe… pensava o sr. Cerqueira.

E á hora do jantar, já não havia o conversar, e aquelle teimoso questionar que tanto alegrava os dois socios!

É que o sr. Cerqueira continuava a fallar comsigo e a passar uma a uma pelos dedos as contas do mystico rosario das suas saudades…


Uma tarde os socios de Cerqueira bateram-lhe á porta do quarto. Houve uma certa demora em se abrir essa porta. Insistiram. Cerqueira veio emfim saber o que era.

[193]

Entraram os dous e recuaram surprehendidos ante a mudança que observaram.

No meio do quarto estava uma grande mala escura cravejada de pregos amarellos; em cima do canapé esgarçado avultavam montes de roupa branca, e pequenas malas inglezas com fechos dourados e reluzentes. As gavetas da commoda estavam corridas, havia n’aquelle quarto em fim a apparencia d’uma casa saqueada…

—O que é isto, seu Cerqueira?

—É o que vocês estão vendo. Ámanhã é o dia da partida… Resolvi-me emfim…

—E eu que tinha apostado aqui com o seu Fernandes que você nunca se resolvia…

—Pois, meu amigo, perdeu a aposta, cortou o Cerqueira, sorvendo sybariticamente uma pitada.

Na manhã do dia seguinte, no tombadilho d’um dos vapores da Companhia do Pacifico, emquanto os dous socios do Cerqueira riam e diziam facecias, deitando com ares de casquilhos atabalhoados as lunetas a algumas francezas, que, com os seus vestidos de fazendas claras animavam alegremente aquelle conjunto de pessoas possuidas de tão estranhos e contradictorios sentimentos, o nosso viajante olhava com os olhos de quem se despede de um sitio amado para os armazens, para os trapiches que se retratavam nas aguas da bahia,[194] para as torres das egrejas que se arrendavam nitidamente no claro céo azul.


Em Lisboa pouco se demorou.

No hotel, alguns amigos quizeram prendel-o ainda, tentando-o com o theatro lyrico, com Cintra e com as poucas fascinações baratas de Lisboa.

Cerqueira resistiu, e n’uma bella manhã, mettido em uma diligencia que partia de Braga, dirigiu-se para Ponte de Lima. Aqui alugando uma cavalgadura endireitou para a aldeia em que nascêra.

A meio caminho apeou-se, despediu o homem que o acompanhara, e deitando ao hombro uma pequena mala que trouxera, encaminhou-se para o seu lugar.

Seriam quando muito duas horas da tarde. O calor era grande. Pouca gente na estrada. Cerqueira parou a contemplar o quadro.

De um dos lados do caminho viam-se algumas raparigas com largos chapéos desabados e saias apanhadas segando herva, á compita, e misturando o seu canto ao metalico e monotono cantar das cigarras…

Do outro lado, um rapazito meio nú, de carapuça,[195] sentado no chão, estava de guarda a meia duzia de bois que pastavam tranquillamente na herva macia e tenra…

De vez em vez, quando um dos bois se approximava de algum castanheiro, o rapaz agarrava de um calhau, e atirando-lhe rasteiramente, gritava:

—Eh! malhado…

—Quantas vezes eu tambem guardei as vaccas da nossa casa! pensou Cerqueira.

—Seu moço, venha cá, disse para o rapaz, venha cá, menino!

O rapaz olhou para o forasteiro com um olhar estupido e embezerrado e deixou-se ficar.

—Venha cá, menino, que lhe não quero mal…

O pequeno não se movia.

—O rapaz é mouco, disse comsigo o viajante, e como quem conhece o coração humano, tirou a bolsa e mostrou-lhe uma moeda de prata.

—Queres isto?

De um salto o rapaz poz-se a pé, tirou a carapuça, e coçando a cabeça aproximou-se.

—Diga-me uma cousa, menino, é aqui do lugar?

—Saiba vossemecê que sim senhor.

—Conhece a tia Genoveva?

—Uma que é assim a modo bexigosa, e já muito velhinha?

[196]

—Essa mesma.

—Olhe, ainda ha pouco a vi passar da banda do rio… São horas de a topar em casa…

Cerqueira estava emfim tranquillo.

Desapparecera o receio de não encontrar a querida velhinha.

Verdade é que podia ter tido novas d’ella em Lisboa escrevendo ao abbade, mas queria fazer uma supreza, chegar de improviso.

Áquella hora as aldeias do Minho são silenciosas e calmas, e ha n’ellas como que a intima paz das fabricas ao domingo.

Os homens andam no campo, as mulheres, quando os não acompanham, estão nos lavadouros ensaboando, e poucas pessoas, a não serem os velhos e algumas creanças, ficam em casa.

Na sombria humidade das tabernas descobre se a taberneira fiando, emquanto no quinteiro proximo os porcos com os focinhos semi-enterrados na lama grunhem voluptuosamente.

Um ou outro cavalleiro que passa ás vezes pela estrada n’um choito endiabrado, com o páo de choupa apertado nos joelhos, levantando uma nuvem de poeira dourada. E é então que os cães acordam aquelle silencio, latindo e correndo atrás dos cavalleiros, e que apparecem ás janellas e ás portas as raras pessoas que ficaram em casa.

[197]

Quando Cerqueira bateu á porta da casa pulava-lhe o coração de um modo desusado.

—Quem é?

—Alguem é, respondeu o viajante.

—Pois empurre o postigo, puxe pela aldraba e entre, se isso o não incommoda.

Assim o fez o nosso Cerqueira e entrou na saleta em que a tia Genoveva dobava…

Ante aquelle homem estranho, a velha surprehendida parou, e pondo uma das mãos diante dos olhos como uma palla:

—Que me quer vossemecê?

—Um abraço e um beijo, balbuciou o que entrara com voz enternecida e expirante…

—Elle que diz? Ó Christo!

E levantando-se foi direita á janella para chamar por soccorro imaginando vêr-se a braços com um doudo.

—Olhe que não estou doudo, santinha! Venho de longe e trago-lhe um beijo e um abraço de uma pessoa que é muito sua amiga.

—Do meu Francisco? exclamou a velha. Venham de lá não só um mas muitos abraços, que elle no dinheiro é mais generoso, valha-o Deus! Um só abraço!

E a velhita apertou nos braços Cerqueira, que com as lagrimas nos olhos murmurava:

[198]

—E eu que pensei que me conhecia! Pois não me conhece, minha mãe? Eu é que sou o seu Francisco, sou eu, repare bem…

A velha então explodiu um alto e clamoroso grito, e chorando e rindo, cahiu nos braços do filho.

—Agora conheço, sim, estava tonta! Esta cabeça! Mas se tu eras uns dez réis de gente quando abalaste d’aqui… Onde está a tua roupa? Já jantaste? Cá a gente janta ao meio dia, mas arranja-se tudo, não tem duvida… a Joanna foi á cidade, vou eu mesma matar uma gallinha… Tens fome? deves ter, sim? A minha cabeça… a minha cabeça! O meu Francisco! Mas porque me não mandaste dizer que chegavas, rapaz? Valha-te Deus, manicanso!…

E a tia Genoveva no meio do seu contentamento sahia da sala para logo voltar, amontoando perguntas sem nexo.

—Gostas d’isto? gostas d’aquillo? Do que vaes gostar é do vinho, é do nosso caco de salsa e sahiu-me d’aquella casta! O presunto vamos com Deus, que tambem me sahiu bom. Vaes provar… Ora o peccado do rapaz que me não avisou de nada!

E sahia para d’ahi a pouco voltar com a mesma abundancia de perguntas e de phrases penetradas de amoravel reprehensão[199]


Oh! que bom e que intimo foi aquelle jantar!

A sala alegre e caiada de branco, a toalha aspera, grossa e nevada, os talheres de cabo d’osso fabricados em Guimarães, os copos com um friso dourado nas bordas, as janellas abertas e dando para os campos onde cahiam suavemente as tintas do sol posto, tudo dava uma quieta e serena beatitude ao coração do brazileiro.

A mãe encostada ao espaldar da cadeira em que estava sentado o filho servia-o com muito carinho, fazendo-lhe perguntas sem conta a que elle respondia com o rosto inundado e clareado pelas lembranças de um passado que as palavras da mãe evocavam renascido.

Depois coube-lhe a elle fazer tambem perguntas: o que era feito d’este, se ainda era vivo aquelle, se no sitio de tal ainda existiam aquellas carvalheiras onde havia d’antes tanto ninho de melro, e se uma casára, e outra tinha muitos filhos, eu sei! um mundo de recordações e de saudades!

E com o olhar humedecido, Cerqueira percorria tudo, o velho armario pintado, as grades da varanda,[200] as medas levantadas no meio da sombria verdura dos campos…

Ia cahindo a noite, ouvia-se já na aldeia um certo borborinho de vida, vinham da estrada trechos ruidosos de conversações. Recolhiam do campo os trabalhadores.

E os dois a conversar ainda!

—E a Joanna que não chega da cidade! É sempre assim!

Quando ha pressa é que não vem… Queres tu dar uma volta pelo lugar, Francisco?

—Nada, minha mãe! Este dia é só para si. Inda bem que ninguem me viu, e que se não sabe que cheguei… Conversemos, tenho tanto que dizer, tanto que ouvir…

Entrelaçava-se de novo a conversa, e assim estiveram até que a velha disse:

—E então não querem vêr que o rapaz quer tirar-me dos meus habitos! São horas de deitar. Vou fazer-te a cama, está ahi quedo que eu já volto.

Voltou d’ahi a pouco com um candieiro de tres bicos. A luz batia-lhe no engelhado rosto cheio de bondade, e um sorriso de ventura brincava-lhe nos olhos e na bocca.

E, empuxado suavemente pela mãe, o brazileiro entrou no quarto que lhe estivera preparando.

[201]

A velha abeirou-se da cama, desdobrou as roupas, ageitou a travesseirinha de largos bordados tesos e engommados, e voltando-se para o filho que examinava tudo curiosamente:

—Agora toca a deitar! Tenho tanta pena que me não trouxesses uma nora! pois eu creio que lá no Brazil ha muitas moças bonitas, pois não ha?

O brazileiro sorria-se, e a mãe incansavel enchia-o de perguntas, de mimos, de recommendações, até que sahiu abençoando-o com toda a sua alma, rude mas extremosa.


Francisco Cerqueira deitou-se, e ainda que lhe parecesse que o haviam de incommodar os pesados lençoes de linho duros e asperos, adormeceu profundamente.

Sonhou. Estava no Brazil, os socios tinham chegado da Europa, vinham queimados da viagem, mas contentes; contavam anecdotas e casos succedidos durante o passeio.

Que Portugal era um jardim, o Minho sobretudo! não se fazia ideia.

Narravam a maneira como tinham sido recebidos na aldeia natal, as festas, as alegrias da chegada,[202] as noites de esfolhada, as romarias ruidosas… Cerqueira ouvia-os, e lá por dentro do coração, sentia a grande e plumbea nostalgia do paiz natal… Se eu pudesse lá ir! Mas para que? Estou velho… e depois póde ser que a velhinha já não viva!…

E continuava a trabalhar, a dar ordens no humido armazem sombrio entre os escravos…

N’isto saccudiram-no uma, duas vezes, tres vezes…

—Ó grande mandrião, pois isto são horas de dormir ainda? Olha que já estou a pé ha duas horas! Na cozinha vae tudo raso com trabalho! Arriba, homem! Não tens vergonha, dorminhoco?

E o brazileiro, estendendo os braços e esfregando os olhos com os punhos fechados, perguntou bocejando:

—Que horas são?

—Dez horas, grandecissimo perguiçoso!

—Ha quarenta annos que não durmo um somno tão bom, minha mãe!


A PERCEPTORA

Chamava-se Martha de Vasconcellos.

Era alta, loura, delicada como uma figura de Keepsake.

Uma physionomia suave e infantil que captivava pelo seu encanto inconsciente.

Á primeira vista, nas soirées semanaes do commendador Gonçalves, vestida de branco, com um simples velludo negro nos seus cabellos crespos de um louro fulvo e ardente, parecia uma creança despreoccupada e frivola.

Não o era.

Quem a conhecesse de perto sabia que ella tinha a seriedade precoce dos que já padeceram muito.

[204]

Nenhuma sentimentalidade falsa no seu olhar azul, meigo e pensativo. Nenhuma ideia errada, nenhuma chiméra juvenil na sua cabecinha d’uma lucidez singular.

Sabia conservar-se na sombra, sem deixar de ser digna; tinha a consciencia da mesquinhez do seu destino, sem ter nunca aprendido a ser humilde.

Pouco fallavam com ella, e no entanto parecia não dar pelo desdem quasi brutal de toda aquella gente que a cercava.

Tinha um modo docil e meio risonho de sentar-se ao piano, e tocava uma noite inteira valsas, contradanças, lanceiros, que outras dançavam, na expansão da sua alegria burgueza.

Nunca lhe perguntavam se estava cançada, nunca lhe davam a menor mostra de interesse ou de sympathia.

Pagavam-lhe integral e generosamente, tinham direito aos serviços correspondentes a essa remuneração.

As suas relações paravam aqui.

Não sabiam se ella tinha uma alma, se essa alma se iria azedando a pouco e pouco ao contacto d’aquella indifferença cruel; não sabiam do seu passado senão que era honesto e puro, nunca pensavam no seu futuro senão vendo-a eternamente curvada ao pezo do mesmo destino ingrato.

[205]

Martha era mestra de duas filhas do commendador, duas rapariguinhas de treze a quinze annos, muito presumidas da sua riqueza, muito vaidosas do seu luxo, das carruagens em que andavam, dos vestidos de seda que vestiam, das festas com que os paes alteravam de vez em quando a chata monotonia do seu viver de negociantes retirados.

O commendador tinha um filho muito mais velho do que as irmãs, que se educára na Allemanha; e que depois de viajar pela Europa inteira, havia regressado emfim á casa paterna, onde, aqui para nós, se enfastiava poderosamente.

O commendador queria dar tambem ás filhas uma educação brilhante, uma educação que correspondesse ás dimensões da sua burra, eis porque, depois de as tirar do convento, onde tinham estado até áquella idade, escolhera para professora Martha de Vasconcellos.

De resto as idéas do commendador e da mulher sobre a educação de suas filhas, não eram das mais engenhosas e atiladas.

A pobre gente—n’este caso, pobre significa riquissima—a pobre gente não era obrigada a ter um ideal muito levantado.

Sabiam que a filha do barão de tal tocava pianno, e queriam que suas filhas soubessem tocar muito melhor.

[206]

Tinham ouvido louvar os desenhos da menina Fulana e juraram aos seus deuses que as suas meninas lhe haviam de levar a palma.

Não tinham ideias absolutas, tinham simplesmente ideias relativas.

Excitar a admiração parecia-lhes uma cousa réles e insignificante; o que elles queriam era excitar a inveja.

As pequenas comprehendiam isto maravilhosamente.

Em vendo uma amiga da infancia, uma conhecida qualquer com um vestido mais bonito ou com uma prenda intellectual mais preciosa, tinham ataques de desespero surdo.

Ralava-as uma vaga inveja de todos os esplendores sociaes.

Andavam á busca de gente a quem podessem offuscar.

Eram simplesmente ridiculas!

Ás vezes entravam no quarto de Martha e diziam-lhe n’um transporte de colera:

—Quero saber allemão. A Mariquinhas sabe allemão, emquanto eu não sei.

—Quero aprender a bordar de matiz, a Julia fez um quadro que eu não sei fazer.

Era assim que iam progredindo no estudo.

Marta conformava-se docilmente ás aspirações[207] das discipulas: ensinava-lhes tudo o que sabia, mas o que ella de todo não pudera, era inocular-lhes a vida interior que animava e coordenava todos os seus conhecimentos adquiridos ou intuitivos.


Dizia-se que Marta conhecera melhores dias, affirmava-se mesmo que não fôra para servir de mestra a burguezinhas pretenciosas que seu pae, um pae extremoso, lhe adornára o espirito de todos os primores de uma educação excepcional.

Conhecia as linguas modernas, mas não como as conhecem as meninas que por ahi conversam com os diplomatas, resumindo n’isso todas as suas ambições de estudo.

Penetrára no espirito d’ellas, comprehendera o genio especial de cada uma, sabia de cór e escolhia principalmente os poetas que synthetisam uma nacionalidade ou uma civilisação.

Tinham-lhe ensinado a raciocinar, a pensar, a estudar a fundo todos os problemas em que outras mulheres tocam sómente ao de leve.

A curiosidade natural ao espirito feminino, essa qualidade preciosa, que, descurada, se torna quasi sempre em um vicio antipathico, fôra n’ella tão[208] bem dirigida, disciplinada com tal mestria, que se tornára em fonte dos mais puros gozos do seu espirito.

Não sabia can-cans de salão, sabia o que dizem na sua muda lingua os astros e as plantas; não tentara penetrar na vida intima das suas amigas, contentava-se em saber a vida intima da Creação.

Nunca lhe viera á idéa penetrar com o espirito no pélago revolto das paixões insalubres; a sua curiosidade insaciada debruçava-se de melhor vontade no pélago profundo das ondas, a quem horas e horas perguntava pelas mysteriosas riquezas do seu seio.

No meio d’isto, despretenciosa e simples, julgando-se a mais ignorante das creaturinhas do bom Deus, não sabendo que era artista, que era intelligente, que tinha alma capaz de entender todas as grandes cousas.

O pae, que a vinha ver muitas vezes á casa da senhora a quem na infancia a confiára, disse-lhe um dia com o pejo a ruborisar-lhe as faces, com lagrimas a marejarem-lhe os olhos, que ella era uma filha natural, mas que tencionava reconhecel-a, regularisar a sua posição, dar-lhe todos os direitos que ella por tantissimos lados merecia.

A adoravel creança não o percebeu.

Então—castigo terrivel das suas culpas—o pae[209] teve de explicar, de fazer comprehender áquelles castos ouvidos de quinze annos uma historia deploravel, a historia do seu crime!

Martha escutou-o n’um silencio dolorido, com uma expressão de doçura triste no olhar.

Depois abraçou-o melhor ainda que nos outros dias, porque até alli só tivera muito que agradecer e d’alli por diante sentia vagamente que tinha muito que perdoar.

—E minha mãe?—perguntou depois com uma tremura na voz.

—Tua mãe morreu.

O pae de Martha era casado, tinha filhos, vivia para sempre longe d’ella nas tranquillas alegrias da familia, uma familia em que ella só podia ser a intrusa!

Desde esse dia Martha estudou com dobrado afinco, aprendeu com uma ancia dolorosa, com um não sei quê de impaciencia inexplicada.

Sentia que havia de ter muito que soffrer, muito que luctar.

Tratou de robustecer a alma e de dilatar o espirito.

Era uma especie de iniciação heroica.

[210]


O pae de Martha morreu.

Um dia, ao acabar de jantar, cahiu para o lado inesperadamente, fulminado pela ruptura d’um aneurisma.

A morte surprehendera-o. Não tinha tido tempo de fazer nada em favor da sua desvalida Martha.

Oito dias depois, entrava esta, vestida de luto, muito pallida, mas com uma expressão estranha de firmeza no olhar, em casa do commendador Gonçalves.


Julião, o filho do commendador, tinha 23 annos quando Martha foi para casa do pae. Ao principio pouco reparou n’ella. Imaginava-a uma mestra como as outras, o mesmo livro tirado a centenas de exemplares. Reconheceu sómente que era um pouco mais bonita que a generalidade das suas collegas.

Um dia, porém, que elle lia Gœthe no original, e que uma phrase obscura do poeta o fazia parar na leitura um tanto impacientado e confuso, lembrou-se—acaso ou presentimento—de recorrer á mestra de allemão de suas irmãs.

[211]

Entrou na sala de estudo, com um certo desdem a transparecer-lhe na physionomia.

Póde ser-se educado na Allemanha e não comprehender o Fausto: o que era no emtanto absolutamente impossivel, na opinião do moço, era não ter nunca estado na Allemanha e conhecer Gœthe como um poeta nosso compatriota.

Martha conhecia-o.

Pegou no livro que Julião lhe estendia, deitou um relance de olhos para o verso de que se tratava, e depois, com um sorriso não isento de certa malicia innocente, explicou a Julião a ideia do poeta.

Havia tanta clareza nas suas palavras, uma tão superior intuição artistica nos seus rapidos e despretenciosos commentarios, que o moço olhou para ella devéras espantado.

Pareceu-lhe que a via pela primeira vez.

Não lh’o disse, porém; pelo contrario, sentiu uma especie de surda irritação ao perceber a sua inferioridade intellectual perante aquella creança tão simples, e que todos olhavam com tamanho desdem.

Martha percebeu porventura a impressão que despertára; o caso é que a malicia que lhe chispava no olhar accentuou-se com um indeciso cambiante de ironia.

«A pequena creio que se atreve a fazer escarneo[212] de mim», pensou Julião, sahindo da sala, onde a juvenil perceptora ficou com as discipulas.

Desde esse dia Julião e Martha observaram-se mutuamente com mais attenção.

Elle achava-a graciosa, sympathica e boa sobretudo, tinha muita pena d’ella, ao vêl-a desdenhada por tanta gente que lhe era inferior na intelligencia, na coragem, na distinção, em tudo que póde tornar adoravel uma mulher.

Martha sentia-se silenciosamente comprehendida, e agradecia áquelle moço esbelto e pensativo as delicadezas mudas com que a compensava do desamor de todos os mais.

Tocou então para elle as mais doces e sentidas musicas que sabia; os apaixonados nocturnos de Chopin, as queixosas melodias de Schübert, as sonatas mais bellas d’esse sublime surdo chamado Beethowen.

Conversavam um com o outro através da musica, sem nunca se fallarem de outro modo senão nas cousas mais banaes da vida de todos os dias.

Á tarde, depois de jantar, emquanto o commendador resonava a sua sésta sobre a prosa elegante do Diario de Noticias, emquanto a commendadora meditava o rol d’aquelle dia, digerindo um bom jantar, e um ataque de furia contra as suas criadas presentes e futuras, emquanto as meninas debruçadas[213] á janella, trocavam substanciosos commentarios ácerca de um alferes que morava no predio fronteiro, e de uma menina muito namoradeira que morava no predio do lado, Martha, sentada ao piano, desfiava sósinha o longo rosario das suas saudades.

Julião ouvia-a, fingindo ler um jornal ou um livro, e a apaixonada artista bem comprehendia que uma alma a estava escutando, e que essas limpidas notas que ella arrancava ao piano iam vibrar divinamente em um coração que a entendia.

Tudo os separava na terra: o orgulho feroz de uma familia de parvenus, o santo orgulho d’ella, não menos implacavel, porém muito mais nobre, os preconceitos, o dinheiro, quasi que a honra; mas, que importava?

Podiam entender-se e amar-se através d’isso tudo.

E Martha, empallidecida pelas commoções que lhe agitavam a sua alma de artista, com uma expressão soffredora e apaixonada nos seus bellos olhos d’um azul escuro, contava a meia voz n’aquella linguagem ineffavel as suas dôres, as suas humilhações, as suas lembranças, todas as alegrias que tivera, tudo que ella havia esperado na terra e que um dia se lhe havia desfeito nas mãos, deixando-lhe apenas uma immensa, uma desoladora, uma eterna saudade!

[214]

Ás vezes o piano chorava com uma desesperação tão inconsolavel e tão profunda, que Julião tinha desejos de erguer-se da cadeira em que estava, de protestar contra os energicos lamentos que traduziam a dôr insanavel de um destino, e de gritar:

—Aqui me tem, prompto a luctar peito a peito contra o seu infortunio, e a vencêl-o.

Mas não se atrevia!

Que diriam todos, que diria seu pae, que diria a propria Martha?

Quem lhe dava a elle direitos de interpretar d’aquelle modo a sublime execução d’essa artista ignorada?

Quem pudera affirmar-lhe que era pessoal essa dôr mysteriosa que tinha soluços tão doces, queixas tão resignadas e tão mansas, lamentações de tão ineffavel ternura?

Um dia Julião quiz sondar o coração tão calado da pobre mestra. Procurou fazer-lhe umas perguntas que não fossem por demais indiscretas.

Martha desatou a rir.

É verdade que no meio da sua crystallina risada os olhos se lhe afogaram em lagrimas; mas n’esse instante Julião sentia-se tão envergonhado da curiosidade que revelára, que se não atreveu a olhar para a sua interlocutora.

[215]


O commendador Gonçalves era ambicioso.

Pudera!

Ou não fosse elle commendador.

Estava riquissimo, mas queria que os filhos fossem ainda mais ricos do que elle.

Para isso andára a moirejar a vida inteira, por isso se sustentára de pão negro e de bacalhau durante os annos mais florentes da mocidade!

O seu mais intimo amigo, possuidor de um baronato, de avultada riqueza e de uma filha unica tão prendada como elle desejava as suas, fallou-lhe um dia disfarçamente, com certa labia, a respeito de Julião.

A meio entendedor meia palavra basta; d’ahi a quatro mezes o commendador dava uma pequena soirée intima, em que a menina Adriana, filha do sr. Barão de X, e chegada havia dias do Sacré Cœur, era apresentada ao seu futuro noivo, o Sr. Julião Gonçalves.

Estavam só pessoas de familia em casa do commendador.

Elle, a mulher, as duas filhas, o filho e Martha. Emquanto ao barão, viera simplesmente acompanhado pela filha.

[216]

Adriana era… o que d’alli a alguns annos haviam de ser as futuras cunhadas.

Tinha a mais umas tincturas de coquetterie parisiense, coquetterie mal ensaiada, mais collegial do que mundana.

Não se iguala nem se descreve o desdem com que ella cumprimentou Martha. Era uma vingança retrospectiva do que as suas proprias mestras lhe haviam feito passar.

Nos olhos azues de Martha passou um relampago de colera fugitiva, mas não disse nada. O que havia ella de dizer áquella gente, que a considerava um traste… bem pago?

Adriana, a quem cabiam as honras da noite, sentou-se ao piano e tocou.

Tocou as musicas de Martha, com a agilidade e com o brio de uma pianista experimentada.

Depois, levantando-se no meio de palmas e de bravos, indicou á mestra o lugar que deixára n’uma especie de altivo desafio.

É que uma das irmãs de Julião lhe dissera n’um risinho de malicia, que o irmão gostava muito de ouvir Martha.

A moça levantou-se com um gesto automatico, sentou-se ao piano e sem mesmo olhar para as musicas dispersas principiou a tocar.

Foi um adeus soluçante, cheio de lagrimas, onde[217] a espaços passavam como brisas refrigerantes, umas vozes indizivelmente cariciosas!

Foi uma historia muito triste, que ainda ninguem tinha ouvido até alli, a historia de um coração despedaçado!

Como ella lhe havia querido, ao seu bello sonho desfeito, e com que dilacerante agonia lhe dizia para sempre adeus!

Na sala havia um silencio angustioso e profundo.

O silencio inconsciente que inspiram as grandes commoções.

Desde esse dia nunca mais ninguem ouviu a querida voz de Martha, aquella voz que tinha por interpretes os mais sublimes artistas do mundo.

Ella continúa a dar lições ás filhas do commendador, e ha no seu sorriso uma expressão divinamente dolorida, quando falla com Adriana, a feliz esposa de Julião.


A MORTE DE BERTHA

(A NALY)

Minha Naly, ás vezes nos teus dias de bom humor, e sobre tudo nos raros dias em que estás um pouco menos traquinas, vens sentar-te ao pé de mim, n’um banco pequenino, e pegando n’um livro,—o teu livro de grandes bonecos coloridos—, finges que estás lendo umas cousas que a tua inquieta phantasiasinha de duende te representa, escriptas n’aquellas paginas ainda mudas para os olhos da tua intelligencia.

Com o teu adoravel instincto imitador, arremedas-me inconscientemente.

És o meu epigramma vivo, um delicioso epigramma de olhos garços muito abertos, muito intelligentes, muito maganos, como ainda não vi outros em ninguem. Hontem, porém, estavas estranhamente curiosa.

[220]

Não te bastava o que fingias ler, querias mais, querias que alguem inventasse por tua conta e risco, fingisse ler para que tu ouvisses.

Levantaste a loura cabeça inquieta, e disseste com a voz que os anjos costumam ensinar ás creanças:

—Contas-me uma historia?

Que historia te hei de eu contar, Naly? Com a tua alma de quatro annos, tão limpa, tão transparente, tão cheia de ignorancias ideaes; com a tua alma de flôr, só se entende a linguagem dos lyrios, só podem comprehender-se cantos feitos de luar, de perfumes, de cantos de aves, alguma cousa etherea, que eu te não sei dizer.

Venho contar-te esta historia para tu a leres mais tarde, quando a mão de alguem—pede a Deus que seja a mão de tua mãe, Naly—houver arrancado ao teu doce espirito de borboleta o pollen immaculado e scintillante com que Deus o polvilhou e que tem um nome lindo, sabes qual?—a ignorancia!

Então saberás o que significam estas linhas escuras, alinhadas symetricamente na brancura do papel; terás chorado muita lagrima, meu anjo! a aprender cada uma d’estas letras, que hoje interpretas conforme te inspira a tua vagabunda e caprichosa imaginação!

[221]

E sentada n’uma cadeira grande, muito direita, um pouco revestida da elevada importancia do teu cargo de ledôra, repetirás alto á tua irmã pequenina este conto verdadeiro que em tua intenção aqui venho traçar hoje.


A pequena Bertha tinha cinco annos, um só mais do que os que hoje contas, Naly.

Era como tu, loura, muito loura; dera-lhe Nossa Senhora uma cabelleira de anjo, fulva, luminosa, feita de pequeninos anneis que se enroscavam, e que scintillavam ao sol, formando em torno d’ella como que um esplendor de gloria.

Os olhos muito grandes, transparentes, azues pareciam ter no fundo um segredo de doce tristeza. Um segredo que ella havia de saber muito cedo… no céo!

O seu pequeno corpo, macio, feito da brancura das assucenas que desabrocham em maio, exhalava como que um aroma de flôr.

Bem vês que Bertha era linda! Um amor! O orgulho e a ventura dos paes que se reviam n’ella.

Vivia n’uma grande casa aristocratica, discreta,[222] forrada de colgaduras, de tapetes, de bellos quadros antigos.

Descendo os degraus de marmore da casa em que ella jantava, entre o pae e a mãe, na sua cadeirinha de pés muito altos, ia ter a um grande jardim cheio de arvores cuidadas e decotadas pela mão habil de um jardineiro inglez.

Muito gostava do seu jardim a pequenina Bertha!

Imagina tu se ella não havia de gostar, Naly!

Havia lá tantas flôres, tantas flôres! e depois eram de tantos feitios! Umas triumphantes, purpurinas, como se as tingisse um sangue novo e generoso, outras tão brancas como os braços eburneos da mãe de Bertha, algumas tinham uma pallidez fina e morbida, que lembrava a das bellas senhoras que ella via passar resvalando como sombras gentis, pelos atapetados salões da sua casa. Outras eram, de uma côr de rosa desmaiada e doce, que acariciava os olhos de quem as via.

As campanulas azues, esbeltas, ephemeras, lembrando pequeninos calices de crystal da Bohemia, trepavam amorosamente em volta dos troncos mais robustos que as cercavam; as margaritas com a sua alvura mate e o seu feitio de estrellas resaltavam n’um adoravel contraste da verdura clara e fresca dos taboleiros de relva.

[223]

Havia flôres muito direitas e esbeltas no pedunculo delgado, que faziam scismar Bertha,—não sei bem porquê—, nas lindas princezas dos contos de fadas, que vivem nos seus palacios á beira do mar, escondidas, discretas e cheias de magestosa gentileza.

As camelias com a victoriosa belleza do seu teclado de côres vivas e tão varias, lembravam a Bertha a musica que ella ouvira uma vez, n’um dia de parada, no desfilar apparatoso das tropas, musica brilhante, sonora, marcial, feita do estridor dos clarins, da fanfarra triumphante dos instrumentos de cobre, de todas as notas bellicas que rebentavam no espaço, como que n’uma explosão harmonica e sonora!

Gostava muito das violetas—pequeninas e modestas, denunciando-se a medo pelo seu rasto de perfumes,—e que ella costumava procurar nas hervas para encher com ellas a jarra de porcellana de Sèvres, que havia sempre sobre a mesa de costura de sua mãe.

E não penses tu que gostava menos das arvores! oh! a alma de Bertha expandia-se naturalmente para tudo que é bom e que é bello.

Levava horas a espreitar através dos ramos delicadamente recortados pela thesoura do Celeste Jardineiro, o alto céo azul, tão cheio de luz, e[224] que sem ella saber porque, a estava chamando sempre!

Depois nas arvores é que vivem os passaros, é alli que elles dependuram os ninhos, que elles modulam as suas cantigas sem libretto, que elles cantam a quem passa as suas alegrias e as suas saudades.

As arvores são boas, hospitaleiras e carinhosas, como se tivessem uma alma occulta sob a rugosa cortiça dos seus troncos.

Ellas dão sombra, dão frescura, dão fructos, dão flôr, dão um bom cheiro sadio, que reconforta e alegra; as arvores, minha Naly, são as nossas melhores amigas.

Tu has de saber mais tarde, que no mundo ha muito riso falso, muita amizade fingida, muita cousa que a gente julga solida, e que no fim de contas está construida sobre a areia; mas os vegetaes, os eternos amigos do homem, os que o nutrem e se nutrem d’elle, oh! esses nunca nos mentem nem atraiçoam, nem dão conselhos máus!

O jardim era, pois, para a nossa Bertha um mundo riquissimo, um mundo mysterioso, onde a vida palpitava, no insecto, na planta, no musgo, na ave, na terra fecunda e robusta, na arvore frondosa, na agua limpida e corrente, em tudo que rescende e murmura, e canta, e pullula, em tudo[225] que enlaça a alma do homem n’uma cadeia feita de embevecimentos magicos.


E as boas horas passadas no gabinete azul, o que ellas não valiam para o pequenino coração de Bertha!

Sabes o que era o gabinete azul? era a saleta toda forrada e estofada de setim azul, em que a mãe da nossa pequenina se conservava habitualmente.

Chamava-se Margarida a mãe de Bertha, e era formosa, de uma delicada e fragil formosura, que despertava ao vel-a instinctos de piedade e de protecção.

Alta, esbelta, levemente scismadora, como quem tem cuidados que a preoccupem, sempre vestida de seda com punhos de cabeção de rendas finas, um pouco amarelladas, que punham na toilette de casa uns toques de aristocratica distincção. Nos cabellos bastos, louros e frisados, uma flôr quasi sempre colhida por Bertha.

O pae, esse era forte, robusto e sadio, mas tinha a virtude dos valentes: a bondade. N’aquella physionomia accentuada e trigueira o sorriso era[226] tão doce que lembrava o desabrochar de um lyrio.

Não estava muito em casa, tinha que fazer fóra, andava ganhando a vida de elegancias e de confortos, que viviam inconscientes, innocentemente egoistas, os seus dous frageis amores—a mulher e a filha.

Mas quando elle estava, que festa!

Bertha, ora ennovellada aos pés da mãe, nas felpas avelludadas do tapete, e com os grandes olhos curiosos fitos nos d’ella, ora folheando um grande livro de imagens—como o teu, minha Naly—, ora empoleirada no espaldar da larga poltrona onde o pae estava sentado, e passando-lhe a pequenina mão crestada pela cabelladura revolta e crespa, Bertha era a mais feliz das creaturinhas do bom Deus!

Era um gosto vel-os alli a todos tres, na intimidade d’aquelle viver de familia!

Margarida, ao principio, trabalhava sempre; n’uns dias, um vestidinho para a sua querida filha, n’outros dias, um pequeno objecto galante e mimoso para o escriptorio do seu marido; de tempos a tempos um enxoval para uma pobresinha, um enxoval muito aceiado, que Bertha dobrava e desdobrava, que servia de thema para longas interrogações, e como que iniciação da creança na doce caridade de sua mãe.

[227]

O pae, quando voltava, tinha sempre tanto que contar!

Gente que vira, casos que lhe haviam succedido! planos de futuro que andava devaneando, e depois risos, brinquedos, correrias atrás do diabrete da Berthazinha, eu sei!… o demonio a quatro!

Havia alli um conchego tepido, uma alegria, uma benção de Deus, repartida por tres almas, e que parecia reflectir-se nas cousas mudas que o cercavam servindo lhe de elegante e rendilhada moldura.


Queres tu saber, Naly? Bertha tinha um defeito. Era um bocadinho egoista. Um egoismo de tres, já se entende, porque ella não sabia separar a sua vida da de seus paes.

Uma das manifestações mais claras d’este egoismo era a repugnancia que tinha pelos estranhos.

Sentia frio ao pé d’elles; fugia muito pensativa e muito arisca quando via um indifferente interpôr-se importunamente entre ella e as caricias que eram o seu alimento de todos os instantes.

Mas a pessoa que mais lhe aggravava esta impressão hostil, era um primo que por aquelle tempo começara a frequentar mais a casa.

[228]

Um moço, alto, elegante, bem parecido, muito fallador n’umas horas de expansão, muito concentrado n’outras horas, de bigode retorcido e triumphante, olhares que sabiam ser doces, e que eram quasi sempre altivos.

E, comtudo, que meigo que elle era para Bertha, espreitando-lhe os caprichos, conformando-se com as brincadeiras d’ella, trazendo-lhe bonitos, flores, cousas novas, delicadas, que ella não vira nunca, e que, no emtanto, vindas da mão d’elle lhe desagradavam instinctivamente.

É que tambem o primo tornara-se d’uma assiduidade irritante!

Primo para aqui, primo para alli, toda a gente gostava d’elle, para cada pessoa tinha um dito amavel, uma intenção delicada, uma lisonja habilmente escondida!

Tratavam-n’o por tu, era admittido nas festas intimas da familia, ia ao jardim apanhar flores, acompanhava a mamã ao theatro! Uma usurpação em fórma, uma usurpação revestida de todas as circumstancias aggravantes!

E depois usava essencias.

Bertha declarara com ar solemne e magestoso, que embirrava muito com o primo, porque elle cheirava a pat-chouly.

E ella que andava habituada aos aromas frescos[229] e sadios da livre natureza, não podia supportar aquelle cheiro de essencias requintadas, a que dava este nome generico e detestado.

mamã por ter de atural-o a cada instante, renunciára aos seus dôces trabalhos d’outro tempo, de que Bertha gostava tanto, e que davam ás suas mãosinhas travessas a sensação grata das sedas, das bonitas fazendas desdobradas sobre o estofo das poltronas, de todas as graciosas cousas com que podia brincar.

Andava triste a sua adorada mãesinha.

Tinha horas de melancholia morbida em que a cabeça lhe cahia no peito, como se tivesse dentro estranho pezo. E ficava-se horas e horas calada e desfallecida, com um livro aberto no regaço, ou com um trabalho apenas começado cahido aos pés, sem ouvir o papaguear festivo da sua pequena Bertha.

Quando voltava a si d’aquellas scismas doentias, parecia acordar d’um mau sonho, passava a mão pela testa, bebia agua, muita agua, e beijava a filha com um arrebatamento que lhe fazia mal.

A pequenita enfastiava-se!

Pudéra!

Fugia só para o jardim, sem que uma voz sollicita e assustada a chamasse de longe, sem que uns olhos inquietos a velassem de perto, e punha-se[230] n’uma indistincta e muda linguagem que só as suas flores entendiam a queixar-se das tristezas vagas, que a definhavam longe do calor que d’antes a acalentava e aquecia.

As tardes do gabinete azul, os principios da noite, quando cahia do alto dos céos a penumbra indecisa e dubia do crepusculo, tudo aquillo perdera a sua graça, a sua antiga e ideal doçura!

No silencio constrangido da saleta, retiniam então os passos conquistadores do intruso, e Bertha com vontade de romper em soluços, pedia muito depressa que a fossem deitar.

Chamava-se a creada, vinha, levava-a pela mão, amuada, e ella, ao aconchegar-se nas roupinhas do seu leito, sentia ainda uma estranha impressão de desconforto e de frio. Era o beijo distrahido e formalista, que lhe haviam imprimido na testa os labios quentes, seccos e febris de sua mãe.


Era noite de festa para Berthazinha.

Estavam sós todos tres no gabinete azul, o paraiso d’outr’ora, onde agora não havia senão flores… que ella não colhêra!

[231]

Bertha alcançara licença para se deitar ás nove horas.

Que bom!

Um longo serão de risos, de conversas sem tom nem som, de tagarelice inextinguivel. O livro das grandes imagens, a boneca deitada no tapete, uma profusão de bonitos de todos os feitios—alguns, por peccados de Bertha, tinha-lh’os dado o negregado primo! emfim por aquelle dia, Bertha estava magnanima. Perdoava-lhes o virem da mão de quem vinham!—e elles dous, os dous amores, o papá e a mamã ao fogão, conversando com a intimidade feliz de quem se quer muito!

É verdade que a mamã estava pallida, tinha até nos olhos umas orlas rôxas que pareciam de febre, e uma luz exquisita que lembrava aquelles clarões subitos e phosphoricos, que costumam accender as bruxas, quando fazem os seus encantamentos e maus olhados.

Oh! mas que importavam a Bertha symptomas que ella não via!

Estava contente, contente, e ia-se enthusiasmando a pouco e pouco, á proporção que a alegria lhe inundava como uma onda a pequenina alma luminosa!

Um beijo no papá, uma festinha na mamã, e aqui desmanchava um canudo, acolá despregava[232] um alfinete, depois fechava um livro que ia começar a ler, amarrotava uma renda, trepava para cima d’uma cadeira!

Que anjo! que demonico, feito d’um bocadinho de azul!

N’isto, por um movimento rapido e imprevisto, atirou-se ao collo da mãe, mergulhou a mãosinha no decote quadrado do vestido, amachucou uma rosa, que ali parecia aninhar-se no meio das rendas, e arrancou com gesto triumphante um papel, um papel côr de perola amarrotado.

—Oh! gritou a mãe, fazendo-se mais branca do que a cal; dá cá, dá cá, isso é-me preciso.

Quem disse lá que ella respondia!

Fugira rindo, rindo como uma doudinha, e fôra esconder-se entre os joelhos do pae, agitando com um gesto de graça inimitavel o roubado trophéo.

A mãe erguêra-se convulsa, tremula, com tamanho desvairamento e tamanha angustia no olhar e na voz, que dir-se-hia que a esmagava uma catastrophe imprevista e tremenda.

—Dá cá, dá cá, murmurou ainda desfallecida e supplicante.

—Papá, papá, esconde tu, respondia Bertha, n’uma convulsão de riso. Ih! cheira a pat-chouly, cheira a pat-chouly.

Elle e ella, a mãe e o pae, olharam-se.

[233]

Tu nunca viste um olhar assim, Naly, nem eu, e Deus nos defenda de o vermos nunca!

Foi mudo, foi longo, foi sinistro! Um poema de agonias silenciosas!

Depois o pae de Bertha, afastando a creança com um gesto lento, desdobrou o papel e leu.


Já lá vai um anno depois d’aquella noite de festa, em que Bertha alcançou licença para se deitar ás nove horas.

N’um anno quantas differenças póde fazer uma existencia!

É muda e triste a casa onde vimos tantos risos, está descuidado e cheio de hervas o jardim onde brincava um pequenino sêr feito da luz das auroras, e da innocencia dos lyrios.

Bertha está doente.

Na sua alcova branca e silenciosa, á luz dubia de uma lamparina de jaspe, vela uma criada, emquanto a loura pequenina fita no tecto os grandes olhos azues e parece seguir as visões phantasticas de um sonho de febre.

Ao principio era feliz, muito feliz. Quem e que viera destruir todas aquellas alegrias que pareciam[234] querer durar sempre? A pobre doentinha não o sabia.

Diante dos olhos d’ella dançava teimosamente um grande demonio escuro, com muitos bonitos nas mãos e com um bigode retorcido e triumphante.

Que vinha fazer alli aquelle demonio? Quem póde explicar o que são as visões de um delirio!

Depois uma certa noite, doce, allumiada, festiva. Que succedêra n’essa noite? Meu Deus! Ella brincára muito, ainda mais que o seu costume. Não lhe lembrava mais nada, senão que fôra deitar-se a chorar. Tambem não sabia porquê.

Desde então é que a sua vida mudára.

O pae repellia-a de si, sempre que ella lhe estendia os bracinhos, empurrava-a quando ella queria beijal-o!

Nunca mais houvera os serões do gabinete azul, nunca mais ouvira aquella voz paterna, tão grave, tão meiga, tão musical, acaricial-a como antigamente!

E a mãe?… A mãe definhava sósinha, mas n’aquella tristeza desolada, não admittia os beijos da sua Bertha d’outro tempo.

Um dia dissera-lhe asperamente, com um brilho secco no olhar:

—Vae-te d’aqui! És a causa da minha desgraça toda.

[235]

Bertha não percebeu o que aquellas palavras significavam, mas percebeu o ar com que foram ditas!

Nunca mais foi ao jardim! nunca mais viu a capoeira nem o viveiro dos canarios, nem os peixinhos vermelhos do tanque!

Tinha sempre frio, muito frio.

Tiritava horas e horas a um canto da casa de engommar onde as criadas riam e palestravam indifferentes, com uma expressão de espanto, de surpresa, de desolação selvagem no olhar!

Parecia-lhe a ella que tambem estava na vida como uma intrusa. O que viera ella cá fazer? Por que se não ia embora?

Sentia que alguem estava á espera d’ella, lá em cima, n’um sitio onde havia muito azul, muitas flôres, um jardim mais bonito que o que fôra d’ella, uns serões mais placidos e mais cheios de risos e de caricias que os amados serões de outro tempo… que não podiam voltar!

E abrindo os braços, fez um doce gesto de ave espavorida que vae levantar o vôo para o infinito!


—Ai! a menina que vae morrer!—bradou a criada com muita ancia.—Chamem a senhora,[236] chamem o senhor, este anjinho diz que lhes quer dizer adeus!

Ouviam-se portas que se abriam, vozes angustiosas que chamavam… depois, por duas portas differentes, entraram duas pessoas.

Dous espectros do que tinham sido.

Olharam-se como que admirados de se verem alli juntos!

Miraram-se curiosamente como para sondarem os grandes abysmos que os separavam dos dias d’outr’ora!

Depois sem quererem, olharam ambos movidos pelo mesmo impulso para o pequeno leito de cortinados brancos.

Uma voz dulcissima, toda mimo e toda supplica, chamou-os d’alli:

—Papá! mamã! adeus! Digam-me que são meus amigos agora que eu vou morrer! Como é bom ir para o céo! Nunca mais hei-de ter frio!…

Se não fosse a voz e a expressão divina d’aquelle olhar, quem diria que aquella que fallava era a pequenina Bertha!

—Ó papá, console a mamã, já que eu me vou embora! Voltem para o gabinete azul, e ao serão não se esqueçam de fallar de mim!

Puxou-os a ambos com uma força que não parecia[237] já d’este mundo, e abraçou-os unidos contra o coração!

Todos tres como d’antes!


Quando ambos se ergueram d’aquelle supremo abraço, os bracinhos d’ella tinham afrouxado e cahido.

—Perdôa-me pela nossa filha que morreu! soluçou a voz d’aquella mãe dolorida!

—Perdão! papá! ciciou como uma caricia de aragem uma voz que ninguem soube dizer se vinha da terra se do céo.


FIM DA PRIMEIRA PARTE


SEGUNDA PARTE


A PROPOSITO DE UM LIVRO

Ha momentos em que eu não posso deixar de me sentir desconsolada. Parece-me n’esses momentos que a humanidade está passando por uma das crises mais graves da sua vida de tantos seculos.

E quem terá forças para conservar-se espectador indifferente d’essa dolorosa tragedia de que é theatro o mundo inteiro!

Theorias que se atropellam e se contradizem, systemas politicos que mutuamente se combatem, opiniões tão variadas, ácerca das cousas graves e das cousas insignificantes, que não nos resta meio algum de descortinar a verdade em meio de tão babylonica confusão.

Na pratica o desmentido formal e permanente a todas as doutrinas que se prégam e se propagam!

[242]

Celebra-se a apotheose da familia, e a familia decadente, desnorteada, desunida, apresenta o reflexo fiel d’esta quadra de desalento e de incerteza!

Emquanto os sonhadores erguem um altar á justiça, como á deusa moderna que mais cultos merece, a injustiça acclamada, protegida, triumphante campeia n’este mundo onde a victoria já não pertence ao mais forte, mas sim ao mais astuto!

A politica, que parecia dever ser aquella sciencia complexa e respeitavel de conduzir as sociedades ao mais alto grau de aperfeiçoamento material e moral, não é senão um mercado abjecto, onde se debatem os mesquinhos interesses individuaes, não aquelles interesses que são a base do bem collectivo, mas os que se traduzem na exploração do homem pelo homem.

A guerra aqui acesa e selvagem, de uma selvageria refinada e scientifica, acolá disfarçada e hypocrita, arma-se por toda a parte, como nos seculos que lá vão, egualmente funesta, embora a revistam mais prestigiosos aspectos.

Falla-se em paz, em fraternidade universal, préga-se uma religião humana que parece querer e dever supprir a religião divina, mas os modernos crentes d’esse dogma que assenta no direito, na justiça, no amor universal, atraiçoam tanto as suas[243] doutrinas, como atraiçoavam a sua fé os catholicos mal esclarecidos das épocas de ascetismo rude, e de fanatica superstição.

Para onde vamos nós?

Se vamos para o Bem, o que é que origina esta dolorosa inquietação, que avassalla e confrange todas as almas, este contraste incomprehensivel, entre o que se pratica e o que se pensa?

Se vamos para o Mal, para que nos fallam do progresso, da perfectibilidade humana, das conquistas da civilisação, dos arrojos felizes da sciencia, de tudo que parece preparar ao homem uma quadra luminosa, feliz, nunca realisada até agora?

D’antes, n’estas horas de duvida, de angustia oppressiva, iamos nós procurar consolação na palavra animadora e harmoniosa dos que, com os olhos fitos na estrella do ideal, indicavam ao homem o rumo que elle tinha a seguir, para não se perder na sua gloriosa ascenção.

Hoje, esses pilotos da náu do futuro estão mudos ou descrêem tambem!

Mais doloroso ainda que o silencio desalentado, é o rictus sarcastico com que elles assistem á lucta estranha e confusa de tantos elementos contradictorios e incompativeis.

Depois a litteratura, que é o espelho da alma[244] das sociedades, é hoje por toda a parte um brado unanime de negação.

Não reconstrue, não modifica o que está feito, trata de o desmoronar pedra por pedra!

Ha um homem em França que refaz, collocado n’um ponto de vista diverso, a obra collossal de Balsac.

O romancista mais admiravel da França, aquelle que fez do romance um ramo das sciencias sociaes, fez n’um momento, que tem por força de ficar, a synthese de sua época.

Pintou, e com que potencia da verdade! os reis, e os operarios, as duquezas sentimentaes, e os artistas convulsionados pela nevrose do seu tempo, os politicos, os sabios, os pensadores, os litteratos; as peccadoras do alto mundo, e as peccadoras do mundo equivoco; os financeiros, e os luctadores ambiciosos; os que vinham perder a alma e gastar o corpo n’essa Pariz electrica e absorvente, que attrahe os genios e os monstros, e os que vinham alli conquistar a fortuna, o poder, a soberania omnipotente.

Na sua obra complexa, enorme, que ás vezes tem na distancia um não sei que de monstruoso, encontra-se viva, palpitante, com os seus vicios, com as suas paixões, com o seu talento ardente, com a sua magnetica e irresistivel seducção, uma[245] das épocas mais caracteristicas da civilisação da França, o que significa a civilisação da Europa.

Se em Balzac encontramos as florescencias rubras do mal, nem por isso nos seduzem menos as suavidades castas da virtude.

Ao pé de Madame de Marneffe, a pequenina e graciosa féra parisiense, felina e nervosa, com caricias que mordem e furores que acariciam, ha a doce figura de Eugenia Grandet, a mais dolorosa virgem, que a imaginação moderna ainda concebeu e idealisou.

Ao pé de Luciano de Rubempré o ambicioso effeminado e morbido; de Vautrin o brutal luctador que seria um condottiere do seculo XVI e que só póde ser um forçado no seculo XIX; ao pé de Marsay o politico sagaz, que faz dos homens, das mulheres e das cousas, meros instrumentos da sua fortuna, que não tem lei nem fé, e que é capaz de assassinar com um sorriso de dandy, temos d’Arthés o pensador austero, e pobre escriptor para quem a litteratura é um magisterio e não um officio, temos Cesar Birotteau, a sublimidade burgueza, o honesto commerciante que tem palavra de duque, que é perfumista com a mesma nobreza de abnegação e de honradez, com que se é sacerdote, e que glorifica toda uma classe de que se riem os frivolos, sem saber quanta heroicidade é[246] precisa para saber guardar immaculada em um peito de burguez, a honra de um paladino.

Dizem que o vicio pollula na obra de Balzac com uma exhuberancia de vegetação inacreditavel.

Elle não foi mais do que o analysta apaixonado da sua época.

Adorou-a pelo que ella tinha de grande, comprehendeu que lhe podia desnudar as chagas, visto que ao lado d’ellas podia mostrar tão admiraveis bellezas.

Foi implacavel na sua justiça.

O seu tempo seduziu-o pelo que havia de brilhante nos seus vicios, de fecundo e poderoso nas suas paixões, de arrebatado e creador no seu genio, de raro e dedicado nas suas virtudes.

Hoje no artista que segue as pisadas de Balsac, que não tem a sua potencia creadora, mas que tem como elle, e talvez mais methodicamente do que elle, o estudo paciente e investigador, que vemos nós que possa dar-nos aquella sensação de prazer agudo que a leitura conscienciosa de Balzac dá a um verdadeiro artista?

Emilio Zola tambem descreve a sua época.

É artista, porque sente e sabe fazer sentir.

Diz-se imparcial!

Faz viver nos seus livros a sociedade de que faz parte; entra nos palacetes de pedraria rendilhada[247] dos modernos financeiros, os reis do mundo actual, percorre os salões doirados e os boudoirs phantasistas, as salas de jantar, onde se reunem as reliquias mais preciosas de umas poucas de civilisações, janta nos restaurantes de mais fama, visita nos seus camarotes da opera ou dos italianos as mundanas mais elegantes, as hautes gommeuses mais admiradas e invejadas, está no segredo de todas as operações da Bolsa, escutou a uma porta todas as combinações e convenios diplomaticos, penetrou com a sua perspicacia tenaz no interior da alma que anima o seu tempo, fallou com os artistas, com os sabios, com os poetas, com as mulheres; subiu aos oitavos andares onde dormem amalgamados n’uma dolorosa e medonha promiscuidade os miseraveis d’essa Pariz, cuja superficie é tão seductora e tão brilhante; viu os farrapos que cobriam o corpo d’esses indigentes, e os vermes que corroiam a alma d’esses parias; escutou as perfumadas confidencias que murmuram devagarinho uns labios frescos e vermelhos, por detraz d’um leque onde dançam a gavotte umas pastorinhas de Watteau.

Observou de perto o que ha de mais brilhante e o que ha de mais abjecto, o que ha de mais puro e o que ha de mais ignobil.

D’essa observação tão variada e tão completa que resultado colheu?

[248]

Não o posso dizer ao certo, sei só que não ha nada mais desolador e mais triste do que a leitura d’um livro de Zola.

E Zola é, depois de Tlambert, o grande mestre que morreu, o escriptor de mais pulso da moderna geração realista.

Os outros não téem o talento d’elle, não téem o alcance funesto ou bom, mas em todo o caso poderosissimo da sua obra, não téem a sua paciencia de benedictino, exercida com os processos da nova escola.

Isto não é dizer mal dos que trabalham agora, é notar e assignalar um dos symptomas da confusão que hoje nos desnorteia.


Acudiam-me todos estes pensamentos, imagina como, leitora?

Ao lêr um novo livro de Feuillet, ultimamente publicado em Pariz Le journal d’une femme.

Feuillet é por excellencia o escriptor elegante e delicado.

No fundo, póde ser que a obra d’elle tomada no seu conjuncto não seja de uma moralidade tão cauterisadora como a que resulta dos livros de Zola.

[249]

Ninguem diga que Zola é um escriptor immoral, não; elle é simplesmente um escriptor mysantropo: vê as cousas pelo lado mais negro, e as suas bachanaes, nuas como são, não téem effeitos enervantes, doem como um caustico applicado sobre uma ulcera aberta.

Ao lel-o, a gente não tem de certo tentações de imitar os seus deploraveis heroes; pelo contrario. Sente-se ferida, humilhada, quasi que angustiada, e exclama tristemente: Meu Deus! pois a humanidade é isto!

Octavio Feuillet é, por assim dizer, o contraste do seu illustre contemporaneo.

Escreve das mulheres e para as mulheres com penna d’ouro e nacar.

Feuillet é o ultimo romantico, depois do romantismo ter morrido, como Balzac é o primeiro realista antes do realismo nascer.

Para Feuillet, o delicado observador, as paixões são doenças da alma; para Zola, o anatomista implacavel, as paixões são doenças do corpo.

O convulso e repugnante hysterismo das mulheres de Zola não tem nada que vêr com a sentimentalidade melancolica das mulheres de Feuillet.

Nenhuma d’ellas—deixe-se isto bem claramente registrado para honra e felicidade do sexo feminino—nenhuma d’ellas é a verdadeira mulher, a que[250] tinha a obrigação de ser a mulher do futuro, já me não atrevo a dizer da que o será.

Octavio Feuillet, que está talvez perto demais das cruas pinturas do realismo, intentou n’este seu ultimo livro, chamado Le journal d’une femme, rehabilitar as ideias romanticas, que visto perderem tantas mulheres, podem tambem salvar algumas.

Elle que sabe tão bem dar vida ás suas pallidas e nervosas heroinas, que téem na bocca o sorriso da esphinge, que téem na voz uns feitiços mysteriosos, que téem no gesto uma graça irrequieta e caprichosa, que sabem arrastar o homem até á beira do crime com um aceno das suas mãos esguias e aristocratas, elle, o creador do Conde de Camors, esse ultimo producto da litteratura byroniana, que endoudeceu de amor litterario tanta mulher, eil-o que se propõe d’esta vez o difficil thema de explicar a que nobres e altos sacrificios o romantismo bem entendido póde levantar uma mulher.

Foi arrojada a empreza; arrojada, mas feliz.

Le journal d’une femme, livro que eu já d’aqui recommendo a todas as minhas leitoras, é uma joia admiravel, cinzelada pela mão de um artista de coração.

E depois são taes os exageros e desmandos da[251] chamada escola realista, é tal o amesquinhamento a que ella reduz a humanidade, que é bom que um escriptor de tão prestigiosa eloquencia como é Octavio Feuillet mostre que, no fim de contas, nem tudo era mau na geração que os moços de hoje tentam desthronar com tão arrogante desdem.

Roubar ao homem e sobretudo á mulher aquelle ideal em que até agora todos punham a mira embora o julgassem inacessivel, é despir a vida das poucas flôres que ella póde ter.

Não; o homem não é só um ser organisado que pensa, é tambem uma alma que ama, espera e crê!

N’esta era de transformação e de incerta claridade, é bom que uma voz se erga e diga bem alto que a paixão só é criminosa quando mal dirigida, que o excesso do sentimento só é ridiculo quando mal applicado, que a abnegação inteira e absoluta tem gozos superiores a todos os gozos da materia, e que as almas boas e as almas grandes descobriram uma linguagem mysteriosa, na qual fallam com Deus.

Não basta descrever minuciosamente com uma perversão de gosto, devéras deploravel, tudo que ha mau, grotesco, ou vicioso na creação; não basta ter em si tão accentuada preoccupação horrivel, que se deseje vêr com o microscopio do naturalista, para bem lhe distinguir os defeitos, as anfractuosidades,[252] as maculas, os vermes, de tudo que á simples vista seria harmonioso e bello.

Áquelle a quem se roubam todas as illusões salutares cumpre apontar para algum bem que ainda lhe ficará na terra, bem verdadeiro que o compense de todas as suas perdidas alegrias mentirosas!

Não basta negar, é necessario affirmar com convicção robusta; não basta demolir, é preciso ao lado dos edificios que se derrubam e desmoronam construir novos edificios mais ricos e mais seguros.

Octavio Feuillet fez este livro, como um protesto de escola, sem comtudo perder com esta qualidade um tanto dogmatica, o seu interesse dramatico, a vida intensa, tão indispensavel ás verdadeiras obras d’arte.

Dado o caso de se chamar romantismo ao excesso de certos e determinados sentimentos, á concepção mais ou menos chimerica que temos das cousas da vida, resta provar se o romantismo póde ou não póde ser nocivo conforme o terreno em que medrar e o meio em que se desenvolver.

A principal heroina do romance, aquella que escreve o seu Diario, ao qual dá o titulo de livro, é uma rapariga apaixonadamente romantica, tudo quanto ha mais romantico, quer dizer tudo quanto ha de menos pratico e real.

[253]

Por isso sendo moça, formosissima, sentindo cantar dentro da sua alma a festiva e triumphante symphonia dos vinte annos, tendo uma d’estas bellezas caracteristicas que dão a certas mulheres um aspecto de deusas, amando com aquella primeira e casta ternura das virgens um homem em tudo digno d’ella, sacrifica todas estas superioridades da natureza, todas estas radiosas promessas de felicidade a quem? a que?

A um pobre mutilado que morria de amor por ella, a um soldado que voltára da guerra sem uma perna e sem um braço, informe, grotesco, irremediavelmente desgraçado, e que, assim mesmo do fundo do abysmo em que o destino o lançára, ousou amar aquella mulher olympica, e teve a audacia de tentar morrer por causa d’ella.

Emquanto elle viveu, foi-lhe fiel como as mulheres dignas o sabem ser, consolou-o de tudo que perdera, levou a luz da sua caridade bemdita aos antros em que aquella pobre alma se debatera inutilmente por tanto tempo.

Mais tarde quando o marido morre, abençoando-a como se abençôa um anjo, ella, livre de novo, torna a encontrar o homem que amou uma vez, e que não soube esquecer.

Esse é então marido da amiga, da infancia, da juvenil viuva.

[254]

Não são felizes, os dous, mas ella, a intrepida, a caridosa creatura, lá está tentando da abnegação de cada um d’elles fazer a felicidade de ambos.

Não o consegue, e quando a amiga, culpada e arrependida se mata para fugir ao horror de mentir eternamente a seu marido, só ella no mundo recebe a confidencia do seu crime, confidencia que n’uma carta repassada de dôr a douda creança lhe pede que transmitta ao esposo ultrajado.

Ficaram ambos livres em face um do outro, ambos viuvos, ambos tendo cumprido a missão que o destino lhe confiára.

Nada os desune agora, nada, a não ser uma duvida que punge o animo d’aquelle, que hoje ella ama perdidamente com a paixão concentrada de tantos annos de sacrificio.

—Porque foi que a minha mulher se matou? pergunta elle então. Ás vezes lembro-me que foi talvez o desamor que eu não soube occultar bastante. Se assim fôr, fugirei. Não quero gozar uma ventura de que não sou digno. Se eu matei uma innocente e casta creança, quem me dá direito a ser ainda feliz na terra?

Só ella o sabe, só d’ella depende aquella ventura divina, de que o dever e a caridade a fizeram fugir n’outro tempo.

Pois a ninguem revelou o segredo da sua amiga[255] morta, da doce creatura que a paixão fustigara e que a paixão matou!

Calou-se, deixou que o noivo da sua alma se affastasse para sempre, pungido por um remorso que o separava da ventura, e olhando para o berço da filha escreveu estas palavras que vertem lagrimas, as santas lagrimas, que os realistas não conhecem:

«Restas-me tu, minha filha… Escrevo estas linhas ao pé do teu bercinho… Espero que um dia estas paginas façam parte do teu enxoval de noiva; talvez ellas te digam que queiras muito á tua pobre mãe, tão romantica!… D’ella saberás talvez que a paixão e o romance podem ser bons, com a ajuda de Deus, porque elevam os corações e ensinam-lhes os deveres superiores, os grandes sacrificios, as elevadas alegrias da vida. É verdade que eu chóro ao dizer-te isto, mas olha que ha lagrimas que causam inveja aos anjos.


MADAME DE BALSAC

I

Ha tempo annunciaram os jornaes que a viuva do grande romancista vinha fazer uma viagem á Peninsula e que partira já de Paris em direcção á capital de Hespanha.

Senti então um impeto de curiosidade verdadeiramente irresistivel.

Pensei em vêr a deliciosa russa e em conhecer n’ella humanado e visivel, um de aquelles immoredouros typos femininos, de que Balsac foi o analysta assombroso, se é que não foi o phantastico creador.

Em Madame de Balsac havia de haver por força muito d’aquelle homem que é o producto mais[258] genuino da sua época e do seu meio; homem prodigio, que era ao mesmo tempo o espirito mais sceptico e o mais supersticioso, o mais corrupto e o mais infantil, o mais cultivado e o mais ignorante, o mais positivo e o mais phantasista, o mais atrozmente eivado de todos os venenos corrosivos da civilisação moderna, e o mais primitivo e adoravelmente poetico que existe no mundo da Arte.

Ella conhecera-o por muitos annos, mesmo antes de ser sua mulher, amparara-o muitas vezes nas suas luctas cyclopicas contra os modernos monstros—a Divida, a Calumnia, a Inveja—e tantos outros que lhe retalhavam o coração com as garras sanguinarias; acolhera-o muitas outras, cançado, vencido, aniquillado, depois de uma d’aquellas vertiginosas viagens pelos mundos chymericos do Impossivel; vira-o partir montado no fogoso Pegaso do sonho. Imaginario terrivel, moderno e mais complicado D. Quichote, em busca de tesouros que nunca existiram, de fabulosas hypotheses em que ninguem acreditava, de ideaes entrevistos que lhe davam o deslumbramento extatico e paradisiaco; ouvira-lhe depois no seu regresso ao mundo da realidade o rir estrondoso e rabelaisiano, rir de um gigante em horas de gaudio, rir só digno d’aquella natureza robusta e fecunda em contrastes,[259] que tinha todos os requintes aristocraticos e todas as grossas expansões plebeias; conheçera-o a fundo, debaixo de todos os aspectos, e aos meus olhos havia n’ella uma attração extranha e magnetica como quem visitou o antro de um leão e o domou meigo e dôce aos seus pés pequeninos.

Levei então horas e horas ideiando o meio porque me havia de approximar, eu obscura e desconhecida da illustre mulher, duplamente celebre pelo merito pessoal, e pelo genio de que era como que o reflexo vivo.

Quando estava no meio d’estas locubrações inoffensivas aconteceu o que era de esperar: a condessa Hanskan de Balsac, entendeu que Portugal, o Portugal tão querido dos poetas patriotas, não era digno de uma visita sua.

Resignei-me, portanto, a conhecêl-a sómente atravez de um livro que é a obra-prima de Balsac, o auctor de tantas obras primas que não morrem.

Este livro é a Correspondencia do grande escriptor, publicada ha pouco pela casa Calmann Levy.

Não conhecemos, podemos affoitamente confessal-o, livro mais dramatico, mais cheio de vida e de interesse, mais empoignant, permitta-se-nos o expressivo francezismo.

N’estes dous volumes de cartas apparece-nos Balsac em toda a potencia da sua extraordinaria[260] individualidade, e conhecer Balsac é como que conhecer a sua época, a sociedade que o produziu e formou, os vicios, virtudes, preoccupações, sentimentos, ideias e paixões do seculo extraordinario, de que elle é a synthese mais completa, seculo agitado por esse poder fecundo e malefico chamado Oiro que tamanha influencia exerceu na vida intima de Balsac.

Nos livros devidos á penna do fecundo escriptor, o oiro com o seu brilho fulvo, com as suas tentações diabolicas, com o seu cortejo de visões sinistras ou luminosas, com as suas miragens attrahentes e enganadoras, com as paixões phreneticas que elle cria, que elle excita, que elle exacerba, com os milagres de que é a fonte tantas vezes turva, com os explendores de que é o mais perfeito creador, o oiro, esse inimigo, esse auxiliar, esse idolo humano, scintilla, tremeluz, precipita-se em cascatas fulgidas, doira com o seu reflexo infernal todas as cousas, communica um não sei que de vertiginoso e satanico a todas as creaturas e a todos os objectos, produz allucinações doentias que desorientam e desvairam.

Esta preoccupação, que tanto nos espanta nos romances eminentemente modernos de pintor mais perfeito e mais realista que a sociedade franceza do seculo XIX encontrou, transparece, na existencia[261] inteira do homem, e explica-se por todos os factos do seu agitado viver.

Ganhar dinheiro, muito dinheiro, o que bastasse para saciar as ambições mais desregradas, os desejos mais insensatos, o ideal de luxo mais artistico e requintado, os sonhos mais orientaes de um nababo ebrio de haschish, eis o ficto que preencheu a vida de Balsac.

Á primeira vista a gente imagina que o escriptor lhe sacrificou e subordinou tudo o mais.

Engano!

Emquanto aquella phantasia desenfreada e febril revolvia milhões, aspirava á opulencia das Mil e uma noites, se lançava nas mais doidas especulações, escavava minas que não havia, procurava thesouros occultos, se exhauria emfim n’uma lucta impossivel e tenaz contra a mediocridade da sua fortuna, o escriptor severo e consciencioso não sacrificava ao ganho nem uma diminuta parcella da sua legitima gloria.

Os editores ajustavam pagar-lhe um livro por certa e determinada quantia, muitas vezes vantajosa para o orçamento do poeta, mas conhecendo-lhe a singularidade do caracter especificavam no contracto que o auctor só teria direito a receber um certo numero de provas, e que, excedido elle, as correcções seriam por sua conta.

[262]

Muitas vezes todo o preço do romance era esgotado nas correcções que Balsac fazia á sua custa, tão elevada era a ideia que elle tinha da perfeição da Arte.

Esmagado debaixo do peso das dividas, que todos os dias pagava e todos os dias cresciam, trabalhou como um titan, trabalhou sem descanço, sem treguas, com phrenezi, com paixão, com tenacidade de que só era capaz aquelle organismo d’uma robustez antiga, e ao mesmo tempo vibratil, nervoso, delicado como o de uma mulher.

Chegou a escrever consecutivamente e sem descanço pelo espaço de quarenta e oito horas, conservando-se n’uma exaltação artificial, produzida pelo fortissimo café, que bebia em grandes doses.

Quem deixaria de succumbir a esta vida de martyrio?

Apesar do seu estranho vigor, aos cincoenta e um annos Balsac succumbia a um aneurisma, tendo produzido dezenas e dezenas de obras admiraveis, que bastariam, repartidas, para constituir a fama de vinte escriptores.

Morreu com a penna na mão, tendo attingido as duas ambições supremas da sua vida; morreu sendo amado e sendo celebre, mas morreu antes de haver podido saborear no repouso e na dilatação tranquilla da alma o amor conquistado em annos e[263] annos de servidão cavalleiresca, de castidade monastica, de paixão secreta e delicada; a celebridade adquirida em trinta annos do mais infatigavel e violento labutar que ainda um espirito de homem concebeu e realisou.

Quanto mais se estuda aquella vida singular, maior pasmo nos avassalla o entendimento.

Todo elle era contrastes incomprehensiveis, dos quaes, no entanto, tinha a consciencia definida e clara.

Pondo na bocca d’um dos seus protagonistas pensamentos que eram seus, diz elle analysando a sua propria vida:

«Amante effeminado da preguiça oriental, namorado dos meus sonhos, sensual por temperamento, trabalhei sempre sem repouso, recusando-me a todos os gozos da vida parisiense; guloso, fui sobrio; gostando dos grandes passeios, das longas viagens maritimas, desejando conhecer todos os paizes da terra, vivi constantemente immovel, sedentario, com a penna na mão, amarrado á banca do trabalho; fallador, loquaz, communicativo, ia escutar em silencio os professores nos cursos publicos da bibliotheca e do museu; vivi solitario como um monge benedictino, e a mulher no entanto era a minha chimera unica, chimera sempre acariciada, e sempre esquiva.»

[264]

O que elle aqui não diz, mas o que mais d’uma vez lhe foge dos labios e dos biccos da penna, n’um grito doloroso e dilacerante de agonia prophetica, é que a morte implacavel ha de vir colhel-o no instante em que elle já extenuado de tantas luctas ia tocar a méta do seu desejar infrene.

O que torna mais digno de um curioso estudo a indole litteraria de Balsac é a revelação feita pelos seus amigos e confirmada por elle proprio, da excessiva difficuldade, que o romancista encontrava para achar um molde adequado ao seu pensamento tão profundo e complexo.

A palavra trahia-o a cada instante, a lingua, como a Galatheia da fabula, recusava-se a ceder ás febris solicitações do seu pensamento, fugia-lhe ondeante e caprichosa, e elle impotente, desesperado, ardendo em febre, luctava noites e noites com a fórma tyrannica que se não queria deixar domar!

«N’essas batalhas nocturnas,—diz Théophile Gauthier, no admiravel estudo que consagrou a Balsac,—e das quaes o escriptor acabava de manhã despedaçado, mas vencedor, quando o lume do fogão se apagava e a atmosphera arrefecia, a cabeça d’elle exhalava fumo, e do seu corpo sahia uma especie de nevoeiro vizivel como do corpo dos cavallos em tempo de inverno.

[265]

«Ás vezes uma só phrase occupava uma vigilia inteira; era empolgada, tornada a empolgar, torcida, amassada, martellada, allongada, encurtada, escripta de mil modos differentes, e coisa notavel! a fórma necessaria, absoluta, não apparecia senão depois de se haverem exgotado as fórmas approximativas. O metal, sem duvida, corria muitas vezes de um jacto mais cheio e mais solido, mas poucas paginas existem de Balsac que ficassem exactamente iguaes ao primeiro rascunho.»

II

É ainda Théophile Gauthier quem nos deixou de Balsac o retrato mais expressivo, aquelle que se nos affigura mais fiel.

«Usava elle sempre, diz o escriptor já citado, em vez de robe de chambre, o habito de cachemira ou de flanella branca, preso á cintura por um cordão grosso, com o qual, mais tarde, se fez retratar por Luiz Boulanger.

«Que phantasia o levára a escolher de preferencia aquelle vestuario que nunca mais deixou? Não o saberemos dizer.

[266]

«Talvez que elle aos seus olhos symbolisasse a vida claustral a que o seu trabalho o condemnava, e, benedictino do romance, adoptara o trajo da sua vocação.

«Como quer que seja, a verdade é que lhe ficava muito bem.

«Gabava-se sempre mostrando-nos as suas mangas intactas, de não lhes haver jámais manchado a alvura com a menor nodoa de tinta, porque, dizia elle, «o verdadeiro homem de lettras deve ser aceiado no trabalho.»

«O habito, um pouco aberto, deixava-lhe vêr o pescoço de athleta ou de touro, redondo como um troço de columna, sem musculos salientes, e de uma alvura assetinada, que fazia perfeito contraste com o tom mais colorido das faces.

«N’essa época, Balsac, em todo o vigor da sua virilidade, apresentava indicios de uma saude violenta, pouco em harmonia com a pallidez esverdeada que o romantismo tinha posto á moda.

«O puro sangue da Touraine fustigava-lhe as faces tintas de purpura vivaz, e dava-lhe um colorido quente aos grossos labios bondosos e espessos, tão accessiveis ao riso; um pequeno bigode e uma pêra impercetivel accentuavam-lhe os contornos sem os esconder; o nariz quadrado na extremidade, repartido em dois lobulos, de narinas amplas[267] e dilatadas, tinha um caracter inteiramente original e unico; a ponto de Balsac dizer a David de Angers em quanto este lhe modelava o busto: «Dê attenção ao meu nariz;—o meu nariz é um mundo!»

«A testa era bella, vasta, nobilissima, muito mais branca do que o rosto, sem rugas, a não ser um sulco perpendicular; as protuberancias da memoria dos logares formavam uma saliencia pronunciadissima, por cima das arcadas superciliarias; os cabellos longos, abundantes, asperos e negros, arripiavam-se para traz como uma juba leonina.

«Quanto aos olhos nunca houve outros que se parecessem com os d’elle.

«Tinham uma vida, uma luz, um magnetismo inconcebiveis.

«Apesar das longas vigilias nocturnas, a esclerotica conservava-se-lhe pura, limpida, azulada, como a de uma creança, ou a de uma virgem, e engastava dois diamantes negros, a espaços allumiados por oppulentos reflexos de ouro. Eram olhos para fazerem baixar as palpebras ás aguias; olhos capazes de lerem atravez das paredes e dos corações, de fulminarem uma féra furiosa: olhos de soberano, de vidente e de domador!»

Madame de Girardin, no seu romance intitulado:[268] A bengala do snr. de Balsac, falla d’estes olhos esplendidos:

«Tancredo avistou então no cabo d’esta especie de masso, turquezas e ouro, cinzeladuras maravilhosas; e por detraz de tudo isto dois grandes olhos negros mais brilhantes que todas as pedrarias.

«Logo que a gente encontrava o olhar d’estes olhos extraordinarios, não podia notar sequer o que as outras feições tinham de trivial ou de irregular.

«As mãos de Balsac eram de rara formosura, verdadeiras mãos de prelado, brancas, de dedos pequenos e redondinhos, unhas roseas e brilhantes; era muito presumido d’ellas, e sorria-se de prazer quando via que as notavam».

Diante d’este retrato é mais facil comprehender o escriptor com a sua admiravel potencia intellectual, e as suas pequenas manias pueris; sympathico, bom, com vaidades inoffensivas, e austeros orgulhos, sedento de um affecto unico, e de uma celebridade que fosse só d’elle.

Nas suas cartas de uma eloquencia irresistivel, volteiam constantemente as duas grandes preoccupações da sua vida—a gloria e a mulher!

«Tenho a alma profundamente triste, escreve elle. Só o trabalho me ampara na vida. Não haverá para mim no mundo a mulher a que eu aspiro? As[269] minhas melancolias e tedios physicos cada dia se aggravam mais, se tornam mais longos e mais frequentes. Cahir d’este trabalho esmagador ao nada mais completo! não ter nunca ao pé de mim aquelle doce e carinhoso espirito da mulher, por quem tenho feito tanto!»

E fez! digam o que disserem os seus detractores, ninguem como elle comprehendeu a mulher,—principalmente a mulher do seu tempo,—nas suas fraquezas, nos seus crimes, nas suas delicadezas occultas, nas suas aspirações morbidas e doentias, nas exigencias despoticas da sua alma e dos seus nervos, nas abnegações sublimes de todo o seu sêr, nas suas vaidades ferozes, no esquecimento absoluto, na abdicação completa de qualquer egoismo, em tudo emfim que ella tem de bello e de feio, de grandioso e de ridiculo, de puro e de maculado.

Que o digam Eugenia Grandet, a mais doce e mais melancolica das suas creações; La Fossette, idylica visão tão sympathica como a Mignon, e mais real do que ella; a condessa de Morsauf, a martyr do dever; a viscondessa de Bauseant, a duqueza de Langeais, madame de Restaud, lady Dudley, a monumental Valeria Marneffe, e tantas outras, tragicas peccadoras, fascinantes, demonios que teem filtros na voz e no olhar; productos de uma[270] civilisação gasta e apodrecida; figuras typicas que hão de ficar umas, caracteristicas da sua época e do seu meio, outras, eternas e sempre verdadeiras como a humanidade!

Em Balsac ha muitas vezes expansões de candido orgulho que seriam ridiculas n’outro homem, e que a elle o tornam mais sympathico.

Tem mais do que a consciencia clara do seu valor, tem uma confiança enorme em si, no seu talento, na sua obra, na sua missão.

Imagina-se apto para todos os misteres, julga-se não só um grande romancista, mas alguma cousa menos—um grande politico!

Escrevendo Seraphita e Luiz Lambert, duas obras que lhe foram inspiradas pelas suas leituras de philosophia espiritualista, e pelas tendencias Swedenborgistas que houve n’elle n’um dado momento da sua existencia, tão intellectualmente accidentada, julga preencher uma grande lacuna, produzir alguma cousa de grande que os seculos vindouros possam pôr ao lado do Fausto!

Curiosa illusão do genio!

Como se houvesse nada menos nebuloso, menos metaphysico do que esse vigoroso realista, observador potente para quem a vida com todas as paixões que a convulsionam e agitam não conservou um unico segredo.

[271]

III

São de 1835 as primeiras cartas que na Correspondencia de Balsac apparecem dirigidas a madame Hanska, se bem que já de mais tempo dactassem as suas relações de pura e platonica amisade com a elegante e fidalga mulher, que muito mais tarde foi sua esposa.

Duram cerca de dezesete a dezoito annos estas relações que o tempo modificou, e estreitou tão profundamente, mas desde a época em que esta mulher superior apparece no seu destino, a vida de Balsac tem um profundo e apaixonado interesse.

Vinte horas por dia trabalhava elle então, para conseguir encher aquelle horrivel tonnel das Danaides, que era a sua divida!

Apesar d’isso, lograva ainda roubar alguns instantes a este agro labutar, para escrever umas cartas que todos os criticos hão de consultar no futuro, para conhecerem a fundo a vida e o caracter do prodigioso escriptor.

São caricias ideaes, interrompidas por calculos[272] monetarios, são queixas dilacerantes a que se segue uma longa risada de inoffensiva ironia; porque elle, que soube pintar tão bem os cynicos, os depravados, os terriveis escarnecedores, cujo riso corroia como um caustico, era no intimo bom, quasi infantil; depois confidencias, esperanças, sonhos politicos, sonhos financeiros, sonhos industriaes, planos gigantescos de trabalho, phantasias de artista, desejos de mulher garrida e bonita, observações profundas, divagações poeticas, melancolias de alma solitaria que ninguem na terra sabia entender.

Entendia o ella, a adoravel slava, que vêmos atravez d’estas cartas, altiva para todos, consoladora e maternal para elle; grave, magestosa, fidalga como a sua velha raça, e no entanto cheia de graciosas delicadezas, que endoideciam de jubilo e de amor o plebeu namorado de todos os requintes aristocraticos, o trabalhador eternamente exilado de todas as alegrias do amor, o artista que tão bem sabia avaliar o lado elevado e bello de todos os sentimentos.

É um estudo interessante e curiosissimo vêr como o tom ao principio respeitosamente affectuoso das cartas de Balsac vae seguindo gradações successivas e harmonicas, tornando-se terno, apaixonado, confiante, expansivamente amoroso.

[273]

É que madame Hanska, quando elle a conheceu, é uma senhora casada e sinceramente virtuosa.

O adoravel monstro parisiense de juba de leão e olhos de brilho fulvo e diamantino, poude attrahir-lhe a curiosidade, excitar-lhe a imaginação, seduzir-lhe o espirito, mas parou aqui o seu terrivel poder!

E só depois de viuva, quando, sem crime, a altiva dama póde entregar-se á tendencia tão violenta do seu coração, é que ella o acolhe com o abandono de mulher amada e amante, que lhe deixa conceber esperanças que o fascinam, e que por fim as corôas, dando a sua fina mão branca, esguia, principesca, ao pobre artista, ao louco aventureiro do genio, que tão fiel e estremecidamente lhe quiz, em longos annos de casta abstenção.

Mas elle trabalhara, luctara, padecera tanto; por tanto tempo desejara aquelle enlace, que era ao mesmo tempo a realização das suas chymeras de ambicioso, e dos seus sonhos de homem e de poeta; empregára tão violentos esforços para pagar até ao ultimo ceitil a sua enorme divida, para entrar desassombrado e digno na vida conjugal, em que, aos olhos d’esta sociedade ignorante, elle dava tão pouco e recebia tanto; realisára taes[274] prodigios para mobilar, como um artista millionario, o ninho em que havia de receber a adorada mulher que deixava por elle as pompas seculares da sua vida opulenta, que succumbiu ao excesso das fadigas e que ao tocar com os labios sofregos o pômo tantas vezes sonhado, o sentiu esvaír-se em cinzas, como em cinzas se esvaía a sua vitalidade opulenta!

É esta lucta d’um tragico sublime, mais interessante do que todos os romances que Balsac escreveu, que se desenrolla com uma belleza maravilhosa na sua Correspondencia, cuja leitura aconselhamos sem hesitação a todas as nossas leitoras, cousa que não fariamos a respeito da obra do escriptor, apesar da sua incontestavel e radiante formosura.

É preciso ler estes dois volumes para saber como o grande romancista soffreu e como se compram caras as glorias do genio, tão invejadas pela turba.

«Não tenho nem uma hora para chorar, nem uma noite para descançar!», diz elle n’uma das suas cartas.

Madame Hanska é comtudo para o titan, infatigavel e sempre vencedor, a suprema doçura, o balsamo ineffavel de todos os instantes.

«Ó minha querida alma fraternal, tu és a santa,[275] a nobre, a dedicada creatura a quem eu entrego toda a minha vida e toda a minha felicidade com a mais ampla confiança! Tu és o pharol, a estrella luminosa e la sicura richezza senza brama! Em ti comprehendo tudo, até as tuas tristezas e por isso as amo tanto! Comtigo a sociedade moral não existe! eis o grande segredo, o segredo supremo de felicidade.»

Mas para que havemos de fazer citações sempre incompletas e sempre inuteis?

Quem quizer conhecer a que foi esposa e hoje é viuva d’um dos maiores genios da França, que leia o livro de que temos extrahido rapidos trechos.

Vel-a-ha serena, intelligente, instruida, não bella d’aquella belleza juvenil, que agrada aos mais profanos, mas da grave formosura, que envolve o outomno da mulher n’uma nuvem de indefinivel saudade, sabendo curvar a sua gentil e orgulhosa cabeça de madonna ao jugo d’uma elevada ternura, e comtudo conservar intacta a sua dignidade de senhora, duplamente illustre pela virtude e pelo nascimento; tendo para o genio a admiração e a indulgencia; comprehendendo com uma finura toda feminil, feita de talento e de experiencia, o que ha de infantil n’um grande homem, o que ha de fraqueza n’uma potencia intellectual, abdicando todas[276] as falsas vaidades, cultivando em si todos os verdadeiros orgulhos, n’uma palavra a mulher completa, tal como a sonhamos e como quereriamos vel-a mais vezes realisada.


LINCOLN E GRANT

De vez em quando a tela monotona d’esta nossa vida de Lisboa, unicamente bordada de pequeninos cancans politicos, litterarios e sociaes, rompe-se com a chegada, ou para melhor dizer, com a passagem de um viajante illustre.

Em geral os viajantes que por cá apparecem não chegampassam.

É mais verdadeiro o verbo, embora lisongeie muito menos a vaidade nacional.

Este nosso modesto Jardim da Europa á beira-mar plantado, como a caridosa phantasia do poeta do D. Jayme lhe chamou, tem poucos attractivos que chamem os viajantes.

D’entre os que nos teem visitado, só um, e esse na sua qualidade de mulher tinha amplo direito para se entreter com devaneios illusorios, só[278] um—M.me Ratazzi—descobriu em nós qualidades extraordinarias que nos vaticinam brilhante futuro, além de nos dotar de genios pouco vulgares, de obscuros Shakespeares, para quem soará brevemente a hora gloriosa da fama universal.

A propria M.me Ratazzi se offereceu bizarramente para apressar essa hora, que já ia tardando, não só pondo em prosa franceza a prosa dos nossos escriptores, como tambem encarregando-se ella propria de personalisar, n’um dos eternos theatrinhos que anda armando por toda a parte, as creações mais ou menos formosas dos ditos Shakespeares, desconhecidos.

Será bom que a gente peça a Deus d’aqui por diante nas suas orações mais fervorosas não excitar a dedicada admiração d’aquella illustre, mas indiscreta dama!

Quem lhe manda a ella andar apreguando lá por fóra nossas glorias!

Nós bastamos ao menos para nos applaudirmos mutuamente.

A que vem, porém, todas estas divagações? pergunta de certo a leitora.

E pergunta com muita justiça, porque a minha imaginação, está folle du logis indisciplinada, não tem direito para cansar assim a benevola attenção dos que me lêem.

[279]

Vinha tudo isto a proposito de ter estado ha pouco entre nós, vindo embarcar no nosso porto, o general Ulysses Grant, um dos vultos mais importantes da moderna historia.

O apparecimento d’este homem modesto, que foi um heróe, além de ser um grande cidadão, pouca ou nenhuma impressão produziu no espirito dos lisboetas.

Porque, emfim, sejamos justos, o general Grant que direito podia ter á fervida admiração dos seus contemporaneos?

O general Grant não inventou, como o seu patricio Boyton, um apparelho de borracha para andar por cima d’agua; o general Grant não é um palhaço afamado dos que attrahem o High life ao circo Price; o general Grant não tem nem a voz de Manrico ou de Arthur, nem a capa e o chapeu de pluma d’estes cavalheiros; o general Grant não passa de um homem muito vulgar, que salvou o seu paiz na guerra, e que o reconstruiu, desenvolveu, fortificou e engrandeceu durante a paz!

Que significarão estas cousas para quem só gosta de aventureiros e de poseurs?

Nós, porém, é que, lendo que chegara á cidade em que vivemos o ex-presidente dos Estados-Unidos da America, tivemos curiosidade de lançar um relance de olhos, comquanto rapido, sobre a vida[280] d’esse homem singular, d’esse moderno luctador, vida que se nos afigura um estudo proprio para levantar e robustecer o espirito dos que acreditam nos futuros destinos da democracia.

Não é possivel separar na historia os dous nomes de Lincoln e de Grant.

Ambos combateram pela mesma nobre causa, ambos concorreram igualmente para o seu grande e difinitivo triumpho.

O nome de Lincoln tem a suprema aureola que dá o martyrio, o nome de Grant tem o prestigio fascinador que dá a heroicidade.

Nenhum conhece o apparato, a ostentação, esta humilde vaidade que torna os povos latinos tão doudamente namorados de tudo que fulgura.

Ambos elles pertencem profundamente, mais ainda pelo caracter do que pelo nascimento, ao paiz de que são filhos.

Paiz estranho, gigantesco, sempre agitado, onde o homem tem campo vasto para desenvolver a sua multipla actividade, para exercitar e pelo exercicio permanente robustecer as suas varias e complexas faculdades, e onde, tendo de dever sómente ás suas forças individuaes a elevação a que forçosamente aspira, elle tem de empregar n’essa lucta de ambições fecundas todos os recursos, todas as[281] energias da sua intelligencia, todas as riquezas da sua organisação.

O que ha de extraordinario n’estes dous homens é que ambos alcançaram o mesmo fim, ambos partiram da mesma origem, e comtudo não ha nada mais divergente do que o caracter d’elles e os meios que empregaram para subir ao mesmo posto supremo da sua nação.

É fóra de toda a duvida que hoje a ideia democratica tende a triumphar por toda a parte.

É uma ideia que germinou ha dezenove seculos, e que, antes de bracejar e florir á luz crua do dia, lançou até ás entranhas da terra as suas raizes vigorosas, cresceu, medrou, sugou a mais exhuberante e a mais substanciosa seiva, minou lentamente tudo que lhe ficava em torno, e, quando emfim appareceu a todos os olhos, já vinha forte e robusta demais para que ousassem derrubal-a.

A democracia não é um modo de ser transitorio das sociedades modernas; quando as leis e os costumes, quando os acontecimentos e os homens, se modificaram e transformaram á sua grande voz, já ella tinha direito de asylo em todas as consciencias.

Os que a repulsam não desconhecem o feio crime que perpetram.

Os que a atacam são movidos pelo seu proprio[282] interesse, que ella muitas vezes tem de magoar ou de destruir, mas nunca pela sinceridade das suas convicções.

A democracia bem entendida não póde separar-se da ideia da justiça.

Desde que uma despontou sobre a terra, outra começou a apparecer imponente e irresistivel ao espirito dos que sabem ler em vagos prenuncios as transformações fataes de que teem de ser theatro as sociedades.

A democracia não está, pois, destinada a morrer como as outras fórmas sociaes que a precederam, e que não foram senão a lenta preparação do seu triumpho, comquanto pareçam as suas inimigas irreconciliaveis.

Entre os elementos que constituiram o passado, e os que vão constituir o futuro, não ha inimizade, ha incompatibilidade.

Uns teem de succumbir para que os outros triumphem, eis tudo.

N’esta grande evolução que nunca pára, o que ás vezes se nos afigura mais contrario a uma causa é justamente aquillo que lhe está preparando a victoria absoluta.

É bom que tenhamos isto sempre bem presente, para que não sejamos accintosamente inimigos do que foi, nem loucamente vaidosos do que vai ser.

[283]

Os acontecimentos não são nunca o resultado de uma causa isolada; são a consequencia fatal de uma lei relacionada com todas as outras, parte que está em perfeita harmonia com o seu conjuncto.

A geração de hoje, e a que foi sua predecessora, fizeram muito, é verdade, em favor da causa democratica, porém não foram ellas que no curto espaço de um seculo semearam o germen, regaram a planta, a viram transformada em arvore gigantesca, e lhe colheram os fructos abençoados.

Seria demais para tão pouco tempo.

É bom que o repitamos: ha dezenove seculos que a humanidade caminha, sem parar um só instante.

Tem tido dias que podem chamar-se seculos, e em compensação tem tido seculos que pódem chamar-se dias; em todo o caso, é porque ella ainda não estacionou que hoje avista emfim o ponto a que se dirigia.

Tenhamos o santo orgulho do que temos feito, mas não desprezemos o que os outros fizeram antes de nós.

[284]


A America é o paiz em que o pensamento democratico tem tido mais pratica e mais positiva realização.

Sem entrarmos em considerações que seriam inopportunas, sem analysarmos todas as condicções excepcionaes que favoreciam este povo, para que elle pudesse, mais do que nenhum outro, dar uma forma real ao que tem sido o sonho de tantos utopistas e de tantos martyres, basta-nos percorrer rapidamente a vida dos dous homens notaveis de que fallamos para conhecermos a fundo quanto os costumes, as ideias, as leis, os sentimentos do povo americano estão profundamente penetrados do principio da igualdade de condições, que é no fim de contas a base de toda a verdadeira democracia.

Tanto Lincoln como Grant sahiram das mais humildes posições sociaes.

Lincoln foi até aos vinte annos carpinteiro e barqueiro; Grant foi até aos trinta e tantos annos operario como seu pae, operario humilde e obscuro.

Se me perguntarem qual dos dous me inspira mais sympathia, responderei que prefiro Lincoln.

[285]

Ambos teem a suprema distincção da honestidade, esta virtude moderna, que é indispensavel aos grandes homens, os quaes tinham d’antes ampla licença para serem aventureiros felizes, sem por isso deixarem de ser admiraveis e admirados.

Mas, emquanto Grant é simplesmente um homem de energia inquebrantavel, e de espirito positivo e clarissimo, Lincoln, que é tambem isso, é mais ainda do que isso, porque é uma alma de poeta.

De poeta, sim; não se riam, minhas queridas leitoras.

A poesia que se escreve é muito inferior áquella que se sente e que se pratica.

Não admira que a alma do martyr americano se colorisse na mocidade de todas as tintas opulentas da genuina poesia.

Elle conhecêra de perto a natureza grandiosa do seu paiz; ouvira, humilde, pobre, talvez inconsciente, o que diz no silencio das noites ou no acordar festivo das madrugadas a voz sonora, grave, religiosa das florestas insondaveis.

Depois, o seu primeiro livro, aquelle em que aprendeu a lêr na obscura escola da terra em que vivia, o que mais o inspirou, o que lhe deu adoraveis côres para as suas tão finas parabolas, eloquencia e uncção para advogar a causa de tantos[286] milhões de parias, arrojo, audacia e valor para proclamar a redempção dos seus irmãos escravos—e escravos na terra onde uns poucos de homens intemeratos tinham vindo erguer o estandarte da liberdade, desconhecido na Europa—o livro, emfim, da sua mocidade foi a Biblia, o grande, o immutavel poema, o maior de todos, porque não é o poema de um homem, é o poema de um povo.

Lincoln teve, como todos os poetas do coração, o culto mais profundo pela mãe.

—Tudo que sou a ella lh’o devo,—dizia.

E, no entanto, ella morrêra-lhe quando o filho contava apenas dez annos, e fôra em vida uma creatura simples, uma alma ingenua e ignorante.

Quem póde, porém, affirmar que não existisse uma communhão mysteriosa entre a alma da mãe e o espirito do filho!

Quem sabe se a ella lhe faltou apenas cultivo esmerado para ser uma creatura superior, e se a creança rude e obscura, que foi mais tarde o grande homem e o grande martyr, não deveu as qualidades que o tornaram tão distincto á influencia occulta da que o gerou no seio?

Como quer que seja, a verdade é que o pobre operario conseguiu á força de estudo—estudo ainda assim que nada teve de methodico—improvisar-se advogado.

[287]

Lincoln n’esta nova posição, conquistada pela sua energica vontade, tinha uma singularidade que deve espantar altamente: só acceitava a defeza de causas justas.

A feição mais caracteristica do espirito de Lincoln é uma jovialidade conceituosa, uma malicia benevola, uma graça de moralista, que faz das fabulas e das parabolas armas infalliveis de argumentação.

Nunca se deu ao trabalho de improvisar arrojos de eloquencia, tinha sempre ao serviço das suas convicções umas anecdotas a um tempo cheias de graça e de bom senso, umas pequenas historias que deitavam por terra toda a laboriosa rethorica dos adversarios.

Aos trinta annos o advogado modesto viu-se de repente orador popular e candidato á legislatura da sua terra.

Não que elle fizesse nenhum d’esses discursos tribunicios que arrastam e enthusiasmam as massas, mas sempre pela força irresistivel do seu bom senso, que era tão raro e tão completo, que o punha a par dos homens de genio.

Todos conhecem a vida de Lincoln, que, depois de ser um dos oradores mais populares e mais queridos das reuniões publicas do seu paiz, foi duas vezes eleito presidente dos Estados-Unidos,[288] e durante os ultimos annos da sua vida gloriosa sustentou e venceu uma das guerras mais assoladoras dos modernos tempos, e arrancou da terra que lhe deu o sêr essa lepra—hoje felizmente desconhecida no mundo civilisado—que se chama escravidão!

Foi pouco tempo depois de ter assignado o decreto que remia dos horrores do captiveiro quatro milhões de desgraçados, que Lincoln, um dos heróes da humanidade, um dos santos, um dos conquistadores, um dos martyres de que falla com mais louvor a historia, cahiu morto, ás mãos covardes de um assassino!

Nada mais pathetico e de uma tristeza mais commovente e mais profunda do que a descripção do funeral do libertador da patria, do grande emancipador da raça escrava.

O seu cadaver, consagrado pela admiração d’esse povo gigante, foi levado de capital em capital, desde Washington até á pequenina cidade de Springffel, patria de sua mocidade laboriosa e humilde.

Foi um caminho de triumpho, que lembrava, mas de bem diverso modo, o caminho que elle andara em vida, desde a sua terra pequena e pobre, até á grande capital, onde o tinham levantado á primeira magistratura do paiz.

[289]

D’alli voltava elle agora, martyr da sua causa que era a causa da patria, da humanidade da pura democracia, e que deixára vencedora e triumphante.

Não póde haver existencia mais cheia, não póde haver gloria mais pura, nao póde haver destino mais digno de admiração.


Grant, que fôra desconhecido até muito mais tarde do que Lincoln, revelou-se d’outro modo á attenção dos seus patricios.

Longe de ter a facilidade graciosa do espirito do seu predecessor, o espirito de Grant era acanhado e silencioso. Na infancia e na mocidade nenhuma superioridade visivel o distinguia dos seus companheiros.

Educado á custa do Estado na escola de West-Point, sahio d’alli como alferes graduado do 4.o regimento de infanteria, e partindo para a guerra do Mexico, distinguiu-se ás ordens do general Taylor no cerco de Vera Cruz.

Depois de sete annos de serviço, em que se mostrou sempre militar valente, pediu a sua demissão, e estabeleceu-se como simples rendeiro no Missouri, proximo de S. Luiz.

[290]

Muito pobre, se bem que muito trabalhador, tendo já quatro filhos, Grant não tinha remedio senão ir elle proprio vender as madeiras da sua matta á cidade de S. Luiz, e muitos habitantes d’essa cidade se hão de lembrar ainda de vêr aquelle homem agil, laborioso, calado, quasi mudo, passar na sua carroça, ao galope dos cavallos, que sempre teve bons, descarregar a lenha que trazia, e partir de novo, tão mal trajado, que muitos dos seus antigos camaradas do exercito se envergonhavam de se darem por conhecidos d’aquelle grotesco figurão.

Não lhe correu, porém, favoravel a fortuna, apesar da energia com que elle trabalhava.

E o futuro presidente dos Estados-Unidos, cançado de luctar em vão contra a má sorte, voltou para junto da sua familia, que toda vivia do commercio dos couros, e começou tambem a trabalhar n’este humilde ramo de industria.

Foi d’esta posição, de que na nossa aristocratica Europa ninguem era capaz de sahir, por mais que soubesse e por mais que valesse, que Grant subiu a commandante em chefe do exercito dos Estados-Unidos, e depois a presidente da Republica.

Como? porque?

Eis o que só se comprehende comprehendendo bem a indole do povo americano.

[291]

Subiu mesmo pelos motivos que entre nós inutilisam os homens.

Subiu porque conhecia a miseria e o trabalho; por que não o amedrontava o perigo, porque tinha a energia concentrada e omnipotente dos que, tendo nascido para altas emprezas, são longos tempos esmagados pela desgraça.

Elle era destemido e energico, tinha—não a instrucção—mas a intuição guerreira; antes d’elle o norte fôra sempre vencido pelo sul, na terrivel guerra civil, que começára em 1861; depois d’elle apparecer succederam-se rapidas e brilhantes as victorias do norte.

Em 1865 a auctoridade federal restabelecia-se em todo o territorio dos Estados-Unidos, o general Lee aceitava a capitulação de Richmond, e Lincoln entrara na cidade que o fogo destruira, descobrindo-se diante dos miseraveis negros, que recebiam pela primeira vez n’aquella homenagem, a confirmação da sua dignidade de homens.

Foi um anno de triumphos devidos á audaciosa iniciativa do general Grant, que além da bravura do soldado, tinha em alto grau a bravura do general.

Tão excepcional foi sempre a sua energia, como são raras as suas palavras.

[292]

Os seus ditos, de uma concisão antiga, nas horas de crise de sua vida, são dignos de ficarem registrados pela historia.

Nenhuma ostentação, nenhuma pretenção nos seus modos excepcionaes.

Na carreira triumphal de militar e de cidadão conservou o seu feitio de rude agricultor ou de obscuro operario.

Não admira que a morte de Lincoln désse o posto supremo a Grant.

Lincoln fôra o advogado de uma causa da qual Grant foi o guerreiro.

A herança era logica a natural.

Quando o elegeram presidente, Grant respondeu com esta simples carta á communicação que recebera:

«Procurarei applicar as leis com boa fé, e serei economico. Tenhamos paz, emfim.»

Esta carta define-o.

Elle não tinha levantadas theorias, não tinha planos concebidos, não tinha presumpçosos systemas.

Estava resolvido a ter economia, boa fé, respeito ás leis.

Todo o segredo de uma administração magistral.

E quantos obstaculos encontrára!

[293]

Tudo em roda d’elle eram vestigios do assolador flagello que passára, desvastação, fome, miseria; que vasto campo, e ao mesmo tempo que missão perigosa e difficil!

Pois cumpriu-a.

Cinco annos depois de finda a guerra já o exercito estava dispersado; mais de oito mil homens tinham ido com os seus braços dar um novo impulso á agricultura, á industria, ao commercio, a todos os ramos uteis da actividade de um povo.

As leis eram rigorosamente executadas, a divida diminuira, a protecção aos antigos escravos estava plenamente confirmada, a America emfim entrava definitivamente em uma phase de reconstrução e de prosperidade.

E tudo isto se devia á energia, á intelligencia, á actividade de um só homem.

E este homem, tão modesto na apparencia, tão laconico nas fallas, tão simples no viver, este homem que recusa recompensas apparatosas, porque julga que a suprema recompensa é a da propria consciencia, este homem que póde apresentar-se como a personalisação da democracia moderna, é o mesmo que Lisboa ha pouco viu passar com a estupida e distrahida indifferença que ella tem para tudo que é verdadeiramente grande, e por isso mesmo despretencioso e simples.


AS FILHAS DE VICTOR HUGO

Ha pouco tempo um escriptor francez desconhecido entre nós, o sr. Gustavo Rivet, publicou um livro intitulado Victor Hugo chez lui, no qual pinta o grande poeta francez, surprehendido, por assim dizer, na intimidade dos seus pensamentos, de seus gostos, das suas attitudes mais familiares.

Desce do pedestal onde a nossa phantasia se compraz em o collocar, o poeta da Lenda dos Seculos, e mostra-nol-o com a robe de chambre e os pantufos de qualquer honesto rentier do Marais.

Victor Hugo não perde em ser visto assim.

A sua alma amantissima, desnudada diante do nosso olhar corresponde positivamente a tudo que d’ella esperavamos.

O avô brincando no tapete do seu quarto de trabalho com a graciosa Joanninha que a Art d’être grand père immortalisou, não desmente de modo algum o justiceiro implacavel dos Châtiments.

[296]

Comtudo não é o pae de familia, que nós vamos hoje estudar em Victor Hugo, como o nosso titulo um tanto phantasista parece estar indicando.

As filhas de Victor Hugo, que nós tentaremos apresentar diante dos olhos das leitoras, não são as filhas do seu matrimonio de simples mortal, são as radiosas filhas do seu genio, as visões illuminadas que elle evocou com palavras de mysterioso encantamento d’esse Olympo inaccessivel onde vivem e nascem as creações immortaes dos grandes artistas.

Para nós que temos vivido da palavra do mestre, que temos seguido com enternecimento apaixonado todas as phases do seu espirito, essas mulheres ideaes é que são as suas verdadeiras filhas. Que nos importam as outras no fim de contas, se atravez d’estas é que elle se revelou tal como é?

Todos os artistas de primeira ordem criam um typo de mulher, em que consubstanciam e sinthethisam todos os sonhos que tiveram, todas as aspirações que tem concebido.

A mulher que elles fazem viver com a penna, se são poetas, com o escopro ou com o pincel, se são estatuarios ou pintores, não é como alguns querem que seja, a mulher que elles amaram: é mais do que isso, é a mulher que elles queriam amar!

[297]

Para essa é que a sua lyra tem cantos mais ardentes, o seu cinzel mais avelludadas caricias, a sua palêta côres mais suaves, a sua penna traços mais vivos, analyses mais delicadas, intenções mais graciosas e mais finas.

E como o coração dos homens é tão vasto que n’elle cabem dous cultos que se não prejudicam mutuamente, quasi sempre esses artistas de que fallamos tratam com o mesmo primoroso esmero dous typos de mulher bem diversos, e que representam como a dupla face do seu modo de sentir.

Um d’elles personifica a virginal creança cujas seducções mais irresistiveis se chamam innocencia, pudor, candura, ou ignorancia; lyrios que o orvalho da manhã corôa com um diadema de perolas, lyrios que uma aragem mais quente crestaria, e que o contacto de uns dedos brutaes lançaria por terra murchos e amarrotados. Outro, a mulher na plena posse da sua perigosa soberania, a mulher sereia que encanta e embriaga e mata, consciente dos seus maleficios, e gosando do seu fatal poder!

Consoante o espirito do artista se enamora da sombria belleza do mal, ou da immaculada candura do bem, assim elle trata com mais delicada predileção o eterno feminino que representa uma das faces do mesmo problema insoluvel.

[298]

Porque o homem grande ou pequeno, intelligente ou mediocre, ha de sempre amar a mulher debaixo de qualquer d’estas duas formas, ou antes debaixo d’ellas ambas.

Até os bons nas suas horas de perversão, nas crises em que no coração d’elles triumpha a porção de dominio que ha até mesmo na alma dos anjos, hão de sentir-se attrahidos por este mysterio luminoso e sombrio, que na arte pagã se chamou Circe ou Helena, que na edade média foi Melusina, que na Renascença foi Imperia ou Lucrecia Borgia, que os modernos emfim conhecem debaixo de tantos nomes, que o genio de tantos homens tem revestido de prestigio magico e de superior fascinação.

Os maus… escusado é dizer que os maus, só n’essas mulheres symbolos do mal, symbolos de todas as seducções insalubres, hão de achar a graça magnetica que arrasta e que enlouquece.

Não é por isso de admirar que todos os poetas as tenham cantado, que todos os romancistas as tenham descripto, mas na feição peculiar que cada um d’elles dá ao modo por que as estuda e as pinta, é que consiste a superioridade ou inferioridade do eterno typo.

Quanto ás outras, ás boas, ás candidas, ás angelicas, poucos as comprehendem na sua genuina[299] e original pureza, e os que as souberam comprehender teem produzido obras primas!

Shakespeare é o poeta a quem se deve uma galeria mais radiosa e pura d’estas divinas creanças impeccaveis.

Umas absortas n’um sonho de eterna tristeza, envoltas como que n’um presentimento de inevitavel desdita, como Ophelia ou Desdemona; outras deixando florir nos labios frescos a rubra flôr da alegria matinal, mas todas lindas, e meigas e innocentes, todas fazendo crer no bem até os mais cynicos.

Victor Hugo tem, como Shakspeare, d’estas criações risonhas e sympathicas.

As mulheres de um como as mulheres do outro, téem na alma um pouco da alma das aves.

Téem a ligeireza alada do sonho, téem a graça imponderavel das visões.

Não ha ninguem que não quizesse ter por filha uma d’essas creanças borboletas; não sei se todas as quereriam para esposas.

E no entanto são boas, de uma doce bondade inconsciente que d’ellas se exhala como o aroma se exhala da flôr; mas tambem as creanças são boas, e comtudo ninguem como ellas sabe ser engenhosamente cruel.

[300]


Victor Hugo com a sua alma de forte, que não precisa de auxilio, e não precisa de guia, não comprehende a mulher como os modernos aspiram a encontral-a.

Não quer a companheira robusta d’esse athleta moral, que é o luctador de hoje; não quer a mulher de animo reflectido, de coragem viril, de consciencia illuminada e austera, que na hora do perigo ou na hora da vacilação criminosa, arrasta ao impulso da sua voz o espirito do homem esmorecido ou duvidoso.

Elle, cuja vida tem sido uma ascenção progressiva para o bem, elle, que não precisa d’outra bussola que não seja a luz interior que nunca se apaga nem bruxoleia, não teve necessidade de crear ao lado de Marius, ao lado de Didier, ao lado de Gennaro, ao lado dos seus altivos heroes, uma mulher forte que os auxiliasse e fortalecesse na grande lucta do bem!

Oh! não era de força que elles careciam.

Era de luz nas sombras do seu caminho sombrio!

Didier saberia resistir ás seducções da criminosa voluptuosidade; Hernani saberia responder[301] ao sinistro som da trompa funeraria; Gennaro saberia confessar as suas indignações austeras e os seus odios inquebrantaveis; Marius saberia amar a honra impolluta como as virgens, brilhante como as espadas, implacavel como a eterna justiça.

Do que elles precisavam era de risos, de flôres, de caricias e de beijos.

Precisavam de quem os arrancasse á contemplação do seu deslumbramento ideal e lhes dissesse ao ouvido ternamente, melodiosamente:

—Olha! eu sou a graça, sou a poesia, sou o esquecimento, sou a embriaguez. Tenho só um nome, que vale por todos e a todos sobreleva: eu sou o amor!

E não são mais nada as mulheres creadas pelo genio portentoso de Hugo!

O amor, sempre o amor.

O amor egoista, o amor cego, o amor absorvente, exclusivo, com os seus pudores instinctivos, as suas ignorancias virginaes e as suas aspirações insaciadas a fatalidade irresistivel da sua força!

No seu primeiro drama, Hugo todo imbuido das ideias cavalleirescas do romanceiro, creou um typo de mulher que é talvez um dos mais bellos da sua formosa e radiante galeria.

Dona Sol sabe amar impetuosamente, ardentemente, e n’esse amor que é a nota predominante[302] do seu caracter, encontra força para todas as resistencias viris.

Como ella é dôce e humilde enlaçada pelos braços valentes do seu senhor, do seu leão das montanhas, do seu principe bandido, do seu rebelde e indomavel cavalleiro!

Sorrisos, olhares, vozes, caricias, tudo é de velludo!

Um desejo d’elle, tem-na escrava! no entanto sabe por instincto, que elle o heroe, o forte lhe não póde pedir cousa alguma que a filha de um paladino das Hespanhas deva recusar envergonhada.

Quem dirá que aquella graça póde fazer-se indignação, que aquella flexibilidade ondeante póde transformar-se em revolta implacavel?

É que n’ella ha de tudo! porém esse tudo é simplesmente amor.

Appareça outro que a requeste, outro que ouse amal-a, e a pomba saberá ser leôa, para defender o seu thesouro!

Mas de que lhe vem a força com que ella domina, a indignação austera que a transfigura? Do coração.

As mulheres de Hugo não pensam, não raciocinam, amam! Isso lhes basta.

E se a fome ás vezes as perde, se a maldade e[303] a perfidia do homem as arrasta, nunca o amor deixou de as redimir.

Para ellas o amor não é a perdição, é o resgate!

Vêde Marion, a cortezã incredula, a serpente de enganosas caricias, que um sentimento verdadeiro purifica e exalta, e que d’elle recebe uma nova e mysteriosa virgindade! Vêde Eponine, a filha das lamas de Pariz, a quem um olhar de Marius inocula o amor, o sacrificio, a abnegação e a heroicidade!

Mas—contradicção á primeira vista inexplicavel e que no fundo tem talvez uma significação sublime—o amor que transfigura e santifica e illumina as peccadoras, torna egoistas, torna ingratas as puras!

Eponine immola-se, porque ama, e Cosette, porque ama, esquece tudo que não seja o seu amor, e com a mesma pequena mão com que abre a Marius os paraisos inacessiveis enterra o punhal no seio de João Valjean!

Marion, de Magdalena impudica e triumphante, levanta-se Magdalena arrependida e piedosa, e Esmeralda não tem a esmola, a caridade de um sorriso bom para Quasimodo!

Porque?

Ah! é que umas são a ignorancia na sua perfeição[304] mais divina, outras guardam na bocca o gosto amargo de todos os fructos vedados que teem devorado!

Umas não conhecem nada para além da nuvem iriada que as envolve e lhes intercepta o mundo, outras possuem a medonha sciencia que é feita de todas as decepções, de todas as agonias, de todos os tedios, de todos os remorsos, de todas as nauseas da vergonha e do desprezo proprio!

Umas entram no amor, triumphantes, immaculadas, curiosas, ébrias de harmonias nunca ouvidas, sedentas de alegrias nunca sonhadas, absortas pela radiante visão que as transporta a mundos desconhecidos.

Viviam d’antes? tinham affectos? prazeres? distracções?

Não sabem.

Sabem que as inundou a luz de um olhar, e que, a essa luz, viram o que nunca tinham visto, esqueceram tudo mais que fôra seu.

As outras vão alli á porta d’aquella região de que hão de ser as eternas exiladas, pedir a esmola de um perdão, a caridade de umas horas de esquecimento.

E em troca d’esse consolo supremo a que se julgam sem direito, são capazes de todos os sacrificios, de todos os renunciamentos sublimes que[305] inventa a mulher depois de ter perdido a esperança de ser feliz.


Leitora, estás cansada das chatas e incaracteristicas figuras que tens encontrado na vida real? Entristecem-te dolorosamente os typos hediondos ou repugnantes da moderna arte?

As Gervasias, as Bovarys, as Fannys, as peccadoras da França juvenil?

Pois bem, deixa que desfile por diante do teu olhar pensativo a gloriosa legião das filhas de Victor Hugo.

Oh! crê que não aprenderás com ellas cousa alguma que rebaixe o teu espirito, que fira o teu coração, que surprehenda cruelmente o teu entendimento.

Ellas sabem todas o que é o amor, muitas o que é o arrependimento, o remorso, a vergonha, a expiação; nenhuma sabe o que é o triumpho impudico do vicio, a ostentação criminosa das vaidades mundanas, a impenitencia immoral das que medram no meio do crime.

As peccadoras contar-te-hão a dolorosa historia das suas amarguras, as virgens a doçura sonhadora dos seus extasis!

[306]

Amaram, acreditaram, sentiram na plenitude do coração que a vida é boa, e que o paraiso póde encontrar-se n’um canto da terra.

Não sabem nada de toilettes, de pequenas intrigas, de namoros, de vicios mesquinhos, de invejas e de tagarelices; atravessaram o mundo com os olhos fitos n’outros olhos, com as mãos enlaçadas n’outras mãos, com a alma a cantar-lhes um hosanna de mysticos arroubos!

Se queres estudar os escaninhos caprichosos de um coração de mulher bonita e garrida, não as procures, mas tambem lhes não peças que te fallem nos nossos piedosos e obscuros deveres de todos os dias.

São as hallucinadas do amor! Arrastou-as uma tempestade para outras espheras ardentes onde se não vive a vida que conhecemos!

Vê tu—Esmeralda! que bem posto nome!

Toda ella scintilla ao sol como a pedra preciosa que lhe serviu de baptismo; os seus dedos de gitana crestados e finos arrancam ao pandeiro do seu paiz doidos e extranhos sons! Fascina com um olhar inconsciente dos seus olhos de velludo, com uma nota da sua voz crystallina, com um meneio do seu corpo de serpente.

Que sabe ella da vida? Nada; a não ser que a vida é bella, visto que ha dous olhos que ao fixar nos seus os banharam de fulgor!

[307]

E Cosette! vive ao pé d’ella um enygma sombrio! um espirito sobrehumano! um luctador d’estas luctas interiores cujo reflexo se estampa na frente que as encerra.

Ella nunca interrogou essa alma, e nunca tentou decifrar esse enygma, e nunca sequer comprehendeu a existencia d’essas luctas.

Ao seu companheiro triste, humilde, heroico, adoravel ella deve durante quinze annos a ventura mais perfeita que póde gosar-se na terra.

Satisfez-lhe todos os desejos; todos os brinquedos d’aquella fada, encarregou-se de os fornecer a natureza na liberdade plena, nos seus idyllios primaveris! Estava na escuridão, e deram-lhe luz; era escrava fizeram-n’a rainha.

Não importa! Marius appareceu e Cosette louca, deslumbrada, esquecida, deixa morrer de dôr o amigo da sua risonha mocidade.

É má?

Não; é ignorante. Não sabe que se morre visto que elle vive na posse de uma ventura que nunca até alli conhecera.

Não sabe que se tem saudades, porque ao pé de Marius nunca esse espinho lhe mordeu no coração!

Pois é possivel ser desgraçado quando eu sou tão feliz! pergunta tacitamente com barbaridade que se ignora, cada um dos sorrisos de ventura[308] que ella atirara em redor de si, sem se importar onde lhe vão cahir!

Ai! Cosette, Cosette! eu gosto de ti, borboleta, ébria de luz! és uma das visões luminosas que ficarás para sempre moça e querida! és uma estatua branca que ninguem ousará mutilar e que os seculos verão erguida no teu pedestal de flôres! Mas como eu te amaria muito mais ainda se em vez de seres o Amor fosses o Sacrificio!

Um dia Victor Hugo pediu ás neblinas matinaes dos climas do norte, uma porção de renda branca e transparente com que ellas corôam a crista das montanhas e… fez Déa!

Que doce, vaporosa e lendaria visão!

Não ha n’ella cousa alguma que seja realidade!

Toca na terra ao de leve; não tanto que pareça filha d’ella, não tão pouco que lhe não seja dado consolar alguem votado ás dores sem consolo.

É cega!

Amada por um monstro sabe verter-lhe n’alma as alegrias de um Deus!

Não vê o homem que a ama, vê o amor de que elle a veste!

Abençoada cegueira que faz dous felizes!

[309]


Ao lado d’ella—supremo contraste!—sorri Josiane com o seu sorriso de deusa pagã!

No olho azul da patricia ingleza scintilla em chispas uma diabolica ironia.

Josiane é a amante do impossivel! Procura o que nunca ninguem achou!

Quer um sonho que a sacie, o amor de um Titan, ou de um cyclope, o amor de Apollo ou de Polyphemo!

Estranha figura, producto doentio de uma noite de febre!


Dona Sol, Maria de Neuburgo, Marion, Eponine, Cosette, Déa, quantas figuras radiosas, quantas humanições esplendidas da mulher sonhada!

Nas horas de desalento ou de amarga duvida, nas horas em que as miserias que nos cercam, nos fizeram encarar a vida pelo seu aspecto mais desolado e mais escuro olhemos para ellas!

[310]

Dir-nos-hão os poetas de hoje que ellas não existem, e, o que é peior, que ellas não puderam existir nunca.

Oh! é bem triste, é bem esteril a arte que só trata de rebaixar o que em nós é de mais elevada essencia, e só quer que vejamos a fatalidade brutal do instincto, onde viamos d’antes a fatalidade mais nobre do sentimento.

Não acreditemos o que elles nos dizem, porque na sua preoccupação exagerada do horrivel, elles mentem muito mais do que os outros mentiam na sua preoccupação exagerada do bello!

Estes reunindo todos os vicios e hediondezas que encontraram dispersos n’uma só figura, conseguem apenas crear… um monstro, um ser hybrido e infecundo que a ninguem aproveita!

Os outros synthetisando n’uma filha do seu genio as harmonias, as feições, os encantos, que estudaram e amaram em toda a natureza, conseguiram alguma coisa mais!

Crearam o ideal immutavel e eterno e ensinaram-nos a fitar n’elle os olhos da nossa alma, e a invocal-o como um consolo adoravel nas nossas horas de desalento e de agonia.

FIM