Historia Pitoresca: Palavras e frases celebres by Alfredo Campos

Alfredo Campos


HISTORIA PITTORESCA


PALAVRAS E PHRASES CELEBRES

PORTO

Livraria Portuense
de
LOPES & C.ª—EDITORES

123—Rua do Almada—123

1889

IMPRENSA CIVILISAÇÃO

73—LARGO DA POCINHA—77

—PORTO—


Ao Ill.mo e Ex.mo Sr.

Manoel José da Conceição Rocha

TRIBUTO DE RESPEITO,
CONSIDERAÇÃO, GRATIDÃO E ESTIMA

Offerece

Alfredo Campos.

DO AUCTOR

 

 OPRESENTE livropalavras e phrases celebres—, é como que uma Corbeille aonde estão reunidos, explicados, e, por vezes commentados, muitos factos, muitas palavras, phrases e circumstancias curiosas e originaes, que se empregam e se encontram, a cada momento, já n’alguma obra escripta, já no meio da conversação.

Pareceu-nos que não seria desgracioso enfeixar todas essas flores n’um como que estudo de Historia Pittoresca, sem a aridez da Historia[viii] propriamente dita, e com o proporcionamento do interesse, da amenidade e do attractivo do romance.

As palavras e phrases celebres são isto apenas.

O livro estava feito, e todo o trabalho consistiu, quasi, em procurarmos e reunirmos em volume as paginas que andavam dispersas, aqui e alli, um pouco por toda a parte.

Tem merecimento? Outros o dirão.

Em todo o caso póde servir para entretenimento de um serão, para desenfado n’uma hora de descanço, para suavisar um momento de tedio, com a vantagem de que allia o util, que é a historia, ao agradavel, que é o pittoresco.

De resto, parece-nos livro para toda a gente, porque crêmos que não perverte, não corrompe, não immoralisa.

Visou, pelo menos, a esse fim, e só desejamos que o attinja.

Se attingir, tanto melhor para os que nos honrarem lendo-o, e tanto melhor para nós, sobretudo, porque lograremos a gloria que aspiramos para o nosso modesto trabalho.

 
 

PALAVRAS
E

PHRASES CELEBRES


I
Amanhã os negocios sérios

 

Sparta tinha-se apoderado da cidadella de Thebas por traição, e impozera aos thebanos, como governador, o tyranno Archias. Este banira da cidade os principaes cidadãos, entre os quaes Pelopidas. Refugiados estes em Athenas, resolveram libertar a patria e concertaram-se com um dos seus compatriotas, inimigo secreto do tyranno, que lhes offereceu recebel-os em sua casa. No dia marcado para a execução da conspiração, os conjurados [10]penetraram em Thebas, graças a um disfarce. N’esse mesmo dia, Archias foi convidado para ceiar em casa d’um rico cidadão thebano, que, egualmente, fazia parte dos conspiradores. Tudo estava prompto, e os conjurados esperavam apenas uma hora mais avançada, para a execução do seu projecto, quando um correio, enviado d’Athenas, veio trazer a Archias uma carta, contendo todas as particularidades da conspiração. Admittido junto ao tyranno, entregou-lhe a missiva, convidando-o a lêr sem demora, porque se tratava de negocios sérios. Archias, dominado já pela embriaguez, poz indolentemente a carta sob a sua almofada, exclamando:

—«Amanhã os negocios sérios!»

Alguns instantes depois, Pelopidas e os outros conjurados, invadiram a salla do festim e massacraram o tyranno.

Este acontecimento, que produziu a liberdade da Beocia, obteve uma grande celebridade na Grecia, e a phrase—amanhã os negocios sérios—tornou-se um proverbio que os descuidados e os amigos da alegria pretendem tomar por divisa, e que melhor fôra tomassem como lição.


[11]

II
Alexandre

Alexandre, filho de Philippe, rei da Macedonia, foi um dos maiores capitães da antiguidade. Desde a mais tenra edade que foi sempre animado d’uma nobre ambição. Quando lhe perguntavam se concorria aos jogos olympicos, respondia:

—«Iria, se tivesse a certeza de encontrar reis como rivaes!»

Chorava de cólera, vendo os successos multiplicados de Philippe, lamentando-se, d’este modo:

—«Meu pai nada nos deixará que fazer!»

Alexandre ficou em todas as linguas como o typo do heroe e do conquistador. As differentes circumstancias da vida de Alexandre, que originaram locuções proverbiaes são as seguintes e por ordem chronologica:

1.º—Se eu não fosse Alexandre, desejaria ser Diogenes.

Alexandre acabava de ser nomeado generalissimo dos gregos, e achava-se em Corintho,[12] aonde os principaes cidadãos se apressavam em dirigir-lhe as suas felicitações. Admirado de não receber a visita de Diogenes, foi elle proprio procurar o celebre cynico, cuja conversação facil e picante o encheu de assombro. Alexandre tendo perguntado ao philosopho se desejava alguma coisa, elle respondeu:

—«Tira-te do meu sol.»

Foi então que o grande conquistador, assombrado com tanto desinteresse, exclamou:

—«Se eu não fosse Alexandre, desejaria ser Diogenes.»

2.º—Meu filho, nada póde resistir-te.

Antes de partir para a expedição que projectava na Asia, Alexandre quiz consultar o oraculo de Delphos. Como a pythia recusasse subir ao tripé, o moço heroe arrastou-a violentamente. Ella exclamou então:

—«Ah!, meu filho, nada te póde resistir.»

—«Esse oraculo me basta—respondeu Alexandre—não quero outro.»

3.º—Reserva da Esperança.

Na primavera do anno 334, Alexandre, tendo apenas vinte e dois annos d’edade, dispunha-se a invadir a Asia, á frente d’um exercito de trinta mil infantes e cinco mil cavallos. Como se já[13] estivesse de posse dos thesouros do grande rei, distribuiu aos amigos tudo quanto tinha. Perdiccas perguntou-lhe então:

—«Que reservaes para vós?»

—«A Esperança»—respondeu Alexandre.

4.º—Nó gordio.

Gordio, simples lavrador phrygio, tornou-se rei, por ter cumprido um oraculo, que promettia a corôa ao que primeiro entrasse, n’um determinado dia, na capital. Midas, seu filho, consagrou, no templo de Jupiter o carro sobre o qual seu pai fôra transportado. O nó que ligava o jugo ao timão estava tão artisticamente dado, que não se lhe descobriam as pontas. Chamavam-no o nó gordio ou de Gordio, e um antigo oraculo promettia o imperio da Asia a quem conseguisse desatal-o.

Alexandre, tendo-se apoderado da cidade, resolveu cumprir o oraculo e actuar fortemente sobre a imaginação dos seus soldados. Depois de varias tentativas infructiferas, desembainhou a espada e cortou o nó mysterioso, illudindo mais, que realisando, d’este modo, o oraculo.

5.º—O medico de Alexandre.

Pouco tempo depois da passagem do Granico, Alexandre, tendo-se banhado, a suar, nas[14] aguas geladas do Cydnus, foi subitamente atacado d’um tremor mortal, e os soldados levaram-n’o, sem movimento, para a tenda. Todo o exercito se consternou, porque o seu estado parecia desesperado. Ao mesmo tempo, Dario avançava com forças immensas para lhe barrar as sahidas do Taurus. Os medicos não ousavam experimentar remedio algum; um só, Philippe, Acarniano de nação, e amigo d’infancia d’Alexandre, compoz uma poção, cujo effeito poderoso e salutar devia ser immediato. Durante estes preparativos, Alexandre recebeu uma carta de Parmenion, que o advertia de que desconfiasse de Philippe, secretamente comprado por Dario, para attentar contra os dias de seu monarcha. O heroe tinha ainda a carta nas mãos, quando o medico lhe levou a poção. Alexandre, sem manifestar a menor emoção, tomou a taça com uma das mãos, apresentou com a outra a carta a Philippe, e bebeu tudo d’uma só vez. O medico indignado, mas dominando as suas impressões, exhortou o rei a seguir fielmente as suas prescripções: a cura estava n’aquelle premio. Em verdade, apoz uma crise terrivel que gelou d’espanto todo o exercito, e de que um só homem não sabia a sahida, o doente melhorou e restabeleceu-se.

O que ha de admiravel n’este traço da vida de Alexandre é a sua profunda fé na amizade.

[15]

6.º—Este tambem é Alexandre

Ephestion é menos citado na Historia pela parte que tomou nas conquistas d’Alexandre, que pela grande amizade que o unira áquelle heroe. Os dois amigos tinham sido educados juntos, e só a morte os separou. Depois da sangrenta batalha d’Issus, em que a mãe, a mulher e as duas filhas de Dario, cahiram em poder do vencedor, Alexandre, acompanhado d’Ephestion, foi visitar, á sua tenda, as infelizes princezas. Sysigambis, mãe de Dario, dirigiu a saudação a Ephestion, que tomou por Alexandre, pela superioridade da estatura e esplendor do traje. Advertida do engano, lançou-se aos pés do heroe, que a levantou bondosamente, dizendo-lhe:

—«Não vos enganasteis, aquelle tambem é Alexandre.»

7.º—E eu tambem, se fosse Parmenion

Depois da batalha d’Issus, que fizera cahir nas mãos d’Alexandre toda a familia de Dario, e alguns dias antes da batalha d’Arbelles, o grande rei fez offerecer ao vencedor dez mil talentos—cincoenta e quatro milhões—a cedencia de toda a Asia até ao Euphrates, e uma das suas filhas em casamento. Alexandre tendo communicado[16] estas brilhantes propostas aos seus generaes, Parmenion exclamou:

—«Eu acceitaria, se fosse Alexandre.»

—«E eu tambem, se fosse Parmenion!»—respondeu Alexandre.

E recusou.

8.º—Ó athenienses! quanto custa ser louvado por vós!

Alexandre tinha, do fundo da Asia, os olhos fixos na Grecia, e, sobretudo, em Athenas. Apesar do abaixamento em que esta cidade havia cahido, ficára sempre capital do mundo civilisado, pelas obras primas dos seus artistas, pelos immortaes discursos dos seus oradores e pela eloquente verdade dos seus historiadores, e Alexandre, tão apaixonado pela gloria, aspirava, acima de tudo, aos applausos d’esses athenienses frivolos, mas que egualmente distribuiam pela posteridade, a censura como o louvor. O conquistador acabava de penetrar nas vastas regiões da India, e preparava-se para atravessar o Hydaspe, de que Porus, á frente d’um formidavel exercito, ia disputar-lhe a passagem. O rio era largo e profundo, e as suas vagas quebrando estrepitosamente, deixavam a descoberto, aqui e alli, rochedos ameaçadores. Alexandre illude a attenção dos inimigos por um falso ataque, e aproveitando-se d’uma tempestade que lhe enco[17]bre os movimentos, affronta perigos inauditos para transpor o rio. Confessou depois que tinha, emfim, encontrado alli um perigo digno da sua coragem, e foi n’esta circumstancia, diz Racine, no prefacio da sua tragedia Alexandre, que o heroe exclamou:

—«Ó athenienses! quanto custa ser louvado por vós!»

9.º—Ao mais digno.

Estava conquistada a Asia; a terra, segundo a bella expressão da Escriptura, tinha-se callado deante de Alexandre; elle fizera a sua entrada na Babylonia, «não como um conquistador, mas como um deus» e o papel brilhante e terrivel que representára estava a terminar. Os festins e os desvarios de toda a especie tinham succedido ás batalhas. No meio d’uma ultima orgia, o conquistador foi atacado d’uma febre, que o levou em poucos dias. Só deixava herdeiros em curta idade, ou incapazes. Conta-se que, no leito da morte, perguntando-lhe os generaes a quem legava o imperio, elle respondera:

—«Ao mais digno!»

E expirou «cheio das tristes imagens da confusão que devia seguir-se á sua morte.»

[18]

10.º—Os funeraes d’Alexandre.

«Alexandre—diz Bossuet—deixava, morrendo, capitães a quem tinha ensinado a respirar sómente ambição e guerra. Previu a que excessos se dariam, quando expirasse, e para os conter, e com receio de ser desrespeitado, não ousou nomear nem successor, nem tutor para seus filhos. Predisse sómente que os seus amigos celebrariam os seus funeraes com sanguinolentas batalhas

11.º—Desmembramento do imperio d’Alexandre.

Apenas Alexandre exhalou o ultimo suspiro, os generaes reuniram-se para dividirem a sua immensa herança. Perdiccas, a quem Alexandre moribundo deixára o seu annel, fez-se nomear regente; e os outros generaes distribuiram entre si as provincias. Lysimaco teve a Thracia, Antipater a Macedonia e a Grecia, Ptolomeu o Egypto, Antigono e Cassandro repartiram a Asia Menor. Vinte annos depois encontravam-se nas planicies da Phrygia, e a batalha de Ipsus era o ultimo acto d’essa sangrenta tragedia.


[19]

III
Audacia, ainda audacia e sempre audacia

Danton, um dos vultos mais notaveis da revolução franceza, nascera para tribuno popular. Alto, forte, face de bull-dog, muito picado das bexigas, a expressão do olhar cheia d’audacia, alma em harmonia com a estatura, com o ardor dos olhos, o rosto terrivel, a voz sonora, não podia ser senão o que foi, um revolucionario enthusiasta, arrastando o povo, já pela sua palavra como pelos seus actos, já pela sua elocução muito cheia de figuras gigantescas, d’apostrophes inflammadas, assombrando mesmo os que não seduzia. «Mirabeau serviu-se d’elle—diz um escriptor contemporaneo—como de um folle de forja, para accender o povo.» Apoz a fuga de Varennes, Danton provocou atrevidamente a queda do rei, fez-se eleger substituto do procurador da communa, preparou a revolução de 10 d’Agosto e entrou no ministerio da justiça.

Esse famoso dia levantou toda a Europa contra a França revolucionaria. Brunswick, acaba[20] de lançar o seu insolente manifesto; os exercitos francezes tinham experimentado revezes na Lorena; Longwy estava tomado, Verdun cercado, e o alarme reinava em Pariz. Para reanimar as coragens, Danton resolveu vibrar um grande golpe. Era no 1.º de Setembro. No dia seguinte, 2, em quanto o sino tocava a rebate e o estampido do canhão se fazia ouvir, elle correu á Assembleia legislativa, e, n’um discurso rapido, fez ouvir estas terriveis palavras aos deputados, trémulos nas suas cadeiras: «É n’este momento, senhores, que podem decretar que a capital bem mereceu da França inteira. O canhão que se ouve não é o canhão do alarme, é o passo de carga sobre os nossos inimigos!… Para os vencermos, para os anniquilarmos, que é preciso? Audacia, ainda audacia e sempre audacia!»

Algumas horas depois os massacres de Setembro espantavam Pariz.

Se Danton não organisou, como é accusado, aquellas horrorosas carnificinas, está averiguado que nada fez para as prevenir e reprimir, e talvez que elle visse n’ellas uma execução terrivel, mas necessaria.

N’esta repetição energica, hoje proverbial, Danton fôra precedido pelo velho marechal de Trioulce. Quando se perguntava a este o que era necessario para bem fazer a guerra, respondia:

[21]

—«Tres coisas: dinheiro, ainda dinheiro e sempre dinheiro!»

Demosthenes tambem já dissera na antiguidade, que tres coisas fazem o orador:—«primeiro, a acção; segundo, a acção; e terceiro, a acção.»


IV
Delicias de Capua

A antiga Capua, capital da Campania, era uma das mais formosas cidades da Italia. Construida no centro de magnificas planicies, ensombradas pelo pinheiro, pelo platano, pelo myrto e a oliveira, circundada de imensos passeios orlados das mais perfumosas plantas, das mais brilhantes e suaves flores, Capua offerecia a mais adoravel residencia de toda a Italia.

Foi lá que Annibal, depois da batalha de Cannes, e quando já tocava o extremo da sua audaciosa empreza, foi assentar os seus quarteis d’inverno, á frente do seu exercito vitorioso. Os historiadores antigos attribuem á permanencia de Annibal no seio das delicias de Capua, a causa unica da salvação de Roma. Assim, o seu exercito ter-se-ia amollecido e ter-se-hia cor[22]rompido alli pelos famosos vinhos e pelos gosos faceis.

No entretanto, se considerarmos que o capitão carthaginez e os seus temiveis bandos guerrearam ainda, durante treze annos, na Italia, de que só foram arrancados pela habil diversão de Scipião na Africa, as delicias de Capua não passam de uma amplificação de rhetorico.

Segundo a opinião de historiadores modernos e homens de guerra dos mais celebres, um exercito de soldados feitos e experimentados não se perde n’um quartel de inverno. O que melhor explica a inutilidade dos exforços do maior capitão d’antiguidade, e esta foi a opinião de Napoleão 1.º, depois da batalha de Cannes, é o abandono a que entregou a patria, onde dominava uma facção invejosa; além de que, rodeado de povos hostis e alliados incertos, recrutando difficilmente o seu exercito, composto de mercenarios de toda a especie, Annibal já não estava em estado de tentar qualquer coisa grande e decisiva. Comtudo, não se sustenta menos contra as melhores tropas e os mais habeis generais da republica, enchendo a Italia com o terror do seu nome, e agitando o mundo com as suas negociações, para levantar, em toda a parte, inimisades aos romanos.

As delicias de Capua ficaram em todas as linguas modernas para designarem uma calmaria moral, temperada de divertimentos e prazeres,[23] em que as molas do corpo e do espirito se distendem e enfraquecem.

O padre Lacordaire aprecia a phrase do modo seguinte:

«A historia de todos os successos é a historia d’Annibal em Capua. Esquece-se, embriaga-se, adormece-se; o lento veneno da molleza distende todas as molas da actividade, e o ser que nada é senão pela actividade, dissolve-se, pouco e pouco, na ignominia d’um somno cobarde.»


V
Disse eu alguma tolice?

As lições de Platão e de Xenocrato tinham desenvolvido em Phocion um coração virtuoso e uma alma elevada. Na tribuna, como no campo de batalha, elle lembrava Aristides. Nunca um orador foi mais inflexivel nos seus conselhos, nem contou menos com o successo da sua perseverança. A eloquencia de Phocion era a expressão natural do seu caracter e dos seus costumes; elle fallava aos athenienses com a serenidade de um philosopho e o laconismo d’um spartiaco. Sabe-se que Demosthenes o[24] chamava—o machado dos seus discursos. Superior aos applausos, tanto como aos clamores da multidão, elle abalroava de frente a potencia popular, e as suas virtudes impunham-se a todas as paixões. Tinha a palavra austera, e a sua eloquencia vigorosa e concisa desdenhava dos artificios oratorios, que agradam á multidão e fazem estrondear applausos. Estando um dia na tribuna e vendo-se ruidosamente victoriado por todo o povo, volveu-se admirado para os seus amigos e perguntou-lhes:

—«Disse eu alguma tolice?»


VI
Arca de Noé

Era um immenso navio que Deus, depois de haver resolvido punir os homens pelo diluvio, ordenou a Noé construisse para ahi se refugiar.

O Patriarcha empregou cem annos na construcção d’essa arca, que tinha trezentos covados de comprimento, cincoenta de largo e trinta de altura, e que continha, além de Noé e sua familia, dois casaes d’animaes impuros, assim chama[25]dos os que não era permittido offerecer em sacrificio, e sete casaes d’animaes puros.

Por causa da quantidade de seres que esse navio encerrava, o nome de Arca de Noé passou a servir para designar a agglomeração de numerosos e disparatados objectos.


VII
Queimar não é responder!

No principio do anno de 1794, estava em toda a sua violencia o regimen do Terror, dirigido por Robespierre, no seio do comité de salvação publica. Os proprios dantonistas, tornaram-se, em vista d’isto, indulgentes, moderados; e agora que a republica estava senhora do campo de batalha, elles queriam fazel-a entrar no reino das leis, e no caminho da justiça para todos. Danton era o chefe d’esta opposição nova, e o joven e fogoso Camillo Desmoulins era a sua penna, e, no Vieux Cordelier, farpeava o governo com censuras e sarcasmos. O jornal era lido com avidez, e venderam-se, n’alguns dias, cincoenta mil exemplares. Afinal, Camillo ousou promover um comité de clemence, como o[26] unico meio de pacificar os partidos e de acabar com a revolução. Não era isto o que queria Robespierre, que, n’uma sessão dos jacobinos, onde o impetuoso pamphletario tinha sido intimado a comparecer, propoz perfidamente dar-lhe uma correcção paterna, queimando os numeros do jornal.

—«Queimar não é responder!»—exclamou Desmoulins.

Esta replica imprudente causou a sua perda. Robespierre não se conteve e disse:

—«Pois bem, não se queimem e responda-se; leiam immediatamente os artigos de Camillo, visto que assim o quer, e que elle seja coberto d’ignominia!»

Alguns dias depois o intrepido moço subia ao cadafalso.


VIII
Caim, que fizeste de teu irmão?

Caim, filho primogenito de Adão e Eva, cioso de seu irmão Abel, cujas offerendas eram mais agradaveis ao Senhor, propoz-lhe um dia um passeio ao campo e matou-o. O sangue do[27] justo subiu até Deus, e a voz do Eterno fez-se ouvir:

—«Caim, Caim, que fizeste de teu irmão?»

Deus amaldiçoou o fratricida, expulsou-o da sua face, e marcou-o na fronte com um signal de reprovação.

Caim é o nome que se dá ao irmão que maltrata o irmão, abjurando o amor fraterno.


IX
Do Capitolio á rocha Tarpeia só ha um passo

A rocha Tarpeia, chamada assim, de Tarpeia, joven romana que alli foi estrangulada e sepultada, depois do acto de traição que commetteu, entregando a cidadella aos sabinos, era um rochedo situado no proprio recinto de Roma. Os romanos que se prendiam em perpetuar as recordações, deliberaram, depois do supplicio de Tarpeia, que se precipitassem do alto d’essa colina os criminosos accusados de traição. D’aqui a locução:—Ser precipitado da rocha Tarpeia—para exprimir, figuradamente, a quéda rapida[28] d’uma posição elevada, e, particularmente, a perda d’uma grande popularidade.

E como este logar era situado junto do Capitolio, em que se coroavam os triumphadores, as palavras—A rocha Tarpeia está perto do Capitolio, ou—Do Capitolio á rocha Tarpeia só ha um passo, significam que a quéda segue, muitas vezes, de perto o triumpho, e que a ignominia, como extremo, toca a gloria.

Esta phrase está, sobretudo, em uso desde o eloquente emprego que d’ella fez Mirabeau, n’uma circumstancia celebre: Tratava-se de saber se a iniciativa da guerra devia ser devolvida ao rei ou á assembleia; Mirabeau pronunciou-se pela assembleia, e como ouvisse a palavra traidor soar aos seus ouvidos, o fogoso orador subiu á tribuna, e tomando para texto do seu exordio a instabilidade do favor popular, fez ouvir essas palavras, que ficaram celebres:—«E eu tambem, a mim tambem queriam, ha poucos dias, levar-me em triumpho; e gritam agora nas ruas:—A grande traição do conde de Mirabeau! … Eu não precisava d’esta lição para saber que só ha um passo do Capitolio á rocha [29]Tarpeia! …»


X
Catão

Marco Porcio Catão, é, sobretudo, celebre pela austeridade dos seus costumes. Fez-se notar, desde o principio da sua vida publica, pela sua eloquencia mordente e aggressiva e pela sua opposição apaixonada ás ideias da Grecia, que começavam desde então a modificar o genio da Roma Antiga. Tão duro comsigo, como para os seus escravos, levantava-se antes da aurora, excitava os servos ao trabalho, punha-se nú como elles, para lavrar, comia o seu pão negro e bebia da sua agua avinagrada. Elevado á censura, pôde, emfim, trabalhar na realisação do seu sonho:—a restauração da antiga simplicidade romana. Fez regulamentos sumptuarios, contribuiu os objectos de luxo, os enfeites das mulheres, reprimiu as delapidações, e mostrou uma inflexivel severidade de costumes, a ponto de degradar um senador que tinha beijado a esposa em presença da filha. Amava-se a sua palavra, honrava-se o seu caracter; o povo applaudia este censor inexoravel que mordia toda a gente. O sobrenome de Censor ficou-lhe, e erigiram-lhe[30] uma estatua com esta inscripção:—A Catão, que corrigiu os costumes.

A sua presença inspirava um tal respeito aos romanos, que, quando elle assistia ao espectaculo, o povo esperava que elle sahisse para pedir as farças e as danças licenciosas.

—Dizer que um homem é um Catão é dizer que é severo e rigido no cumprimento do seu dever e nos seus costumes.


XI
Cezar

Caio Julio Cezar, consul romano, dictador e um dos maiores capitães da antiguidade, era sobrinho de Mario. Cresceu no meio das guerras civis e foi proscripto aos desoito annos, por Sylla, que viu n’elle varios Marios. A estatua d’Alexandre, o Grande, que elle viu, passando em Cadiz, fez-lhe derramar lagrimas de despeito, por vêr que na idade em que tinha morrido esse heroe, elle não tinha ainda realisado nada de notavel. Tinha uma ambição e uma actividade devoradoras e—«julgava não ter feito[31] coisa alguma em quanto lhe restasse alguma coisa a fazer.»

O seu nome, como o de Alexandre, ficou como synonymo de grande guerreiro, de conquistador civilisador.

Vamos apontar por ordem chronologica, as differentes circumstancias da vida de Cezar, que originaram locuções proverbiaes.

1.º—A mulher de Cezar nem mesmo deve ser suspeitada.

Clodio, joven patricio, ambicioso e desmoralisado, amava Pompeia, mulher de Cezar. Uma noite, quando as mulheres celebravam os mysterios da boa-deusa, interdictos aos homens, elle introduziu-se, disfarçado com trajes femininos, nos aposentos de Pompeia. Mas foi surprehendido por uma escrava, que não era confidente.—«No dia seguinte, diz Plutarco, toda a cidade soube que Clodio commettera um sacrilegio horrivel.»

Julgado, como profanador dos santos mysterios, corrompeu os juizes e foi absolvido. Cezar contentára-se em repudiar sua mulher. Chamado, porém, como testemunha, elle depoz que não tinha nenhum conhecimento dos factos que se imputavam ao accusado. Este depoimento pareceu muito estranho e o accusador perguntou-lhe[32] porque havia então repudiado sua mulher. Elle respondeu:

É porque a mulher de Cezar nem mesmo deve ser suspeitada.

2.º—Gostaria mais de ser o primeiro n’uma aldeia, que o segundo em Roma.

Todos os actos, todas as palavras de Cezar, antes do seu advento ao poder, revelam o seu caracter e a natureza da sua ambição. Depois da sua pretura, tendo-o a sorte designado para o governo da Hespanha ulterior, elle partiu para a sua provincia. Quando atravessava uma pobre aldeia, perdida no fundo dos Alpes, alguns dos seus amigos perguntaram-lhe, gracejando, se a ambição do poder e o desejo das dignidades occasionavam tambem debates n’essa miseravel terra.

—«Não riam—respondeu o futuro dictador—eu gostaria mais de ser o primeiro n’esta aldeia, que o segundo em Roma

3.º—Passar o Rubicão.

Cezar vinha de concluir a conquista dos gaulezes, e tinha encontrado n’essas regiões thesouros bastantes para tudo comprar em Roma,[33] onde tudo se tornára venal. Os seus successos, o seu poder, mais ainda que os seus conhecidos projectos, despertaram, emfim, a desconfiança de Pompeu, que começava a receiar ver-se o logro d’aquelle de que elle se tinha imaginado ser o protector. Desde então, poz tudo em acção para obter do senado um decreto que ordenava a Cezar o abandono do seu exercito e a resignação do commando. Este respondeu que estava prompto a obedecer, com a condição de que Pompeu entraria, pelo seu lado, na vida civil. Desde este momento, a guerra estava declarada. O senado encarregou os consules de proverem a segurança publica, e Cezar fez avançar o seu exercito para o Rubicão. Era uma pequena ribeira, que separava a Italia da Gallia cisalpina. O senado para assegurar Roma contra as tropas da Gallia, tinha, por um senatus-consulto celebre, declarado traidor á patria e dedicado aos deuses infernaes, todo aquelle que, com uma legião ou uma cohorte, passasse aquella ribeira. Prevenido na margem opposta, Cezar, dominado pelo perigo da resolução audaciosa que ia tomar, hesitou alguns instantes.

«Tinham-se visto revoluções d’imperios, diz Lacordaire, thronos mudando de senhores, e fôra isso, n’esse jogo de passageiras fortunas, o que tinha illuminado o genio dos maiores d’entre os homens. Cezar, no Rubicão, parára pensativo; a mão no peito e o olhar além do regato, elle se[34] dissera:—«Eu, Cezar, faço uma coisa que nenhum romano fez ainda: desobedeço ao senado romano. Passando este ribeiro, faço um imperio d’uma republica, senhora do mundo: passemol-o.»

—«Vamos, pois, exclamou Cezar, como se cedesse á obsessão da sua fortuna; vamos aonde nos chamam as vozes dos deveres e a iniquidade dos nossos inimigos. Alea jacta est!—a sorte está lançada!»

Palavra irrevogavel, pronunciada depois por todos os homens que, não encontrando fundo no seu pensamento, e obrigados a escolherem entre dois perigos supremos, tomam resolução no seu caracter, não podendo tomal-a em outra parte, e se lançam a nado no Rubicão do acaso, para morrerem ou para se salvarem pela sorte.

4.º—Levas Cezar e a sua fortuna.

Pompeu, desesperando de defender a Italia com a approximação de Cezar, deixou Roma acompanhado d’um grande numero de senadores, magistrados e cidadãos e passou á Grecia, onde levantou um exercito. Cezar seguiu-o. Tendo desembarcado á frente de cinco legiões, soube que a frota que lhe levava viveres e reforços foi batida e dispersa pela de Pompeu. Na critica circumstancia em que se achava toma a re[35]solução d’ir ao encontro d’Antonio, que devia soccorrel-o, e embarca elle só n’um barco de pescador. Durante a travessia levanta-se uma tempestade e ameaça submergir a fragil embarcação. O piloto espantado quer volver ao posto. É então que o heroe lhe diz essa famosa phrase, contada por Plutarco:

—«Que receias? levas Cezar e a sua fortuna!»

E alguns dias depois humilhava o seu rival nos campos da Pharsalia.

5.º—Soldado, fere no rosto!

Antes da batalha de Pharsalia, Cezar, no meio d’uma região dedicada ao seu rival, estava n’uma situação muito critica. Pompeu, cujo exercito estava bem munido e fornecido pela sua frota, resolvera reduzir á fome o seu inimigo. A perda de Cezar parecia certa, quando Pompeu, cedendo á impaciencia dos seus soldados, travou peleja com os velhos legionarios das Gallias, que bem podiam ser destruidos pela fome, mas que não podiam deixar-se vencer.—«Soldado, fere no rosto!» tinha gritado Cezar aos seus veteranos, vendo os brilhantes cavalleiros do exercito de Pompeu. Estes jovens patricios, espantados, pozeram-se em fuga para não serem desfigurados pelas lanças dos legionarios, e Cezar ficou senhor do campo de batalha.

[36]

A implacavel phrase de Cezar não encontra applicação alguma em circumstancias analogas, e emprega-se a respeito d’um adversario de que se quer tocar a fibra sensivel, que se deseja ferir á falta de couraça.

6.º—Cheguei, vi e venci.

Apoz a morte de Pompeu e a conquista do Egypto, e em quanto Cezar se engolfava no seio dos prazeres que lhe offerecia Cleopetra, o partido de Pompeu, mais disperso que destruido, erguia-se por toda a parte. Pharnacio, rei do Ponto, aproveitára a guerra civil para tentar reunir na Asia as antigas possessões de seu pae. Despertado pelo perigo, Cezar corre ao Bosphoro, esmaga o filho de Mithridates e termina essa guerra com uma tal rapidez, que pôde contal-a inteira n’estas tres palavras celebres, que elle dirigiu ao senado:

Veni, vidi, vici; cheguei, vi, venci!

—Faz-se uso da phrase para exprimir a facilidade, a promptidão com que se executa uma empreza.

Lembra-nos a proposito o seguinte caso analogo. Depois da sua victoria sobre os turcos, Sobieski enviou ao Papa o estandarte de Mahomet, com estas palavras de Cezar a que deu um caracter de modestia christã:—«Cheguei, vi e Deus venceu!»

[37]

7.º—Idos de Março.

Cezar entrára em Roma, senhor do mundo inteiro. O senado conferiu-lhe honras extraordinarias e revestiu-o d’uma illimitada auctoridade. Foi nomeado consul por dez annos e dictador perpetuo; deram-lhe o nome de imperador, o titulo de Pae da Patria e erigiram-lhe uma estatua com esta inscripção:—Ao deus invencivel! A sua pessoa foi declarada inviolavel. Concederam-lhe o privilegio de assistir ao espectaculo n’uma cadeira dourada, com uma corôa na cabeça. Elle meditava projectos immensos; queria engrandecer Roma, ornamental-a de monumentos magnificos, fazer d’ella a rainha do Universo. Mas não lhe estava reservado o cumprimento de tão vastos designios. Debalde se exforçára por apagar todos os traços da guerra civil, debalde tinha cumulado de favores e elevado aos primeiros cargos os que o tinham combatido, debalde tinha erguido estatuas ao seu rival, porque nada podia desarmar os partidarios da antiga liberdade.

A sua clemencia parecia insultante; viu-se que não perdoava, mas que desdenhava punir. Afinal uma formidavel conjuração se tramou contra a sua vida. A conspiração devia explosir no meio do senado, e fôra fixada para os idos de Março. O caso transpirou no publico, mas Cezar[38] recusou tomar qualquer precaução. Calpurnia, sua mulher, estava tão persuadida da realidade do perigo, que o conjurou, com as mais vivas instancias, a não sahir n’esse dia.

Conta Plutarco, que muito tempo antes, um adivinho tinha advertido o dictador de que devia desconfiar dos idos de Março. Quando sahia de casa para o senado, encontrou o adivinho e disse-lhe, rindo: «—Chegamos aos idos de Março.»—«É verdade—respondeu—mas ainda não passaram.»

Alguns passos adeante um homem entregou-lhe um bilhete que continha todas as particularidades da conspiração:—«Lêde—disse—e rapidamente!» Mas Cezar não teve tempo e entrou para o senado.

—Os idos de Março designam, por analogia, uma epocha perigosa de passar, e para a qual se fizeram incommodativos prognosticos.

8.º—E tu tambem, meu filho!

Apenas Cezar tinha entrado no senado, todos os conjurados o rodearam como para lhe prestarem honra. Cimber, um d’elles, apresentou-se, afim de lhe pedir o chamamento de seu irmão exilado, e como para lhe pedir com mais submissão, tomou-lhe a fimbria da toga e puxou-a com violencia. Era o signal combinado.[39] Casca, tirando o seu punhal, feriu com elle o dictador no hombro. Cezar, no mesmo instante toma a arma do assassino e precipita-se sobre elle gritando:—«Que fazes, scelerado Casca?» Então todos os conspiradores desembainharam as suas espadas e lhe vibraram varios golpes. Cassio, mais animado que os outros, fez-lhe uma profunda brecha na cabeça; Cezar defendia-se ainda, quando avistando Bruto, com o punhal erguido sobre elle, exclamou:—«E tu tambem, meu filho Bruto!» Ao mesmo tempo cobriu o rosto com o vestido e cahiu atravessado com vinte e tres golpes, aos pés da estatua de Pompeu.

9.º—A tunica de Cezar.

O cadaver de Cezar abandonado no senado foi conduzido, todo cheio de sangue a sua casa por tres escravos. Alguns dias depois, Antonio appareceu na tribuna das harengas e leu á multidão o testamento do dictador. O povo, que elle não tinha esquecido nas suas generosidades fez explosir a sua indignação. Então, Antonio, desdobrando do alto da tribuna a tunica de Cezar, ensanguentada e crivada de golpes, tratou de parricidas os auctores d’aquelle assassinio. Esta scena levou ao cumulo a exasperação popular. E todos os assistentes fazendo logo uma fogueira com as mezas e os bancos que encontra[40]ram á mão, n’ella queimaram o corpo de Cezar; depois, tomando tições correram a casa dos assassinos para lhes lançarem fogo, e os atacarem a elles proprios.


XII
Estava escripto

Esta resignação perante os duvidosos decretos do destino é o fundo da doutrina religiosa da maior parte dos povos orientaes. É uma especie de fatum antigo, um pallido reflexo d’esse caracter poetico, quasi grandioso, que o fatalismo—mistura de sensibilidade profunda e sombria resignação—revestira entre os antigos.

Os differentes systemas phrenologicos parecem não ter por fim senão o darem razão physica d’estes factos moraes.

A litteratura philosophica do seculo XVIII legou-nos duas obras muito conhecidas, apesar de francezas, sobre a fatalidade: Zadig, conto de Voltaire, e Thiago o fatalista, romance de Diderot.


[41]

XIII
Conhece-te a ti proprio

Estas famosas palavras estavam gravadas sobre o frontão do templo de Delphos. Era a maxima favorita de Socrates; elle adoptou-a, explicou-a e tornou-a celebre para sempre. Toda a lei moral reside n’estas palavras, como toda a lei religiosa está encerrada n’estas admiraveis palavras de Christo:—«Ama o proximo como a ti mesmo.»

Seneca, o tragico, desenvolveu esta bella maxima nos seguintes versos que traduzimos assim:

«O homem é infeliz no instante em que fenece;Quando tendo esquecido o ponto necessario,Morre mui conhecido e a si se não conhece.»[42]

XIV
As joias de Cornelia

Cornelia, mãe dos Grachos, era filha de Scipião, o Africano, e mulher de Sempronio Gracho, que se illustrou nas guerras de Hespanha. Enviuvando, com doze filhos, consagrou-se inteiramente á sua educação, e recusou até, dizem, a mão de Ptolomeu, rei do Egypto. D’esta numerosa prole conservou apenas uma filha, que foi casada com Scipião Emiliano, e dois filhos, Tiberio e Caio Gracho, este sempre famoso pelo seu genio, pela sua coragem e pelo seu tragico destino. Mulher d’um caracter viril e d’um espirito cultivado, ella educou-os com o maior esmero, e inspirou-lhes cedo o amor publico, a paixão da gloria e das grandes emprezas, pedindo-lhes, por vezes, que a chamassem sempre a filha de Scipião e nunca a mãe dos Grachos.

Conta-se que uma dama da Campania estendendo, um dia, deante d’ella as suas joias e os seus preciosos adornos, e pedindo-lhe para que ella lhe mostrasse as suas, Cornelia lhe apresentou os filhos, dizendo:

—«Eis as minhas joias e os meus adornos».


[43]

XV
Cresus

Cresus, rei da Lydia, submetteu a maior parte das cidades da Asia Menor, e levou as suas conquistas até ao rio Halys. A fama do seu poder e das suas riquezas, constantemente renovadas pelas areias auriferas do Pactolo, tornou proverbial o nome de Cresus, para designar um homem cumulado dos bens da fortuna. Elle perguntou um dia a Solon, que fôra visitar a sua côrte, se conhecia um homem mais feliz do que elle. O philosopho respondeu-lhe que nenhum homem póde ser saudado com o nome de feliz antes da sua morte. Cresus não tardou a experimentar os effeitos d’esta triste verdade. Um de seus filhos foi morto na caça, o outro tornou-se mudo, e elle proprio, depois de ter visto os seus Estados invadidos por Cyro, foi vencido na celebre batalha de Thimbreia e cahiu nas mãos do vencedor, que ordenou a sua morte. Quando o conduziam ao supplicio, vieram-lhe á memoria as palavras de Solon, e elle pronunciou tres vezes, suspirando, o nome do legislador atheniense. Instruido da causa d’esta exclamação,[44] Cyro, commovido de piedade e tocado d’aquelle exemplo das vicissitudes humanas, perdoou a Cresus e admittiu-o no numero dos seus conselheiros.

Esta bella legenda philosophica da vida de um homem, que foi successivamente, e d’um modo tão frisante, o favorito e o joguete da fortuna, é narrada por Herodoto, mas Xenophonte não falla d’ella.

—O nome de Cresus passou a designar um homem opulento, coberto de todos os favores da fortuna.


XVI
Dôr, tu não és um mal

O stoicismo, fundado por Zenon, fórma uma das mais illustres philosophias da antiguidade. Simples no seu principio e nas suas deducções, frisante pelo seu caracter heroico e paradoxal, de tal modo se fez conhecer, ao menos, pelos traços mais salientes da sua moral, que os nomes de stoicismo e stoico, entraram na applicação usual da lingua, como expressão d’uma grande impassibilidade. Os stoicos faziam consistir a virtude e a ventura na posse d’uma alma[45] egualmente insensivel á voluptuosidade e á dôr, liberta de todas as paixões, superior a todos os receios, a todas as fraquezas. Admittindo como mal apenas o vicio, como bem sómente a virtude, e considerando o resto como indifferente, elles negavam que a dôr fosse um mal. Zenon, seu illustre chefe, foi o primeiro que proclamou a lei do dever e que d’ella lançou os fundamentos com uma abundancia de provas que tinha a sua origem n’uma profunda convicção, independentemente de toda a argumentação dialectica. As paixões não são elementos necessarios da nossa condição; são doenças da alma: a saude, a apathia, a ausencia das paixões. Foi por causa d’esta severidade d’opiniões moraes, pelo menos entre os primeiros stoicos, que se deu, em geral, o nome de stoicismo a toda a opinião severa em moral.

Esta doutrina, que se allia perfeitamente com todas as grandes virtudes, e que tendia a fazel-as nascer, logrou grande credito entre os romanos, apesar da sua pequena inclinação pela philosophia; adoptaram-na com enthusiasmo, porque se concertava admiravelmente com a sua energia intellectual e a sua severidade. Notou-se, em honra da seita dos stoicos, que os personagens mais virtuosos de Roma a tinham adoptado:—Bruto, Catão d’Utica, Thrasêas, Seneca, Tacito, Epictecto, Antonino e Marco Aurelio. A moral ficou como gloria dos stoicos,[46] e tirando-lhe o que encerra de paradoxal e exaggerado, ella assegura-lhes o primeiro logar entre os percursores mais puros e mais directos do christianismo.

A divisa principal dos stoicos era:—«Soffre e abstem-te!»

Conta-se que um discipulo de Zenon, exclamava no meio dos maiores soffrimentos causados pela gôtta:

—«Dôr, tu não és um mal!»

Havia, por sem duvida, ostentação n’estes principios da doutrina do stoicismo, mas nem por isso ella deixou de produzir as virtudes mais heroicas.


XVII
Egéria

Numa Pompilio, legislador e segundo rei de Roma, nasceu em Ceres, no paiz dos sabinos. A tradição pinta-o como um principe pacifico e cheio de sabedoria. Nem uma guerra perturbou o seu reino, consagrado inteiramente á legislação e ás instituições religiosas. Elle creou e organisou, entre outras coisas, as ves[47]taes, os pontifices, e construiu templos e instituiu festas.

Como todos os legisladores da antiguidade, usou d’artificio para assegurar o respeito das suas instituições, e persuadiu aos romanos que recebia inspirações da nympha Egéria, só visivel para elle no fundo d’um bosque sagrado.

Vê-se ainda hoje, perto de Roma, n’um valle delicioso, o resto da fonte Egéria, entre a via Latina e a via Appia. Antigos monumentos representam esta nympha n’um costume analogo ao das sybillas, de tunica fluctuante, pés nús, cabellos soltos, e traçando caracteres n’um livro posto sobre os joelhos.

—Hoje o nome de Egéria dá-se familiarmente, sobretudo, a uma mulher de que se tomam os conselhos, de que se segue a opinião, principalmente para a direcção de negocios politicos.


XVIII
Mais uma victoria como esta e estamos perdidos

Pyrrho, sobrinho d’Olympias, era o principe mais valente, mais aventureiro de quantos se habilitaram á herança d’Alexandre. Passou a[48] vida a conquistar e a perder corôas. Não podia permanecer tranquillo no Epiro, julgando que não fazendo mal nem havendo quem lh’o fizesse, não tinha em que passar o tempo. Assim, o successo faltou sempre aos designios d’essa creança animada da fortuna, que viveu e morreu, menos como rei que como aventureiro. A sua brilhante reputação militar, fel-o chamar pelos tarentinos, então em guerra com os romanos. A imaginação exaltada representa-lhe já a Italia conquistada, depois a Sicilia e Carthago, e parte cheio de alegria para Tarento, cidade de prazeres, que elle transforma n’um campo, e os seus habitantes afeminados em soldados. Ganhou primeiro, graças aos seus elephantes, a batalha de Heraclêa, em que os romanos perderam quinze mil homens e elle treze mil. Venceu ainda em Asculo, em que o triumpho não foi comprado menos caro. Depois d’esta sangrenta batalha foi que elle respondeu aos que o felicitavam:—«Mais uma victoria como esta e estamos perdidos!»

Pyrrho, afinal, deixou a Italia, e encontrou a morte nas ruas de Argos, aonde uma velha o matou, atirando-lhe de cima do telhado uma pesada telha.


[49]

XIX
Espada de Damocles

Damocles, um dos cortezãos de Denys, o Antigo, fazia-se notar pela emphase das suas adulações, e não cessava de elogiar a ventura de seu senhor. O tyranno resolveu inicial-o nos prazeres da grandeza, por meio d’uma allegoria espiritual que faria honra a um califa oriental. Convidou-o a tomar o seu logar durante um dia, e deu ordens para que Damocles fosse tratado como rei, e lhe servissem um banquete sumptuoso. O cortezão tomou logar n’um leito d’honra; tem a fronte cingida do diadema; as iguarias mais exquisitas cobrem a meza. Damocles está rodeado d’escravos, attentos aos seus minimos signaes; deliciosos perfumes fumegam em torno a si, e a mais adoravel musica lhe encanta o ouvido; as cortezãs adulam-no, e poetas cantam em seu louvor. Embriaga-se em ventura, quando, de subito, levantando os olhos, vê suspensa, por cima de sua cabeça, uma espada apenas preza pela crina d’um cavallo. Pallido e tremulo, deixa escapar a taça das mãos, levan[50]ta-se desnorteado e pede a Denys para pôr termo á sua realeza. Tinha comprehendido o que é a ventura d’um tyranno.

—De todos os factos historicos que deixaram traço nas linguas, a espada de Damocles é o mais conhecido, poderemos até dizer o mais vulgar. É o perigo temido ou previsto, que póde ferir um homem no meio d’uma apparente prosperidade.

Um escriptor contemporaneo disse:—«A abobada dos céus é para o criminoso a sala do festim de Damocles, d’onde pendia uma espada sobre sua cabeça».

E Alfredo de Musset, nas Confissões d’um Filho do Seculo, tambem:—«Conta-se que Damocles viu uma espada sobre a sua cabeça; é assim que os libertinos parecem ter por cima d’elles um não sei quê, que lhes grita constantemente:—Vai, vai sempre, estou por um fio!»


[51]

XX
O prato de lentilhas

Esaú, o primogenito, era um grande caçador; Jacob, pelo contrario, era um homem simples, vivendo em casa, occupado unicamente em trabalhos domesticos. A doçura do seu caracter tornava-o mais agradavel a sua mãe que Esaú, que tinha attrahido a affeição particular de seu pae Isaac. Um dia, em que Esaú voltava do campo, cheio de fadiga e oppresso pela fome, pediu a Jacob que o deixasse comer d’um prato de lentilhas que este tinha preparado. Jacob consentiu, com a condição de que Esaú lhe cederia o seu direito de primogenito. Mais tarde, Jacob, recorrendo ao estratagema e auxiliado por sua mãe, surprehendeu a Isaac, moribundo e cego, a sua benção, que o fazia chefe da familia de onde devia sahir o Christo. Esaú concebeu uma violenta cólera, e Jacob, para se subtrahir ao seu resentimento retirou-se para casa de Labão, seu tio.

—Diz-se prato de lentilhas, a insignificancia relativa, pela qual se cede uma coisa realmente muito valiosa, especialmente moral.


[52]

XXI
E eu tambem sou pintor!

Corregio, natural de Corregio, nascido em 1494, é um dos maiores pintores da eschola italiana. As suas composições fazem-se notar, sobretudo, pela graça ondulante dos contornos, pela flexibilidade e elegancia das fórmas, pela riqueza do colorido, pela sciencia da luz e da sombra, pela intelligencia perfeita do claro-escuro! Era eminente em representar creanças, mulheres, emfim, scenas graciosas e de voluptuosidade. A sua Antiope adormecida é d’uma riqueza deslumbrante. A cidade de Parma offereceu, debalde, um milhão a Napoleão para conservar o S. Jeronymo, que é considerado como a sua obra prima. Não se conhece nenhum mestre a este pintor, e pensa-se que só a si deve o que foi. A revelação do seu genio explosiu deante d’um quadro de Raphael. Transportado de admiração e como que illuminado, elle exclamou:

—«E eu tambem sou pintor!»

—«Anch’io son’pittore!»


[53]

XXII
Estrella dos Reis Magos

No momento em que Jesus vinha ao mundo em Bethlem, n’um estabulo, os magos do Oriente avistaram uma estrella no céu, que elles ainda não tinham visto. Deixaram o seu paiz, e, guiados por esse pharol miraculoso, chegaram a Bethlem, onde acabava de nascer o Menino Deus. Penetraram no local acima do qual a estrella se detivera, e alli encontraram Maria e seu Filho, e, prostrando-se deante do recemnascido, adoraram-no e offereceram-lhe ouro, incenso e mirra. É este o acontecimento que a egreja celebra na festa da Epiphania ou dos Reis.

—A estrella que guiou os magos na sua piedosa peregrinação enriqueceu a nossa lingua com uma imagem poetica, muito frequentemente empregada. Essa estrella é muitas vezes uma voz intima, um ente amado, que nos chama e nos dirige para um fim glorioso.


[54]

XXIII
E, comtudo, ella gira!

Galileu, é, sem contradicção, a maior gloria scientifica da Italia. O methodo experimental, de que é o creador, fez-lhe em breve repellir os absurdos physicos e astronomicos professados no seu tempo, e levantar contra elle todos quantos eram adeptos das velhas doutrinas. Mas de todas as suas ousadias, a que devia ser mais perigosa para o seu repouso, foi o seu novo systhema astronomico, pelo qual, segundo Copernico, e contrariamente a Ptolomeu, elle fazia do sol o centro immovel do nosso systema planetario. Pretendeu-se que esta doutrina estava em formal contradicção com varias passagens da Escriptura, e foi denunciado á Inquisição. Elle defendeu-se com uma grande habilidade, representando que as passagens da Biblia e dos Santos Padres tinham sido interpretadas, e que, além d’isto, o objecto da Escriptura era a salvação dos homens e não o ensino da astronomia. Contentaram-se a principio em lhe fazerem uma advertencia, e em declararem falsa e heretica a sua doutrina do movimento da terra e da immo[55]bilidade do sol. Galileu calou-se durante algum tempo; mas a paixão da sciencia foi a final mais forte que a prudencia. Compoz, por sua desgraça, Dialogos, em que, por um artificio empregado muitas vezes nos tempos de despotismo, poz em lucta os partidarios dos systemas oppostos, sem se pronunciar por um d’elles. Adivinha-se facilmente que os partidarios da immobilidade da terra, foram esmagados pelos argumentos, realmente sem replica, dos seus adversarios. Galileu foi mandado immediatamente a Roma pela Santa Inquisição, interrogado, e, segundo uns, mas sem que haja provas, posto em tortura, e, afinal, condemnado a prisão perpetua e á abjuração solemne dos seus erros.

A sciencia como a fé tem tido os seus martyres; mas Galileu fraquejou na ultima hora e consentiu em humilhar o seu genio perante os prejuizos dos seus contemporaneos. A 22 de junho de 1633 pronunciou a sua abjuração no convento de Minerva, em presença dos cardeaes inquisidores. A formula que lhe foi imposta é um dos monumentos mais curiosos da inepcia humana:

—«Eu, Galileu, de setenta annos, sobre os Santos Evangelhos que toco com as minhas proprias mãos … abjuro, maldigo e detesto o erro e a heresia do movimento da terra, etc.»

Conta-se que levantando-se depois da realisação d’este sacrificio, Galileu arrastado pela re[56]volta intima das suas convicções, bateu com o pé no chão e murmurou energicamente:

—«E, comtudo, ella gira!—E pur si muove!»

Foi o seu unico protesto; mas elle atravessará os seculos como o grito da verdade opprimida e deporá eternamente contra a ignorancia e a perseguição.


XXIV
Virtude, não és mais que um nome

Depois da morte de Cezar, os seus assassinos, forçados a fugirem deante da cólera do povo, levantado por Antonio, retiraram-se para a Macedonia. Os triumviros avançaram contra elles com forças consideraveis. Alguns dias antes da batalha, que devia decidir da sorte da republica, e n’uma noite em que Bruto velava na sua tenda, entregue a sombrias reflexões, pareceu-lhe, de repente, que ouviu entrar alguem. Volvendo-se viu um phantasma horrivel na sua presença.

—«Homem ou deus, quem és?»—lhe diz Bruto.

—«Sou o teu mau genio—responde—; vêr-me-has em breve em Philippes.»

[57]

Esta prophecia não devia tardar a realisar-se. Poucos dias depois, com effeito, e na noite que precedeu a batalha de Philippes, quando Bruto velava só na sua tenda, segundo o seu costume, em quanto que todo o exercito estava mergulhado em somno, o mesmo phantasma lhe appareceu segunda vez, o olhou com ar sinistro e se retirou sem proferir uma unica palavra. No dia immediato, a liberdade romana expirava nas planicies de Philippes, e Bruto matava-se, soltando esse grito de desanimo, muito conhecido:

—«Virtude, não és mais que um nome!»


XXV
Festim de Balthazar

Cyro, rei dos persas, cercava Babylonia á frente d’um exercito formidavel; Balthazar, confiando na força das suas muralhas, ria dos vãos exforços do seu inimigo e esquecia, nos festins, os enfados d’um longo cêrco. Uma noite em que celebrava uma orgia com os grandes da sua côrte e todas as suas mulheres, fez trazer, por uma fanfarronada de impiedade, os vasos sagra[58]dos que Nabuchodonosor tinha outr’ora subtrahido ao templo de Jerusalem. Realisada aquella profanação, o impio monarcha viu com espanto uma mão que traçava na parede, em traços ardentes, caracteres mysteriosos, que nem Balthazar nem ninguem da côrte pôde traduzir.

O propheta Daniel tendo sido chamado, disse ao rei.

—«Foi Deus que enviou aquella mão, e é isto o que está escripto: Mané, Thécel, Pharés;—Mané, Deus contou os dias do teu reino e lhe marcou o fim; Thécel, foste collocado na balança e achado muito leve; Pharés, o teu reino será dividido!»

Na mesma noite, com effeito, Cyro, tendo conseguido desviar o curso do Euphrates, penetrou na Babylonia pelo seu leito secco. Balthazar foi morto e a Babylonia reunida ao imperio dos persas.

—Por allusão a este festim celebre, chama-se festim de Balthazar a toda a orgia ruidosa, ou, por uma hyperbole familiar, a todo o banquete copioso e prolongado.


[59]

XXVI
Forcas caudinas

Roma tinha vencido a maior parte das nações visinhas; mas desde que quiz estender o seu dominio á parte meridional da Italia encontrou os samnitas, povo de costumes rudes e bellicosos. Havia de um e outro lado as mesmas armas, a mesma disciplina, o mesmo habito dos combates. D’alli a ambição e o valor romanos; d’aqui o patriotismo e a infatigavel energia dos samnitas, iam dar a esta lucta um caracter d’incrivel encarniçamento. Eis aqui o episodio mais celebre d’essa guerra, que devia terminar pela conquista do Samnio. Romperam-se as hostilidades; os samnitas estavam acampados perto de Candium, no meio das montanhas. Poncio Herennio, seu general, resolveu attrahir, por um falso aviso, o exercito romano a um desfiladeiro, de onde lhe seria impossivel escapar-se. Logo dez soldados samnitas, disfarçados em pastores, approximaram-se dos postos avançados inimigos e espalham a nova de que os samnitas cercam Luceria, cidade alliada dos romanos. Os consules apressam-se a voar em sua defeza, escolhendo o caminho mais[60] perigoso, mas mais curto—desfiladeiro profundo, estreito e coberto de florestas. Era o que tinha previsto o general dos samnitas. Apenas os romanos se empenharam n’esse caminho perigoso, avistam as alturas cobertas d’inimigos. Era forçoso, ou morrer ou render-se, porque as sahidas estavam obstruidas. O pai de Poncio Herennio, velho cheio d’experiencia, aconselhava a seu filho o despedir todos os romanos sem resgate, para os fazer amigos, ou exterminal-os até ao ultimo para vibrar um golpe mortal na republica. O general samnita, escutando sómente o desejo de humilhar o orgulho romano, obrigou-os a entregarem-se á discrição, e fez passar todo o exercito sob um jugo formado de dois forcados espetados no solo e encimados d’um terceiro. Todos os soldados com os consules á frente, passaram, tremendo, sob esse instrumento d’opprobrio, depois de terem deposto as armas. O senado recusou ratificar compromissos impostos em condições tão humilhantes; foi preciso combater de novo, e sangrentas derrotas puniram os samnitas da sua imprudente confiança na fé romana.

—Depois a expressão passar sob as forcas caudinas entrou em uso para caracterisar toda a concessão onerosa ou humilhante, arrancada aos vencidos.


[61]

XXVII
Irmão, é preciso morrer

As austeridades da vida monastica tornaram-se proverbiaes, mas foi, sobretudo, na Trappa que ellas se observaram com todo o rigor dos primeiros seculos do christianismo. Os trappistas guardam absoluto silencio, dividem o tempo entre a oração e o trabalho manual, alimentam-se de pão grosseiro e legumes e vestem apenas o habito de burel. Devem ter sempre deante dos olhos a imagem da morte. E é para se lembrarem d’esta grande verdade, que em cada dia visitam a valla que deve servir-lhes de derradeiro asylo.

«O silencio—diz um eloquente orador contemporaneo—anda ao seu lado, e se fallam, quando se encontram, é para se dirigirem esta melancholica phrase:

[62]

—«Irmão, é preciso morrer …»


XXVIII
Cahir com graça

Quando em Roma o gladiador se sentia mortalmente ferido, nos sangrentos combates do circo, e a destreza se lhe tornava inutil, elle procurava ainda accender applausos na multidão, para a qual a sua agonia era um espectaculo, por uma queda a que elle tentava imprimir toda a arte, e cahia na arena com graça.

—Esta phrase applica-se, pelo lado moral, aos que, em politica, no amor, etc., se salvam da humilhação d’um cheque, pela boa graça, real ou ficticia, que fazem acceitar.


[63]

XXIX
Hippocrates diz sim, Galiano diz não

Hippocrates e Galiano são os dois representantes mais illustres da medicina, entre os antigos: aquelle nos gregos, este nos romanos. Galiano nutria uma profunda veneração pelo genio do pae da medicina, e um dos maiores serviços que prestou á sciencia, foi o de ter, no meio d’uma sã critica, collocado o facho sobre as obras d’aquelle que chamava seu mestre. Hippocrates e Galiano teem de commum que dotados ambos d’um vasto genio, avançaram muito nos segredos da natureza, e ambos mostraram egual ardor na investigação da verdade, não pelo apparato das riquezas, mas só pelo amor da humanidade.

—Esta phrase proverbial: Hippocrates diz sim, Galiano diz não, não tem pois a sua origem no antagonismo dos dois grandes homens e dos seus systemas; mas como a medicina é o immenso campo da contradicção, e quando um medico diz—tanto melhor, um outro[64] diz—tanto peior; quando este applica sangrias aquelle proscreve-as; quando um colloca a séde de todas as doenças nos nervos, o outro nos humores; quando, emfim, um escreve no seu estandarte—contraria contrariis … e o outro—similia similibus …, comprehende-se que era á medicina que a contradicção devia pedir a sua divisa, e que as duas columnas d’esta sciencia lhe deviam fornecer a expressão.


XXX
É muito tarde!

Esta phrase data da revolução de Julho de 1830, em França, e eis em que circumstancia foi pronunciada. Uma ultima tempestade tinha derrubado para sempre o throno do ramo mais velho dos Bourbons. Era em sexta-feira, 30 de Julho; o povo estava inteiramente senhor de Pariz, e uma commissão a que presidia Lafayette cercava o Hotel-de-Ville. Carlos X, em Saint-Cloud, dominado por uma cegueira que lhe tinha feito jogar a corôa, conservava ainda illusões e esperava que algumas concessões o collocariam sobre o throno. M. de Sussy, portador de despa[65]chos que revogavam as fataes determinações de 25, apresenta-se no Hotel-de-Ville e entrega-os a Lafayette. Este dá-lhe então a famosa resposta:

—«É muito tarde!»

Alguns dias depois o duque d’Orleans, chefe do ramo mais novo, subia ao throno. Mas, estranha volta das coisas d’este mundo, dezoito annos depois e em circumstancias quasi analogas, a mesma resposta foi dada a Luiz Philippe. Elle tambem devia ouvir Lamartine responder ás suas tardias concessões:

—«É muito tarde!»


[66]

XXXI
Não ha grande homem para o seu creado de quarto

Segundo Mademoiselle Aïssé, esta phrase teria sido pronunciada pela primeira vez por Madame Cornuel, mulher d’espirito, do tempo de Henrique IV, da qual Madame de Sevigné cita os bons ditos. Essa phrase é, sem duvida, uma reminiscencia d’essa outra de Montaigne:—«Poucos homens teem sido admirados pelos seus creados.» Qual é, em verdade, o homem de genio que fica egual a si proprio, quando já não está em scena? O mundo é um espectaculo, onde cada qual representa um papel apropriado, em quanto está deante do publico, mas de que se despoja todo o brilho d’emprestimo desde que se recolhe a bastidores. Aqui o homem substitue o heroe e quantos poderiam dizer como o grande Condé, quando era fatigado com titulos pomposos e elogios hyperbolicos:

—«Perguntem o que sou ao meu creado de quarto!»


[67]

XXXII
Cantam, elles pagarão

Mazarino governou a França depois de Richelieu, em momentos de perturbações e de guerra civil. Era a rapoza succedendo ao leão. Fez uma politica completamente opposta á do seu terrivel predecessor; os seus meios favoritos eram a astucia, a finura, a paciencia. Comprazia-se em repetir:

—«O tempo é um homem galante!»

Nenhum ministro foi tão posto em canções como elle; mas insensivel aos pamphletos que diariamente dirigiam contra a sua pessoa, o astucioso italiano apenas dizia:

—«Deixemol-os fallar e prosigamos!»

A cada novo imposto choviam novas satyras. Elle, porém, seguro de que uma opposição, que só desabafava em couplets satyricos, o não poderia incommodar, acudia com toda a serenidade:

—«Cantam, elles pagarão!»


[68]

XXXIII
Perdi o meu dia

O imperador Tito, que a historia cognominou as delicias do genero humano, exclamava quando tinha passado um só dia sem encontrar occasião de praticar algum bem:

—«Meus amigos, perdi o meu dia!»

Boileau exprimiu esta generosa ideia nos seguintes versos da Epistola ao Rei:

«Tal esse imperador, sob o qual, Roma via,Renascer de Saturno e de Rhêa outro dia;Que rendeu ao seu jugo o universo amoroso,Que jámais alguem viu sem se sentir ditoso,E que chorava á noite o tempo que perderaQuando passava o dia e algum bem não fizera

[69]

XXXIV
Amo Platão, mas amo mais a verdade

Platão e Aristoteles são os dois mais illustres representantes da philosophia antiga. O primeiro, discipulo de Socrates, estava em todo o esplendor da sua fama, quando Aristoteles foi a Athenas para seguir as suas lições. O discipulo não tardou a tornar-se tão celebre como o mestre; mas dois espiritos d’esta superioridade, e, ao mesmo tempo, tão differentes, ambos feitos para reinarem no dominio do pensamento, deviam em breve separar-se.

Assim, Aristoteles, sem ser, como se diz, inimigo do seu mestre, não adoptava todas as consequencias da sua doutrina; todavia, quando se achava em contradicção com elle, sabia exprimir a sua opinião com a sábia medida d’um philosopho e não com a funda amargura d’um rival.

—«Amo Platão—dizia—mas amo mais a verdade.»—«Amicus Plato, sed magis amica veritas.»

[70]

—Esta homenagem prestada á verdade, quando é tida em desaccordo com as doutrinas de um genio, mesmo transcendente, passou a ter foros de proverbio.


XXXV
Achei!—Eureka!

Esta exclamação que se faz ouvir quando, depois de longas investigações, o espirito, repentinamente inspirado, chega á descoberta que elle perseguia, foi proferida pela primeira vez, por Archimedes, nas circumstancias seguintes:

Hieron, rei de Syracusa, suspeitava que um ourives, que lhe tinha fabricado uma corôa d’ouro, tivesse falsificado o metal, misturando-lhe uma certa quantidade de prata. Elle consultou Archimedes, seu parente, sobre os meios de descobrir a fraude, de que julgava poder queixar-se. O illustre mathematico reflectia profundamente na solução possivel d’este problema, quando um dia, estando no banho, percebeu que os seus membros, mergulhados na agoa, perdiam consideravelmente do seu pezo; que, por exemplo, elle podia levantar uma perna com extrema facilidade. O seu genio entreviu logo os elementos d’esse[71] grande principio d’hydrostatica, que determinou em seguida rigorosamente:—que todo o corpo mergulhado n’agoa, perde uma parte do seu pezo, egual ao pezo do volume d’agoa que esse corpo desloca.—Esta descoberta dava-lhe a solução do problema. No meio do enthusiasmo que lhe produziu esta revelação elle sahiu do banho e lançou-se na rua gritando:

Achei! achei!Eureka! Eureka!

Com effeito, tinha encontrado o meio de determinar a gravidade especifica de todos os corpos, tomando a agoa por unidade. Procurou, pois, duas massas, d’ouro e de prata, cada uma d’um pezo egual á corôa: mergulhou-as successivamente n’um vaso cheio d’agoa, observando com cuidado a quantidade de liquido deslocado pela immersão de cada uma d’ellas. Submetteu á mesma experiencia a propria corôa, e achou assim o meio certo d’apreciar a quantidade d’ouro e de prata de que ella era composta.

—O achei! de Archimedes, ficou tendo applicação, nos casos em que, uma difficuldade qualquer, se vence por uma solução satisfactoria.


[72]

XXXVI
Eu desejaria não saber escrever

Néro, educado por Seneca e Burrhus, dois dos mais sabios romanos d’esse seculo, esteve longe de annunciar, na sua mocidade, as sanguinarias inclinações, que o tornaram o typo da crueldade. Elle pareceu querer consolar os romanos do reino de Tiberio; os seus primeiros actos, cheios d’uma grande doçura, provam que aos seus instinctos de crueldade soube alliar uma profunda hypocrisia, e que a educação é completamente impotente para abafar, em certos caracteres, pelo menos, os germens das paixões más, que trazem nascendo. Desde o segundo dia do seu reinado elle foi ao senado, e em um discurso que Seneca lhe havia composto, annunciou que o seu projecto era tomar Augusto por modelo. Em verdade os principios do seu reino pareceram-se com os ultimos do reino d’aquelle que se propunha imitar. Mostrou-se justo, liberal, affavel, polido, complacente e accessivel á piedade. A modestia realçava-lhe ainda as qualidades. O senado, tendo-o louvado pela sabedoria do seu governo, fez com que elle dissesse:

[73]

—«Esperem, para me louvarem, que eu o tenha merecido.»

Um dia em que lhe apresentaram, para assignar, a sentença que condemnava á morte um criminoso, elle disse:

—«Eu desejaria não saber escrever!»

E comtudo foi … Néro!


XXXVII
Linguas d’Esopo

Esopo, escravo do philosopho Xantus, recebeu um dia do seu senhor, que tinha convidado varios amigos para jantar, ordem de comprar no mercado, tudo quanto houvesse de melhor, e nada mais.

—«Eu te ensinarei a especificares o que desejas, sem te entregares á discrição d’um escravo»—dissera o phrygio comsigo mesmo.

E comprou só linguas, que fez cosinhar de todos os modos possiveis, de maneira que o principio, o meio e o fim do banquete, foram linguas. Os convidados louvaram a principio a escolha d’Esopo, mas, afinal, desgostaram.

—«Não te ordenei,—disse Xantus—que comprasses o que houvesse de melhor?»

[74]

—«E que ha melhor que a lingua?—respondeu Esopo.—É o laço da vida civil, a chave das sciencias, o orgão da verdade e da razão; por ella se construem e policiam cidades; por ella se instrue, se persuade e se reina nas assembleias; por ella se satisfaz ao primeiro dos deveres, que é louvar os deuses.»

—«Pois bem—replicou Xantus, que pretendia apanhal-o—compra amanhã o que houver de peior. Os mesmos convidados virão a minha casa e quero variar.»

No dia seguinte Esopo só fez servir linguas, dizendo que a lingua é a peior coisa que ha no mundo.

—«É a mãe de todas as questões, a alimentadora de todos os processos, a origem das divisões e das guerras. Se ella é o orgão da verdade, é tambem o do erro, e, o que peior é, da calumnia. Por ella destroem-se as cidades; e se por um lado louva os deuses, por outro é o orgão da blasphemia e da impiedade.»

—As linguas d’Esopo ficaram celebres, para designarem o que, podendo ser encarado sob dois aspectos oppostos, dá egualmente occasião ao louvor e á critica.


[75]

XXXVIII
Lanterna de Diogenes

Na epocha em que vivia Diogenes, os athenienses pareciam ter perdido a memoria de Marathão e Salamina; eram já os athenienses da decadencia, e em quanto que Demosthenes procurava em vão accender essas heroicas recordações pelos masculos accentos da sua eloquencia, o cynico stigmatisava a seu modo, a sua cobardia e a sua corrupção.

Uma vez foi encontrado em pleno meio dia, nas ruas d’Athenas, levando na mão uma lanterna accesa, e como lhe pedissem a razão de tão estranho caso, elle limitou-se a responder:

—«Procuro um homem!»


[76]

XXXIX
O mestre o disse

Pythagoras, um dos maiores, e, talvez até o maior philosopho da antiguidade, aspirava, nada menos, que a constituir no mundo inteiro uma especie de religião. A sua doutrina tendia politicamente a estabelecer uma aristocracia forte e poderosa, e a revestil-a d’um caracter sacerdotal, que a tornasse semelhante ás theocracias do Oriente; em fazer das luzes scientificas a partilha d’um pequeno numero de iniciados, e em dar a estes o governo do mundo, attribuindo-lhes a infallibilidade. Estas grandes e arrojadas ideias inspiraram uma especie de terror aos gregos da Italia e provocaram o desastre espantoso que feriu subitamente os pythagonios.

Comprehende-se o imperio que um philosopho d’este quilate devia adquirir sobre o espirito dos seus discipulos, e assim, entre elles, a phrase—o mestre o disse, equivalia a uma formula magica, que cortava completamente todas as disputas.

—Esta phrase que serve para exprimir o respeito que se professa por uma auctoridade,[77] era d’algum modo a divisa de La-Fontaine, cuja veneração pelos antigos é muito conhecida.

—Um orador contemporaneo affirmou, nos rasgos da sua eloquencia, que o homem não dirá mais—o mestre o disse, porque o homem está emancipado do homem. Elle dirá agora:—A verdade diz—A sciencia diz.


XL
O rei é morto, vive o rei!

Este velho grito da monarchia, significava que a realeza nunca morria em França. Apenas o rei exhalava o ultimo suspiro, um arauto apparecia ao balcão do palacio e gritava tres vezes deante do povo reunido:

—«O rei é morto, vive o rei!—Le roi est mort, vive le roi!»

Mas era, sobretudo, na cerimonia funebre e quando o defuncto monarcha ia tomar o seu logar nas cryptas de S. Diniz, que estas palavras, pronunciadas no meio das pompas da religião, retumbavam d’uma maneira verdadeiramente solemne. Ouviram-se, pela ultima vez, em França, na morte de Luiz XVIII.


[78]

XLI
O estado sou eu!

No dia immediato ao da morte do cardeal Mazarino, Luiz XIV, então de vinte e dois annos, fez chamar os ministros que o cardeal lhe tinha deixado—Pedro Séguier, Miguel Lettellier, de Lionne e Fouquet, e declarou-lhes que seria elle proprio, de futuro, o seu primeiro ministro. Na mesma tarde o arcebispo de Ruão foi encontrar-se com elle e disse-lhe:

—«Vossa Magestade tinha-me ordenado que me dirigisse ao cardeal para todos os negocios; elle está morto, a quem devo dirigir-me agora?»

—«A mim, senhor arcebispo.»

O reino de Luiz o Grande estava começado.

Estes preliminares pintam já o caracter de Luiz XIV e tornam muito provavel a authenticidade da famosa phrase—O estado sou eu!—que a historia diz elle fez ouvir, quando entrou de botas e esporas no parlamento.

Como o presidente lhe significasse que a resistencia opposta aos seus editos, tinha a sua origem nos interesses do estado, o joven monarcha respondeu:

—«O estado sou eu!—L’etat, c’est moi!»


[79]

XLII
Alavanca d’Archimedes

Chama-se alavanca um corpo longo, inflexivel, fixo em um ponto da sua extensão, e destinado a levantar pesos. O ponto sobre a qual a alavanca tem o seu ponto fixo, diz-se ponto d’apoio; o peso a levantar, chama-se resistencia e a força que actua é potencia. Quando o ponto d’apoio está collocado no meio da alavanca a potencia, e a resistencia são eguaes, isto é, para se levantar um peso de cem kilogrammas é necessario uma força egual a esse peso. Mas a par e passo que o ponto d’apoio se approxima da resistencia, a força que se tem de desenvolver diminue proporcionalmente. D’aqui é facil comprehender que uma força egual, por exemplo, a algumas grammas, póde levantar um navio completo, dando-se um comprimento sufficiente ao braço da alavanca que separa o ponto d’apoio da força activa.

É certo que a alavanca era conhecida de Archimedes, e foi o genio d’este grande homem que lhe determinou as propriedades e as proporções exactas. Comprehende-se que Archimedes[80] tendo levado até ao infinito o estudo theorico da potencia da alavanca haja ousado exclamar:

—«Deem-me um ponto d’apoio e eu levantarei a terra!»

Ha n’isto uma evidente hyperbole de linguagem, mas esta hyperbole satisfaz a razão, porque assenta n’um principio mathematico.


XLIII
Magdalena

Magdalena, mulher celebre do Evangelho, era uma cortezã d’uma grande belleza. Tendo ouvido fallar Jesus, foi commovida de repente, e o arrependimento entrou no seu coração. Um dia em que Jesus estava á meza em casa de Simão Phariseu, a bella peccadora apresentou-se toda lastimosa na sala da refeição e precipitou-se aos pés do Salvador, regando-os com as suas lagrimas, beijando-os, inundando-os de perfumes e enxugando-os com os seus cabellos.[81] O Phariseu escandalisou-se vendo que Jesus se deixava tocar por essa mulher, conhecida em toda a cidade por uma grande peccadora. Foi n’esta circumstancia que Jesus mostrou toda a misericordia que trasbordava do seu coração, dizendo aos que o rodeavam:

—«Ser-lhe-ha muito perdoado, porque muito amou!»

—Esta resposta applica-se hoje, mas quasi sempre ironicamente, ás mulheres conhecidas pela facilidade dos seus costumes, sejam ou não arrependidas, e ha, ao mesmo tempo, o uso de as designar pelo nome de Magdalenas.


XLIV
Casa de Socrates

Socrates estava fazendo construir uma casa. Como lhe fizessem sentir que era demasiado pequena, elle acudiu:

—«Prouvera a Deus que ella se enchesse de verdadeiros amigos!»

[82]

Esta bella phrase foi aproveitada por La-Fontaine, de que damos a seguinte versão:

«Socrates uma casa edificava,E cada qual a obra criticava.Um achava o interior,Para dizer a verdade,Indigno do morador;Um outro desdenhava a frontaria,E toda a gente que essa casa via,Achava os aposentos limitadosE bem pouco lisongeirosMesmo por qualquer dos lados.—«Prouvera a Deus que d’amigos provadosSe enchesse—diz—d’amigos verdadeiros!»
Socrates razão tiveraDe achar, por tal, espaçosa a casita;Amigos muitos ha—quem acredita?Amigos de nome apenas,Não d’amisade sincera.

[83]

XLV
Desgraça aos vencidos!

Depois da sangrenta batalha d’Allia, cujo anniversario foi incluido pelos romanos no numero dos dias nefastos, o terror tinha-se espalhado em Roma e todos os habitantes haviam fugido, excepto oitenta velhos que esperavam corajosamente a morte nas suas cadeiras curues, e a mocidade que se refugiou no capitolio. Depois de terem saqueado e queimado Roma, os gaulezes pozeram cêrco á fortaleza, e tendo dado um assalto sem resultado, estabeleceram então um cêrco mais rigoroso. Os defensores da fortaleza, sitiados havia sete mezes e entregues a todos os horrores da fome, pedem, afinal, capitulação. Brenno, chefe dos gaulezes, consente em levantar o cêrco mediante mil libras de ouro em peso. O tribuno Sulpicio apresenta a somma no dia marcado. Em quanto que se pesa o ouro, levanta-se uma contestação e os romanos censuram aos vencedores o uso de falsos pesos.

É então que Brenno, lançando a sua pesada espada na balança, pronuncia a phrase celebre que depois se tornou proverbial:

—«Desgraça aos vencidos!»—«Væ victis!»


[84]

XLVI
Manto de Joseph

Os mercadores ismaelitas, aos quaes Joseph fôra entregue por seus irmãos, levaram-n’o para o Egypto e venderam-n’o a Putiphar, um dos principaes officiaes do rei. A mulher de Putiphar, animada d’uma criminosa paixão, pelo joven israelita, que era formoso, tentou abalar-lhe a virtude e, para o obrigar a consentir nos seus desejos, ella agarrou-o um dia pelo manto e quiz attrahil-o a si.

Joseph abandonou-lhe o manto e fugiu. Cheia de cólera e envergonhada por se vêr assim desprezada, essa mulher disse ao marido:

—«O escravo hebreu quiz ultrajar-me, mas aos meus gritos fugiu, deixando-me o manto entre as mãos!»

Putiphar, irritado, fez encarcerar Joseph.

—Comprehende-se, sem que seja necessario que o expliquemos, em que ordem de ideias se faz allusão ao manto de Joseph e á mulher de Putiphar.


[85]

XLVII
Mario sobre as ruinas de Carthago

Mario, livre das prisões de Minturnes, fez-se á vela para a Africa. O navio que o conduzia, privado d’agua, quiz aportar á Sicilia, mas uma força armada assaltou a equipagem, matou varios homens, e o proprio Mario só com difficuldade escapou. Alguns dias depois desembarcou na Africa, nos mesmos locaes aonde se elevava outr’ora a poderosa cidade de Carthago.

Apenas em terra, Sextilio, pretor da Lybia, homem dedicado a Sylla, fez-lhe intimar ordem de deixar aquella provincia, e como o mensageiro lhe pedisse uma resposta, elle disse-lhe:

—«Vae dizer a teu senhor, que viste Mario, errante e fugitivo, sentado sobre as ruinas de Carthago!»

A presença d’este grande proscripto sobre as ruinas ainda fumegantes da antiga e poderosa rival de Roma, é um dos mais frisantes exemplos das vicissitudes humanas, e a maneira simples e energica com que esta approximação é expressa,[86] faz d’elle uma das mais sublimes lições que a historia tem tido a consignar.

Toda a gente conhece o verso em que Delille poz em presença esses dois infortunios:

«E essas ruinas, sim, consolavam-se a si!»


XLVIII
Subir ao Capitolio

Na antiga Roma, os generaes vencedores subiam em triumpho ao Capitolio, no meio das acclamações de todo o povo, e alli offereciam sacrificios aos deuses; em seguida o povo os acompanhava a sua casa com archotes e soltando gritos de alegria.

Na Edade Média, e durante o grande seculo litterario da Italia, resuscitaram-se, em favor da poesia, os antigos triumphos do Capitolio. No dia de Paschoa, a 8 d’abril de 1341, Petrarcha subiu ao Capitolio no meio dos principaes cidadãos, precedidos de doze mancebos, escolhidos nas familias mais illustres, que declamavam os seus versos. Recebeu a corôa de louro e recitou um soneto ácerca do heroe da antiga Roma.

[87]

Tasso recebeu tambem as honras da coroação; a sua entrada em Roma já teve o aspecto de um triumpho. O povo, os nobres, os prelados, os cardeaes, os sobrinhos do Papa, foram ao seu encontro e o conduziram ao Vaticano, no meio das mais vivas acclamações. O Papa, avistando-o, disse-lhe com graça particular:

—«Vinde honrar esta corôa, que honrou todos quantos a collocaram antes de vós.»

Os aprestos da cerimonia proseguiam com a maior rapidez e o Tasso ia, emfim, receber a recompensa d’uma vida cheia d’amargura e de dôr; mas por uma ultima irrisão da sorte elle morreu na vespera do proprio dia em que devia subir ao Capitolio, e o louro poetico não adornou senão a fronte do seu cadaver, que fôra amortalhado com a toga romana.

Pouca gente desconhece a magnifica descripção que Madame de Stael fez da coroação de Corinna. A brilhante escriptora faz reviver no seu celebre romance a Corinna Thebana, a rival feliz de Pindaro, varias vezes coroada nos jogos olympicos.


[88]

XLIX
Onde não ha el-rei o perde

Representava-se na comedia Franceza, com immenso successo o Cerco de Calais, tragedia de Belloy. O principal papel era desempenhado pela actriz Clairon, tão conhecida pelas suas aventuras galantes sob o nome de Fretillon. Um comediante muito obscuro, chamado Dubois, que desempenhava um papel n’esta peça, era accusado pelos seus collegas d’um acto de improbidade. Estes, tendo á frente a Clairon, recusaram-se a entrar em scena em companhia d’elle, e o Cerco de Calais foi interrompido na vigesima representação. Os espectadores agitaram-se e houve desordem no theatro. Clairon fazia-se especialmente notar entre os mais obstinados. Ordenou-se que ella fosse conduzida ao Fort-L’evêque. Ella, então, disse a quem a intimava, com emphase theatral, que ia, mas que sua magestade podia tudo sobre os seus bens e sobre a sua liberdade, mas nada sobre a sua honra.

—«Isso é sabido—responderam-lhe—onde não ha el-rei o perde!»

É vulgar e de facil comprehensão a applicação d’esta phrase.


[89]

L
Onde se vae aninhar a virtude?

Moliére alliava a um grande genio as mais formosas qualidades do coração, e tinha uma alma ao nivel do seu espirito. Caracter suave, complacente e generoso, nunca o abandonava o seu elevado sentimento caritativo.

Um dia em que partiu para S. Germano approximou-se-lhe um mendigo e pediu-lhe esmola. Moliére lançou-lhe uma moeda e subiu para o trem. Instantes depois percebeu que o pobre o seguia correndo. Fez parar. O pobre chegou-se e disse-lhe:

—«O senhor enganou-se, de certo, porque me deu um luiz, que eu venho entregar.»

—«Não, meu amigo—acudiu—e aqui tens outro.»

E como o seu genio estava continuamente álerta, e elle estudava em toda a parte a natureza, como homem que queria pintal-a, exclamou:

Onde se vae aninhar a virtude?


[90]

LI
Perdoae-lhes, meu Pae, não sabem o que fazem

Jesus Christo, cuja vida, acções e doutrina tinham sido mansidão e misericordia, só teve sobre a cruz palavras de doçura para os seus proprios algozes, sobre a cabeça dos quaes attrahiu o perdão de seu Pae. «Ora—diz S. Lucas—com elle levavam dois outros homens, que eram criminosos, para os pôrem á morte, e quando chegaram ao Calvario, Jesus foi crucificado entre dois ladrões, um á direita e outro á esquerda, e elle dizia fallando dos seus verdugos:—Perdoae-lhes, meu Pae, não sabem o que fazem!

Esta phrase cahiu do alto da cruz, no meio das agonias da morte e dos soffrimentos mais crueis, e resume admiravelmente o espirito evangelico e a moral sublime do sermão da montanha.

A applicação d’esta phrase suprema não tem logar, geralmente, senão no estylo familiar.


[91]

LII
Lavar as mãos como Pilatos

Poncio Pilatos, governador da Judeia, sob Tiberio, seria completamente desconhecido hoje, se o seu nome se não achasse envolvido no maior successo da historia. Jesus, perseguido desde muito pelo odio dos principes dos padres e dos phariseus, tinha sido apresentado perante o tribunal de Caiphaz, e condemnado á morte por se dizer Christo, filho do Deus vivo. Mas esta sentença não podia ser executada sem as ordens do governador romano. Os judeus levaram Jesus a Pilatos. Este convencido da sua innocencia, perturbado, além d’isto, por um estranho sonho que sua mulher Claudia Procula tinha tido durante a noite e que lhe despertára o maior interesse pelo Christo, procurava illudir a sentença de morte. Mas a populaça tendo reclamado o ultimo supplicio com gritos de furor, e ameaçado o proprio Pilatos com a cólera de Cesar, o fraco governador abandonou Jesus á raiva dos algozes. No entretanto, querendo protestar contra o que elle considerava uma suprema injustiça,[92] elle fez trazer agua, e lavando as mãos deante do povo, exclamou:

—«Estou innocente da morte d’este justo; sois vós que respondereis por ella!»

—«Sim, sim—gritaram os loucos—que o seu sangue cáia sobre nossas cabeças e sobre nossos filhos!»

E crucificaram-n’o!

Alguns annos mais tarde, Pilatos, cahindo em desagrado sob Caligula, foi exilado, e no exilio, perseguido pelos remorsos, matou-se de desespero, dizem.

A sentença iniqua que Pilatos pronunciou contra Jesus pesará sempre sobre a sua memoria, e até ao fim dos seculos Pilatos será o typo dos magistrados pusillanimes, que, obedecendo á voz do medo e dos seus interesses, teem a cobardia de pronunciarem condemnações que a consciencia reprova. Embora lavem as mãos, o sangue innocente derramado deixará sempre uma nodoa indelevel, que será para elles uma nodoa infamante.

—É, fazendo allusão á acção de Pilatos, que em linguagem familiar se diz:—«D’ahi lavo as mãos», como declaração de que se não tem responsabilidade nas consequencias de successos para que se concorreu.


[93]

LIII
O que não peccou, atire a primeira pedra

Os scribas e phariseus levaram a Jesus uma mulher que fôra surprehendida em adulterio, e disseram-lhe:

—«Mestre, esta mulher acaba de ser surprehendida em adulterio. Ora a lei de Moisés ordena-nos que apedrejemos as adulteras. Qual é a este respeito a vossa opinião?»

Fallavam-lhe assim para o tentarem, e a fim de o poderem accusar. Mas Jesus Christo abaixando-se, escreveu com o dedo na terra.

E como continuassem a interrogal-o, elle levantou-se e disse-lhes:

—«Aquelle d’entre vós que não peccou lhe atire a primeira pedra.»

A esta phrase elles retiraram-se a um e um, e só ficou Jesus com essa mulher que se conservava de pé.

Jesus disse-lhe então:

—«Ninguem te condemnou, não te condemnarei tambem. Vae e não peques mais.» (Evang. S. João).


[94]

LIV
Tres linhas escriptas e eu farei enforcar quem as escreveu

Nada ha que mais se preste á critica e á satyra do que as leis. Anacharsis comparava-as ás teias d’aranha que prendem as pequenas e deixam passar as grandes moscas. La-Fontaine rimou a mesma ideia quando disse:

«Assim, conforme o que és, ou grande ou miseravel «A justiça fará que sejas branco ou negro.»

Não confirma a sabedoria das nações, os juizos do philosopho e do fabulista, quando concede ao condemnado vinte e quatro horas para maldizer a um juiz? Mas a cabula, o processo, o codigo n’uma palavra não justifica hoje estas accusações? e os traços que acabamos de citar são uma calumnia ou maledicencia? O presidente d’Ormesson parece ter respondido a esta pergunta quando disse:

[95]

—«Se eu fosse accusado de ter roubado as torres de Notre Dâme, e ouvisse gritar atraz de mim—agarra que é ladrão!—eu fugiria desesperadamente.»

Este terror que inspira a justiça, mesmo ao mais innocente, está plenamente justificado por estas palavras:

—«Deem-me tres linhas da escripta d’alguem e eu o farei enforcar.»

Os eruditos estão divididos sobre o auctor d’esta celebre phrase, que attribuem a Laubardemont, ao Padre Joseph, a Richelieu, a Jeffries, e que M. Proudhon, mais prudente, attribue a um … criminalista.

O cardeal Richelieu, que conhecia o poder do equivoco, citava um dia esta phrase deante dos seus secretarios. Um d’elles, julgando embaraçal-o, escreveu n’um cartão—«Um e dois fazem tres.»—«Blasphemia contra a Santissima Trindade!—exclamou o cardeal—um e dois só fazem um.»


[96]

LV
Quem te fez conde? Quem te fez rei?

A fraqueza dos ultimos carlovingianos tinha permittido á feudalidade lançar profundas raizes entre os francos, e tornar-se quasi independente, e quando em 987 Hugo Capeto foi eleito rei de França em Noyon, pelos seus proprios vassallos e alguns pequenos feudatarios visinhos, elle ficou o que tinha sido antes, conde de Paris, possuidor de vastos dominios, mas não sendo, no meio dos poderosos barões, mais que o primeiro entre iguaes. Assim, todo o seu reino foi perturbado pelas revoltas dos proprios que o tinham levado ao throno, mas que recusavam reconhecer a sua supremacia. Poder-se-ha julgar pela altiva resposta d’um d’elles, com que olhos consideravam a nova realeza.

Um conde de Périgneux, Adalberto, emprehendeu conquistas e usurpára os titulos de conde de Poitiers e de Tours. O rei de França mandou-lhe um mensageiro para lhe perguntar:

—«Quem te fez conde?»

[97]

Ao que Adalberto respondeu:

—«Quem te fez rei?»

Estas phrases, frequentemente citadas, resumem uma epocha inteira.


LVI
A Cesar o que é de Cesar a Deus o que é de Deus

Alguns dias antes da celebração da Paschoa, Jesus fez uma entrada triumphal em Jerusalem, no meio d’um concurso immenso de povo que gritava:—Hossana ao filho de David! Bemdito o que vem em nome do Senhor!» Os principes dos padres e os scribas procuraram então os meios de o perder e de o prender nas proprias palavras por perguntas insidiosas. Os herodianos approximaram-se, pois, d’elle, e lhe perguntaram:

—«Mestre, sabemos que és verdadeiro nas tuas palavras e que ensinas o caminho de Deus, sem distincção de pessoas. Dize-nos então a verdade sobre isto:—É permittido pagar o tributo a Cezar?»

[98]

Jesus, penetrando na intenção d’elles, respondeu:

—«Mostrem-me a moeda de dinheiro que se dá em tributo.»

Apresentaram-lhe um dinheiro. Jesus disse-lhes então:

—«De quem é esta moeda?»

—«De Cezar.»

—«Dêem, então, a Cezar o que é de Cezar e a Deus o que é de Deus!»

Vem a proposito citar que Henrique IV, que antes de entrar em Paris fôra obrigado a comprar muito caro os chefes da Liga, modificou, a este respeito, da maneira mais original e mais espirituosa, a lettra do Evangelho.

Um dia depois do seu jantar, Henrique IV disse ao seu secretario:

—«Que pensas, vendo-me em Paris como estou?»

—«Penso, senhor, que deram a Cezar o que era de Cezar, como é preciso dar a Deus o que é de Deus …»

—«Ora essa!—replicou o rei—não me fizeram como a Cezar, porque me não deram, mas porque me venderam o que era meu.»


[99]

LVII
Salto de Leucade

Sapho, a mais illustre das poetisas, appellidada a decima musa, nasceu em Mitylene, na ilha de Lesbos, pelo anno 600, antes de Christo. Amiga do poeta Alceu, ella foi arrastada na conspiração contra Pittaco e acabou os seus dias no exilio.

Os antigos representam-na devorada pelas paixões e entregue ao furor dos sentidos; e elles não davam o nome de versos ás suas poesias, mas ardoreschammas, etc.; e acceitando os costumes muito conhecidos das lesbianas com a indulgencia cynica d’aquella epocha, elles inflammavam-se n’um enthusiasmo sem limites pelo lyrismo desordenado dos seus cantos, pela graça exquisita, pela harmonia arrebatadora e pelo estylo de fogo das suas odes.

Conta a tradição que, apaixonada pelo insensivel Phaon, joven lesbiano, d’uma grande belleza, e não podendo vencer os seus desprezos, ella se precipitou, cheia de desespero, do alto de Leucade no mar.

[100]

A ilha de Leucade era famosa por um promontorio, formado de rochedos escarpados que dominavam o mar. Era alli que as amantes desgraçadas iam procurar remedio a seus males, precipitando-se do alto do promontorio sobre as vagas. É isto o que se chamava dar o salto de Leucade. Os que escapavam á morte depois d’esse perigoso salto, ficavam curados do seu amor.

Mas comprehende-se que pouquissimas resistiam a esse remedio heroico.


LVIII
Se é possivel, está feito; se é impossivel se fará

Impotente, gottoso, e já velho leãoQueria achasse algum remedio á velhice.O impossivel aos reis allegar é illusão.

Eis uma verdade que Colonne, quartel mestre geral das finanças, sob Luiz XVI, era demasiado fino e cortezão para ignorar. Leviano, espirituoso, incapaz d’um plano fortemente con[101]cebido e pacientemente executado, elle devia deixar as finanças do reino n’um estado ainda mais deploravel do que as tinha encontrado ao entrar para o ministerio. As suas operações aventureiras só deviam augmentar o mal geral e o numero dos descontentes. N’essa côrte tão prodigiosamente descuidada na vespera d’uma catastrophe e em que só Luiz XVI tinha o sentimento dos seus deveres, sem ser dotado da energia necessaria para bem os cumprir, o luxo e a prodigalidade eram tão insaciaveis como se os cofres do estado estivessem pejados. Para crear elogiadores entre os homens de lettras, o ministro concedeu pensões a um grande numero d’elles.

Maria Antonietta era a primeira a dar o exemplo do luxo e não punha qualquer freio ao seu prazer pelo gasto. Um dia que ella precisava d’uma somma consideravel dirigiu-se a Colonne, cuja facil condescendencia ella conhecia. Antes de lhe expor o pedido, ella disse-lhe n’esse tom de mulher e rainha que não quer recusa:

—«O que tenho a pedir-lhe é difficil talvez, Colonne!»

O espirituoso ministro respondeu, inclinando-se graciosamente:

—«Se é possivel, está feito; se é impossivel, far-se-ha!»

Não era possivel commentar mais finamente o verso de La-Fontaine.

[102]

Nas guerras da republica, a possibilidade do impossivel foi expressa d’uma maneira mais nobre por um general francez, no ardor d’um combate encarniçado. Um official que elle acabava de encarregar d’uma operação perigosa, respondeu-lhe que era impossivel.

—«Impossivel, senhor?—respondeu o general—Olhe que essa palavra não é franceza!»


LIX
Terra promettida

Depois da morte de Joseph, os descendentes de Jacob não tardaram a ser perseguidos pelos egypcios, que os empregavam nos trabalhos mais rudes. Mas Deus que tinha sempre os olhos fixos sobre o seu povo, suscitou Moisés, ao qual ordenou que conduzisse os hebreus á terra de Chanaan, berço de seus paes.—«Era—diz a Escriptura—uma terra de promissão, produzindo uvas que dois homens mal podiam carregar, e onde corriam regatos de leite e de mel.» Mas os israelitas, constantemente rebeldes, foram condemnados a errar quarenta annos no deserto, á vista d’essa terra de delicias, sem n’ella pode[103]rem entrar. Afinal lá chegaram, conduzidos por Josué.

—A terra promettida é uma expressão que passou em todas as linguas a designar um estado, uma ventura a que se aspirava ha muito tempo. Victor Hugo disse, a proposito, nas Folhas do Outomno:

.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .«Um homem, dentro em si, construe e phantasiaUm mundo encantador, mundo d’arte e poesia,—A nossa Chanaan, que nós vemos de cima …»

LX
Thebaida

A Thebaida, uma das tres grandes divisões do antigo Egypto, e que tinha Thebas por capital, era famosa pelos desertos que a éste e oéste cercavam a sua parte habitada. Foi n’uma destas solidões que nos primeiros seculos do christianismo se refugiaram muitissimos christãos, já para fugirem á perseguição, já para se esquivarem ás seducções do mundo, entregando-se ao[104] jejum, á oração e a todas as austeridades da vida ascetica.

O mais illustre d’entre elles, Santo Antonio, dera o exemplo, distribuindo a sua fortuna aos pobres, para viver do trabalho das suas mãos. A sua reputação de santidade espalhou-se ao longe, e a breve trecho, milhares de discipulos se gruparam em volta d’elle. Durante algum tempo, foi, d’algum modo repovoado de monges e anachoretas. Mas afinal a despovoação geral do Egypto produziu a extincção de quasi todos os mosteiros, que se haviam creado.

Hoje, só as cellas vasias, marcadas com o symbolo dos christãos, indicam a assistencia d’esses religiosos nos templos pagãos arruinados, bem como as grutas dos sepulchros da Thebaida.

—Na linguagem ordinaria, Thebaida, diz-se d’um deserto, d’uma solidão profunda, em que se vive retirado do mundo; mas esta palavra está longe de ser tomada sempre n’este sentido. Faz-se muitas vezes uso d’ella, em poesia, especialmente para designar um retiro favorito, que propositadamente se escolhe, longe do bulicio, para o goso das doçuras da amisade, ou dos encantos do amor.

Lembra-nos até que Theophilo Gautier disse já n’uma das suas esplendidas poesias:

«Um bom cottage inglez, eis a Thebaida sua!»


[105]

LXI
Desça o panno, acabou a comedia!

Rabelais, o mais philosopho dos bufões, e o mais bufão dos philosophos, nasceu perto de Chinon, em Touraine, por 1483. Os seus biographos são pobres em factos authenticos, mas em compensação abundam em anecdotas romanescas, de onde resalta esse typo de cara alegre e tolerante, amigo de Baccho e da dança, o que só se ama por excepção. O genero muito particular do seu genio foi perfeitamente pintado por La Bruyére:—«Onde Rabelais é mau passa muito além de peior; é o encanto da canalha; aonde é bom, elle vae até ao extremo de excellente, e póde ser um prato dos mais delicados.» De resto, este sentimento do moralista parece ter sido dictado pelo proprio Rabelais que recommendava aos seus leitores «que abrissem a caixa para tirarem a droga, e quebrassem os ossos para chucharem a medula.» Mas o que domina na sua vida e nos seus escriptos é um septicismo zombador que ataca todas as crenças, todas as instituições, todos os sentimentos, e que estala, sobretudo, nos ultimos momentos da sua vida.

[106]

Entre as numerosas versões que foram reproduzidas ácerca da sua morte, encontra-se esta. O cardeal de Châtillon, seu amigo, tendo enviado um pagem a informar-se da sua saude, elle respondeu-lhe:

—«Dize a Monsenhor em que bello humor me encontras. Eu vou buscar um grande talvez. Está no ninho da pega. Dize-lhe que se deixe estar. E tu não passas d’um tolo.»—Depois exhalou o ultimo suspiro n’uma grande gargalhada acompanhada d’estas palavras:

—«Desça o panno; acabou a comedia!»


LXII
Tudo é perdido, menos a honra!

Francisco I a quem duas derrotas experimentadas pelos seus generaes Lautrec e Bonnivet tinham feito perder o milanez, quiz reconquistar este ducado, e transpoz os Alpes á frente d’um novo exercito. A breve trecho pôde entrar em Milão. Mas em vez de perseguir o inimigo a todo o transe, obstinou-se no cêrco de Pavia, e, como este cêrco fosse delongado, teve a imprudencia de se enfraquecer, destacando[107] 12:000 homens que deviam marchar sobre Napoles. No entretanto, os imperiaes reforçavam-se e levavam soccorro a Pavia. Feriu-se a batalha e foi encarniçada. O rei foi ferido na fronte, e a sua armadura, que a França possue ainda, foi toda crivada. Mas o numero venceu a coragem, a batalha foi perdida e Francisco I feito prisioneiro. Entregou a sua espada ao vice-rei de Napoles, Lannoy, que a recebeu de joelhos.

«Foi do campo imperial, perto de Pavia, que Francisco I escreveu a sua mãe uma carta que se tornou celebre, graças á tradicção, que muito a alterou dando-lhe a fórma d’um laconismo sublime:

—«Senhora, tudo é perdido, menos a honra!»

Recentes investigações, porém, fizeram descobrir o texto verdadeiro d’essa carta que começa do seguinte modo:—«Senhora, para vos fazer saber como se cumpre o resto do meu infortunio, de todas as coisas, só me ficou a honra e a vida, que está salva


[108]

LXIII
Trombetas de Jericó

Jericó foi a primeira cidade que os hebreus encontraram na sua entrada na terra promettida. Era fechada por altas muralhas. Por ordem de Deus, Josué mandou fazer ao seu exercito a volta da cidade durante sete dias. A arca d’alliança fôra levada com grande pompa e precedida de sete padres, que tocavam trombeta. O povo acompanhava em silencio. Ao setimo dia, deu-se sete vezes a volta á cidade, e o povo, por ordem de Josué, tendo soltado um grito muito grande, viu no mesmo instante desmoronarem-se as muralhas. A cidade foi reduzida a cinzas e todos os habitantes passados a fios d’espada.

—Em litteratura faz-se muitas vezes allusão ás trombetas de Jericó, que se oppõem á lyra d’Amphion. Este contraste não escapou ao rei philosopho que escreveu ao seu amigo Voltaire:—«Interessado em servir o genero humano, consagraes a vossa vida inteira ao bem publico. A Providencia tinha-vos reservado para ensinardes aos homens a preferirem a lyra d’Amphion, que elevava os muros de Thebas a esses instrumentos bellicos que faziam arrazar os de Jericó.»


[109]

LXIV
A tunica de Christo

«Os soldados, depois de haverem crucificado Jesus, tomaram-lhe os vestidos e dividiram-os em quatro partes: uma para cada soldado. Tomaram tambem a tunica; mas a tunica não tinha costura, era uma só peça inteira de cima a baixo.

«E elles disseram uns aos outros:—«Não a talhemos; tiremos á sorte para vermos a quem pertencerá. Afim de que esta palavra fosse cumprida, elles dividiram entre si os meus vestidos e jogaram á sorte a minha tunica.»—Eis o que fizeram os soldados.—(S. Joãocap. XXIX).

—Esta divisão da tunica de Jesus Christo, no momento da sua morte, tem duas especies d’applicação:—ora se allude a ella para designar a partilha dos despojos d’um innocente, ora recorda que a tunica era d’uma só peça inteira, para indicar que uma coisa não póde soffrer divisão.


[110]

LXV
Um imperador deve morrer em pé

Vespasiano, imperador romano, ia além de sessenta e nove annos, quando foi atacado da doença que o levou ao tumulo, não por agudos soffrimentos, mas por um enfraquecimento progressivo. Conservando até ao fim a sua serenidade d’alma, elle transformava em gracejo a apotheose que lhe ia ser conferida.—«Percebo que começo a tornar-me deus», dizia elle alegremente á medida que a sua situação se tornava desesperada. Apesar da sua extrema fraqueza não interrompeu um instante as suas occupações habituaes; dava tempo aos negocios e audiencia no leito. Afinal, sentindo-se desfallecer, fez um derradeiro e supremo esforço para se levantar, dizendo:

—«É preciso que um imperador morra de pé!»

E tendo-se feito vestir, expirou entre os braços dos seus officiaes.

—Luiz XVIII, nos ultimos dias da sua vida teve uma phrase que recorda a de Vespasiano.[111] Apesar do depauperamento das suas forças, continuava a mostrar-se em publico e nos conselhos. A 25 d’Agosto de 1824, dia de S. Luiz, respondeu ao conde d’Artois, seu irmão, que o aconselhava a não receber:

—Um rei de França morre, mas não deve estar doente!»


LXVI
Vendilhões expulsos do templo

«E estando proxima a paschoa dos judeus, Jesus fez a sua entrada em Jerusalem.

«E elle achou no templo mercadores que vendiam bois, ovelhas e pombas e os trocadores alli estavam sentados.

«E tendo feito umas disciplinas com cordas, elle os expulsou a todos fóra do templo, assim como as ovelhas e os bois e espalhou o dinheiro dos vendilhões sobre as mezas.

«E elle disse aos vendilhões:—«Está escripto. A minha casa é uma casa de oração e vós fazeis d’ella uma caverna de ladrões.» (S. Joãocap. II).

—Esta expressão—expulsar os vendilhões do templo—emprega-se para stigmatisar os pro[112]fanadores, em qualquer ordem que seja, os que mercadejam com coisas respeitaveis e que só deviam ser apanagio exclusivo da arte, das lettras, das sciencias, e, em geral, da intelligencia e do talento.


LXVII
Gritar no deserto

S. João Baptista, filho de Zacharias e de Santa Elisabeth, prima da Virgem Santissima, retirou-se muito cedo para o deserto, levando uma vida cheia d’austeridades. Vestia uma pelle de camello atada á cinta por uma tira de couro, e o seu alimento constava de gafanhotos e mel bravo. Quando chegou á edade de trinta annos e foi preparado com rudes exercicios para o ministerio que lhe estava destinado, dirigiu-se ás margens do Jordão, prégando a penitencia, annunciando a realisação das prophecias e a vinda do Messias, que o tinha enviado para preparar os seus caminhos. «—Façam penitencia—exclamava elle—pois o reino dos céus está proximo». Os habitantes dos arredores corriam em multidão para o ouvirem. O synhedrio, tocado pelo seu genero de vida extraordinario e da sua[113] eloquencia selvagem, enviou-lhe padres e levitas para saberem se era o Messias, ou Elias, ou simplesmente um propheta. Elle respondeu que não era propheta, nem Elias, nem Messias.—«Quem és então?, porque precisamos levar resposta aos que nos mandaram?»—«Sou a voz d’aquelle que grita no deserto:—tornae recto o caminho do Senhor!» E elle ajuntava:—«Aquelle que deve vir depois de mim é mais poderoso do que eu, e eu não sou digno de desatar os cordões do seu calçado. Moisés deu-vos a lei, mas o Christo vos dará a graça e a verdade.»

—Hoje estas palavras—gritar no deserto—teem um sentido desviado do primitivo. Significam na applicação—pregar, aconselhar, fallar em vão.


LXVIII
Zoilo

Celebre grammatico e critico grego do quarto seculo antes de Christo, e cujo nome era já proverbial no tempo d’Ovidio. Nada se sabe ao certo, quanto ao logar do seu nascimento, circumstancias da sua vida e genero de sua morte. Tambem nos não chegou nenhuma das suas[114] obras. Sabe-se sómente, pelo testemunho quasi unanime dos antigos que elle se encarniçou contra as obras d’Homero.

Vitruvio pretende que Ptolomeu Philadelpho, indignado com as suas blasphemias litterarias, lhe infligiu o supplicio da cruz, ou o fez queimar vivo.

—O nome de Zoilo designa o typo do critico apaixonado e de má fé.

«No futuro, será Zoilo, com toda a furia,Aos censores crueis uma cruel injuria.»

LXIX
Aspasia

Mulher grega, natural de Mileto, celebre pelo seu espirito e pela sua belleza. Foi muito cedo para Athenas, aonde não tardou a exercer sobre os homens mais illustres d’essa epocha, Pericles, Alcibiades, o proprio Socrates, o ascendente irresistivel da eloquencia, da graça e da belleza. Pericles, arrastado pelos seus encantos, repudiou sua primeira mulher para a desposar.[115] Ella exerceu sobre elle tal ascendente, que teve a maior parte nos negocios da Grecia, tornando-se um verdadeiro poder na republica. Dizia-se que as harengas de Pericles eram mais d’uma vez inspiradas por Aspasia. Accusada d’impiedade ella defendeu a sua propria causa com uma eloquencia que apesar de grande, não a teria salvo, se seu esposo não enternecesse os juizes com lagrimas. Essa mulher illustre deve ser classificada, não como demasiadas vezes o é, na classe das cortezãs, mas na das hetairas, mulheres gregas, dedicadas ás artes, á poesia, á propria sciencia, e que eram procuradas para os prazeres do espirito, e de que Aspasia foi um dos typos mais graciosos e mais perfeitos.

Foi por justo titulo que o nome passou a significar entre os gregos a mais amavel das mulheres, como Alexandre o maior dos heroes,—e é n’este sentido que chamamos ainda hoje Aspasia á mulher que reune os dons do espirito aos encantos da belleza.


[116]

LXX
Babylonia

Assente sobre o Euphrates e embellezada por Semiramis, a Babylonia parecia ter sido a cidade mais esplendorosa da antiguidade. As suas muralhas de cincoenta pés de largura e d’uma altura prodigiosa, as suas cem portas de bronze, os templos, os palacios, as estatuas d’ouro, e, sobretudo, os seus jardins suspensos, tornavam-na a rainha das cidades antigas.

Rival de Jerusalem foi muitas vezes em guerra com o povo judeu que alli passou setenta annos de captiveiro, durante os quaes um grande numero não suspenderam as suas harpas nos salgueiros da margem, e abandonaram a religião de seus paes. As Escripturas fallam de Babylonia como de um foco de corrupção e idolatria; fizeram-na a personificação do mundo profano, o receptaculo de todos os vicios e de todas as impurezas. Exasperados pela politica barbara dos babylonios os israelitas votaram-lhes um odio profundo, e a dissolução dos costumes, de que foram testemunhas no captiveiro, augmentou áquelle sentimento o do horror e do desgosto.[117] D’aqui o nome de grande prostituta, que elles deram a essa cidade.

—Hoje, que já não existe a Babylonia, que os viajantes e archeologos nem mesmo podem encontrar-lhe o local, só o nome sobreviveu, e applica-se aos grandes centros populosos, como Londres, e, sobretudo, como Pariz, onde a agglomeração das massas, as riquezas, os progressos da industria e da civilisação engendram fatalmente a corrupção de costumes.

—Os protestantes, que pretendem ser os unicos observadores da lettra e do espirito evangelico, chamam á vida eterna—a grande Babylonia.


LXXI
Incendiar os seus navios

Esta locução allude ao procedimento de alguns grandes capitães, que a historia nos representa incendiando os seus navios, que os haviam conduzido á abordagem nos barcos inimigos, afim de que os marinheiros e soldados, privados de toda a especie de fuga se vissem na contingencia de vencerem ou morrerem. Agathocles,[118] tyranno de Syracusa foi o primeiro que na Costa d’Africa deu o exemplo d’esta resolução arrojada.

O imperador Juliano poz fogo aos seus depositos e aos seus mil e cem navios, no Tigre, quando fez a sua expedição contra Sapor, um rei da Persia. Guilherme, o Conquistador, abordando a Inglaterra em 1066, recorreu ao mesmo expediente, que foi seguido da victoria d’Hastings. Roberto Guiscard, no perigo eminente em que se achava com a sua pequena armada deante das forças consideraveis de Alexis Commene, incendiou a sua frota e as suas bagagens e ganhou a victoria de Durazzo a 13 d’outubro de 1084. Foi d’este modo, emfim, que Fernando Cortez, desembarcando na costa do Mexico preludiou a conquista d’esta região.

—Esta locução—incendiar os seus navios—passou a proverbio e quer dizer:—interdizer, subtrahir por uma iniciativa arrojada os meios de volver a uma resolução, de renunciar a uma empreza; pôr-se na impossibilidade de retroceder.


[119]

LXXII
Os ultimos romanos

Chama-se geralmente assim aos romanos que, a exemplo de Catão, conservaram, n’uma sociedade em decadencia, os costumes e a virtude dos antigos tempos. Mas deu-se mais particularmente este nome a Bruto e a Cassio, que foram a alma da conspiração que victimou Cezar, e que depois de terem combatido nas planicies de Philippes contra os inimigos da liberdade romana, se deram a morte para não sobreviverem á sua perda.

Philopeme, que luctou constantemente pela liberdade hellenica e depois da morte do qual, a Grecia se viu reduzida a provincia romana, é tambem chamado—o ultimo dos gregos.

—Estas palavras empregam-se, ora séria, ora ironicamente, para designarem todos quantos conservam a tradicção d’um passado, que são quasi os unicos a representar.


[120]

LXXIII
Faça cabelleiras, mestre André

Em 1760 um cabelleireiro francez chamado André, arrojou-se a escrever uma tragedia em 5 actos, em verso, intitulada—O terramoto de Lisboa—e mandou a peça a Voltaire, que elle chamava caro confrade na seguinte obra prima epistolar:

AO ILLUSTRE E CELEBRE POETA
M.r DE VOLTAIRE

«Meu caro confrade.

«É um estudante, noviço na arte da poesia, que se aventura a dedicar-lhe a sua primeira obra, tendo-o sempre reconhecido por um dos nossos celebres, pelas pomposas obras que tem dado e dá á luz todos os dias. Eu julgar-me-hei feliz se quizer lançar um rapido olhar a essa pequena obra, favorecendo-a com a menor das suas recordações. Faltaria a um grande dever se não confessasse que o reconheço por meu mes[121]tre. Se pela sua bondade se dignar favorecer-me eu prometto-me que, livre de todo o receio, publicarei constantemente os seus louvores e testemunharei em toda a parte, quanto lhe sou devedor por a haver acceitado.

«Sou, M.r e caro confrade, humillissimo e affeiçoado servo

André.»

O grande poeta divertiu-se muito com esta singular e comica confraternidade. E respondeu ao seu caro confrade com uma missiva de quatro paginas, encerrando apenas estas palavras, cem vezes repetidas:—«Faça cabelleiras, mestre André; faça cabelleiras, mestre André.»

Esta espirituosa resposta fez dizer a mestre André que Voltaire envelhecia, porque começava a repetir-se.

A obra prima de mestre André fez muito ruido, porque em 1805, mais de quarenta annos depois, um director alegre fez representar a peça O terramoto de Lisboa, n’um pequeno theatro de boulevard e ella obteve um immenso successo comico, em oitenta representações successivas!

—A phrase—faça cabelleiras, tornou-se uma das locuções mais pittorescas da lingua franceza, com emprego em todas as outras. É uma traducção espirituosa e comica do ne sutor ultra crepidam, dos latinos.


[122]

LXXIV
Fé do carvoeiro

Dá-se por origem a esta locução o seguinte conto. O diabo, disfarçado em eremita, e, segundo outros, em doutor de Sorbonne, entrou um dia na cabana de um carvoeiro e disse-lhe para o tentar:

—«Tu que crês?»

—«Eu creio o que crê a Santa Egreja».

—«E que crê a Santa Egreja?»

—«Crê o que eu creio.»

E o nosso homem manteve-se n’estas respostas sem d’ellas sahir, e o espirito maligno foi obrigado a renunciar ao seu projecto, vendo a inutilidade de todos os seus estratagemas.

Accrescenta um auctor que esse diabo era, por sem duvida, muito novo, e egualmente dos menos atilados, porque de outro modo elle teria embaraçado muito o carvoeiro fazendo-lhe a seguinte pergunta:

—«E que crêem, tu e a Santa Egreja?»

—A phrase—fé do carvoeiro, designa uma fé simples e ingenua, que crê sem exame.


[123]

LXXV
Ha juizes em Berlim

O grande Frederico, rei da Prussia, desejava ampliar o seu parque de Sans-Souci, mas

«Na encosta que escolhera o principe por si,Tinha o moinho um tal moleiro Sans-Souci;Vendedor de farinha, havia por costumeGanhar, a dia a dia, o pão sem azedume.E seja, emfim, qual fôr o lado d’onde venteA vela gira sempre, e elle dorme contente..  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .Um projecto traçou um habil engenheiro,Que abrangia o moinho e o seu recinto inteiro.Mas ás vistas forçoso era renunciar,Ou cortar á extensão e o parque mascarar.Das construcções reaes, o intendente geralFez chamar o moleiro e disse-lhe afinal:—«Quer-se o moinho teu; vê lá que valor tem.»——«Não tem valor nenhum, que o não vendo a ninguem!«Quer-se o moinho, é boa! elle é meu e direi«Que, ao menos, tanto como a Prussia é só do rei»——«Vamos, dize afinal—responde e tem cuidado!»——«N’uma palavra?——«Sim.——«É meu, está declarado,«Já disse, nada mais!»—[124]A recusa atrevidaAo principe se conta e é coisa decidida.Manda vir á presença o insolito moleiro,Promette inutilmente, aperta, é lisongeiro,Mas teima Sans-Souci—«Ouvi, Sire, a razãoPorque vender não posso o moinho em questão.Meu avô lá morreu; lá tive um filho ha um mez,É o meu Postdam, Senhor. Sou teimoso, talvez;Nunca o fostes jámais? Nem mil ducados, não,No fim d’esse discurso a mim me tentarão!Passae sem elle, Sire, e ninguem mais insista!»
Soffrem difficilmente os reis quem lhes resista,E Frederico acode, o humor arrebatado:—«Irra! que estás ao teu moinho bem pegado!Ora atéqui tratei d’obtel-o e de pagal-o,Mas sabes que, sem paga, eu posso exproprial-o!O dono eu sou!»——«Levar sem paga o moinho, a mim?Talvez, se não houvesse os juizes em Berlim!»—
Do capricho o monarcha, ouvindo-o, em si cahia,Contente, porque o reino inda em justiça cria;E volvendo-se a rir para o seu architecto:—«Eu acho que é melhor mudarmos de projecto.Visinho guarda a casa, has respondido bem.»—.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .

—Estas palavras—ha juizes em Berlim—que o poeta francez Andrieux não fez senão citar na encantadora narrativa que vimos de tra[125]duzir incompletamente, porque são historicas, formaram uma locução proverbial que se emprega em todas as circumstancias analogas, isto é, quando a força pretende vencer o direito.

Cabe aqui, a proposito do moinho de Sans-Souci um pequeno caso que não deixa de ser interessante.

O famoso moinho é ainda hoje propriedade do bisneto do obstinado moleiro. Mas n’essa familia os homens seguem-se e não se parecem.

Assim, o descendente de Sans-Souci, necessitado de dinheiro fez saber ao descendente de Frederico II, que estava disposto a ceder-lhe o moinho. O principe respondeu-lhe com esta espirituosa carta:

«Meu caro visinho.

«O moinho não lhe pertence, nem a mim, pertence á historia; é-nos pois, impossivel, a si, vendel-o, a mim, compral-o. Mas como entre visinhos e visinhos bons deve haver auxilio, mando-lhe um cheque de 10:000 florins, que póde receber do thesouro.»


[126]

LXXVI
Judas—Beijo de Judas

Dois dias antes da Paschoa, Jesus disse aos seus discipulos:—«Chegou o dia em que o Filho do Homem vae ser entregue para ser crucificado.» E ao mesmo tempo os principes dos padres e os mais velhos do povo, reunidos em casa de Caiphaz, concertavam-se sobre os meios de se apoderarem de Jesus e o fazerem morrer. Mas receiavam excitar qualquer agitação popular.

Foi então que Judas, um dos apostolos, se chegou e combinou entregar o seu mestre, mediante trinta dinheiros. De tarde Jesus poz-se á meza com os seus discipulos e annunciou-lhes que um d’elles o trahiria.—«Serei eu, Senhor?»—lhe perguntou Judas, e depois da resposta do Salvador, deixou a meza e foi-se, excitado pelo mau espirito. Em seguida Jesus sahiu da cidade, seguido dos seus discipulos, e dirigiu-se ao monte das Oliveiras, a um logar chamado Gethsemani. Logo appareceu Judas acompanhado d’um grupo de soldados aos quaes tinha dito: «Prendam aquelle que eu beijar, é elle que procuram.» E[127] approximando-se de Jesus, beijou-o e disse-lhe:—«Mestre, eu te saudo.» Jesus censurou-lhe o seu crime com doçura:—«Judas, entregas o Filho do Homem com um beijo!» E avançou para os soldados que se lançaram a elle e o ligaram.

—O nome de Judas ficou como a personificação do traidor, do homem profundamente hypocrita, e o beijo de Judas, como para designar o acto pelo qual se pratica a traição. Assim chamar Judas a alguem é dirigir-lhe a mais pungente das injurias. E comprehende-se que uma tal comparação seja repellida com indignação.


LXXVII
Pragas do Egypto

Moisés acompanhado de seu irmão Aarão, apresentou-se perante Pharaó, que recusou reconhecer as ordens de Deus. Então Moisés e Aarão feriram successivamente o paiz com dez flagellos, chamados—pragas do Egypto.

1.º—Agoas transformadas em sangue;
2.º—O Egypto todo coberto de rãs;
3.º—Os insectos devoradores;
[128]4.º—Grandes moscas insupportaveis;
5.º—Peste;
6.º—Chagas nos homens e nos animaes;
7.º—Tempestades de saraiva e trovoadas;
8.º—Nuvens de gafanhotos;
9.º—Trevas espessas;
10.º—Morte de todos os recemnascidos.

O coração endurecido do rei só cedeu a esta ultima praga, a mais espantosa de todas, e os Hebreus partiram para Ramassés em numero de seiscentos mil homens, sem contar-se as creanças.

—Quando se falla das pragas do Egypto na linguagem figurada é quasi sempre á dos gafanhotos que se faz allusão.


LXXVIII
Não toqueis na rainha

Os reis d’Hespanha usavam uma regra d’etiqueta exaggerada até á estupidez. Todo o individuo que tocasse o pé da rainha, fosse qual fosse a causa, era condemnado á morte e executado immediatamente.

[129]

A joven rainha, esposa de Carlos II, montou um dia a cavallo para um passeio com as suas damas e os seus cortezãos. A breve trecho o cavallo espanta-se e expelle-a, mas por fórma que o pé da princeza ficou preso ao estribo e o furioso animal se poz a arrastal-a. Uma immensa multidão assistia a este triste espectaculo, mas ninguem ousava soccorrel-a por causa da etiqueta. Ia, de certo, ser victima d’esse terrivel accidente, quando dois jovens officiaes francezes, que alli se achavam por acaso, resolveram salval-a. Lançam-se impavidamente, e em quanto que um suspende o cavallo pelo freio, o outro consegue desligar o pé da rainha, que, afinal, apenas soffreu o susto e algumas contusões.

Elles fugiram logo, e era tempo, porque iam ser presos, e Deus sabe o que faria a etiqueta! No dia seguinte a rainha, muito molestada foi obrigada a deixar os seus aposentos, para fallar ao rei, de quem conseguiu a graça dos seus salvadores, mas com a condição de que deixariam a Hespanha immediatamente.

De resto era egualmente perigoso tocar no rei, fóra das severas leis da etiqueta. Eis a este respeito um facto que difficilmente se poderia crer se não fosse historico.

Estando doente Filippe III achava-se sentado n’um fauteuil, muito junto da chaminé do fogão, aonde acabava de accender-se o lume, e aonde se havia depositado uma certa quantidade de[130] material combustivel. O calor tornou-se, em breve, intoleravel e o rei disse aos cortezãos para retirarem algumas achas; mas como o duque accendedor-mór não estava presente, e só elle tinha o direito de bulir no lume da real camara, nenhum dos assistentes ousou commetter tão grande infracção da etiqueta. Por outro lado, ninguem podia tocar no fauteuil do rei a não ser o camareiro-mór, que egualmente estava ausente, e, emfim, era prohibido sob pena de morte, tocar na sagrada pessoa de sua magestade, de que resultou deixarem os cortezãos tranquillamente assar o rei, embora lamentando-se por tão triste sorte. Quando os dois funccionarios chegaram já era tarde: o rei estava moribundo e pouco sobreviveu a este cruel supplicio!


LXXIX
O ovo de Colombo

A 15 de Março de 1493, Christovam Colombo, que vinha de fazer uma das mais admiraveis descobertas de que se honra o espirito humano, aportava a Palos, de onde tinha partido sete mezes e meio antes. Foi recebido com[131] grande enthusiasmo. Os sinos repicaram, os magistrados seguidos de todos os habitantes desceram á praia a recebel-o. O trajecto até á côrte foi um triumpho continuo; de toda a parte se corria para vêr o homem que tinha terminado, tão felizmente, uma empreza que toda a gente julgára impossivel. Toda a cidade foi ao seu encontro. Elle ia no meio dos indios que trouxera comsigo na sua entrada em Barcellona, e que conservaram o costume do seu paiz. Uma multidão de objectos desconhecidos e cuja vista dominava vivamente os espiritos eram conduzidos na vanguarda em corbeilles e bandejas descobertas. Elle avançou assim no meio d’um concurso immenso até ao palacio dos reis d’Hespanha. Fernando e Isabel esperavam-no sentados no throno. Quando elle appareceu, no meio do seu cortejo, levantaram-se. Colombo lançou-se-lhes aos pés, mas elles ordenaram-lhe que se sentasse. O illustre navegador narrou-lhes a viagem e descobertas que fez. Em seguida apresentou-lhes os indios que o acompanhavam e os objectos preciosos que havia trazido. Toda a gente se poz de joelhos, e cantou-se na propria sala do throno um cantico em acção de graças. Fernando confirmou a Colombo todos os seus privilegios, e permittiu-lhe juntar ao seu brazão, as armas da sua familia, as do reino de Castella e Leão, com os emblemas das suas dignidades e[132] das suas descobertas. Todos os seus parentes foram cumulados de provas da munificencia real.

Com tão grandes honras Christovam Colombo podia julgar-se ao abrigo dos golpes subitos da fortuna. E, comtudo, nunca um homem os sentiu d’um modo mais terrivel e mais cruel!

Iam mal passados ainda os primeiros transportes do enthusiasmo e já a maldade e a inveja haviam começado a erguer a cabeça. Procuraram por meio de perfidas insinuações entibiar o merito d’essa immortal descoberta.—«Dado o primeiro passo, o novo mundo viera a elle d’algum modo; o seu genio consistia apenas n’uma longa, mas trivial paciencia; em uma palavra, para descobrir a America, não tinha sido preciso pensar n’isso …» Tal era já a ousadia dos detractores, que faziam circular estes propositos, um dia, á meza d’um grande d’Hespanha para que fôra convidado Colombo.

O grande homem permaneceu silencioso durante toda a discussão; mas n’um dado momento e depois de haver reflectido, fez vir um ovo e apresentando-o aos nobres convivas, disse-lhes:

—«Qual de vós, senhores, se sente capaz de fazer com que este ovo se sustente ao alto, por uma das extremidades?»

O ovo começou a circular, passando de mão para mão, até que voltou a Colombo, sem que qualquer dos presentes houvesse resolvido o problema. Elle, então, tomou-o, bateu-o levemente[133] no prato e o ovo ficou em equilibrio. Cada qual exclamou:

—«Isso não era difficil!

—«Sem duvida—replicou Colombo com um sorriso ironico—comtudo era preciso pensal-o!»

—O ovo de Christovam Colombo passou a uma especie de proverbio, a que se allude a proposito d’uma coisa que se não póde fazer, e que se encontra facil, depois de feita.


LXXX
Waterloo

Napoleão, depois de ter fundado um imperio mais vasto e mais poderoso que o de Carlos Magno; depois de ter visto a Europa inteira tremer com a sua presença e submetter-se a todas as suas vontades, emprehendeu a funesta campanha da Russia, em que o exercito mais formidavel foi vencido, não pelos homens, mas pelos elementos e pelo rigor do clima.

Essa longa jornada da Russia foi realmente o termo da brilhante fortuna que collocou Napoleão, como o primeiro dos mais illustres con[134]quistadores; mas como ella relembra ao espirito uma série multipla de desastres, o seu nome, por muito funesto que pareça, não podia ser escolhido para designar uma ruina subita, um esboroamento rapido. Foi a derrota de Waterloo, que recebeu esta consagração.

Depois de se ter visto forçado a abdicar em Fontainebleau, depois de ter mudado o seu poderoso imperio pela soberania irrisoria d’uma ilha, em que apenas contava alguns milhares de subditos, Napoleão, por uma d’essas inspirações repentinas, que constituiam o caracter particular do seu genio, escapou-se á vigilancia de que era objecto, desembarcou em Cannes, e marchou sobre Pariz sem encontrar resistencia. Os Bourbons, dominados pelo terror, abandonam a França, e Napoleão entra como senhor nas Tulherias, d’onde, durante dez annos, dera a lei á Europa.

Mas este successo admiravel não tinha solidez. A coalisão da Europa não estava dissolvida, e ia reformar-se, mais potente que nunca, e a França, exangue d’homens e de recursos, fatigada d’essas guerras interminaveis, que arruinavam o commercio e a industria, não ia oppor uma resistencia sem impeto, quasi passiva, e que facilmente seria vencida.

No entretanto, Napoleão desenvolve ainda uma vez a energia, a decisão, que fulminaram[135] tantos inimigos; mas os seus officiaes parecem ter perdido o vigor d’outr’ora.

Em Waterloo, comquanto não tenha mais que quinze mil combatentes a oppor a forças duplas das suas, a habilidade das suas disposições parece a principio fazer pender a victoria para o seu lado; mas o general prussiano Blucher, que Grouchy não póde, não sabe, ou não quer deter, chega com as suas forças frescas, faz mudar a face ao combatente, e o exercito francez, o ultimo exercito de Napoleão, é esmagado.

D’esta vez a fortuna do Cezar moderno estava despedaçada para sempre, e os derradeiros exforços que pôde desenvolver ainda, serviram apenas para lançarem algum brilho sobre os ultimos momentos d’esse astro, outr’ora tão brilhante.

—A palavra Waterloo emprega-se muito para designar a ruina completa e fatal d’uma coisa, que foi grande e que, por muito, parecia ser estavel.


[136]

LXXXI
Templo de Jano

O famoso templo de Jano, que foi fundado em Roma por Numa, estava aberto durante a guerra e fechado no periodo da paz. Jano, o mais antigo rei d’Italia, ácerca do qual os mythologos teem dificuldade em se entenderem, passava por ter tido um reinado longo e tranquillo, o que o fizera considerar como o deus da paz e o tinha posto em grande honra para Numa, o rei mais sabio que teve Roma.

Durante um periodo de quasi mil annos, o templo de Jano só foi fechado oito vezes: a primeira no reinado de Numa; a segunda, no anno 519, de Roma, depois da primeira guerra punica; a terceira, no anno 723, depois da batalha d’Actium; a quarta, no anno 730, depois da guerra cantabrica; a quinta, no anno 740, apoz a pacificação da Germania; a sexta, no anno 824, por Vespasiano, depois da conquista da Judeia; a setima, no anno 834, por Domiciano, em seguida á guerra dos Dacios, e a ultima, no anno 994, por Gordio III, vencedor dos persas.

[137]

É esta a ultima menção que a historia faz d’esta cerimonia. Virgilio, no livro VII da Eneida, fez a descripção do templo de Jano e do cerimonial que presidiu á sua abertura.

—É por allusão a este templo, que se diz no estylo oratorio, e, sobretudo, em poesia—abrir o templo de Jano—para fazer guerra, começal-a, declaral-a, e—fechar o templo de Jano—para conclusão do tratado de paz, e pôr fim ás hostilidades.


LXXXII
Estatua de Nabuchodonosor

Nabuchodonosor II, cognominado o Grande, rei da Babylonia, tivera um sonho espantoso, mas de que ao despertar se não lembrava absolutamente nada. Nenhum dos magos da côrte pôde avivar-lhe a visão. O joven Daniel, então captivo na Babylonia, foi mandado vir á presença do rei e disse-lhe:

—«Eis o que viste, rei:—Havia uma estatua immensa, cuja cabeça era d’ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as côxas de bronze, as pernas de ferro e os pés de barro. De repente deslocou-se por si uma pedra da monta[138]nha, e indo ferir os pés da estatua, fel-a pedaços. Então os quatro metaes quebrados tornaram-se como o pó, que enche a athmosphera, no verão, e tendo-se levantado um grande vento, tudo levou. Mas a pedra que despedaçára a estatua tornou-se uma montanha immensa, que encheu toda a terra. Eis o teu sonho, ó rei, e agora a sua interpretação:—Tu és o rei dos reis; és tu, pois, a cabeça de ouro. Ha-de haver depois de ti um reino menor que o teu, que será de prata, depois um terceiro de bronze, que mandará em toda a terra. O quarto reino reduzirá tudo a pó como o ferro quebra tudo, mas assim como a estatua, de pés de barro, elle se dividirá por sua vez. Então Deus suscitará um reino para sempre eterno, que derribará e destruirá todos os reinos, como a pedra deslocada da montanha partiu a estatua e lançou ao vento o seu pó.»

Era a imagem dos quatro grandes imperios d’Assyria, da Persia, da Macedonia e de Roma, que, destruindo-se successivamente uns aos outros, deviam todos ser absorvidos por um imperio immenso e immortal, o de Jesus Christo n’este mundo.

—No estylo elevado faz-se muitas vezes allusão ao colosso de Nabuchodonosor, quando se quer exprimir que ha liga nas coisas, apparentemente mais puras, que os genios mais sublimes se prendem por qualquer ponto fraco aos[139] lados vulgares da humanidade, que o poder que parece mais solidamente estabelecido não tem muitas vezes senão uma base fragil, que a circumstancia mais imprevista póde fazer cahir.

Assim, por exemplo, um escriptor contemporaneo, fallando da guerra de 1809, que foi a origem de todas as desgraças de Napoleão, diz:

—«Foi na outra extremidade do continente, foi em Portugal que se fez sentir o primeiro estalido, e que se percebeu de repente que a estatua colossal tinha um pé de barro


LXXXIII
Sepulchros do Evangelho

No capitulo XXIII do Evangelho, segundo S. Matheus, Jesus Christo levanta-se contra os impostores e hypocritas, com uma força d’expressão, uma vehemencia de linguagem, que espantam, n’aquella bocca divina, habituada a só fazer ouvir palavras de mansidão e de caridade. Elle não reprehendeu nenhum vicio com tanta energia, e quando nos lembramos da sua celeste indulgencia para com a mulher adultera, admiramo-nos do anathema terrivel que dardeja aos[140] scribas e phariseus. É que nas inspirações da sua sublime natureza Jesus Christo bebia a certeza de que a hypocrisia é capaz de todos os crimes, que ella os contem todos em germen.


«Desgraça a vós! scribas e phariseus hypocritas, que purificaes o exterior da taça e do vaso, em quanto que por dentro sois cheios de rapinas e de maculas!»

«Phariseus cegos, purificae primeiro o interior da taça e do vaso, afim de que o exterior seja puro tambem!»

«Desgraça a vós! scribas e phariseus hypocritas, porque sois semelhantes a sepulchros caiados, que, por fóra parecem bellos aos homens, mas por dentro são cheios d’ossos e podridão!»


—A applicação d’esta phrase sepulchros caiados, ou a equivalente—sepulchros do Evangelho—sobresáe claramente do texto que citamos, quando se dirige ás pessoas; quanto ás coisas, caracterisa tudo quanto tem mais apparencia de brilho, que fundo e realidade.


[141]

LXXXIV
Isso que prova?

Não temos a pretensão de exprimir uma verdade muito nova, dizendo que as mathematicas não são irmãs da poesia, embora Urania seja uma das nove Musas. E se não era mathematico, era digno de sel-o, aquelle que interrogado ácerca do effeito que lhe produzia a audição d’uma opera, respondeu:

—«O mesmo que o d’um sacco cheio de pregos, agitado vigorosamente.»

O mathematico habituado a medir tudo a regua e compasso, a tirar deducções por meio de raciocinios evidentes, fica quasi sempre insensivel ás bellezas da harmonia e do sentimento.

Um geometra assistia a uma representação da Phedra, e em quanto que todos os outros espectadores derramavam lagrimas, commovidos por essa magnifica poesia, que mostra em scena

«.  .  .  .  .  . essa dor virtuosa»«De Phedra, a pezar seu, perfida, incestuosa»

[142]elle ficava frio, impassivel e contentava-se em dizer nas passagens mais patheticas:

—«Isso que prova?»

O astronomo francez Villemont, menos exclusivo, nunca deixava de dizer d’um fragmento de poesia que lhe causasse prazer:

—«É bello como uma equação!»

Era para elle o superlativo da admiração.


LXXXV
Manná

Quando os hebreus chegaram ao deserto e viram as provisões esgotadas, começaram a murmurar contra Moisés, dizendo:—«Conduzistes-nos a este logar para nos fazerdes morrer de fome?»—Moisés respondeu-lhes da parte do Senhor:—«Esta tarde comereis carne, e amanhã estareis saciados de pão.»—Com effeito, de tarde uma enorme quantidade de rôlas veio pousar sobre o campo, e no dia seguinte, pela manhã, um orvalho matutino cobria toda a planicie. Era uma especie de pó branco que tinha o gôsto da mais fina farinha misturada com mel.

[143]

Este alimento chamava-se manná. Os hebreus deviam apanhal-o em cada manhã e antes do nascimento do sol, e só em quantidade necessaria para o dia, excepto na vespera do sabbat em que deviam tambem recolhel-o para o dia seguinte. Alguns deixando-o de um para o outro dia encontravam-no corrompido.

Ora os filhos d’Israel nutriram-se d’este orvalho celeste durante os quarenta annos que viveram no deserto, até á sua entrada na terra da promissão.

—Comprehende-se que—manná—ou—é um manná—se não póde applicar senão n’um sentido metaphorico, como por exemplo:

—A verdade é um manná divino, com que se deve sustentar o espirito e o coração.

[144]


LXXXVI
Annel de Gyges

Gyges era um moço pastor da Lydia. Um dia vendo entreabrir-se a terra, desceu pela abertura, e viu, entre outras maravilhas um cavallo de bronze, completamente ôcco, com portas nas ancas. Abriu-as e encontrou um cadaver de grandeza mais que humana, tendo em um dedo um annel d’ouro. Esse annel, desde que se voltava o engaste para o lado interior da mão, tinha o poder de tornar invisiveis aquelles que o usassem. Gyges apoderou-se d’esse precioso talisman e dirigiu-se á côrte, aonde o annel foi a origem d’uma brilhante fortuna, porque o possuidor não tardou a tornar-se favorito e primeiro ministro.

—Não são raras as circumstancias em que cada qual desejaria ter no dedo o annel de Gyges. Qual é o que nunca se viu collocado n’alguma d’essas situações criticas, que fazem desejar, como vulgarmente se diz, «estar a cem braças pela terra dentro»? Por outro lado, que não daria a gente, em determinadas occasiões, para se encontrar invisivel, em certos logares, em que[145] se debatem os nossos mais caros interesses, e o nosso destino?

D’aqui a frequente applicação que se faz do annel de Gyges, em litteratura e na conversação.

O espirituoso Alphonse Karr quiz ver no annel de Gyges uma allegoria que explicou a seu modo n’estes versos:

«Quem de Gyges o annel, conta, maravilhoso«Nos casos falsos, ou na pura phantasia,«—Agora o sei—a si se engana em demasia,«Porque o frisante exemplo é grande, é numeroso.«Se sois feio e sois mau, sem genio e já d’idade«Ponde, á noite um annel, no vosso indicador,«Com um brilhante que tenha um subido valor,«E vereis como faz a sua claridade,«Sob os raios da luz, em ponto bem escolhido,«Dar-vos genio e belleza, e juventude, e encanto.«Se sois mau e imbecil, elle vos faz um santo,«Dizei quanto quereis, que já sois applaudido!»

[146]

LXXXVII
Honni soit qui mal y pense

Divisa da ordem da Jarreteira, instituida em Inglaterra em 1340 por Eduardo III. Em um baile da côrte que elle dava em honra da condessa de Salisbury, sua favorita, esta deixou cahir, dançando, uma liga, que era azul. O rei apressou-se a apanhal-a, e expoz assim a formosa condessa aos sorrisos malignos e aos maus propositos dos convidados.

—«Senhores—exclamou Eduardo IIIhonni soit qui mal y pense. Os que riem agora hão-de honrar-se um dia por usarem um objecto semelhante, porque a liga será posta em tanta honra que até os mais zombadores a procurarão com avidez!»

E no dia immediato instituia a Ordem da Jarreteira, que é uma das mais célebres da Europa.

A principal insignia consiste n’uma liga de velludo azul, que se aperta por cima do joelho esquerdo com uma fivela de ouro, sobre a qual se lê: Honni soit qui mal y pense!—Maldito seja quem d’isto mal pensar.

[147]

A rainha usa-a no braço. Só os principes soberanos ou as pessoas d’alta distincção podem ser membros da Ordem. O numero dos primeiros é illimitado, mas os outros não podem ser mais de vinte e seis.

—A famosa divisa tornou-se proverbial e emprega-se para fazer comprehender que se affronta a opinião, n’uma circumstancia sujeita a má interpretação, d’equivoca apparencia.


LXXXVIII
Mal com el-rei pelos homens e mal com os homens por el-rei

Esta phrase, que bem exprime as apertadas circumstancias em que o homem tantissimas vezes se encontra, de não poder, de modo algum, satisfazer e contentar a todos, é do grande Affonso d’Albuquerque.

Avisado elle de que el-rei D. Manoel lhe ordenava o regresso ao reino, fazendo-o substituir no governo da India por Lopo Soares, com o qual seguiam Diogo Pereira e Diogo Mendes, um como secretario e outro como capitão de Cochim, e ambos de lá enviados a Portugal sob[148] prisão pelo valente governador, por delictos graves, exclamou:

—Mal com el-rei pelos homens e mal com os homens por amor de el-rei.

A phrazeologia popular formulou o mesmo pensamento de um modo, se não tão primoroso, pelo menos egualmente expressivo, quando disse:

—Preso por ter cão, preso por não o ter.

Vê-se claramente qual o emprego da locução do grande capitão, e não é difficil nem raro que cada um tenha varias occasiões, infelizmente, de applical-a a si proprio.


LXXXIX
Bandeira da Misericordia

D’antes, por um privilegio, fundado, decerto, n’um principio caritativo, as irmandades da Misericordia eram obrigadas—e no Estatuto d’algumas se acha consignada esta obrigação—a acompanhar com a respectiva bandeira, os condemnados a pena ultima, desde o carcere ao local do supplicio.

Alli, tanto que a victima era executada cobria-a immediatamente essa bandeira, o que equi[149]valia a tomar a Misericordia conta do cadaver, a fim de prevenir ou evitar profanações no corpo, por parte dos populares, arrastados, muitas vezes, a scenas bem pouco edificantes, pela excitação de odios e de paixões violentas e desordenadas.

Quando acontecia que a corda se quebrava—no supplicio da forca—e o paciente cahia com vida, desde que a bandeira o cobrisse, estava salvo.

Nas ultimas execuções d’este genero, realisadas em Vizeu, no largo de Santa Christina, no tempo das luctas do absolutismo, aconteceu que um dos pacientes, graças a um convenio com o carrasco, cahiu com vida e foi coberto com a bandeira da Misericordia.

Uma mulher, porém, que ainda morreu ha poucos mezes, e que tinha a triste e original mania de assistir a todos os actos lugubres e a todas as scenas mais contristadoras, por um assomo de curiosidade feminina foi levantar uma ponta da bandeira. O desgraçado, que se fingia morto, imaginando que era algum dos que conhecia o convenio para a sua salvação, abriu os olhos, e tanto bastou para que a original mulher começasse a gritar que elle estava ainda vivo.

A populaça desenfreada cahiu sobre o infeliz e cevou as suas iras.

D’esta vez a bandeira não valeu.

—Do privilegio d’esse estandarte nasceu a locução de—bandeira da Misericordia,—d’um[150] grandissimo emprego, sobretudo, na conversação familiar, servindo para designar toda a intervenção caritativa para a suspensão ou allivio d’uma pena ou d’um castigo.


A critica poderá encontrar motivo para exercer-se, no delineamento e execução d’esta despretenciosa obra, mas a benevolencia será a bandeira da Misericordia, que ha-de abrandar a dureza das apreciações.

//zuphaims.com/4/4051934